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Sábado, 18 de Outubro de 2014

Ébola: notas de África

Juba (Sudão do Sul). Terça-feira de manhã.

Saboreio o meu primeiro café “de verdade” em três meses enquanto contemplo as imagens cuspidas por todas as cadeias de notícias internacionais: confirma-se o primeiro caso de Ébola fora de África: em Espanha. O meu primeiro pensamento: o paradoxo de estando eu em África, me sentir mais protegida frente a este vírus, que em casa.

Começo a ler a imprensa online: protocolos duvidosos, cheios de erros, torpe manejo dos casos de Ébola evacuados, pobre resposta governamental perante o caso confirmado. E não é que eu seja uma grande especialista no tema, mas pelo menos estudei, devido ao meu trabalho, uma e outra vez todos os protocolos, coisa que não fizeram muitos dos comentadores que estes dias parecem ter invadido todos os meios de comunicação.

Lendo as declarações da afectada, e de outros membros do pessoal sanitário, só posso recordar o anterior caso de psicose colectiva: a chamada gripe A (H1N1).

Naquela época, trabalhava no serviço de urgências de um hospital. O protocolo de actuação chegou uma semana depois de ter atendido os primeiros casos, e mais que um protocolo era uma novela de ficção científica: não é que os profissionais não quiséssemos colocar as medidas em prática, é que os recursos materiais e a infraestrutura eram incompatíveis com o seu cumprimento.

A vida resolvida e a criminalização

A pesar de não ter podido ler o protocolo posto em marcha no Hospital Carlos III/Comunidade de Madrid, posso imaginar as dificuldades da sua implementação. Devo acrescentar, senhor Francisco Javier Rodríguez, Conselheiro da Saúde de Madrid, que a que escreve tem um curso de pós-graduação, um título de especialista universitário, um diploma universitário, para além de uma Licenciatura em Medicina e uma especialidade, e não me envergonho de reconhecer que não sei colocar nem retirar a roupa de protecção. No entanto, apesar de o Sudão do Sul não ter tido nenhum caso confirmado na actual epidemia, antes de regressar assegurei-me de que os meus colegas nacionais soubessem colocar e retirar a roupa de protecção. Como bem saberá você, já que é médico (e com a vida resolvida) é melhor prevenir que remediar.

E em pleno boom informativo, e recordando-me da teoria da Doutrina do Choque, o Boletim Oficial da Comunidade de Madrid anuncia a adjudicação das obras de remodelação dos terceiro, quarto, quinto e sexto  andares do Hospital Carlos III de Madrid. Apesar dos mais de dois anos de luta para o evitar, este centro, referência nacional e internacional até agora de Doenças Tropicais, será reconvertido num centro de cuidados continuados. E não é o único menosprezo que sofreu este centro: estima-se que desde o início do processo de privatização e desmantelamento da saúde pública em Madrid, reduziu-se cerca de 12% o seu pessoal por centro.

O vírus não está controlado

Mas voltemos a África, apesar de esta ser, até ao momento, a epidemia mais grave quanto a população afectada e extensão (detectaram-se casos na Libéria, Serra Leoa, Guiné, Nigéria e República Democrática do Congo), em África mais de 20 surtos foram acontecendo periodicamente desde a sua descoberta em 1976, com mais de 1500 mortes excluindo as 2800 do surto actual. De facto, este nem sequer este é o surto “mais perigoso” quanto a virulência: a estirpe que afectou o Congo em 2002 tinha uma taxa de mortalidade de 80%, superior à estirpe actual que ronda os 50-55%.

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 Cartoon de Osama Hajjaj, Jordan

Apesar dos esforços realizados por ONG como os Médicos sem Fronteiras, que foram os que inicialmente tomaram conta da epidemia, começando as suas intervenções em Março do passado ano, o vírus parece não estar controlado. Perante a impotência, a falta de recursos, a saturação dos centros assistenciais e a falta de apoio institucional, a sua presidente internacional, Joanne Liu, dirigiu-se em três ocasiões ao conselho das Nações Unidas, fazendo um apelo desesperado à comunidade internacional. Isso resultou na criação de uma missão específica para tais fins: UN Mission for Ebola Emergency Response (UNMEER) [Missão das Nações Unidas de Resposta de Emergência ao Ébola] e o compromisso de apoio, sob a forma de tropas e recursos económicos por parte dos governos dos Estados Unidos e Inglaterra. Finalmente, o único país que parece ter reagido foi Cuba enviando um total 165 profissionais de saúde com material necessário para desenvolver o seu trabalho. Estão ainda a prepara um novo destacamento.

