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Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2006

Por que sou um socialista

Não está propriamente na moda, hoje em dia, intitular-se socialista (a não ser que se viva na América do Sul). Estamos constantemente a ser lembrados que essa ideia foi totalmente desacreditada pelo colapso do “Império” Soviético. Morreu a política, o capital triunfa, lembrando a abominável frase “A História morreu”. Na verdade, muita gente está morta, precisamente porque permitimos que aqueles que promulgaram tais visões venenosas capturassem todo o espaço político.

 

Mesmo alguns na “esquerda” vendem a ideia de que as velhas definições de esquerda e direita estão obsoletas (ver “Políticas do Medo: para além da Esquerda e da Direita” de Frank Furedi. Parece que esse “guru” do, ainda vivo, Partido Comunista Revolucionário viu a “luz”. Ver também um outro renegado da esquerda britânica, Mick Hume, editor da “Sp!ked” www.spiked-online.com, um jornal digital para o qual também escreve Furedi, não admira.)

 

Então o que é que faz com que tantos antigos socialistas/marxistas abandonem aquilo que, em muitos casos, foi uma vida dedicada ao socialismo? E porque é que eu escapei? Serei só um dinossauro, recusando-me a aceitar a “realidade” da morte do socialismo, sendo substituído pelo que parece ser um monte de tonta verborreia, pelo menos de acordo com a minha leitura de Furedi e seus colegas? Qualquer ideia de que o capitalismo tem de ser removido, desapareceu até das discussões teóricas. O discurso é feito num vácuo, sem os conceitos de classe, raça e poder, o que quer que eles sejam. O debate é sobre umas vagas ideias dos “valores” e da perda de ideiais.

 

Será que estas características nunca estiveram embutidas no espírito do socialismo, logo desde o início? No fundo, intelectualizar sobre o socialismo é muito bom mas o que realmente o puxa mais e em primeiro lugar é a paixão, uma paixão pela justiça, pela humanidade, a noção de que o capitalismo é um sistema inumano e profundamente injusto, de que apesar das derrotas que nós, socialistas, sofremos, não altera de nenhuma forma, a realidade de um sistema que anda há 500 anos a lixar o planeta e conduziu-nos à presente situação de estarmos na iminência do caos e destruição totais.

 

Derrotados, não apenas na mente, mas também no espírito, parece-me que Furedi, Hume e outros que tais, revelam uma visão da humanidade profundamente “ahistórica” e um cinismo disfarçado numa habilidosa sintaxe. Verdadeiramente “Para além da Esquerda e da Direita”! Para além da compreensão do que motiva as pessoas. Divorciados da realidade de ter que lutar para sobreviver, que é, no fundo, a sorte de 80% da população mundial. Aqueles de nós que vivem na parte rica do mundo e nos intitulamos socialistas tentamos encontrar razões para termos sido desapontados e abandonados aos nossos destinos.

 

Acho que pior ainda é o facto de, em vez de respirarem fundo, dar um passo atrás e rever os acontecimentos, eles andam à procura de “culpados” e ao fazer isso, abandonam a análise. De facto, abandonam virtualmente tudo o que alegadamente foi a base da sua filosofia! Lá se foi o empenhamento.

 

Tudo bem, mas o que é que me torna diferente? Não sou nenhum gigante intelectual, não tenho nenhum acesso especial a informações negadas a estes antigos revolucionários. Será só uma recusa cega em aceitar a realidade? Ao qual eu respondo, basta olharem a vossa volta rapazes; mas por entre tanto pessimismo e derrotismo, as pessoas continuam a lutar e a dar pequenos passos em frente. Só pela primeira grande experiência de construção de uma alternativa ao capitalismo ter falhado, isso não altera a realidade do capitalismo. Se revelou alguma coisa, foi a natureza fundamentalmente falida do capitalismo, de formas que há uns anos atrás eram inimagináveis. Reconhecidamente, o que encontramos é um verdadeiro horror, já que não tem travões no seu comportamento, mas se calhar isso é uma lição que teremos de reaprender.

 

Suponho que a primeira questão a fazer é onde é que a primeira experiência socialista falhou e que lições podemos tirar de tal análise? Não é uma pergunta fácil de responder, tem vários níveis interligados com os quais temos de lidar.

