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Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2006

Caracóis num declive (escorregadio)

Não sou muito entusiasta de fazer balanços de final de ano, mas parece-me evidente que 2005 foi claramente um ponto de viragem para o planeta. Sem dúvida, há muitos de nós que se sentem pessimistas com a situação e com o reconhecimento de que as loucas políticas económicas de um capitalismo descontrolado ameaçam a nossa própria sobrevivência enquanto espécie.

Passaram mais de 120 anos desde que o camarada de K. Marx, Frederick Engels, escreveu o seguinte: “temos a certeza que a matéria permanece eternamente a mesma, em todas as suas transformações, que nenhum dos seus atributos pode jamais perder-se, e portanto também, que com a mesma necessidade férrea com que irá exterminar na Terra a sua maior criação, a mente humana, terá de, num outro local e noutro tempo, a produzir novamente.”

 Frederick Engels, na introdução de “A Dialética da Natureza”, 1883.

 

Claro que, o facto de a vida continuar, não nos dá muito conforto no presente, e quando vejo a BBC e os media corporativos a exortar as massas a irem consumir, consumir, consumir, para que o doentio projecto capitalista não esmoreça e colapse, e quando parece que 2005 foi o ano mais quente desde que se começou a guardar registos, posso estar perdoado por me sentir algo pessimista sobre o futuro, pelo menos, pela vida tal qual a conhecemos.

 

Mas eu sou, como me lembram muitos leitores, essencialmente um indivíduo optimista, mas não me posso esquecer dos comentários de Buckminster Fuller (http://en.wikipedia.org/wiki/Buckminster_Fuller ) de que enquanto a espécie humana ainda andar por aí, temos que ver isto como um sucesso.

 

Numa outra época (ao que parece), dois escritores da era Soviética, os irmãos Strugatsky (Boris e Arkady) escreveram um soberbo romance chamado “Snail on the Slope” (“Caracol num Declive”) (http://moshkow.perm.ru/win/STRUGACKIE/engl_snail.txt ), que era sobre (apesar de disfarçadamente) uma União Soviética do futuro que colonizava um planeta algures. O planeta estava coberto por uma grande floresta que era essencialmente, um organismo único. As Autoridades estavam determinadas a “conquistar” a Floresta mesmo que isso significasse deitar tudo abaixo. O problema foi que a Floresta deu luta, obrigando os colonizadores a viver em enclaves altamente defendidos, com a Floresta a rodear todos os flancos, qualquer que fosse o tipo de tecnologia que trouxessem para lidar com a Natureza obstinada. As Autoridades perceberam que ou abandonavam o planeta ou destruíam totalmente a floresta e, claro, a ideia de serem derrotados pela Natureza não estava no seu vocabulário. Faz lembrar alguma coisa?

 

Um par de cientistas compreendeu o que passava e procuraram persuadir as Autoridades que tentar derrotar a Floresta era um exercício sem sentido, mas claro que os seus argumentos foram escutados por orelhas moucas e acabaram sendo expulsos (exilados) dos enclaves e acabaram por tentar a sua sorte vivendo na Floresta.

 

A ideia de que a Natureza é algo que tem de ser subjugado é um típico conceito Vitoriano e intimamente ligado ao aparecimento do capitalismo industrial e a ideia de que a tecnologia pode ser usada para forçar o planeta à submissão. Marx, enquanto maioritariamente um produto do seu tempo, compreendeu de alguma forma que a ideia de subjugar a Natureza não era solução, mas infelizmente passou pouco tempo a investigar a relação entre nós e o planeta. Quando veio a Revolução Russa, tirando algumas vozes isoladas, a ideia de que o socialismo necessitava de uma relação harmoniosa com a Natureza, praticamente desapareceu, pelo menos na prática.

 

É claro que não podemos perder de vista que o desenvolvimento socialista se baseava na ideia que a aplicação da ciência (socialismo científico) poderia produzir soluções para todos os nossos problemas, especialmente a pobreza e o subdesenvolvimento, e que a Natureza era uma fonte inesgotável de riquezas e acima de tudo, gratuita.

 

Até um certo ponto, sendo esse ponto as necessidades básicas, a aplicação da ciência resolve problemas básicos, com o devido enquadramento político e económico. O problema para os socialistas tem sido posto no contexto de dois sistemas políticos em competição, com a agenda e mais importante, os objectivos, a serem definidos pelo capitalismo.

 

Poderá o socialismo produzir mais que o capitalismo? Poderá oferecer a “boa vida” determinada pelo capitalismo? Claramente, não. A ideia de uma sociedade a viver em harmonia com a Natureza e uma que não tem outra hipótese a não ser continuamente expandir a produção independentemente do custo, tanto para a humanidade como para a natureza é mutuamente incompatível.

 

O socialismo produzido pela competição entre os dois sistemas tem tido essencialmente o mesmo efeito ambiental, uma tendência curiosa para uma destruição assegurada mutuamente.

 

O problema volta sempre à situação de uma economia baseada numa produção sem fim, de bens de consumo, sem olhar ao custo, um custo que até agora, nenhum sistema, quer socialista, quer capitalista se preocupou em incluir nas contas.

 

Há, no entanto, o que parece ser um paradoxo envolvido aqui, pois eu rejeito completamente a ideia que podemos extinguir os recursos, ou como nos tentaram fazer crer os neo-Malthusianos, somos pessoas demais para o planeta aguentar, sendo isto meramente para justificar os poucos que vivem de muitos, sendo que os que estão a mais são com certeza os pobres.

