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Quinta-feira, 21 de Dezembro de 2006

Fraude Grave

Tenho esta imagem de Karl Marx a viver algures num pequeno quarto, com o portátil nos joelhos, pesquisando informação e produzindo resmas de textos sobre o estado do capitalismo. Qualquer um consegue imaginar o que é que o camarada Karl teria feito com ferramentas como as que nós possuímos agora, mas tenho a certeza que ele seria o líder do grupo se tivermos em conta o uso que ele fez da British Library [biblioteca existente em Londres]. O seu livro “Das Kapital”, por exemplo, tem referências a mais de 450 livros, até houve alguém que fez um livro só sobre as fontes referidas nesse livro.


No entanto, numa época de explosão das comunicações onde possuímos agora as ferramentas para desafiar efectivamente o controlo da informação da cultura dominante, não deixa de ser irónico que nos encontremos privados das ferramentas tradicionais de acção política que no passado nos teriam permitido explorar mais eficazmente estas novas condições.

Há 130 anos ou mais, os “Vermelhos” da altura pensavam verdadeiramente que o capitalismo tinha os dias contados. Depois, nos meses e anos que se seguiram à revolução Bolchevique, os dias do capitalismo pareciam outra vez de pé. E mais uma vez, após o “Crash” de 1929 muitos estavam convencidos que o fim do grande deus Dinheiro, estava já ali o virar da esquina.

Azar dos azares, o poder do capital em se adaptar e sobreviver deu-lhe a aura de imutabilidade tornada ainda mais credível com o fim da União Soviética, tanto que adquiriu a aura de uma força da natureza, ilusão esta que tem sido inteligentemente explorada pelo seu exército de propagandistas.

Mas nada dura para sempre, e no esquema das coisas, os 400 anos, mais ou menos, em que o sistema existe, são apenas um pestanejar. Não é lá grande conforto para aqueles que experimentam o seu brutal reinado e para aqueles que andamos cá há algum tempo, a situação actual parece tremendamente horrenda, imparável mesmo.

Mas apesar do calamitoso estado de coisas, não deixa de ser surpreendente e até um tributo ao espírito inquebrável de combate que “la luta continua”, e nos deve dizer algo sobre a natureza da humanidade que transparece apesar da contínua propaganda em contrário.

Claro que a propaganda imperial nos fará crer que um tal optimismo é uma anormalidade, que a ganância e os interesses próprios são o impulso dominante (ou “a natureza humana”), que tendo oportunidade, todos nós esfaquearíamos as nossas avós nas costas se isso significasse um avanço nos nossos interesses pessoais.

Esta pseudo-ciência nasce de um sistema que esfaqueia pelas costas as suas avós colectivas, e quer obviamente que acreditemos que somos todos desse tipo.

O processo através do qual isto é feito não é nada tosco, apoiando-se numa construção cuidadosamente feita, composta por um número de assuntos ligados entre si que incorporam especialmente genética e psicologias de vários sabores, todos apontados para racionalizar e “explicar” como é que a “natureza humana” realmente é.

Assim, a guerra é considerada “natural” na espécie humana, tal como a violência, apesar de não ser desculpada, também é considerada “natural” e para reforçar isso, os “especialistas” apontam para um dos nossos parentes próximos, o chimpanzé como um exemplo das nossas raízes “animais”, implicando que não podemos escapar à nossa “programação genética”.

Todas estas ideias têm a sua raiz na espécie de hipótese desenvolvida durante a época Vitoriana e abrilhantada com autenticidade através do uso inteligente de teorias científicas actuais que tentam explicar a nossa “natureza”, usadas convenientemente para justificar o status quo.

Aqueles que não aceitam esta interpretação das acções e motivações humanas estão condenados a serem “marginais” de alguma forma, como, ou mesmo porquê, não é explicado, a não ser através de mais alguma psicologia “pop” ou referência a um monte de “especialistas” apenas interessados em mostrar o seu último livro ou em assegurar que continuam a receber fundos para a sua “pesquisa”.

Quando confrontados com tão grande quantidade de “especialistas”, muito poucos ousam desafiá-los (“não é a minha área”) e aqueles que o fazem enfrentam o ridículo ou pior, a invisibilidade nos media.