 

Em termos gerais, os assuntos a lidar derivam dos seguintes pontos:

 

1 - Desenvolvimento (ou falta dele)

2 - Oposição do mundo capitalista

3 - A natureza da democracia capitalista

4 - O “progresso”

 

Independentemente do que Marx disse sobre quais os locais onde ele pensou haver as condições óptimas para o socialismo existir, aquilo a que eu chamo “socialismo primitivo” ocorreu nos sítios menos prováveis, em países que eram, digamos, atrasados não apenas em desenvolvimento material mas também em educação e naquilo que, hoje em dia, chamamos a sociedade civil.

 

Relacionado com isto, são os modelos usados para o “desenvolvimento”, nomeadamente, o capitalismo industrial do tipo Americano. Mais especificamente do género que Henry Ford e companhia estavam a criar. Isto é, produção em larga escala, em série, numa linha de montagem. Um método apropriado para o modo capitalista, onde interessava menos, aquilo que era produzido do que o facto de ser possível vendê-lo no “mercado”, determinado principalmente pelos produtores e não pelos consumidores ou mesmo pelas necessidades básicas.

 

Até um certo ponto, um sistema assim, funciona bem para produtos primários como o aço, o cimento, o vidro e acima destes, a electricidade, sem a qual não é possível nenhum desenvolvimento, mas para além destas bases, o conceito da produção de bens de consumo começa a entrar em conflito com aquilo que eu vejo como ideias fundamentais sobre a produção socialista, nomeadamente a sustentabilidade, um trabalho à escala do homem e centrado nele, e a ideia de que desenvolvimento tem a ver com desenvolver as potencialidades humanas para a auto-realização.

 

E é aqui que entra em jogo o segundo problema; a oposição do mundo capitalista, que desde o início esteve determinado a que o socialismo, independentemente da forma que tomasse, falharia e mais importante de tudo, que a ideia fosse vista como um falhanço.

 

Por isso, desde o dia um, a primeira tentativa de construção do socialismo, a União Soviética, foi encostada à parede. Para alem do vasto leque de problemas internos e contradições, teve de lidar com um conjunto poderoso de inimigos externos determinados a fazê-lo falhar.

 

O terceiro e talvez maior problema foi, e ainda é, o assunto da democracia, especificamente, a democracia socialista, algo que eu vejo como bastante distinto da ideia que nos é vendida no ocidente.

 

Apesar disso, o maior falhanço do projecto socialista tem sido no tema dos direitos democráticos e mesmo que a versão capitalista seja à base de fumos e espelhos, o facto é que é a percepção das pessoas que conta. E eu penso que este assunto dos direitos e liberdades está intimamente ligado às condições materiais da vida. Noutras palavras, mesmo que o socialismo não consiga oferecer a abundância do “lixo” consumido que o capitalismo considera tão vital para medir a qualidade de vida, se as pessoas a viver numa sociedade socialista souberem que as decisões estão a ser tomadas por elas, sobre como os recursos são usados, e os efeitos de tais decisões, então estou certo que o assunto da falta de “lixo” diminui de importância como um modo de medir o chamado bem estar.

 

E, para alem disso, parece-me que estes dois assuntos estão muito ligados ao assunto do ambiente e aqui parece-me que o papel da história e das ligações ao nosso passado, tem uma importância significativa, trazido pelo interesse de muitos, no mundo desenvolvido, no nosso passado mas tratado como “herança”.

 

Todos estes aspectos interagem entre eles de um modo bastante complexo. Vejamos, por exemplo, a produção industrial de larga escala, centralizada, no tipo de controlo central estatal que a maioria dos estados socialistas construiu, necessita de uma disciplina hierárquica, de cima para baixo, bem ajustada a um partido único que é ao mesmo tempo o estado, mas na realidade, não reflectindo uma sociedade que advoga a igualdade e, ainda por cima, que baniu as horas extraordinárias e o trabalho “à peça”, por empreitada, ambos elementos essenciais da produção industrial, se tem a intenção de produzir bens ao mais baixo custo. O Trabalho como uma mercadoria encaixa bem em tal sistema, mas não se virmos o Trabalho, mesmo que em teoria, como o dono dos meios de produção.

 

O que estou a tentar fazer aqui, provavelmente de uma forma bastante incompleta, é construir uma imagem do que me parecem ser os elementos essenciais necessários para oferecer, à população exausta e cínica do mundo capitalista, uma alternativa viável.

