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Segunda-feira, 8 de Janeiro de 2007

Sobre Marxismo e Magia

Revisão do Livro: Conversations with Durito – Stories of the Zapatistas and Neoliberalism [Conversas com Durito – Histórias dos Zapatistas e do Neoliberalismo] de Subcomandante Marcos

“Neoliberalismo é… a caótica teoria do caos económico, a estúpida exultação da estupidez social e a catastrófica orientação política da catástrofe.” — Subcomandante Marcos

Sem dúvida que haverá pessoas que consideram o título deste ensaio, pelo menos, uma contradição em si própria e em face disso eu estaria tentado a concordar com elas. No entanto, antes de todos os esquerdas de vocês começarem a disparar cartas de protesto aqui para o caríssimo, Marcos, o “líder” dos zapatistas, e no fundo o movimento zapatista, representa um grande corte com o passado, um “salto evolucionário” se preferirem. Um salto que apesar de se basear fortemente nas tradições globais do impulso revolucionário, é também um salto que tem firmes raízes nas tradições mágicas da América Latina e especialmente nas suas culturas pré-colombianas.

Claro que todos os toscos materialistas de vós podem perguntar porque é que eu decidi ligar marxismo e magia, no contexto dos zapatistas e asseguro-vos que não fui mordido por qualquer espécie de bicho satânico (ou seu equivalente de esquerda). Não, é porque de um modo estranho, ou talvez não tão estranho, os zapatistas guiam-se pela energia mágica que reside na apreciação do poder dos nossos antepassados para reavivar a força necessária para resistir aos piratas. Que outra coisa explica a sua capacidade de agregar o apoio de tantos milhões de mexicanos para a sua causa, não apenas os indígenas do México mas as massas trabalhadoras. E não apenas mexicanos mas pessoas de todo o mundo, ao terem enfrentado o poder do estado e se não o derrotaram, pelo menos combateram-no até um empate, e mais pela prosa do que pelas armas.

Don Durito, valente cavaleiro errante, ou o escaravelho, cavalgando o seu fiel cavalo Pégaso, ou a tartaruga, indo sempre avante, ou quando a necessidade obriga, procurando uma saída táctica ou será retirada? Deste modo somos apresentados ao Subcomandante Marcos através do seu alter-ego insectívoro, Durito, com um clipe endireitado a servir de lança. Estes são contos dos nossos tempos, escritos com uma linguagem que está longe de ser retirada da rotina enfraquecida e repetitiva do “camaradas”.


À primeira vista, a amálgama entre o povo Maia e Marx é uma mistura improvável, e de facto pode-se argumentar que o movimento indígena dos zapatistas tem pouca coisa em comum com aquilo que nós, no chamado mundo desenvolvido, chamamos socialismo. Baseado no canto sudeste do México, o movimento zapatista surgiu em público pela primeira vez no início da década de 1990, quando a destrutiva agenda neoliberal estava a ter resultados devastadores sobre o povo mexicano, especialmente na sua população indígena rural. A economia, em consequência do programa de “ajustamento estrutural” do FMI, estava em queda livre e com uma dívida de 70 mil milhões de dólares [perto de 53,78 mil milhões de euros], uma quantia que o governo mexicano estava determinado em que fossem os pesanos a pagar, mas não se os zapatistas tivessem alguma coisa a ver com isso.

Juntem a isto um governo corrupto liderado pelo PRI durante grande parte do século XX, um partido-estado de facto, adepto da máfia, assassinando rivais políticos com impunidade, manipulando eleições, e ficamos com uma ideia do estado das coisas e das coisas do estado no México. Mas depois aparece o Subcomandante Marcos e o movimento Zapatista, um movimento que desafia qualquer uma das definições clássicas de um movimento revolucionário. Ainda por cima ele recusa identificar-se como um líder, até refuta a noção de partido de vanguarda, à partida um dos “mandamentos” básicos dos marxistas revolucionários. Ainda pior, este é um movimento que divulga as suas ideias mais na forma de alegorias do que em análises, repleto de referências a filmes de Hollywood, livros clássicos e contemporâneos e música rock!