O jornalismo, principal veículo através do qual esta propaganda é disseminada agora é uma “profissão” quase do mesmo modo como se fosse um biólogo, adquire o selo de autenticidade através de uma licenciatura em “jornalismo” onde ele ou ela são ensinados que há um conjunto de “regras” que ditam a boa (isto é, aceitável) prática jornalística, regras estas que previsivelmente se conformam à visão do mundo da cultura dominante, ou seja, “objectiva”, “não tendenciosa”. Uma visão ainda ensinada nas universidades britânicas, e que traduzindo significa aceitar uma interpretação dos acontecimentos e das suas causas que justifique o domínio do capital.

Deste modo, nós que escrevemos da esquerda para um público alargado somos caracterizados (e infelizmente, na maioria dos casos, caracterizamo-nos a nós próprios) como “alternativos”, como se vivêssemos num universo diferente. Esta pode parecer uma observação sem importância e inconsequente mas vai mesmo ao ponto fulcral do assunto, pois reforça a ilusão de que somos NÓS que estamos desalinhados da realidade.

O mesmo processo se aplica à política, por exemplo, a “democracia”, ela própria uma palavra vaga e aberta a todo o tipo de descrições, mas dentro da cultura dominante está inextrincavelmente ligada a um termo ainda mais vago, a “democracia parlamentar”, o alegado ponto de comparação com que todos os sistemas políticos são avaliados. Tão intrincada está a ideia que nunca, jamais é questionada (excepto, claro, pelos “marginais”). Todas as notícias gerais e opiniões aceitam este ponto de comparação e estruturam a cobertura noticiosa dentro deste colete-de-forças, para desviar o essencial para a heresia.

Por mera coincidência, temos um exemplo actual nas notícias de como funciona a “democracia”, a investigação de corrupção da BAE/Sauditas. A decorrer desde 2003, envolve alegações de um “saco azul” para “pagamentos” a oficiais do governo saudita e homens de negócio totalizando milhões de dólares de forma a “ganhar” os pedidos do antiquado (quer dizer, com mais de vinte anos) avião de combate britânico, o Typhoon, alegadamente no valor de 10 mil milhões de libras [perto de 14,91 mil milhões de euros], um pedaço de sucata. Tão fraco é o avião que só pode voar se lhe forem retiradas as armas, de outro modo é muito pesado para levantar voo, quanto mais para voar. Com um pedaço de cimento no seu nariz em vez de armas, é

“[Uma] máquina desenhada para ser o avião de combate com maior superioridade aérea do Mundo… até que existam aviões de papel que o consigam superar”. [1]

O “Serious Fraud Office (SFO)” [Gabinete de Fraude Grave] estava finalmente a chegar à prova condenatória quando o governo apareceu e parou a investigação (o que eles negam, mas a intervenção governamental é tão óbvia que é ridículo negá-la). [2]

O que é importante aqui é a natureza totalmente não democrática da relação entre o braço legislativo do estado – alegadamente independente – e o governo, pois para além da independência legislativa não passar de uma farsa, talvez ainda mais importante, isto revela a total impotência do parlamento para intervir no processo. Sendo assim, os nossos chamados representantes mostram-se nada mais do que bonecos que dizem “sim” à “democracia” mesmo na sua versão parlamentar, supostamente um paradigma de virtude.

Investigações mais recentes revelam uma relação insidiosa e incestuosa entre as grandes empresas e o governo, onde o “interesse nacional”, essa frase feita que mascara a multitude de transgressões, é invocado sempre que a verdadeira natureza da nossa “democracia” é exposta como aquilo que é, uma fraude. [3]

Interessante é a forma como os grandes meios de comunicação lidam com o assunto, evitando a contradição central, a verdadeira natureza da nossa “democracia”, pois fazer isso iria minar completamente a racionalidade que mantém de pé toda esta ilusão.

O jornal londrino “Independent” de hoje (16/12/2006) dedica duas páginas ao assunto, mas para além de um deputado que é citado como tendo dito que a investigação foi “apropriada” pelo governo, não há uma única referência à natureza totalmente não democrática da forma como a investigação policial foi bruscamente parada pela intervenção governamental. De facto, grande parte da “reportagem” é de estilo repetitivo.

