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Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2006

Desinformação mediática

 

Como a BBC e o Guardian transformam a tortura num problema de Relações Públicas e “arquivam” a ocupação.

 

 

 




O ataque da propaganda Ocidental é implacável e muita coisa fica por dizer, muito por causa das reportagens “objectivas”. O que é importante sublinhar nestas alegadas notícias é a natureza insidiosa da forma como os eventos nos são apresentados. Encapota-se em linguagem aparentemente inócua, um completo esquema mental, na forma como os eventos são apresentados. Vejam este caso, da página da BBC:

 

 

 

Ataques ao petróleo custaram 6,25 mil milhões de dólares ao Iraque

 

Peritos iraquianos de petróleo foram atacados em oleodutos

 

 

Ataques de insurgentes à indústria iraquiana do petróleo custaram 6,25 mil milhões de dólares em perdas de receitas, durante 2005, de acordo com o ministro Iraquiano do petróleo.

 

Um total de 186 ataques foram levados a cabo em instalações petrolíferas no último ano, tirando a vida a 47 engenheiros e 91 polícias e seguranças, disse um porta-voz.

 

O governo Iraquiano tem lutado contra o despertar da violência insurgente, que se seguiu à invasão comandada pelos EUA em 2003.

news.bbc.co.uk/2/hi/business/4729178.stm

 

Escondido neste pedaço de notícia está um conjunto de pressupostos cerca da causa das perdas. Em primeiro lugar, claro que é a ocupação ilegal a responsável pelas perdas e não a resistência, que tem todo o direito a usar os meios necessários para tornar insustentável a ocupação feita pela coligação EUA-Reino Unido, especialmente privá-los do petróleo que pertence ao povo Iraquiano.

Em segundo lugar, é usada a frase “violência insurgente, que se seguiu à invasão comandada pelos EUA em 2003”. Seguramente que a invasão que provocou 100 000 mortes foi violenta, por isso, por que é que o artigo não diz “que se seguiu à violenta invasão”? A “violenta insurgência” é na realidade bastante legítima e uma resposta legal a uma invasão que rompeu todos os tratados internacionais de que fazem parte os EUA e o RU.




    

Noutro artigo da BBC:

 

 

O Regresso de Abu Ghraib

 

 

Por Paul Reynolds

 

Correspondente de Assuntos Internacionais, página de notícias da BBC

 

 

As imagens intrometem-se nas tensões entre os Muçulmanos e o Ocidente.

 

Abu Ghraib voltou para perseguir o Governo dos EUA.

 

As últimas fotografias da prisão são outro desastre para a imagem da presença dos EUA no Iraque (formalmente uma ocupação, na altura em que as fotografias foram tiradas, provavelmente em 2003).

Era difícil que tivessem vindo em pior altura, no meio do furor acerca dos cartoons Dinamarqueses e imediatamente depois do aparecimento de um vídeo mostrando tropas Britânicas a baterem em manifestantes Iraquianos.

news.bbc.co.uk/1/hi/world/middle_east/4717486.stm

 

 

Reparem que o artigo se refere a divulgação de centenas de fotos e vídeos como um “desastre para a imagem da presença dos EUA no Iraque”. Por isso, para a BBC, é um mero problema de Relações Públicas!

Influencia assim o relato de crimes nos media dizendo-nos que as fotografias “Era difícil que tivessem vindo em pior altura” mas esquece-se de mencionar o facto que, quer os cartoons Dinamarqueses, quer o vídeo de tropas Britânicas a baterem em manifestantes Iraquianos, são o resultado das políticas Britânicas e Norte Americanas no Iraque e Afeganistão e por incitarem uma movimentação xenófoba em relação aos Muçulmanos.

 

 

E numa outra notícia, também da pagina da BBC, podemos ler,

 

 

James Coomarasmy, da BBC em Washignton, diz que parece haver pouco apetite político ou da opinião pública em reabrir uma dolorosa ferida, e as imagens estão a ter menos destaque nos media dos EUA do que noutros lados.

news.bbc.co.uk/1/hi/world/middle_east/4718328.stm

 

 

Como é que Coomarasmy chegou à conclusão que “parece haver pouco apetite político ou da opinião pública em reabrir uma dolorosa ferida”? Foi porque os media corporativos menorizaram a divulgação das imagens, essa é a razão, e daí percebe-se a pouco barulhenta resposta da opinião pública

 

Dolorosa ferida? Dolorosa para o governo Americano, que obviamente não quer a exposição pública dos seus crimes, nem quer que as pessoas se envolvam em nenhum tipo de debate sobre a realidade da ocupação ilegal.