 

É obvio que aquilo a que o mundo capitalista chama consumismo, atingiu o seu limite:

 

O consumo sem fim e a dívida que o acompanha, em conjunto com a produção industrial desenfreada e os seus efeitos devastadores no planeta, deixou as pessoas infelizes e insatisfeitas, desesperadamente à procura de algo em que acreditar que não envolva consumir.

 

A perda de sentimento de pertença e do nosso lugar na história e o esquema das coisas que põe as pessoas a reverem-se no passado, mas mesmo este, é um passado construído pelos interesses corporativos;

 

A recusa de um envolvimento político como resultado do ataque das corporações, do estado securitário, não apenas a nós mas a todo o planeta;

 

A evidência da corrupção dos negócios e do estado, funcionando de forma não controlada e de cabeça perdida.

 

Vistos como um todo, identificam-se como elementos essenciais para qualquer projecto socialista para o séc. XXI:

 

  1. Temos de terminar com este consumo sem fim. Não está apenas a destruir o planeta mas também esta a destruir a humanidade. De facto, muita gente das sociedades capitalistas expressa uma profunda tristeza e desconforto sobre a vida, por se verem apanhados naquilo que é o vício do consumo.

 

  1. Restaurar o equilíbrio entre a humanidade e o planeta. Cada vez mais, os efeitos do infinito consumo são visíveis tanto a nível local como global. O desafio, para os socialistas é estabelecer a ligação fundamenta entre o consumo capitalista e as mudanças climatéricas.

 

  1. Justiça para os pobres do planeta. Isto significa não apenas romper a relação entre os 2 elementos mencionados acima e os pobres do planeta, mas também romper com o racismo e o sexismo sendo elementos essenciais no processo.

 

  1. Desmantelar as corporações gigantes - ver pontos 1 a 3. Gigantismo este que beneficia uns poucos, é uma séria doença que afecta cada um de nós e tem impactos negativos na vida a todos os níveis.

 

  1. Reinventar a politica do povo - mais ninguém o fará. A Democracia é tomar controlo das nossas vidas e não, entregá-lo a outra pessoa. Votar a cada 5 anos NAO é democracia, é uma imitação. Também é claro que o gigantismo é uma doença não apenas dos negócios mas também dos governos e dos negócios dos estados. O estado corporativo, securitário, do “big brother”, vigilância 24/24, bases de dados e um completo aparelho de controlo. O “grande negócio” e o “grande irmão” andam de mãos dadas.

 

  1. Recuperar o nosso passado e ao fazê-lo, retomar a nossa herança comum. Isto é absolutamente vital, para percebermos de onde vimos e como chegámos até aqui e perceber o nosso problema actual e dar passos na sua resolução.

 

Só aflorei ligeiramente estas ideias e penso que têm de ser mais exploradas, mas entendo que as sementes estão cá presentes. Deformadas e desfocadas e talvez sem direcção, elas no entanto exprimem-se de formas muito concretas e especialmente na forma como o estado respondeu a elas.

 

Assim temos Blair e a sua obsessão pelo “comportamento anti-social”; as tentativas de reinventar o “patriotismo”; a óbvia machadada nas nossas liberdades que não é apenas por causa da “guerra ao terrorismo” mas para lidar com alguma futura resistência à actual ordem; a obsessão de reinventar a historia; tentativas de canalizar para dentro as profundas preocupações das pessoas com o ambiente, em vez de para fora, para a natureza da produção capitalista. Penso que estas são as expressões mais óbvias de uma sociedade que chegou a um beco sem saída. Não como previam os socialistas do sec.XX, um colapso económico, mas um colapso de confiança, sem o qual nenhum estado se consegue suster.

 

E não é preciso ir muito longe. Basta ver como a União Soviética e os estados da Europa de Leste chegaram ao fim. A máquina do estado fez as malas e foi embora, quase literalmente. Não houve praticamente nenhuma resistência apesar do estado ter os meios técnicos para se defender. Como ninguém acreditava nele, o estado foi incapaz de se aguentar e caiu como um castelo de cartas.

 

Esta observação é, penso eu, da maior importância para nós socialistas; se a aplicarmos à actual situação, vemos que até sermos capazes de oferecer uma alternativa (na União Soviética e Europa de Leste pensaram que era o capitalismo), estamos presos a este actual sistema.

 

 

 

Traduzido por Alexandre Leite, a partir de um texto de William Bowles publicado a 25 de Janeiro de 2006 em http://www.williambowles.info/ini/2006/0106/ini-0388.html

publicado por Alexandre Leite às 17:26
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