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Quarta-feira, 21 de Março de 2007

O Imperialismo Americano e o seu Domínio sobre a Ásia

Refutando o Mito de que a China se esteja a tornar num super-poder económico

 

Quem irá dominar a Ásia? A longo prazo a resposta é certa e clara – o povo da Ásia vai dominar a Ásia. No entanto, a curto prazo, antes de essa verdade se tornar uma realidade, nós necessitamos de analisar a actual situação económica, política, e militar na Ásia de forma a planear a nossa estratégia. Para compreender claramente a situação actual, precisamos em primeiro lugar de desfazer alguns mitos; essa será a primeira parte da minha apresentação de hoje. A segunda parte será sobre os interesses do imperialismo norte-americano na Ásia e a sua estratégia para manter uma hegemonia económica, política, e militar na região. Na conclusão, avaliarei a real ameaça do militarismo americano e porque é que nós, o povo, teremos de, e iremos, prevalecer no fim.

 

 

I. Refutando os Mitos

 

Primeiro Mito: A China está a tornar-se num super-poder que irá em breve ultrapassar os Estados Unidos, e a China tem um poderio militar capaz de desafiar a dominação dos EUA sobre a Ásia.

 

Nos anos recentes, os Estados Unidos projectaram uma imagem da China de um poder económico em crescimento que possui capacidade militar para ameaçar o já longo domínio dos EUA na Ásia. Esta afirmação é usada para justificar o recente reforço militar dos Estados Unidos e os seus esforços para fortalecer a sua cooperação militar com os seus aliados e outros regimes amigos nesta região, como uma estratégia para conter a China.

 

Apesar do facto de os Estados Unidos estarem a perder a guerra no Iraque, Condoleezza Rice, a Secretária de Estado norte-americana, tem viajado bastante, fazendo palestras e mantendo os outros países alinhados para mostrar que os Estados Unidos mantêm a sua hegemonia mundial. Um artigo de 2005 do jornal ‘Singapore Business Times’ intitulado ‘Condi Talks Down to Europe, Asia’ [A Condoleeza está a falar para a Europa, Ásia] afirma:

 

“A senhora Rice desdenhou os europeus por considerar que o levantamento do embargo de armas à China – um acto, explicou ela, que pode ameaçar a delicada balança militar do Leste da Ásia, com os EUA a considerarem-se como os pacificadores da área e veriam com maus olhos uma interferência europeia. ‘Foram os Estados Unidos, não a Europa, que defenderam o Pacífico’. Depois, ela apresentou aos chineses a necessidade de pressionarem os norte-coreanos, e disse a jornalistas que a China pode ter “uma influência positiva na região”, acrescentando, no entanto, que também se podia tornar o maior problema da região.” (Antiwar.com, 31 de Março de 2005, reeditado pelo Singapore Business Times, 2005)

 

As declarações de Rice indicam que a administração Bush tem intenção de renovar a sua atenção na Ásia, depois do lamaçal do Médio Oriente, e colocar em prática um plano para conter a China.

 

A China representa realmente uma séria ameaça ao domínio dos EUA sobre a Ásia?

 

Apesar do rápido crescimento do PIB da China na última década e meia, o PIB da China ainda é apenas um décimo do dos Estados Unidos da América. Para além disso, a China desenvolveu um tipo de capitalismo que tem estado dependente de investimento estrangeiro e de mercados estrangeiros, como motor para o seu crescimento. No final de 2005, Bai Jing-fu, o vice-presidente de um Centro de Investigação no Conselho de Estado [1], escreveu um documento que mostrava muitos dos problemas enfrentados pela economia chinesa. Um problema era a excessiva dependência chinesa de mercados externos como fonte do crescimento do seu PIB. De acordo com Bai, 5.7% (ou 60%) dos 9.7% da taxa de crescimento do PIB eram devidos a um aumento da procura no mercado externo [2]. Não só o crescimento da economia da China tem estado tão ligado ao crescimento das suas exportações, como cerca de 60% dessas exportações vêm de investimentos directos de multinacionais estrangeiras. Isto mostra a dependência do desenvolvimento chinês do monopólio internacional do capital.

