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Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007

Laços que agarram

No mínimo, grupos como o Medialens oferecem um valioso serviço a um público que de outra forma permaneceria lamentavelmente mal informado, assinalando as gritantes parcialidades, e outras não tão gritantes, dos meios de comunicação corporativos e estatais na cobertura noticiosa de certos acontecimentos. Em meados dos anos 80 eu estive envolvido na “Extra!”, uma publicação da “Fairness and Accuracy in Reporting” (FAIR), um projecto sedeado em Nova Iorque de análise dos media, que tal como o Medialens também desempenha um papel valioso na desmontagem do enviesamento intrínseco na cobertura de alguns acontecimentos importantes.

A questão que se levanta no entanto, é se convencer as pessoas a escrever a grupos como a BBC provoca algum efeito na sua cobertura noticiosa. A julgar pelos acontecimentos dos últimos anos, é duvidoso que tenha tido algum efeito, para além do raro e essencialmente insignificante desmentido, que de qualquer forma desaparece na ‘lixeira’, e o reconhecimento de um ‘erro’ é tão restrito que mina qualquer possível ganho obtido.

Isto não quer dizer que devemos parar de dar atenção à BBC e ao resto dos grandes meios de comunicação, analisando a forma de actuação dos media e sob que interesses operam e quais representam.

E de facto, por vezes, como no caso do furor levantado aquando do uso pela BBC das estatísticas produzidas pela Iraq Body Count (IBC) [Contagem de Mortos no Iraque], revelou-se que absolutamente nada mudou, com a BBC a montar uma caça às bruxas contra a Medialens expondo uma natureza adulterada das conclusões da IBC e como em vez disso, elas foram usadas para reforçar a justificação para a invasão e ocupação.

E não precisamos de procurar mais se observarmos a actual campanha de propaganda a ser levada a cabo pela BBC sobre a afirmação não substanciada de que o Irão está por trás dos ataques às forças de ocupação no Iraque. Afirmação que tem sido refutada pelos factos, mas escusam de procurar um reconhecimento disto na cobertura noticiosa, excepto em raras menções que são praticamente invisíveis quando comparadas com o grosso da cobertura noticiosa.

Os media são tão importantes para a manutenção do status quo, que não vão ser uns amuos e umas birras que vão fazer a mudança fundamental. Isto é um facto que tem de ser percebido, com o risco de sobre-estimarmos o nosso impacto ou a importância de desafiar o seu controlo hegemónico sobre a produção das notícias.

O objectivo declarado da FAIR, pelo menos quando eu estava lá envolvido, era focar profissionais dos media num esforço para os fazer reconhecer o papel que eles assumiam, pois sem a sua cooperação activa ou passiva no processo, seria virtualmente impossível aos grandes meios de comunicação actuarem como actuam.

Mais fácil de dizer do que de fazer. Os jornalistas desempenham um papel vital na manutenção da ordem dominante e pela sua participação, os principais actores, os editores, sub-editores e principais escribas são bem reembolsados e não apenas em termos materiais.

Elevando o jornalista ao nível de uma ‘celebridade’ de facto e inflacionando a importância das ‘notícias’, por exemplo com canais de ‘notícias’ 24 horas que dizem continuamente o mesmo vezes sem conta, o nosso entendimento do mundo fica reduzido a nada mais do que uma série de clichés mono-dimensionais.

Devia ser óbvio que o problema é bastante mais complexo e instalado do que meramente expor as mentiras e a desinformação disseminadas pelos meios de comunicação dominantes. A causa profunda está no sistema de ‘educação’ que produz a ‘raison-d’etre’ ideológica e num sistema económico que agarra os jornalistas ‘profissionais’ ao sistema, com mais força do que quaisquer correntes.

Deste modo, qualquer análise do papel dos grandes meios de comunicação tem de ser feita no contexto de uma análise mais alargada e profunda do capitalismo, pois apesar da sofisticação e extensão do papel dos media na manutenção do status quo é inquestionavelmente um tema escaldante. Não é um fenómeno novo, já vem desde o início da existência da palavra impressa, há uns quinhentos anos atrás.

A emergência de media independentes baseados na internet, um evento cujo efeito, na minha opinião, tem sido sobrestimado, ainda é bem-vindo mas a não ser que se torne um componente integrante de uma análise da forma como o capitalismo mantém o seu controlo e, ainda mais importante, parte de uma alternativa viável à ordem estabelecida, continuaremos a permanecer marginalizados e fragmentados.