Os textos de que este livro é composto, cobrem um período de 1994 a 2003 e tomam a forma de uma série de cartas escritas por “El Sup”, que é como o Subcomandante é conhecido, a vários jornais diários mexicanos, sobre as discussões decorrentes (e infrutíferas) entre os zapatistas e o governo, acerca do “levantamento” feito pelos “insurgentes” (soa familiar?) na província de Chiapas e sobre o massacre da população indígena feito por tropas governamentais, polícia, paramilitares e esquadrões da morte.

As cartas, que consistem em grande parte numa série de comentários são totalmente diferentes de qualquer declaração política que estejamos habituados a ver, pelo menos feitas por um “líder” de uma qualquer organização revolucionária que conheçamos.

“Conversas” é mesmo muito mais do que a documentação de um movimento, de facto consiste grandemente numa conversa entre um escaravelho que “El Sup” encontra quando ele e os seus camaradas fazem a difícil caminhada através da selva para escapara às tropas governamentais. Engraçado e sério ao mesmo tempo, o diálogo que vai acontecendo explora o nosso actual dilema e sublinha o facto de que o afastamento do processo político não é algo que esteja confinado aos chamados países desenvolvidos.

As conversas partem de histórias populares, histórias de amor, análise de filmes, contos alegóricos da mitologia. De facto, pode-se dizer que os zapatistas são verdadeiramente cidadãos revolucionários do Planeta Terra, não apenas do México, e penso que isso explica a sua popularidade global e a razão de harmonizarem tão simpaticamente com todos nós.

O escaravelho, que tem o nome de Durito, assemelhando-se ao Don Quijote, “Don Durito de la Lacandora”, um cavaleiro que conduz uma tartaruga chamada Pegasus que transporta anúncios na sua carapaça, e que tem com “El Sup” um diálogo sobre a natureza do neoliberalismo e sobre a condição humana, rouba tabaco a “El Sup” e faz escárnio com os temas humanos. Para além disso, Durito refere-se a “El Sup” como a sua “escolta”.

Mas deixem-me que vos tire a ideia que o movimento zapatista é algum tipo de estranha aberração latina, longe disso, pois incorpora, apesar de uma forma muito pessoal (mas afinal, é esse o objectivo!), muito do que nós aprendemos (ou devíamos ter aprendido) do precedente século de luta, incluindo a importância da manutenção de um sentido de humor e uma ridicularização dos imperialistas e da sua “catastrófica orientação política da catástrofe”. Finalmente apercebemo-nos que os “nossos” líderes estão totalmente à toa, tornaram-se como o Imperador, sem roupa, nu, à nossa frente, numa “estúpida exultação da estupidez social”.

O outro aspecto importante das “Conversas” é o papel fulcral que a internet tem, não apenas na disseminação das cartas do “El Sup” pelo mundo, mas no facto de participarem muitas pessoas dos quatro cantos do mundo, chamando-nos a atenção para o movimento zapatista, incluindo as traduções e as excelentes ilustrações que o livro contém. A este respeito, penso que os zapatistas são os percursores da forma que terá uma futura revolução socialista. Mais uma festa partidária do que um “partido revolucionário de vanguarda”, talvez?

Isto explica porque é que os grandes meios de comunicação têm praticamente ignorado a sua existência, pois estes são revolucionários verdadeiramente perigosos. Perigosos porque estilhaçam todos os nossos preconceitos sobre a natureza do processo revolucionário. Estas são pessoas com as quais nos podemos divertir, que falam a nossa língua, não aquela porcaria académica que vai saindo das canetas de um milhar de teóricos confortavelmente instalados nos campus do império.

Temos muito a aprender com o “El Sup” e o seu alter-ego, “Durito” e também importante, é uma boa leitura.

Conversations with Durito – Stories of the Zapatistas and Neoliberalism [Conversas com Durito – Histórias dos Zapatistas e do Neoliberalismo] por Subcomandante Marcos e editado por Acción Zapatista Editorial Collective. Publicado pela excelente Autonomedia Press, Brooklyn, NY, 2005. Compre na Amazon (Reino Unido) e (EUA).

 

Texto da autoria de William Bowles publicado a 6 de Janeiro de 2007 em http://williambowles.info/ini/2007/0107/ini-0466.html e traduzido por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 08:07
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