 

Para além disso, os Estados Unidos têm sido um dos maiores mercados da China. No entanto, devido aos grandes défices comerciais que os EUA têm relativamente à China e a muitos outros países, os EUA não pagaram muitas das suas importações. (O total de importações norte-americanas é aproximadamente o dobro das suas exportações.) Em vez disso, os Estados Unidos da América têm vindo a dar Títulos da Dívida Pública como certificados de dívida. Dito de forma mais clara, significa que a China tem tido de fazer continuamente empréstimos de dinheiro americano para que os Estados Unidos possam comprar os seus produtos. Com a dívida norte-americana ao mundo a já ter uma duração de mais de vintes anos, o senso comum diz-nos que isso não pode continuar durante muito mais tempo. Para além disso, a China, que ainda é um país pobre, necessita do seu capital para o seu próprio desenvolvimento, pois o uso do seu capital de exportação como forma de sustentar o crescimento do PIB, não pode ser considerada uma estratégia de desenvolvimento sustentável e viável. Desde a reforma capitalista da China, e especialmente desde a década de 1990, o monopólio global do capital tem explorado a mão-de-obra barata, exaurido os seus recursos naturais e poluído o seu ambiente. Os EUA também sugaram grandes quantidades de capital da China, onde dezenas de milhões de pessoas ainda não vêm resolvidas as suas necessidades básicas. Como é que alguém pode esperar que a China ultrapasse economicamente os Estados Unidos quando a sua economia está tão controlada por essas poderosas multinacionais – a maioria delas sedeadas nos Estados Unidos?

 

Apesar de ser verdade que o orçamento militar da China cresceu com taxas de dois dígitos nos últimos 17 anos consecutivos, e a China tem vindo a modernizar o seu equipamento militar ao comprar armamento moderno à Rússia, a China não tem a capacidade de desafiar militarmente os Estados Unidos. De acordo com informações publicadas no Relatório de Poder e Interesses, do Departamento de Defesa dos EUA, estima-se que a China tenha mais de 3000 aviões de combate, mas apenas 100 deles são modernos, comprados recentemente à Rússia. O mesmo relatório diz que os Estados Unidos têm actualmente mais de 3000 aviões, todos modernos. Para além disso, a frota norte-americana, composta por 12 grandes porta-aviões, não tem precedentes no seu poderio. Em conjunto com a sua espantosa superioridade militar em todas as categorias, os EUA estão também a modernizar o seu equipamento num ritmo mais elevado do que a China ou qualquer outro país do mundo. O Instituto Internacional de Pesquisa da Paz, de Estocolmo, concluiu que a China gasta anualmente 40 mil milhões de dólares [30,3 mil milhões de euros] em actualizações do seu equipamento militar, mas os Estados Unidos gastam dez vezes esse valor – um total de 400 mil milhões de dólares [303,3 mil milhões de euros]. O Relatório de Poder e Interesses afirma, “…uma taxa tão inacreditável de despesas dos Estados Unidos irá garantir que a China terá uma extrema dificuldade em competir no poderio militar.” Continua dizendo, “À China também falta indústria de ponta para desenvolver novas tecnologias próprias, o que explica que tenha comprado o seu equipamento militar mais moderno à Rússia. Os Estados Unidos, por outro lado, estão na linha da frente da nova tecnologia militar.” (Relatório de Poder e Interesses, 8 de Setembro, 2003)

 

Acima de tudo, depois da queda da antiga União Soviética e da deterioração do arsenal nuclear da Rússia, os Estados Unidos monopolizam agora o sistema nuclear ofensivo. Um recente artigo da revista ‘Foreign Affairs’ [Negócios Estrangeiros], “O Surgimento da Primazia Nuclear dos EUA”, afirma: “Os Estados Unidos estão no limiar de alcançarem a primazia nuclear. Provavelmente, em breve será possível aos Estados Unidos, destruir os arsenais de longo alcance da Rússia e da China num ataque inicial.” A supremacia nuclear significa, de acordo com os autores, que os EUA têm uma tríada nuclear que inclui bombas estratégicas, mísseis balísticos intercontinentais e submarinos com capacidade de lançar mísseis balísticos, e têm a capacidade de destruir todas as forças nucleares de um adversário nuclear com um primeiro ataque. A magnitude da tríada significa que se nada for feito, […] a Rússia e a China – e o resto do mundo – irão viver na sombra de uma supremacia nuclear norte-americana nos anos vindouros.” (Lieber and Press, 43-44)

 

Assim sendo, como veremos a seguir, apesar da China ter expandido a sua influência política e económica na Ásia, e mesmo fora da Ásia, e até certo ponto começou a desafiar os interesses económicos dos Estados Unidos, não há maneira de a China poder ultrapassar economicamente os Estados Unidos, ou de os ameaçar militarmente. No entanto, os Estados Unidos vão continuar a usar a ‘ameaça chinesa’ para justificar a sua expansão militar nesta região.

