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Quinta-feira, 10 de Maio de 2007

Deir Yassin continua


 


A cidade de Um El Fahim no actual Israel, é a casa de 48 mil palestinianos cidadãos de Israel. A maioria são refugiados internos sem os mesmos direitos que os cidadãos judeus nem o direito a regressar à sua terra natal.


Passaram no passado mês cinquenta e nove anos, desde que militantes do Irgun Sionista e do Gangue de Stern assassinaram sistematicamente mais de 100 homens, mulheres e crianças em Deir Yassin. A aldeia palestiniana ficava fora da área que a ONU recomendava que fosse incluída num futuro Estado Judaico, e o massacre ocorreu algumas semanas antes do fim do Mandato Britânico, mas fez parte de um processo cuidadosamente planeado e orquestrado que viria a provocar a fuga de 70% da população nativa, abrindo caminho a um estado etnicamente judeu.

Deir Yassin foi apenas mais uma das 400 localidades palestinianas despovoadas e destruídas pelas forças judaicas em 1948 (ou pouco antes e depois). Eu visitei recentemente as ruínas de uma aldeia palestiniana chamada Kafrayn, actualmente em Israel, numa visita com os Zochrot, que se descrevem a eles mesmos como “um grupo de cidadãos de Israel a trabalhar para elevar a consciência sobre o Nakba [“catástrofe”], a catástrofe palestiniana de 1948.”

O nosso grupo reuniu-se em casa de Adnan, um refugiado de um outra aldeia chamada Lajjun, que agora vive em Um El Fahim, em Israel. Um homem bem apresentado, nos seus sessenta e tais, Adnam recebeu-nos na sua sala de estar quando lhe pedimos para nos contar a sua história. O seu filho trouxe morangos frescos e chocolates antes de se sentar para traduzir o que o seu pai relatava:

“Eu lembro-me de Lajjun como num sonho. Eu tinha apenas sete anos quando chegaram os homens com armas, mas ainda me lembro bem claramente de algumas coisas. Lembro-me da minha escola, e do nome do meu professor. Eu lembro-me que tínhamos um centro comunitário para os visitantes, e a aldeia estava excitada porque um embaixador inglês planeava fazer uma visita. Nós trabalhámos durante semanas na renovação dos grandes jardins. Lembro-me que a aldeia tinha uma grande fonte e um sofisticado sistema de água. Israel consegui convencer o mundo de que os palestinianos eram um povo primitivo e sem educação até à chegada dos sionistas, mas isso é propaganda. Nós até tínhamos desenvolvido alfaias agrícolas como máquinas para virar o milho. Nós tínhamos uma boa educação e tínhamos boas relações com os nossos vizinhos judeus que viviam num kibbutz a alguns quilómetros de distância.



Adnan, em sua casa, segura um mapa da sua aldeia Lajjun e fala sobre as suas memórias de casa e de 1948.


Depois vieram os soldados. Eu lembro-me de dispararem a partir de um monte, balas a passarem por cima da minha cabeça enquanto corríamos. Nós fugimos para uma localidade chamada Taybi, e não levámos nada connosco – não tínhamos tempo, e presumimos que iríamos voltar quando a guerra acabasse. Em Taybi tivemos de pedir emprestadas umas tendas para vivermos. De alguma forma seguimos para Um El Fahim com milhares de outros refugiados, e temos estado aqui desde essa altura. A nossa aldeia tinha 44 mil dununs de terra agrícola [4400 hectares] e eles ficaram com cada um deles. Nós somos cidadãos de Israel, mas nunca nos permitiram regressar à nossa terra e às nossas casas. Nós somos refugiados no nosso próprio estado.

Entre 1948 e 1966, os palestinianos em Israel viveram da forma que os palestinianos vivem agora na Cisjordânia e em Gaza. Nós éramos prisioneiros nas nossas casas em Um El Fahim, em constante recolher obrigatório, controlados nos checkpoints [postos de controlo de civis], etc. Apesar de algumas restrições terem sido levantadas, como não-judeus nós ainda vemos geralmente recusada mais de 93% da terra em Israel, detida pelo estado ou pela Fundação Nacional Judia. Isso inclui a minha terra, a minha aldeia. Eles cercaram-na com uma vedação e nem nos deixam ir rezar à mesquita, uma das únicas estruturas que ainda está em pé. A mesquita pertence agora ao kibutz mais próximo, por isso os habitantes desse kibutz podem lá ir quando lhes apetecer.

Como é que Israel se intitula de democracia quando eu não posso ir à minha terra simplesmente porque sou de uma etnia diferente dos meus antigos vizinhos judeus? Que género de democracia é esta onde os partidos políticos não podem desafiar a moldura sionista exclusivista, mas eles podem desafiar os direitos da população indígena de cá permanecer? O ministro israelita dos Assuntos Estratégicos, Avigdor Lieberman, veio da Rússia há uns anos atrás e agora está a falar em enviar os palestinianos embora, nós que já estamos cá há centenas, se não há milhares, de anos! O povo judeu conhece a catástrofe e o sofrimento. Eles procuram a justiça para as suas próprias vidas… porque não para a minha?