Não quero dizer com isto que os grandes meios de comunicação não estejam cientes do nosso potencial para meter a raposa no galinheiro, basta verem como os media corporativos foram finalmente forçados a reconhecer o poder do ‘Blog’ e, depois de o reconhecer, como tentaram produzir um jornalismo ‘baseado no cidadão’, mas reparem como foi coarctado e de facto absorvido na pletora de publicações dos grandes media.

Virtualmente, todos os grandes canais de ‘notícias’ têm o seu ‘diga de sua justiça’ mas todos são moderados pelo responsável, isto é, controlados por um departamento editorial central e de qualquer forma é, mais uma vez, por comparação, uma gota no oceano. O que isso acaba por fazer de forma eficaz, é criar a ilusão de uma ‘participação do cidadão’.

Não há maneira de podermos competir taco a taco com as estruturas hegemónicas como a BBC ou organizações corporativas de notícias como a News Corp de Murdoch, e não há mesmo hipóteses de eles virem a mudar, apesar de todos os nossos esforços, simplesmente não está no espírito do monstro. Assim sendo, eu entendo que o melhor rumo é reclamar um boicote aos grandes meios de comunicação. Deixar de ver as notícias da BBC ou comprar jornais, pois uma coisa que a internet criou foi um conjunto de coberturas noticiosas independentes e análises, fontes que estão cada vez mais sofisticadas e de confiança, oferecendo uma vasto leque de interpretações dos acontecimentos sem comprometer princípios fundamentais de honestidade e integridade.

Alicerçando esta visão está a importância de um pensamento crítico que se baseia numa completa informação sobre os acontecimentos. Sem a capacidade de pensar de forma crítica sobre os acontecimentos, tornamo-nos consumidores passivos, incapazes de avaliar os eventos e as suas causas. A emergência de meios de comunicação independentes sedeados na internet deveria, pelo menos em teoria, encorajar e desenvolver o pensamento crítico. Escarnecer o inimigo é muito bom mas para existir uma confiança na nossa capacidade de desenvolver uma alternativa é preciso que haja uma verdadeira compreensão sobre o que se passa no mundo e porquê.

Deste ponto de vista seria útil saber até que ponto estão as pessoas realmente a virar-se para os media independentes. Observações empíricas dizem-nos que um crescente número de pessoas estão a virar as costas aos grandes meios de comunicação e a buscarem as suas notícias e informação na internet, mas quantos são eles e que tipo de notícias e informações, e por outro lado, de que forma isso está a afectar a sua visão do mundo e as decisões que eles tomam, por exemplo, num processo político?

Pelo que sei, não têm sido feitos estudo sobre este assunto. A minha prospecção, totalmente não científica, revela que os leitores mundiais de meios de comunicação independentes são muitos milhões, talvez mesmo dezenas de milhões. A minha própria pagina na internet, por exemplo, tem quase um milhão de páginas vistas por mês, mas isso não me diz nada sobre quantas pessoas isso representa nem me diz nada sobre o impacto que tem nas suas opiniões ou, ainda mais importante, nos seus actos.

No Reino Unido, estudos recentes indicam que a desconfiança no governo está a colocar as pessoas do lado do Partido Conservador. A minha suspeita é que isso não se baseia num apoio aos conservadores mas mais numa rejeição do governo trabalhista e das suas políticas. Por outras palavras, é mais uma reacção negativa do que uma escolha de uma alternativa positiva, porque simplesmente ela não existe. Isto verificou-se nas recentes eleições nos EUA e é reforçado pelo baixo nível de participação dos eleitores em ambos os países.

O que isto também revela é a rejeição do processo político em si mesmo, e paradoxalmente, isto também se reflecte no modo como os media independentes estão organizados: fragmentados e desconectados, sem nenhuma tema ou visão geral, revelando que a própria esquerda está fragmentada e desorganizada, espelhando que ainda está a pensar e a agir como o fazia no século passado.

A questão premente para nós é como ultrapassar este estado das coisas, mantendo uma diversidade de visões e opiniões. A última coisa que eu gostaria de ver é um regresso aos velhos métodos dogmáticos, onde só havia uma forma correcta de fazer as coisas.

Com alento, a situação actual é um período formativo durante o qual estas questões estão a ser colocadas e do qual irá emergir um novo caminho, e há sinais de isto estar a acontecer, pelo menos no chamado mundo em vias de desenvolvimento. Refiro-me especificamente a acontecimentos na América Latina. A questão para nós é saber se estes acontecimentos são relevantes para a nossa situação. Eles certamente nos dão esperanças de que a luta continua, de um modo inovador e até agora com formas bastante eficientes.