 

Segundo Mito: A China, como um super-poder, irá servir para contrabalançar os Estados Unidos e defender os interesses dos países do Terceiro Mundo e dos seus povos.

 

A China tem-se comportado como um poder benevolente, afirmando que os seus negócios económicos com os países do Terceiro Mundo se baseiam no mútuo benefício. O que os actuais líderes chineses fazem no estrangeiro é o mesmo que fazem no seu país; fingem que a China ainda é um país socialista e que as suas políticas se baseiam em princípios socialistas. No passado, a política externa da chinesa, como um país socialista, era baseada nos cinco princípios de mútuo benefício e respeito mútuo. A China foi capaz de defender esses princípios porque o desenvolvimento económico socialista não dependia de uma expansão externa. Para além disso, durante o período socialista, a China condenou a sua longa história de domínio imperial sobre os seus vizinhos.

 

No entanto, desde que a China iniciou a sua reforma capitalista, há uns vinte anos atrás, a relação económica entre a China e outros países passou de uma de mútuo benefício para uma que permita as necessidades chinesas de um rápido crescimento do PIB. Sendo um grande país e uma economia capitalista com crescimento rápido, a China tem de competir pelos recursos naturais, por oportunidades de exportar capital, e por mercados para exportar os seus produtos. Como a China adoptou uma estratégia de crescimento e desenvolvimento capitalista com base na exportação, as suas necessidades de energia e matérias-primas expandiram a um ritmo elevado. Ao usar as exportações como fonte do seu crescimento económico, também tem de competir furiosamente por mercados onde possa vender os seus produtos. Desde os anos 1990, com a aceleração da taxa de crescimento, o consumo de petróleo aumentou 100%, de 1990 até 2001 [3]. Em 2005, o consumo de petróleo da China já tinha ultrapassado o do Japão, tornando-se o segundo maior consumidor de petróleo do mundo, logo a seguir aos Estados Unidos. Até 1992 a China ainda era um país exportador de petróleo, mas a meio dessa década as suas importações de petróleo aumentaram em face da sua taxa de crescimento de exportações superior a 20%. As importações dessa matéria-prima duplicaram em apenas cinco anos, de 1998 a 2003, e aumentaram mais 40% na primeira metade de 2004 (Time Asia, 18 de Outubro, 2004). Em 2005 a China consumiu 300 milhões de toneladas de crude, 123 milhões das quais foram importadas.

 

De acordo com alguns especialistas, com a actual taxa de consumo, as reservas conhecidas de petróleo da China irão extinguir-se em 14 anos, empurrando a China a iniciar uma procura frenética por petróleo em todo o mundo. De acordo com o relatório da ‘Time Asia’, a China assinou, ou pretende assinar, acordos sobre petróleo/gás com vários países, de forma a manter um fornecimento estável de petróleo e evitar assim comprar tudo a preços mais altos no mercado aberto. Estes países incluem a Indonésia, o Uzbequistão e outros estados ricos em energia na Ásia Central ou mesmo países geograficamente distantes como o Sudão, Equador e Colômbia. Na sua busca por petróleo, a China entrou inevitavelmente em competição com os Estados Unidos e o Japão, e também com a Coreia do Sul e Índia, cujas economias também estão dependentes da importação de petróleo. A China também já vincou a sua intenção de investir na exploração e desenvolvimento noutros países que terão reservas de petróleo. No entanto, ao fazer isso, poderá também entrar em disputas territoriais com outros países. Num caso recente a Corporação Nacional Chinesa de Petróleo Costeiro fez uma parceria com a Companhia Nacional Filipina de Petróleo, para a exploração de petróleo perto das Ilhas Spratly no Mar do Sul da China. A soberania das Ilhas Spratly é, no entanto, disputada há muito pelo Vietname, China, Filipinas e Malásia.

