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Segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

Palestina 2014

A Palestina em 2014 continua a ser Gernika em 1937, Treblinka em 1942, Varsóvia em 1943, Chuka em 1953, Alabama em 1955, My Lai em 1968, Soweto em 1976, Brixton em 1981, Srebrenica em 1995, Acteal em 1997 ou Bagdade em 2003. É, sem ser nenhuma, todas ao mesmo tempo.

 

A Palestina em 2014, no (suposto) Ano Internacional de Solidariedade com o Povo Palestiniano da ONU, continua a ser um símbolo interminável das consequências do colonialismo, do supremacismo étnico e da liquidação do diferente. Tudo com a cumplicidade próxima de autoridades políticas e militares, de empresas, de figuras do mundo da cultura ou de instituições como a União Europeia, a Generalitat [governo] da Catalunha ou diversas polícias do Estado espanhol que se treinam em Israel [1]. Mais de 130 anos depois da chegada do movimento sionista à Palestina e a 66 anos da Nakba (a limpeza étnica anterior e posterior à criação do Estado de Israel), a terra continua a ficar mais estreita a cada dia para os palestinianos.

 

Sitiados, a vida torna-se tempo. O povo palestiniano tem memória do princípio, e esquece o final. Às vezes, é uma das poucas coisas que sobram. Por exemplo, lembra-se como antes do aparecimento dos colonos sionistas não havia nenhum problema com o “Velho Yishuv”, a pequena comunidade judia que habitava no território. Recorda-se como desde décadas antes de se que estabelecesse o Estado israelita já havia tinham começado na Palestina as práticas de exclusividade étnica (um apartheid de facto) do Fundo Nacional Judeu ou do sindicato Histadrut, que impediam as pessoas não judias de aceder a determinadas terras ou esferas laborais [2]. Lembra-se como iniciou a resistência perante o colonialismo sionista e o britânico (incluindo também mulheres feministas como Salma al-Husayni ou Tarab Abdul Hadi [3], as quais se pretendeu apagar da história) e como a resistência popular continua a ser um elemento central na identidade palestiniana. Tem memória, apesar do memoricídio israelita, de como entre 418 e 531 municípios palestinianos foram apagados do mapa durante a Nakba e como cerca de 800.000 pessoas foram expulsas de suas casas. Recorda, recentemente, como há 10 anos (em julho de 2004) o Tribunal Internacional de Justiça de Haia declarou ilegal o Muro do Apartheid e solicitou o seu desmantelamento, reclamação sobre a qual a comunidade internacional tinha e tem a responsabilidade de actuar para obrigar Israel a cumprir a sentença [4].

Hoje, entre os ferros forjados pelas bombas, os palestinianos tentam calcular com um sexto sentido a distância entre o seu corpo e o nada. Os últimos massacres sobre Gaza são mais um episódio terrível a acrescentar ao que ocorre diariamente. Apesar da atenção que recebe durante estes dias a outra margem do Mediterrâneo, cabe destacar que a ocupação sionista-israelita da Palestina e a opressão sobre a sua população não judia não é um facto conjuntural, mas acontece sim de múltiplas formas todos e cada um dos dias desde há muitas décadas. Os últimos bombardeamentos são mais um capítulo de uma Nakba que nunca acaba e que se (des)vive quotidianamente entre muros (uns físicos e outros não), bantustões, campos de concentração, bloqueios, prisões com maiores e menores de idade sem garantias nem julgamentos prévios, escavadoras, estradas só para pessoas judias, checkpoints [pontos de controlol], matrimónios não mistos, cinco tipos de cartões de identidade, trincheiras, centenas de milhares de oliveiras arrancadas ou queimadas, drones [veículos aéros não tripulados], dois sistemas jurídicos, para judeus e não judeus, arames farpados ou reduções de terra e mar. Tudo isto constitui um sistema de privação perfeitamente traçado. Tudo isto supõe um sistema de apartheid, que já foi reconhecido há mais de quatro décadas por primeiros-ministros da África do Sul e do Estado israelita. Neste sentido, para citar só dois exemplos, já em 1961 o primeiro-ministro da África do Sul do apartheid, Hendrik Verwoerd, declarou: “Eu concordo com eles. Israel, como a África do Sul, é um Estado de apartheid” [5]. Depois da Guerra de Junho de 1967, David Ben-Gurion afirmou que a menos que Israel conseguisse “libertar-se dos territórios [ocupados] e da sua população árabe”, Israel converter-se-ia num Estado de apartheid [6].

Na Palestina/Israel quiçá não seja tão fácil encontrar cartazes do estilo de “Whites only[Só para brancos]”, mas o sistema é inclusivamente mais perverso e sofisticado que o do país sul-africano [7]. Uma das diferenças centrais entre a África do Sul e o Estado sionista é que no primeiro país os brancos procuravam retirar poder, controlar, discriminar, deslocar e explorar a população autóctone, mas não expulsá-la do país. Entretanto, o segundo sim tem como objectivo último estender-se pelo maior território possível com o mínimo de população palestiniana. Por outras palavras, na África do Sul os brancos necessitavam da terra, mas também do seus habitantes. O Estado de Israel, pelo contrário, necessita da terra, mas não da sua população autóctone. Para além disso, entre outros elementos, temos de acrescentar as matanças contra o povo palestiniano como as que estamos a viver nestes dias, que em numerosos âmbitos foram qualificadas de “genocidas”. A vinculação entre as autoridades israelitas e o termo “genocídio” não é casual; no passado mês de novembro o Tribunal de Crimes de Guerra de Kuala Lumpur (Malásia) declarou o Estado de Israel culpado de genocídio [8].