Podemos aprender com eles? Estamos dispostos a isso? O meu eterno optimismo diz-me que sim, especialmente a emergência daquilo a que eu chamo auto-organização, ela própria uma expressão de uma crescente sofisticação política que promete a criação de formações políticas completamente novas mas firmemente enraizadas nas nossas tradições e naquilo que espero que tenhamos aprendido com os erros do passado.

Esta visão é reforçada pelos crescente ataques venenosos feitos nos media capitalistas a estes desenvolvimentos, pois mesmo que não estejamos a ser influenciados por esses movimentos, os capitalistas estão certamente! Eles também contradizem o mito tantas vezes repetido de que o socialismo está morto e enterrado. Eu prefiro ver o período desde o início da década de 1990 como um tratar as feridas e reagrupar para as lutas que se seguem.

Será isto apenas um desejo meu? Eu penso que não, e a história mostra que a luta nunca termina. Pode sofrer derrotas e revés e mesmo períodos de mortífera quietude mas no tempo histórico, reavivam e ganham força.

O actual período é especialmente crítico pois estamos confrontados com uma situação única, a mudança climática, que ela própria é directamente o resultado de uma ordem económica capitalista e há sinais de que a ligação entre as duas está a ser feita por um número cada vez maior de pessoas e mesmo alguns países.

A classe capitalista está obviamente a tentar passar a responsabilidade para nós mas ao fazer isso revela a contradição fundamental entre o ‘apertar de cinto’ de cada um e a manutenção de um sistema económico de crescimento contínuo baseado no consumo desnecessário. Mais cedo ou mais tarde a futilidade de tentar manter o capitalismo e construir um sistema económico sustentável e justo será revelada e já há, de facto, sinais que o indicam.

A conversa dos media sobre uma ‘guerra de recursos’ é uma expressão das ligações que estão a ser criadas pela classe capitalista, do mesmo modo como o ‘pico petrolífero’, a ‘segurança energética’ e a ‘sobre-população’. Mas independentemente da sofisticação da propaganda, ela não pode esconder os efeitos devastadores da mudança climática, especialmente o seu impacto nos pobres do planeta e, mais cedo que tarde, o frango da mudança climática vai voltar a casa para o poleiro.

Em vez de sermos levados por estes mitos como o foram alguns na esquerda, nós temos de articular uma visão para uma economia alternativa baseada numa utilização racional e sustentável dos recursos, sendo isto ainda mais crítico pela percepção de que os maiores efeitos da mudança climática se virem a sentir na produção de alimentos e na subida do nível do mar que já está a ser sentida por milhões de pessoas que vivem em zonas costeiras no planeta.

Será que nós no mundo desenvolvido vamos continuar a ver e a permitir que milhares de milhões sejam gastos em guerras de agressão enquanto milhões são desenraizados e obrigados a deslocarem-se sabe-se lá bem para onde? Os resultados são difíceis de imaginar, de tão desastrosos, a não ser que consigamos desenvolver uma resposta global a estes catastróficos acontecimentos. Podem ter a certeza que o mundo capitalista não vai mexer um dedo, pelo contrário, até vê estes desenvolvimentos como benéficos para a manutenção do planeta e dos seus recursos sob a sua alçada. A sua única preocupação é saber até que ponto a mudança climática terá impacto na sua capacidade de sobrevivência.

No Reino Unido, por exemplo, a redução do consumo de energia não é acompanhado por nenhuma tentativa de alterar as nossas políticas de transporte nem a produção e consumo de bens de consumo, e eles consomem vastas quantidades de energia e recursos, se não aqui, algures no circuito capitalista global de produção e distribuição. Os efeitos reais da produção capitalista são desta forma escondidos sob o manto da ‘eficiência energética’ e na garantia da nossa ‘segurança energética’.

A esquerda necessita desesperadamente de fazer a ligação entre a crise da mudança climática à crise do capitalismo e o seu assalto ao planeta, mostrando as ligações existentes entre todos estes acontecimentos e propondo uma alternativa. Nós não temos certamente outra escolha a não ser que queiramos estar ao lado das elites dominantes e manter a nossa posição de privilégio à custa da grande maioria dos habitantes do planeta.

 

Texto publicado por William Bowles a 22 de Fevereiro de 2007, em http://williambowles.info/ini/2007/0207/ini-0471.html. Traduzido por Alexandre Leite.
publicado por Alexandre Leite às 23:28
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