 

As acções chinesas são como as de um país capitalista em expansão, na sua busca por recursos naturais, oportunidades de investimento e por mercados para vender os seus produtos. Para além de petróleo e outras fontes de energia, a China também importa muitos outros recursos naturais; por exemplo, a China é o maior importador de cobre e também importa grandes quantidades de ferro e madeira de países em vias de desenvolvimento – da Ásia à América Latina e África.

 

A expansão chinesa no sudeste asiático começou depois da crise asiática de 1997, e sendo um recém-chegado à região, tem estado atarefado com assinaturas de acordos de investimento e de comércio com muitos desses países. No encontro anual de 2004 da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) na capital do Laos, os membros assinaram um acordo de livre comércio com a China, representando uma relação comercial mais próxima. Quer as barreiras tarifárias quer as não tarifárias serão diminuídas neste acordo comercial a 10+1=11. É a maior área do mundo de livre comércio, abrangendo 1,8 mil milhões de pessoas, e possibilitou à China ainda mais oportunidade de expansão de laços comerciais e de investimento com os dez países da ASEAN. Para além do Acordo de Livre Comércio China-ASEAN, a China também tem estado a negociar acordos bilaterais de comércio e económicos com estados do sudeste asiático. No final de 2006, o total negociado entre o sudeste asiático e a China irá provavelmente atingir os 130 mil milhões de dólares [quase 98 mil milhões de euros], que fica próximo dos 150 mil milhões de dólares [quase 113 mil milhões de euros] de comércio entre os EUA e a ASEAN em 2005 (Kurlantzick).

 

De acordo com notícias de BBC, o comércio entre a China e nações africanas aumentou 39% durante os primeiros 10 meses de 2005 (BBC News, Janeiro de 2006). Em Novembro de 2006, a China organizou um fórum de grande escala em Beijing e assinou 16 acordos comerciais e de investimento no valor de 1,9 mil milhões de dólares [perto de 1,4 mil milhões euros] [4] (Reuters Foundation, Alert Net, 30 de Novembro, 2006). A forte procura chinesa de importação de recursos naturais foi devida ao tremendo volume de produtos manufacturados que exportou nos anos mais recentes. A China está em competição directa com os grandes poderes imperialistas – os EUA, o Japão, e a União Europeia, na aquisição desses recursos naturais.

 

É verdade que a China expandiu e vai continuar a expandir os seus interesses e influência na Ásia e noutras partes do mundo, causando um aumento de alarmes e fortes reacções dos EUA e do Japão. No entanto, no final de 2004 o investimento acumulado de companhias chinesas na ASEAN foi de apenas 1,17 mil milhões de dólares [cerca de 879 milhões de euros] [5], o que fica atrás dos 85,4 mil milhões de dólares [cerca de 64 mil milhões de euros] investidos pelos EUA nesta região. De acordo com agência noticiosa oficial chinesa, a Xinhua, a China é agora o quarto parceiro comercial da ASEAN, depois dos Estados Unidos, Japão e União Europeia. No entanto, quase 60% das exportações da China para a ASEAN em 2005 foram feitas por multinacionais estrangeiras a operar na China, e grande parte dessas mesmas multinacionais também controlam as exportações da ASEAN para a China. Assim sendo, efectivamente, as relações comerciais mais próximas entre a China e os países do sudeste asiático apenas facilitam o comércio intra-companhia entre as multinacionais globais.

 

Depois de encetada a reforma capitalista e especialmente desde os anos 1990, a China, como país, tem sido explorada pelos grandes poderes imperialistas. Os muito poucos poderosos na China uniram os seus interesses aos interesses do monopólio global do capital, e em conjunto eles exploraram os trabalhadores e camponeses chineses e esta exploração atingiu níveis insuportáveis hoje em dia. No entanto, a China, como país, também se porta bastante como outros países imperialistas – só que é um país imperialista de um nível muito inferior. Na sua procura por petróleo e recursos naturais, por oportunidades de investimento, e por mercados, a China assinou acordos comerciais, pactos de investimento, e outros tipos de cooperação económica – nenhum deles é ou pode ser baseado em mútuos benefícios. Nós não podemos contar com a China para defender os interesses dos países oprimidos e dos seus povos.

 

II. Imperialismo dos EUA e a sua hegemonia na Ásia

Os Estados Unidos derrotaram o Japão durante a 2ª Guerra Mundial e como consequência ganharam o domínio da Ásia. Durante a Guerra Fria os Estados Unidos mantiveram o seu domínio sobre a Ásia através de guerras de agressão, primeiro na Coreia e depois no Vietname. A hegemonia dos EUA no mundo está intimamente ligada ao seu domínio sobre a Ásia.