“A ‘Defence Export Services Organisation (DESO)’ [Serviços de Organização de Exportações da Defesa] existe para vender armas a companhias e para fazer lóbi pela exportação de armas no governo. Identifica potenciais oportunidades de venda de armas e depois trabalha com as companhias e elementos do governo para fazer avançar os contratos. A DESO não se inibe por conflitos activos, abusos dos direitos humanos, ou necessidades prementes de desenvolvimento. Nem é motivada pela segurança internacional ou pela ‘defesa’ do Reino Unido. Está meramente focada na venda de armas e nos lucros. A DESO pode ser caracterizada como um departamento de marketing de companhias de armamento, mas a sua importância vai para além disso. A sua posição e papel dentro do governo significam que os interesses absolutos da indústria do armamento são promovidos persistentemente no governo.” — página da Campanha Contra o Negócio de Armas

Não há, por exemplo, nenhuma referência ao papel da DESO (ver nota 3 em baixo) neste assunto, por si própria uma entidade que não tem de responder perante o Parlamento, apesar de empregar 500 funcionários públicos pagos pela população e cuja única função é promover a venda de armas britânicas no estrangeiro. O jornal “Independent” termina a reportagem com o título vagamente enganador “Porque é que a investigação foi parada, e o que é que dizem os críticos?”

No subtítulo “O que é que dizem os críticos” tudo o que aparece é

“Os críticos, liderados pelos Democratas Liberais, acusaram o Governo de ceder a pressões sauditas para desistir da investigação.”

No que ao “Independent” diz respeito, são estas as críticas!

O que o papel da DESO revela é que a “democracia” é algo confinada à relação íntima entre as grandes empresas e o governo, uma relação que é ilustrada pela decisão governamental de parar a investigação do SFO sobre o assunto BAE/Sauditas como esta aqui

“a continuação deste investigação iria causar graves danos à segurança do Reino Unido/Arábia Saudita, à cooperação diplomática e de espionagem.”

Tony Blair disse o seguinte sobre este tema

“O meu papel como Primeiro-Ministro é aconselhar sobre a melhor estratégia e interesse nacional do nosso país e não tenho dúvidas que foi tomada a decisão acertada.”

Podes crer Tony! Lord Goldsmith, o Procurador Geral, diz-nos que seriam causados “graves danos à nossa segurança nacional” se se permitisse que a investigação continuasse. Por isso, quebrar a lei não tem consequências, nem a relação incestuosa do governo com a indústria do armamento. O que se vê é que o “interesse nacional” é uma outra forma de dizer interesse das empresas. Como sempre, a “guerra ao terrorismo” é trazida à baila sempre que o envolvimento do governo em corrupção e mentiras é exposto.

Notas

1. Ver, ‘Eurofighter Typhoon’, e ‘Leaked safety report claims testing reveals Eurofighter to be a crash risk’, e ‘Safety alert over Eurofighter’, Evening Standard 24.05.0

2. ‘Saudi arms deal inquiry closes in on secret papers’, David Leigh, 20 de Novembro de 2006, The Guardian

3. ‘Call the Shots. DESO Campaign Briefing’ e ‘Web of state corruption dates back 40 years, Shielded by secrecy law – the system of ‘special commissions’ still flourishing today,’ The Guardian, Sexta-feira, 13 de Junho de 2003.



Texto publicado por William Bowles a 16/12/2006 em http://williambowles.info/ini/2006/1206/ini-0465.html . Traduzido por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 00:10
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1 comentário:
De Nenuco a 26 de Dezembro de 2006 às 12:53
““…DEVEMOS SABER DIFERENCIAR O ASSASSINATO DE INOCENTES DA ELIMINAÇÃO DE TERRORISTAS (…) ELIMINAR TERRORISTAS NÃO É CRIME, É A SOCIEDADE EXERCENDO O SEU DIREITO DE LEGÍTIMA DEFESA”

Claudio Téllez em www.oinsurgente.org, a propósito do período de governação de PINOCHET

O INSURGENTE É DOENTE (RAPa o Insurgente)

Três vivas a Pinochet
Cantam os manos do Insurgente
Lambem o cu ao General
Que era escroque e demente
Allende era terrorista
Dizem os burros do Insurgente
Que exultam com o Augusto fascista
A massacrar people inocente
Pinochet agiu em legítima defesa
Cantam os manos do Insurgente
Que mantêm uma vela acesa
Pelo diabo feito gente

Se vais ao Insurgente
Na merda vais chafurdar
Por isso leva água e sabão
E quilos de detergente

Gente bem demente
É só ir ao Insurgente
Nem no Júlio de Matos
Encontras people tão doente
Em Santiago do Chile
Havia um louco à solta
Era o Pinochet e o seu redil
A trazer o fascismo de volta
O general foi um mal menor
Dizem os manos liberais
Allende era pior
Só num blog de anormais

Se vais ao Insurgente
Na merda vais chafurdar
Por isso leva água e sabão
E quilos de detergente

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