É paradoxal que frente à lenta resposta internacional, a resposta da indústria farmacêutica não se tenha feito esperar. Depois de uma reunião de urgência, a OMS “concede uma grande prioridade à avaliação acelerada de todas as vacinas” dando autorização à experimentação em fase humana (fase 3) de duas vacinas experimentais. É surpreendente esta celeridade já que normalmente se demora uma média de cinco anos. Por trás dessas duas vacinas encontram-se duas empresas farmacêuticas: GlaxoSmithKline e NewLink Genetics.

No entanto, a OMS no comunicado difundido, mostra a sua preocupação pelos aspectos éticos da experimentação. É importante assinalar que os Ministérios da Saúde de cada país são os responsáveis de velar pelo cumprimento do código ético quando se realizam testes em humanos, isto é, entre outros, a assinatura do consentimento informado, preservar a liberdade de escolha (sem nenhuma outra opção terapêutica), preservar a dignidade da pessoa e a implicação da comunidade. Só para citar um dado que faz suspeitar destes códigos éticos, no que respeita ao consentimento informado, documento no qual se detalham os possíveis efeitos secundários dos tratamentos, na Guiné, a taxa de alfabetização é de 29%, sendo de 18% para as mulheres (o ébola afecta mais as mulheres).

Foi agora, quando parece que a epidemia está descontrolada e que pode afectar países ocidentais, que se converteu num “objectivo” da indústria. E não apenas se produziram avanços quanto ao tratamento, incluindo o Zmapp, como, desde o início da actual crise, laboratórios argentinos e japoneses anunciaram a colocação em marcha de testes de diagnóstico rápido. No entanto, tendo em conta o preço considerado para as vacinas, soros e testes rápidos, os países africanos afectados nunca poderão optar por estes recursos.

Escassez de recursos

Enquanto tudo isto se passa, os contágios continuam nos países do oeste de África, e como bem denunciam muitas ONG, o Ébola está a produzir uma grande devastação a muitos níveis.

Os falecidos por estarem infectados pelo vírus são apenas uma pequena parte das mortes totais devidas a esta epidemia. Coloquemos como exemplo a Libéria, país com mais mortes registadas na presente epidemia: 1500 casos. Este país, um dos mais pobres do mundo, apresentava antes de Março já uns indicadores sanitários alarmantes: uma mortalidade em menores de cinco anos de 75 por cada mil crianças (em Espanha é de 5/1000), a esperança de vida é de apenas 62 anos, e dispõem de um rácio de 0,1 médicos por cada 10 mil habitantes, e de 2,7 enfermeiras por cada 10 mil habitantes. Em Espanha, e não sendo dos rácios mais altos da Europa, há 37 médicos por cada 10 mil e 51 enfermeiras por cada 10 mil. A esta escassez de recursos profissionais, há que acrescentar a falta de recursos materiais, e ainda, depois da epidemia, o medo de contrair a doença.

A população está a evitar ir aos centros de saúde com medo do contágio e os profissionais de saúde estão a fazer o mesmo, não comparecendo nos seus postos de trabalho. Estima-se que a percentagem de partos assistidos tenha descido dos já de si baixos 50 % para uns 38% desde o início da crise actual do Ébola. Isto teve como resultado, como seria de esperar, um aumento na mortalidade materno-infantil. E não podemos censurá-los, o medo é real: desde o início do surto, 382 profissionais da saúde foram contagiados (69 na Guiné; 188 na Libéria e 114 na Serra Leoa). Destes, 216 faleceram.

Os sistemas de saúde destes países estão a colapsar e o Ébola é apenas um dos muitos problemas que enfrentam. Entre outros destaca-se a malária, doença parasitária. Esta afecta 207 milhões de pessoas em todo o mundo e causa a morte de mais de 627 mil pessoas anualmente, cifras muito superiores às provocadas pelo Ébola. No entanto, esta doença, prevenível e curável, não dispõe de vacina, nem interessa aos grandes laboratórios, e o motivo é simples: é uma doença de pobres, e pelas características da sua transmissão, nunca poderá afectar em grande escala o ocidente. A vida de um branco vale muito mais que a de um negro.

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 Cartoon de Manny Francisco, Manila, Filipinas

Enquanto escrevo estas linhas, acaba de se confirmar um novo caso, desta vez, nos Estados Unidos. O meios de comunicação evocam cenários pós-apocalípticos próprios de Walking Dead, e África continua, nas costas do mundo, a sua lenta agonia.

 

Texto de Paula Minguell publicado a 14 de Outubro de 2014 na Diagonal. Tradução de Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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