Em 1998, o almirante Joseph W. Prueher, na altura o Comandente-em-Chefe do Comando Norte-Americano do Pacífico, falou perante uma audiência de estudantes na Universidade Fudan, em Xangai. O assunto era ‘A segurança da Ásia-Pacífico e da China’. Prueher disse que os Estados Unidos têm responsabilidade na região que se estende desde a costa da América do Norte até à costa leste de África – uma região que inclui 43 nações. Ele também disse, “Como uma nação do Pacífico, os interesses económicos, políticos e militares dos EUA no Pacífico são diversos e duradouros. Estes interesses guiam o nosso envolvimento permanente e activo na região…” O almirante assegurou que o comércio dos EUA com esta região somava mais de 500 mil milhões de dólares [375 mil milhões de euros] por ano, o que representa aproximadamente 35% do total do comércio dos EUA e o dobro do comércio que os EUA têm com a Europa. Para além disso, ele disse ainda que a Ásia era militarmente importante para os EUA, e cinco dos sete tratados de defesa mútua dos EUA são com países da Ásia-Pacífico. O almirante também quis assegurar à audiência que “os Estados Unidos têm visto o seu domínio sobre a Ásia como permanente e não iriam deixar que alguém o desafiasse.”

Desde o colapso da antiga União Soviética, os Estados Unidos tornaram-se a única super-potência, e têm feito tudo o que está ao seu alcance para manter essa hegemonia. Em 1992, o Plano Guia da Defesa (PGD) foi delineado sob a supervisão de Paul Wolfowitz, que recentemente se tornou o Presidente do Banco Mundial e na altura era Secretário da Defesa de Dick Cheney. O PGD estabelecia a estratégia dos Estados Unidos para manter a sua hegemonia militar em três grandes áreas. Primeira, os EUA prosseguirão uma política que previna que qualquer estado consiga desenvolver capacidades militares equivalentes ou superiores às suas. Segunda, os EUA levarão a cabo ataques preventivos contra estados que desenvolvam novas capacidades militares que possam eventualmente colocar em perigo os Estados Unidos e os seus amigos ou aliados. Estes ataques preventivos são para efectuar antes de haver uma ameaça iminente. A última parte do PGD insiste que os oficiais dos EUA e pessoal militar estão imunes a processos colocados por tribunais internacionais de crimes de guerra (Excertos do PGD, New York Times, 10 de Março, 1992; Monthly Review, Janeiro de 2006). Este esboço quase final do PGD foi passado à imprensa e causou fortes reacções dos aliados dos EUA, porque ele avisava que quer a Alemanha quer o Japão, como potenciais potências militares, poderiam um dia igualar os EUA, e enfatizava que nunca lhes poderia ser permitido fazerem esse desafio.

O PGD não foi aprovado como estratégia militar oficial dos EUA, mas os EUA continuam a encontrar formas de vincar o seu super-poder solitário na era pós Guerra Fria. Durante a campanha de 2000, Condoleezza Rice, como conselheira de George W. Bush [6], escreveu um artigo na revista ‘Foreign Affairs’. O artigo pode-se resumir assim:

Sem uma ameaça soviética, a América encontrou uma extrema dificuldade em definir o seu ‘interesse nacional’. A política externa numa administração do Partido Republicano deve recentrar o país nas suas prioridades chave: construção de um exército capaz de assegurar o poderio americano, enfrentar os regimes desalinhados, e controlar Beijing e Moscovo. Acima de tudo, o próximo presidente tem de estar confortável com o papel especial da América como líder mundial.

