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Terça-feira, 16 de Janeiro de 2007

Cuidados de Saúde Organizados a partir da Base: A Experiência Zapatista

Recursos e educação ainda são as principais lutas das comunidades zapatistas, para uma melhor saúde.

 

 

Num comunicado de 24 de Dezembro passado, o Comandante Moises, do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), convidou os povos do mundo para o primeiro “Encontro dos Povos Zapatistas com os Povos do Mundo”. Disse ele: “Estamos apenas a tentar mostrar aquilo que estamos a construir, com muitas dificuldades, mas também com muita vontade de construir um outro mundo, um no qual aqueles que comandam, comandem obedecendo.”

 

Estes encontros – que ocorreram em Oventic, Chiapas [no México], de 30 de Dezembro a 2 de Janeiro – marcaram a primeira partilha oficial de experiências entre os cinco “conselhos de bom governo” das comunidades zapatistas e visitantes de todo o mundo. Assistiram mais de 2000 pessoas, vindas de 48 países, de acordo com a contagem oficial. Os zapatistas fizeram seis sessões coordenadas para discutir autonomias e auto-governos, assuntos da mulher, educação, terra e território, arte e comunicação alternativa, assim como a saúde.

 Foto: D.R. 2006 Jesús Domínguez

Foto: D.R. 2006 Jesús Domínguez

Os cuidados de saúde nas comunidades indígenas de Chiapas, há muito que vêm sendo negligenciados pelo governo do México. A precariedade do fornecimento de medicação e do transporte, a perda do conhecimento médico tradicional, barreiras à educação sexual e os riscos da dependência de ajuda externa, foram alguns dos assuntos levantados pelos cinco conselhos de Bom Governo participantes (“Juntas de Buen Gobierno”) e pelos delegados visitantes na sessão de 31 de Dezembro, sobre saúde. As comunidades zapatistas organizaram a sua própria rede de cuidados de saúde e pediram ajuda e recursos a outras organizações solidárias do México e do mundo.

 

Célia, uma coordenadora da saúde da zona norte de Oventic, registou como os recursos do exterior impulsionaram os projectos de saúde autónomos. Construído em 1991 pelas comunidades zapatistas locais, com a ajuda de dadores estrangeiros, o hospital de Guadalupe em Oventic é o orgulho das comunidades locais. A funcionar sem nenhum apoio do governo, este hospital serve aqueles que sofrem discriminação em instituições geridas pelo estado. Karina, membro da Junta de Buen Gobierno e representante da área de saúde de Caracol 1 em La Realidad, também reconheceu o investimento internacional no sistema de saúde.

 

Em direcção à solidariedade activa

 

O sistema de saúde zapatista tem sido reconhecido nacional e internacionalmente como tendo trazido mais tratamentos e medicação aos homens, mulheres e crianças das zonas rurais do que o governo ou o sector privado. Formando “promotores de saúde” locais a partir de membros das comunidades, o esforço também foi importante para a medicina preventiva, educação para a saúde e preservação de ervanária e outras formas de medicina tradicional. A solidariedade internacional permitiu que as comunidades construíssem clínicas e comprassem equipamentos e ambulâncias. Mas a falta de seguimento por parte de algumas organizações de solidariedade também atrasou ou suspendeu projectos importantes depois de terem sido iniciados.

 Foto: D.R. 2006 Jesús Domínguez

Foto: D.R. 2006 Jesús Domínguez

Por exemplo, durante uma recente visita do nosso correspondente à comunidade zapatista na região dos desfiladeiros, um promotor local de saúde avisou do perigo de desenvolvimento de uma dependência de assistência estrangeira. Falando com “O Outro Jornalismo”, o promotor de saúde comentou que as modernas instalações requerem investimento contínuo, de forma a estarem operacionais. É um assunto que vai mais além do que uma única injecção de fundos. Este é o caso de uma pequena clínica em Cañadas de Ocosingo. Uma placa de comemoração de ajuda de dadores está pendurada numa parede da pequena clínica com a tinta a desaparecer; a farmácia está vazia. Esta comunidade, bem como outras nesta zona, não conseguem explorar totalmente estas clínicas sem electricidade para frigoríficos, necessários para vacinas voláteis. Este é um problema que as organizações estrangeiras de ajuda não consegue resolver por elas próprias.

 

As três ambulâncias estacionadas junto à clínica de Guadalupe são uma imagem das disparidades dentro das comunidades zapatistas. Apesar das ambulâncias estarem estacionadas em Oventic, muitas vezes não conseguem chegar a áreas mais longínquas. Este problema foi graficamente ilustrado durante a minha estada na comunidade acima mencionada. Já a noite ia longa e uma mulher grávida de sete meses chegou à comunidade para aguardar transporte até ao hospital autónomo de Caracol de La Garucha, para ser vista por um médico por causa de dores abdominais que estava a sentir. No entanto, a única ambulância para os quatro municípios situados a 5 horas de La Garucha não chegava. Nesta situação, foi o conhecimento curativo do promotor de saúde local que, usando um analgésico natural, permitiu à paciente regressar a casa nesse dia. Karina, relembra à audiência a falha crítica de transporte médico em muitos dos municípios. “Nós tivemos de transportar os nossos doentes durante dias. Eles não podiam receber cuidados médicos. Foi por isto que muitos dos nossos avós morreram, tentando chegar a um médico nas cidades, longe das nossas comunidades. Esta experiência ensinou-nos a educarmo-nos e a organizarmo-nos.”

