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Segunda-feira, 7 de Março de 2016

A rapina de Timor-Leste: "parece divertido"

Documentos secretos dos Arquivos Nacionais Australianos dão-nos uma visão de relance de como um dos maiores crimes do século XX foi executado e encoberto. Também nos ajudam a compreender como e por quem o mundo é governado.

Os documentos referem-se a Timor-Leste e foram escritos por diplomatas na embaixada australiana em Jacarta. Datam de novembro de 1976, menos de um ano depois do ditador indonésio, o General Suharto, ter tomado a então colónia portuguesa na ilha de Timor.

 

O terror que se seguiu tem poucos paralelos; nem mesmo Pol Pot conseguiu matar, proporcionalmente, tantos cambojanos como Suharto e os seus generais mataram em Timor-Leste. De uma população de um milhão, perto de em terço foi aniquilada.

 

Este foi o segundo holocausto da responsabilidade de Suharto. Uma década antes, em 1965, Suharto abocanhou o poder na Indonésia num banho de sangue que tirou a vida a mais de um milhão de pessoas. A CIA relatou: "Em termos de número de mortos, os massacres são uma das maiores matanças do século XX."

 

Isto foi recebido na imprensa ocidental como "um raio de luz na Ásia" (revista Time). O correspondente da BBC na África do Sul, Roland Challis, descreveu mais tarde o encobrimento dos massacres como o triunfo da cumplicidade e do silêncio dos meios de comunicação; a "linha oficial" foi a de que Suharto tinha "salvo" a Indonésia de uma sublevação comunista.

 

"Claro que as minhas fontes britânicas sabiam qual era o plano americano", disse-me ele. "Havia cadáveres a serem lavados nos relvados do consulado britânico em Surabaia, e navios de guerra britânicos escoltaram um navio cheio de tropas indonésias, para que pudessem participar nesse terrível holocausto. Só muito mais tarde é que viemos a saber que a embaixada americana estava a fornecer [a Suharto] nomes e a riscá-los da lista à medida que iam morrendo. Havia um acordo, percebe? No estabelecimento do regime de Suharto, o envolvimento do Fundo Monetário Internacional [dominado pelos EUA] e do Banco Mundial eram parte do processo. Era esse o acordo."

 

Eu entrevistei muitos dos sobreviventes de 1965, incluindo o famoso romancista indonésio Pramoedya Ananta Toer, que testemunhou um sofrimento "esquecido" no Ocidente porque Suharto era "o nosso homem". Um segundo holocausto num Timor-Leste rico em recursos, uma colónia não defendida, era quase inevitável.

 

Em 1994, eu filmei clandestinamente em Timor ocupado; encontrei uma terra de cruzes e de uma inesquecível tristeza. No meu filme, Death of a Nation [Morte de uma Nação], há uma sequência filmada a bordo de um avião australiano sobrevoando o Mar de Timor. Há uma festa a decorrer. Dois homens de fato estão a brindar com champanhe. "Este é um momento histórico único," balbucia um deles, "é mesmo verdade, singularmente histórico."

 

Era o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Austrália, Gareth Evans. O outro homem era Ali Alatas, o principal representante de Suharto. Estávamos em 1989 e eles faziam um voo simbólico para celebrar acordo pirático a que chamaram um "tratado". Isto permitiu à Austrália, à ditadura de Suharto e às empresas petrolíferas internacionais dividirem o butim dos recursos de gás e petróleo de Timor-Leste.

 

Evans Alatas Timor

Graças a Evans, na altura o Primeiro-Ministro australiano, Paul Keating -- que considerava Suharto como uma figura paternal -- e uma pandilha que geria a política externa da Austrália, esse país distinguiu-se como o único país ocidental a reconhecer formalmente a conquista genocida de Suharto. O prémio, disse Evans, foram "multimilhões" de dólares.

 

Membros desta pandilha reapareceram recentemente em documentos encontrados nos Arquivos Nacionais por duas investigadoras da Universidade Monash em Melbourne, Sara Niner e Kim McGrath. Escrevendo com a sua própria mão, oficiais responsáveis do Departamento de Negócios Estrangeiros gozam com os relatos de violações, tortura e execuções de timorenses pelas tropas indonésias. Em anotações gatafunhadas num documento que se refere a atrocidades num campo de concentração, um diplomata escreveu: "parece divertido". Outro escreveu: "parece que a população está em êxtase."

 

Referindo-se a uma relatório da resistência à Indonésia, a Fretilin, que descreve a Indonésia como um invasor "impotente", outro diplomata desdenha: "Se 'o inimigo era impotente', como afirmado, então como é que violava diariamente a população capturada? Ou o primeiro é resultado do último?"

 

Os documentos, diz Sarah Niner, são "provas vívidas da falta de empatia e de preocupação pelos abusos dos direitos humanos em Timor-Leste" no Departamento de Negócios Estrangeiros (DNE). "Os arquivos revelam que esta cultura de encobrimento está muito ligada à necessidade do DNE de reconhecer a soberania indonésia sobre Timor-Leste de forma a poder encetar negociações sobre o petróleo do Mar de Timor-Leste."

 

Isto foi uma conspiração para roubar o petróleo e o gás de Timor-Leste. Sabe-se que em telegramas diplomáticos  de agosto de 1975, o embaixador australiano em Jacarta, Richard Woolcott, escreveu para Camberra: "Parece-me que o Departamento [de Minério e Energia] pode ter interesse em alterar as margens da fronteira marítima acordada e isso pode ser melhor negociado com a Indonésia... do que com Portugal ou com Timor independente."  Woolcott revelou que tinha informações sobre os planos secretos da Indonésia de uma invasão. Ele enviou mensagem para Camberra dizendo que o governo deveria "auxiliar a opinião pública na Austrália" de forma a contrariar o "criticismo da Indonésia".