Neste artigo Rice explicou que a China poderia desenvolver-se e tornar-se uma potencial ameaça ao domínio dos EUA sobre a Ásia e que os EUA deveriam implementar políticas para conter a China. Depois de George W. Bush ser Presidente, em 2000, e Rice ser a sua Conselheira de Segurança Nacional, ela e outros membros do gabinete passaram a trabalhar na ‘construção de um exército capaz de assegurar o poderio americano’, incluindo uma estratégia para conter a China. Depois, o ataque terrorista aos EUA a 11 de Setembro de 2001 desviou a atenção da administração Bush, que consequentemente declarou uma guerra global ao terrorismo, guerra universal, unilateral, e longa (alguns dizem que como a atenção de Rice estava focada na Ásia, ela não viu os sinais óbvios do ataque iminente). Quando Bush anunciou a sua guerra ao terrorismo, ele indicou o Iraque, Irão, Coreia do Norte, como países que compunham um ‘Eixo do Mal’. Os países do chamado ‘Eixo do Mal’ eram os que Rice apelidava de ‘regimes desalinhados’. Desde logo com a invasão e ocupação do Afeganistão e Iraque, os EUA têm sido capazes de usar os ataques de 11 de Setembro e a sua guerra ao terrorismo para justificar a expansão do militarismo norte-americano por todo o mundo, e marcam qualquer estado soberano que escolhem como alvos do anti-terrorismo.

Após as eleições de 2000, a Casa Branca estava ocupada com as ideias chave que ajudaram a construir o Plano Guia da Defesa de1992; o ataque terrorista de 2001 deu a oportunidade de levar a cabo os principais projectos do PGD. As invasões norte-americanas do Afeganistão em 2001 e do Iraque em 2003 seguiram a linha traçada no PGD de 1992, incluindo os ataques ‘preventivos’ a nações soberanas. Nem o Afeganistão nem o Iraque tinham capacidade militar para desafiar a superioridade militar dos EUA. No entanto, os EUA conseguiram usar a sua hegemonia para perpetuar o mito das “armas de destruição em massa” como uma justificação bem sucedida. Estas invasões, no entanto, criam um precedente importante que revela que os Estados Unidos não vão hesitar em agir unilateralmente com a sua superioridade militar em qualquer país, se entenderem que os seus interesses estão a ser ou podem vir a ser ameaçados de qualquer forma.

Para conseguir aquilo a que o Pentágono chamou ‘Shock and Awe’ [Choque e Horror], os EUA invadiram o Iraque bombardeando em primeiro lugar o país e as suas infraestruturas para mostrar o espantoso poderio militar norte-americano. Durante as duas primeiras semanas da invasão, não se tratou de uma guerra entre duas parte; o Iraque estava indefeso contra as armas de destruição em massa usadas pelos EUA. Agora, a três anos de distância e depois da morte de dezenas de milhares de civis iraquianos, até Tony Blair teve de admitir recentemente que a invasão do Iraque foi um falhanço total.

A Guerra do Iraque colocou a administração Bush na defensiva; não tem saída que não obrigue a admitir a derrota. Como já mencionado, Rice tem viajado por todo o mundo para provar que o império não é nada vulnerável. Ela também conseguiu que a administração Bush focasse a sua atenção na Ásia e reafirmou a estratégia norte-americana de se empenhar num esforço coordenado e sistemático de contenção da China, para evitar que expanda o seu poder e influência. Em Fevereiro de 2006, o Departamento de Defesa dos EUA emitiu o seu Relatório Quadrienal da Defesa. Este relatório nomeou a China, de entre os grandes poderes e os emergentes como tendo o maior potencial para competir militarmente com os Estados Unidos. Depois deste relatório, no início de Março, o Comandante-em-Chefe do Comando Norte-Americano Do Pacífio, almirante William Fallon, testemunhou perante o Comité dos Serviços Armados do Senado e disse que o Relatório Quadrienal da Defesa definiu a estratégia da defesa e a sua postura militar para os próximos 20 anos: ter uma ‘maior’ presença militar no Oceano Pacífico. Mais, os EUA estão a planear fomentar a integração militar com aliados nessa região, de forma a dissuadir os grandes poderes e os poderes emergentes (TMC Net News, 7 de Março, 2006). Isto mostra que os EUA pretendem apontar a China como uma ameaça militar de modo a desenvolverem a sua expansão militar na Ásia, apesar da China não ter nenhuma capacidade militar para se tornar uma ameaça.