 

Deve ser evidente que o problema é bastante mais complexo do que o argumento simples dos “Verdes”, com toda a conversa da reciclagem, desligar as luzes e coisas assim, evitam o assunto essencial da natureza do capitalismo. Só precisamos de olhar par os argumentos dos que defendem o capitalismo, pois eles querem expansão contínua, ou como eles dizem, um aumento do PIB, e ao mesmo tempo, travar a produção de gases do efeito de estufa. Falam de “competição”, “comércio livre”, “globalização”, “forças de mercado”, uma etimologia que mascara a natureza essencial de um sistema económico que tem de expandir continuamente ou colapsar.

 

Será possível reconciliar o conflito aparente entre o desenvolvimento e a crise com que nos defrontamos, ou será tarde demais? Cada vez mais, parece que mesmo reduzindo os gases do efeito de estufa a valores muito inferiores aos propostos pelo acordo de Kyoto, o sistema complexo a que chamamos clima, chegou a um ponto em que, façamos o que fizermos, já estamos num declive escorregadio onde nos levou a ganância do capitalismo.

Eu defendo que o mundo desenvolvido está bem ciente desse facto; que passamos o ponto de não retorno, que independentemente do que fazemos, o clima está tão desestabilizado que já não há nada a fazer para alterar a situação. As forças envolvidas são tão grandes, as suas interacções tão complexas, que poderemos bem ter de esperar milhares de anos até chegar a um novo equilíbrio. A história do nosso planeta mostra que o sistema complexo a que chamamos Gaia atingirá um novo equilíbrio de forças, mas se há ou não lugar para os humanos é um assunto que não preocupa a Natureza. Gaia não é um processo consciente, não tem senão um objectivo, preservar a Vida, independentemente da forma que ela assuma.

 

Pode parecer uma visão muito pessimista da situação, mas consideremos os factos. O mundo desenvolvido tem riqueza e conhecimento para dar agora passos, de modo a minimizar a devastação que se aproxima, mas só o poderá fazer se decidir abandonar o capitalismo e construir uma nova economia baseada na modéstia e nos valores humanos fundamentais, nomeadamente a cooperação em vez da competição. Um sistema baseado, antes de mais nada, na satisfação das necessidades básicas humanas: alimentação, segurança, saúde, habitação e educação.

 

Quais são as hipóteses de isso acontecer? A julgar pela reacção até agora, não muitas. Em vez disso, guiados por aqueles que controlam as economias Ocidentais, as suas respostas são de uma busca desesperada por recursos que mantenham o nosso actual sistema de expansão ininterrupta. Chamam-lhe “segurança energética”, ou falam de competição de países como a China ou a Índia, que tendo sido forçados a tomar o mesmo caminho do mundo desenvolvido, ameaçam agora a nossa permanência como minoria privilegiada.

 

Isto soa estranho, longínquo? Não me parece. A história demonstra-me que o capitalismo exterminou centenas de milhões de pessoas nas Américas, África e Ásia, sem pestanejar. Tudo em nome do progresso ou da civilização. Os EUA e a Grã-Bretanha são directamente responsáveis pelas mortes de, pelo menos um milhão de pessoas, no Iraque, pelo uso de sanções, o nosso eufemismo para obrigar pela fome o povo iraquiano à submissão. Por isso, não nos deve surpreender que estes mesmos países não fiquem com remorsos por permitir que os pobres do planeta apodreçam desde que um número suficiente de privilegiados sobreviva intacto.

 

A arrogância é espantosa, inquietante e assustadora. Um exemplo desta arrogância foi demonstrado recentemente no programa televisivo “NewsNight” da BBC, que foi dedicado ao assunto “O fim da Idade do Petróleo” (19/12/2005). Seis “especialistas” falaram sobre a “segurança energética” e a mudança climatérica. A presunção que dominou o programa foi que nós, Ocidentais, temos uma espécie de direito divino aos recursos espalhados pelo mundo, especialmente os do Médio Oriente. Para além disso, o nível de consumo de energia Ocidental é um “assunto encerrado” (todos os carros de alta cilindrada, os grandes subúrbios, os ares condicionados eléctricos). Se há alguém que vai ter de apertar algum cinto, não somos “nós” mas “eles”.

 

O moderador do programa, Jeremy Paxman (quem mais), disse-o ao ser desfiado por uma das suas comentadoras sobre a China e as suas necessidade energéticas, quando sublinhou que o consumo de energia per capita dos chineses é apenas uma fracção do que gastam os estadunidenses, ao que Paxman respondeu “Mas eles são muitíssimo mais [os chineses]”. Ela pareceu espantada com o comentário do Paxman e não disse nada, mas claro que o que está explícito, na resposta do Paxman, sendo ele um leal apologista do império, é que “eles” são muitos. Como eu estou sempre a sublinhar, o racismo dos “Paxmans” do Mundo é uma parcela de um completo sistema de opressão e exploração. Nada mudou em 500 anos.

 

Por isso, os caracóis, mesmo escorregando e caindo para o abismo, estão determinados a agarrarem-se às suas vãs glórias a tudo o custo, a não ser que nós, cidadãos do império, acordemos e dermos um pontapé nestes “bastardos”. O nosso futuro não está com estes parasitas mas com os nossos “irmãos” do Iraque. Ok, nem mais uma viagem pela [auto-estrada] M-25 para consumir, consumir, consumir. Em todo o caso, estamos a perder tempo e quanto mais cedo acordarmos para esta realidade, mais hipóteses temos de sobreviver. Tenham um bom ano!

 

 

 

Texto traduzido por Alexandre Leite a partir de um original de William Bowles publicado em Dezembro de 2005 em http://www.williambowles.info/ini/ini-0381.html

publicado por Alexandre Leite às 17:11
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