 

É este tipo de “reportagens” da BBC que retira a culpabilidade dos governos Britânico e Americano, nestes crimes contra a humanidade, e que acima de tudo leva depois a uma opinião pública que não condena estes líderes assassinos.

 

No Guardian também encontramos uma “lavagem” parecida sobre Abu Ghraib, neste caso limitada a dois parágrafos!

 

Imagens de Abu Graib voltam para perseguir os EUA

Sábado, 18 de Fevereiro de 2006

The Guardian

 

 

Ao mesmo tempo que um escândalo sobre a forma como os EUA trataram prisioneiros no Iraque, em Abu Ghraib, estava a escapar-se para um recanto escuro da história Americana, uma companhia de televisão Australiana reacendeu o assunto ao difundir novas e mais chocantes imagens de tortura naquela prisão Iraquiana. Quando a Casa Branca tentava esquivar-se a uma nova onda de raiva internacional, Salon, uma página Americana da internet, colocou 546 imagens de detidos mortos e 1 325 imagens de abusos, de uma fuga de informação de um relatório do exército Americano sobre os abusos.

 

Enquanto a administração combatia este fogo, um outro começou ali perto, quando um relatório da ONU acerca de do complexo militar em Guantanamo pediu o seu encerramento e acusou os EUA de continuarem a usar aí a tortura.

www.guardian.co.uk/international/story/0,,
1712462,00.html?gusrc=rss#article_continue

 

 

“História Americana”? “Reacendeu o assunto”? Quer isto dizer que o Guardian não considera tortura, assassinatos e violações um “assunto” apenas porque aconteceram há 2 anos atrás?

 

Para alem disso, desvia-se do facto de que ignorar os acontecimentos serviu para reduzir a importância da obscenidade que é a ocupação enganando o público ao assumir que eles eram uma excepção em vez da regra da agressão imperial. Está tudo bem para o Guardian, relegando os crimes de guerra para o caixote do lixo da história na sua tentativa de os tornar em pequenas notícias, mas de certeza que para as vítimas e as suas famílias isto não é só história!

 

Acontecimentos contemporâneos do género têm sido relegados para a história, pelo Guardian, e com a lógica completamente deturpada, uma “escura” lógica, mas não explica o que é que é “escuro” na morte e torturas oficialmente sancionadas.

 

Reparem que tanto no Guardian como na BBC não há uma única menção ao facto de todos os acontecimentos que os dois media nos indicaram que não nos preocupássemos com isso, serem um desrespeito das leis internacionais. Deve ser por isso que estes crimes são apenas “escuros” e fazem parte da “história” Americana e um caso de más Relações Públicas para os ocupantes.

 

 

Não vos da vontade de vomitar ao sermos diariamente sujeitos a este tipo de relato obsceno dos acontecimentos? Até quando devemos aturar isto? Está na altura destes apologistas do poder imperial serem chamados à atenção!

 

Escrevam a estes bajuladores do capital e digam-lhes o que pensam!

 

 

Helen Boaden: HelenBoaden.Complaints@bbc.co.uk

 

Paul Reynolds: Paul.Reynolds-INTERNET@bbc.co.uk

 

Editor do Guardian, Alan Rusbridger: alan.rusbridger@guardian.co.uk

 

“Provedor do Leitor” do Guardian, Ian Mayes: reader@guardian.co.uk

 

Simon Tisdall, responsável pelos assuntos do estrangeiro no Guardian: simon.tisdall@guardian.co.uk

 

 

 

 

 

Traduzido por Alexandre Leite, a partir de um texto de William Bowles publicado a 18 de Fevereiro de 2006 em http://www.williambowles.info/ini/2006/0206/ini-0395.html

 

 

 

 

 

publicado por Alexandre Leite às 17:44
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