A mesma notícia da TMC Net também referia que os Estados Unidos planeiam expandir a sua cooperação militar bilateral com o Japão, e também alargar essa cooperação militar bilateral a um acordo trilateral que inclua a Coreia do Sul. O Japão, claro está, tem sido o mais fiel aliado dos Estados Unidos desde o fim da 2ª Guerra Mundial; o Japão tem confiado nos Estados Unidos para garantir a sua segurança, porque a Constituição japonesa, feita durante a ocupação norte-americana, proíbe o Japão de formar umas forças armadas próprias, para além de uma pequena força de defesa nacional. No entanto, as condições que rodeiam essas restrições têm mudado rapidamente. A função da Força de Auto-Defesa (FAD) japonesa foi redefinida nos últimos anos, com Junichiro Koizumi como Primeiro-Ministro. No seu testemunho, Fallon disse que Koizumi tem demonstrado uma “liderança excepcional” e conduziu as FAD a uma “mudança significativa”. As mudanças incluem o envio de tropas terrestres para o Iraque e ajudar os EUA na sua guerra no Afeganistão, reabastecendo navios até ao Oceano Índico. O almirante Fallon afirmou ainda que o Japão e os Estados Unidos da América acordaram em Outubro de 2005 a criação de operações conjuntas e integradas entre as FAD e as forças militares norte-americanas. Esta integração inclui “equipamento de espionagem, redes de comunicação, sistemas de informação, defesas anti-míssil, guerra submarina, e capacidade anti-minas.” Fallon disse ainda, “Estas acções mostram claramente a vontade e a capacidade do governo do Japão de usar as FAD regionalmente e globalmente, apoiando acções de segurança e operações humanitárias” (TMC Net News, 7 de Março, 2006).

Entretanto, a Coreia do Sul e os Estados Unidos já acordaram, no início de 2006, a chamada ‘flexibilidade estratégica’ em operações militares. O próximo passo é os EUA expandirem as suas integrações militares como o Japão para incluírem a Coreia do Sul numa cooperação trilateral, para que as forças armadas dos EUA que estão na Coreia do Sul possam fazer missões fora da Península Coreana (TMC Net News, 7 de Março, 2006).

Para além da expansão da presença dos EUA na Ásia, a estratégia norte-americana de contenção da China também inclui a criação de alianças com países do Sul da Ásia em geral e com a Índia em particular. Em declarações perante o Sub-Comité da Ásia e Pacífico do Gabinete de Relações Internacionais [nos EUA] em Junho de 2005, Dana Robert Dillon, uma analista política do Centro de Estudos da Ásia, da Fundação Heritage, disse, “Uma das mudanças mais apelativas trazidas com o fim da Guerra Fria é o próspero relacionamento dos EUA com o milhar e meio de milhões de pessoas do Sul da Ásia.” De acordo com Dillon, a Índia é a “maior oportunidade sub-aproveitada da política externa da América.” Ele acrescentou ainda que os Estados Unidos e a Índia partilham duas grandes preocupações: o terrorismo e a emergência da China como uma potência mundial. Deste modo, Dillon sugeriu ao Sub-Comité que como parte da sua estratégia global de conter a crescente influência da China, os Estados Unidos deveriam ajudar a Índia a desenvolver a sua competitividade económica e a sua capacidade militar.

Dillon acrescentou que a renovada cooperação na defesa entre os EUA e a Índia foi o desenvolvimento mais positivo [7]. Agora, os Estados Unidos restauraram toda a cooperação convencional ‘sem contrapartidas’ com a Índia. Os EUA também iniciaram uma cooperação com a Índia relativa ao uso civil do poder nuclear, sob os auspícios do programa Próximos Passos da Parceria Estratégica. Dillon disse também que os Estados Unidos devem continuar a ajudar a Índia a tornar-se um parceiro estratégico amigável e ajudar a Índia a “obter um dissuasor que iniba o aventureirismo chinês na região.”

O imperialismo dos EUA vê o seu domínio sobre a Ásia como um direito seu e não permite que nenhuma outra nação o desafie. Em nome da liberdade e da democracia, os EUA protegem os seus interesses económicos e o poderio militar. Os EUA vêm a Ásia como uma importante parte do seu vasto império, e o seu domínio sobre a Ásia está intimamente ligado à sua hegemonia global. Não tenhamos ilusões que o imperialismo dos EUA se pode de algum modo reformar e modificar. Ele irá comportar-se sempre da forma mais selvagem e bárbara.

 

III. A Ameaça Real do Militarismo Americano

Depois do final da 2ª Guerra Mundial, os EUA vieram para dominar a Ásia e lançaram duas grandes guerras de agressão na nossa região. Tanto a Guerra da Coreia como a do Vietname foram parte da estratégia global de contenção do comunismo. Em nome da luta contra o comunismo, os EUA usaram a força bruta nas duas guerras de agressão e causaram a morte de milhões de pessoas e uma tremenda destruição à Ásia. O povo heróico da Coreia e do Vietname deu luta à agressão e venceu. Solidariamente, a China ajudou ambos os países a ganharem as suas guerras de libertação.