 Foto: D.R. 2006 Jesús Domínguez

Foto: D.R. 2006 Jesús Domínguez

É precisamente esse conhecimento tradicional que é tão importante para as comunidades. Dirigindo-se aos povos do mundo reunidos no encontro de quatro dias em Oventic, Roel, de Caracol, situada em La Realidad, promoveu o conhecimento médico tradicional como um meio para as comunidades indígenas recuperarem o controlo dos seus cuidados de saúde. Ele lembrou que essa grande sabedoria não é aprendida nas escolas nem em livros mas “é uma herança que nos foi deixada pelos nossos avós…”. A recuperação de um tal conhecimento é um aspecto central da agenda emergente da Outra Saúde. O uso de plantas e práticas tradicionais evita o desenvolvimento de uma cultura de dependência do estado ou de clínicas privadas, que discriminam e marginalizam as comunidades indígenas pobres.

 

Num momento de solidariedade com os povos indígenas de Chiapas, Kamahus, uma porta-voz das Primeiras Nações do Canadá, relatou a sua própria história de luta pela manutenção dos métodos tradicionais de cura. Exemplificou com a sua experiência em práticas antigas de partos. Em palavras suas, “o genocídio da conquista da América do Norte tem uma história semelhante de perda do conhecimento das nossas avós na área dos partos. Gerações de ausência de parteiras tradicionais, deixaram-na sozinha sem alguém que a pudesse acompanhar no nascimento do seu filho, num límpido rio nas montanhas.” A história que ela contou tinha semelhanças com a experiência das mulheres indígenas de Chiapas.

 

 

Diálogo e Participação são essenciais à Saúde

 

Representantes das cinco regiões zapatistas assinalaram a importância de manter um debate continuado e aberto sobre os assuntos mais simples e o mais complexos da saúde sexual. A educação para a saúde, particularmente a saúde sexual, foi um tópico com particular interesse de muitos dos participantes nacionais e internacionais presentes. As discussões que aconteceram, entre participante indígenas e não-indígenas, demonstraram que as ideias flúem para dentro e para fora do território zapatista, e influenciam tais assuntos como a educação sexual e os direitos das mulheres em controlarem o seu corpo.

  

Foto: D.R. 2006 Jesús Domínguez

Uma das primeiras questões discutidas foi o aborto. A resposta do painel de representantes zapatistas foi claramente cautelosa. De acordo com um representante dos zapatistas que estava no painel, a prática de aborto não é apoiada nem condenada no território zapatista, mas acontece em situações que são melhor evitadas com medidas preventivas de educação. “As mulheres não o fazem [o aborto], nem o procuram. Para além disso, é mais uma questão devida às circunstâncias que resultam em abortos espontâneos.” Uma declaração deste tipo deixa pouco clara a política oficial zapatista sobre o aborto. (A Lei da Mulher Zapatista, publicada em 1994, diz: “As mulheres têm direito a decidir o número de filhos que têm e que cuidam,” mas não há uma menção explícita ao direito de abortar.) Talvez a resposta dada tenha resultado de uma má interpretação da pergunta, ou talvez tenha sido um esforço diplomático para evitar perturbar uma relação de poder de género. Os sentimentos expressos pelo painel revelam uma plataforma progressista sobre a saúde. No entanto, torna-se claro que alguns dos avanços na saúde da mulher são definidos por um sistema patriarcal, herdado da conquista espanhola. Muitos conferencistas concordaram que a educação e a participação de mulheres neste assunto são essenciais à saúde geral da comunidade.

 

A partir da sua cela, no estabelecimento prisional de Santiaguito, o Dr. Guillermo Selvas Pineda, detido em Maio passado na cidade mexicana de Atenco quando procurava uma ambulância para o estudante ferido Alexis Benhumea (1984-2006), enviou uma missiva de felicitações pelo crescente interesse na saúde. Sendo um dos primeiros médicos a trabalhar com insurgentes nas montanhas, ele conhece o sofrimento que tem atormentado as comunidades zapatistas. Ele convidou outros médicos a juntarem-se ao crescente número de pessoas da região, e de fora dela, que estão a trabalhar para construir um serviço de saúde autónomo, um dos principais objectivos políticos do movimento zapatista.

 

 

Texto da autoria de Ginna Villarreal, escrito para a Narco News, publicado a 11 de Janeiro de 2007 em http://narconews.com/Issue44/article2502.html . Traduzido por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 22:44
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