Segundo o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, o apartheid é um crime contra a Humanidade. Na África do Sul, a causa contra o racismo de Estado e o esbulho da população autóctone converteu-se numa causa da humanidade. Para além da instrumentalização da sua figura, Nelson Mandela chegou a ser e é uma referência para a Humanidade. Nas últimas décadas do século passado, pessoas de todo o mundo questionaram-se como agir a partir dos seus países para acabar com o apartheid. A principal resposta foi o BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) [9], uma forma de pressão para que se cumprisse a legalidade internacional e se preservassem os direitos fundamentais da população sul-africana não branca. O BDS contribuiu para que o regime do apartheid caísse. Em 2005, mais de 170 organizações palestinianas apelaram à comunidade internacional para que, seguindo o exemplo do ocurrido na África do Sul, se aplicasse o BDS a Israel. Desde então, organiza-se a partir de numerosos territórios de todo o mundo e aplica-se em diversos âmbitos: económico, institucional, sindical, cultural-desportivo e académico. A iniciativa tem êxitos a cada semana (há vários dias o principal sindicato do Reino Unido e Irlanda, Unite, aderiu ao BDS [10]) e cresce rapidamente. Estratégias similares já foram postas em prática por outra referência humana fundamental: Mahatma Gandhi. Igualmente, nos últimos anos o BDS a Israel foi apoiado pelo cientista Stephen Hawking, pelo Prémio Nobel Desmond Tutu ou pelo falecido Stéphane Hessel, que participou na redacção da Declaração Universal dos Direitos Humanos depois de ter sobrevivido ao campo nazi de Buchenwald [11]. Na actualidade, pode considerar-se que o BDS é a máxima esperança internacional para o povo palestiniano, unido à difusão de tudo o que lhe concerne e a que não sejam silenciadas as vozes dos que se opõem ao seu desaparecimento.

Por último, convém recordar as palavras do companheiro Iván Prado, director do Festiclown e porta-voz dos Palhaços em Rebeldia, que afirmou que "a Palestina é hoje, mais do que nunca, o lugar do mundo onde a humanidade mais se joga o poder continuar a considerar-se isso mesmo, Humanidade". Nestes dias, enquanto as bombas caem sobre Gaza, podemos demonstrar que continuamos a ser seres humanos.

 

Notas:

[1] “Mossos a Israel. Cursos de repressió. #TestedInCombat” (https://www.youtube.com/watch?v=IcmlclCUDiY); http://negocisocults.org/tested-in-combat, consultado a 14/07/2014.

[2] Ferran IZQUIERDO BRICHS: “Sionismo y separación étnica en Palestina durante el Mandato británico: la defensa del trabajo judío”, Scripta Nova: Revista electrónica de geografía y ciencias sociales, 10 (2006), http://www.ub.edu/geocrit/sn/sn-227.htm; e ÍD.: “Las raíces del apartheid en Palestina: La judaización del territorio durante el Mandato británico”, Scripta Nova: Revista electrónica de geografía y ciencias sociales, 11 (2007), http://www.ub.edu/geocrit/sn/sn-246.htm, consultado a 14/07/2014.

[3] Ellen L. FLEISCHMANN: “The Emergence of the Palestinian Women's Movement, 1929-39”, Journal of Palestine Studies, vol. XXIX, 3 (2000), págs. 16-32.

[4] http://boicotisrael.net/bds/1300-yonocomproapartheid-10-anos-la-haya-muro/, consultado a 14/07/2014.

[5] Citado por Andrew James CLARNO: The empire’s new walls: Sovereignty, neo-liberalism, and the production of space in post-apartheid South Africa and post-Oslo Palestine/Israel, Tese de doutoramento, Universidade de Michigan, 2009, pág. 66.

[6] Citado por Hirsh GOODMAN: Let me create a paradise, God said to himself: A Journey of Conscience from Johannesburg to Jerusalem, Cambridge (MA), Perseus Book Group, 2005, pág. 78.

[7] Ben WHITE: Israeli Apartheid: A Beginner’s Guide, Londres-Nova Iorque, 2009, págs. 1-93.

[8] “Israel, culpable de genocidio”, Rebelión, 27/11/2013, http://www.rebelion.org/noticia.php?id=177368, consultado a 14/07/2014.

[9] http://www.bdsmovement.net/, consultado a 14/07/2014.

[10] http://www.alternativenews.org/english/index.php/features/economy-of-the-occupation/8270-british-trade-union-unite-joins-bds-campaign, consultado a 14/07/2014.

[11] Luz GÓMEZ GARCÍA (ed.): BDS por Palestina: el boicot a la ocupación y el apartheid israelíes, Madrid, Editorial Ediciones del Oriente y del Mediterráneo, 2014.

Jorge Ramos Tolosa é investigador do Departamento de História Contemporânea da Universidade de Valência e especialista na Palestina e Israel.

 

@JorgeRTolosa

 

Texto de Jorge Ramos Tolosa publicado na Rebelion.Org a 16 de Julho de 2014. Tradução de Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 11:00
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