Os povos da Ásia sofreram guerras de agressão, não apenas nas últimas décadas sob o domínio dos Estados Unidos, mas nos últimos séculos mesmo. Remonta aos dias coloniais. Os poderes ocidentais competiram por um pedaço da Ásia – Inglaterra, França, Alemanha, Espanha, Portugal, Holanda, Estados Unidos da América e outras potências mais pequenas do ocidente, todas embarcaram numa divisão da Ásia para a colonizar, e depois seguiram-se os esforços do Japão para tornar toda a Ásia como parte do seu império. O Japão invadiu a China e outros países asiáticos anos antes de provocar a entrada dos EUA na guerra. Mas as pessoas vulgares na Ásia, incluindo as pessoas japonesas, são como as pessoas de outro lado qualquer no mundo. Elas querem viver em paz, e estão cansadas de todas as guerras que lhes são impostas.

Nós estamos agora no início do século XXI. Por um lado, com o aprofundamento da crise económica capitalista, os poderes imperiais irão competir entre eles com mais vigor, por recursos, oportunidades de investimento, e por mercados. Por outro lado, os EUA expandiram as suas forças militares na Ásia, apontando a China como uma potencial ameaça. A possibilidade de uma outra guerra na Ásia é real, mais uma vez. Nós, é claro, estamos bem familiarizados com o verdadeiro poder destrutivo da máquina militar norte-americana para matar pessoas e destruir países. Ninguém pode subestimar o real poder das armas de destruição maciça que os EUA possuem, e a vontade de as usar sobre pessoas inocentes. Nós, o povo, temos de fazer tudo para evitar que a guerra aconteça. A solidariedade internacional de pessoas amantes da paz é a única forma de derrotar a guerra e pilhagem imperialistas. No entanto, nós também sabemos que apesar de os EUA poderem vir a lançar uma guerra contra a vontade do povo, não poderá nunca conquistar um país através do uso de armas de destruição em massa. Os EUA não conseguiram conquistar o povo da Coreia, nem o povo do Vietname, tal como não consegue conquistar o povo do Iraque. O poder militar, por muito forte que seja, nunca pode conquistar o desejo do povo de ser livre e o seu amor pela paz. O poderio militar dos Estados Unidos, embora seja um verdadeiro e perigoso tigre, é também um tigre de papel, e não terá outra saída que não seja a rendição perante o verdadeiro poder do povo.

Apresentação feita pela Prof. Pao-yu Ching na Conferência Internacional da Rede de Investigação da Ásia-Pacífico sobre “Militarismo dos EUA & ‘guerra ao terrorismo’ na Região da Ásia-Pacífico”, que decorreu em Cebu, Filipinas, em Dezembro de 2006.

 

Referênciass

[1] Forney, Mathew, China's Quest for Oil, Asian Times, 18 de Outubro, 2004

[2] Dillon, Dana Robert, Senior Policy Analyst, Asian Studies Center, The Heritage Foundation, Hearing on: "The United States and South Asia," Testimony before the House International Relations Subcommittee on Asia and the Pacific, 14 de Junho, 2005

[3] Kurlantzick, Josh, "China's Charm Offensive in Southeast Asia", em Current History, Setembro 2006,

[4] Lieber, Keir A. and Daryl G. Press, "The rise of US Nuclear Primacy," Foreign Affairs, Março/Abril 2006 42-54

[5] Marquardt, Erich, Power and Interest News Report, 8 de Setembro, 2003

[6] Prueher, Joseph W., Command in Chief, US Pacific Command, "Asia-Pacific Security and China, a U. S. Pacific Command Perspective, Remarks prepared for delivery at Fudan University, Shanghai, China, 13 de Novembro, 1998.

[7] Rice, Condoleezza, "Campaign 2000: Promoting the National Interest," Foreign Affairs, Janeiro/Fevereiro 2000

 

Texto original de Pao-yu Ching, apresentado a 9 de Dezembro de 2006 numa conferência da Rede de Investigação da Ásia-Pacífico (APRN) que decorreu nas Filipinas. Publicado em www.globalresearch.ca a 6 de Março de 2007. Tradução para português por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 22:53
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