 

Em 1993, eu entrevistei C. Philip Liechty, um antigo responsável de operações da CIA na embaixada de Jacarta durante a invasão de Timor-Leste. Ele disse-me: "Suharto teve luz verde [por parte dos EUA] para fazer o que fez. Nós fornecemos-lhes tudo o que precisavam, [desde] metralhadoras M16 [a] apoio logístico militar americano ... talvez 200,000 pessoas, a maioria delas não combatentes, morreram. Quando as atrocidades começaram a aparecer nos relatórios da CIA, a forma como lidámos com isso foi encobrir enquanto fosse possível; e quando já não se conseguiam encobrir, relatar de uma forma esbatida, muito generalizada, de um modo que até ficavam sabotadas as nossas próprias fontes."

 

Eu perguntei a Liechty o que teria acontecido se alguém tivesse denunciado. "A sua carreira terminava," respondeu ele. Disse que a entrevista que me concedeu era uma forma de compensar "o quão mal eu me sinto".

 

A pandilha da embaixada australiana em Jacarta parece não sofrer dessa angústia. Um dos que fez anotações nos documentos, Cavan Hogue, disse ao jornal Sydney Morning Herald: "Parece a minha letra. Se eu fiz um comentário desses sendo um tipo cínico como sou, seria certamente num espírito de ironia e sarcasmo. Era sobre a nota de imprensa [da Fretilin] e não sobre os timorenses." Hogue afirmou que houve "atrocidades de ambos os lados".

 

Tendo eu relatado e filmado evidências de genocídio, considero este último comentário especialmente profano. A "propaganda" da Fretilin que ele desdenha estava correta. O subsequente relatório das Nações Unidas sobre Timor-Leste descreve milhares de casos de execuções sumárias e de violência contra as mulheres por parte das forças especiais Kopassus de Suharto, muitas delas com treinadas na Austrália. "Violações, escravatura sexual e violência sexual eram ferramentas usadas na campanha pensada para infligir uma profunda experiência de terror, de falta de poder e esperança aos apoiantes da independência," disse a ONU.

 

Cavan Hogue, o engraçadinho e "um tipo cínico", foi promovido a embaixador e eventualmente terá uma pensão de reforma generosa. Richard Woolcott foi nomeado chefe do Departamento de Negócios Estrangeiros em Camberra e, na reforma, tem dado bastantes palestras como um "respeitado intelectual diplomata".

 

Jornalistas acorrem à embaixada australiana em Jacarta, principalmente os que trabalham para Rupert Murdoch, que controla quase 70 por cento da imprensa da capital australiana. O correspondente de Murdoch na Indonésia era Patrick Walters, que descreveu os "feitos económicos" de Jacarta em Timor-Leste como "impressionantes", tal como o "generoso" desenvolvimento daquele território ensopado em sangue. Quanto à resistência timorense, estava "sem liderança" e derrotada. De qualquer modo, "ninguém era agora detido sem os devidos procedimentos legais".

 

Em dezembro de 1993, um dos velhos funcionários de Murdoch, Paul Kelly, na altura editor-chefe do jornal The Australian, foi nomeado pelo Ministro Evans, dos Negócios Estrangeiros, para o Instituto Austrália-Indonésia, um organismo financiado pelo governo australiano para promover os "interesses comuns" de Camberra e da ditadura de Suharto. Kelly levou um grupo de editores de jornais australianos a Jacarta para uma audiência com o assassino em massa. Existe uma fotografia deles curvando-se.

 

Timor-Leste conseguiu a sua independência em 1999 com o sangue e a coragem do seu povo. A pequena e frágil democracia foi imediatamente sujeita a uma persistente campanha de acosso por parte do governo australiano com a intenção de lhe conseguir retirar a posse legal dos proveitos do petróleo e gás marítimos. Para o conseguir, a Austrália recusou reconhecer a jurisdição do Tribunal Internacional de Justiça e a Lei do Mar e alterou unilateralmente a fronteira marítima a seu favor.

 

Em 2006, foi finalmente assinado um acordo, de estilo mafioso, em grande parte escrito pela Austrália. Pouco tempo depois, o Primeiro-Ministro Mari Alkatiri, um nacionalista que enfrentou Camberra, foi efetivamente deposto naquilo que ele apelidou de "tentativa de golpe" feita por "estrangeiros". O exército australiano, que tinha tropas de "manutenção de paz" em Timor-Leste, tinha treinado os seus oponentes.

 

Ao longo dos 17 anos de independência de Timor-Leste, o governo australiano obteve quase 5 mil milhões de dólares do petróleo e do gás - dinheiro que pertence ao seu pobre vizinho.

 

A Austrália tem sido apelidada de xerife dos Estados Unidos no Pacífico Sul. O homem com o crachá ao peito é Gareth Evans, o ministro filmado a erguer a sua taça de champanhe para brindar ao roubo dos recursos naturais de Timor-Leste. Hoje, Evans é um zeloso palestrante promotor de uma marca belicista conhecida como "RTP", ou "Responsabilidade de Proteger". Como membro da direção de um "Centro Global" com sede em Nova Iorque , ele lidera um lóbi apoiado pelos Estados Unidos que incentiva a "comunidade internacional" a atacar países onde "o Conselho de Segurança rejeita uma proposta ou não chega a acordo dentro de um tempo razoável". Um homem apto para o cargo, dirão os timorenses.

 

Texto de John Pilger publicado na sua página pessoal a 25 de fevereiro de 2016. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala.

publicado por Alexandre Leite às 19:00
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