Quase todos os residente mais velhos de Um El Fahim são refugiados internos de 1948, como Adnan. Eles vivem como cidadãos de segunda classe, recebendo menos serviços do que os seus comparsas judeus. Israel gasta uma média de 4 935 shekels [perto de 900 euros] por ano por cada estudante judeu, comparando com 862 [perto de 157 euros] por cada árabe. Nas palavras do deputado parlamentar israelita Jamal Zahalka, “Israel é um estado democrático para os seus cidadãos judeus, e um estado judeu para os seus cidadãos árabes.”

 

Vários residentes idosos de Um El Fahim acompanharam-nos na nossa viagem a Kafrayn. Foi uma coisa estranha, circular num autocarro à procura de uma aldeia que já não existe. Antes de chegarmos a Kafrayn, um ancião palestiniano chamado Muneeb deu um salto e começou a esbracejar: “É aqui! É a minha aldeia!” Eu virei-me para olhar para vários montes cobertos por árvores. Como muitas outras, a aldeia de Muneeb (perto de Kafrayn) tinha sido esvaziada de palestinianos e depois tinham sido plantados pinheiros de Jerusalém, de crescimento rápido, por sionistas que se gabariam mais tarde de “fazer florir o deserto”.


Aldeia de Kafrayn, vedada e designada como terreno militar e de pastagem. A maioria das terras dos refugiados palestinianos permanece vaga mas controlada pelos habitantes de kibutzes ou pela Fundação Nacional Judia, banida a palestinianos.

 

Muneeb apontou excitadamente em direcção a uma zona do monte: “Era por ali que eu costumava ir a pé para a escola! A ali era onde íamos buscar água! E ali – ali era a minha casa…”

De repente a voz de Muneeb tremeu e ele olhou para baixo, embaraçado. “Eu não devia ter vindo aqui hoje”, confessou ele, depois de se recompor. “É muito emocionante. Vocês estavam aqui há milhares de anos e sentem falta da vossa terra”, disse ele aos judeus do grupo. “Eu estava aqui há cinquenta anos e sinto falta da minha terra.”

O que mais me impressionou na nossa visita foi como tudo estava tão vazio. Ninguém vivia nas aldeias de Muneeb e Adnan, ou perto delas. As suas aldeias tinham sido transformadas em florestas, bases militares e pastos, controladas por habitantes de kibutzes por vezes a quilómetros de distância. Um israelita do grupo explicou-me que Israel normalmente desenvolve grandes projectos que ocupam muita área para manter o controlo sobre áreas vazias onde não quer que se instalem palestinianos. Quando nós chegámos a Kafrayn, encontrámos várias zonas vazias vedadas. Uma tinha um sinal “Bem-vindos à base militar 105”. Noutro local dizia “Perigo – Zona de Tiro – Entrada Proibida!”. Um terceiro sinal continha “Terra de pasto para gado”.

“Então eles deixam as vacas viverem aqui mas não os árabes?” Perguntei eu ao meu novo amigo.

“As vacas não têm aspirações nacionalistas” sorriu ele. “Para além disso, vês algumas vacas por aqui?” Ele tinha razão – não se viam nenhumas vacas, nem soldados já agora.


Um sinal a dizer “Bem-vindos à base militar 105” perto das ruínas da aldeia de Kafrayn.


Um sinal a dizer “Perigo – Zona de Tiro – Entrada Proibida!” perto das ruínas de Kafrayn. Não se vêem soldados mas os aldeões estão proibidos de regressar.

Um engano comum sobre os refugiados palestinianos é pensar que a implementação do direito de regresso iria criar uma nova crise de refugiados obrigando à deslocação de muitos israelitas. De facto, de acordo com o Dr. Salman Abu Sitta, um antigo membro do Conselho Nacional Palestiniano e investigador sobre assuntos dos refugiados, “78% [dos judeus israelitas] vivem em 14% de Israel. Os restantes 22% vivem em 86% da área de Israel, que é terra palestiniana. A maioria deles vive numa dúzia de localidades palestinianas. Uma pequena minoria vive nos kibutzes… Por isso, apenas 200 mil judeus estão a explorar 17 325 km2, que são a terra e a herança de 5 248 180 refugiados, encurralados em acampamentos e sendo-lhes negado o direito de regressar a casa” (ver o altamente recomendável Mapa do Nakba, do Dr. Abu Sitta, disponível em http://al-awdacal.org/shop.html).

Não se trata de um problema de espaço, é um problema de demografia. Permitir que os refugiados palestinianos regressassem iria ameaçar as características étnicas de Israel. Em vez de ser o estado dos judeus, poderia ter-se tornado um estado de pessoas que lá vivem, algumas das quais judias, outras não. Mas até que isso aconteça, o máximo a que as pessoas como Muneeb e Adnan podem aspirar é uma visita ocasional com alguns activistas judeus de longe a longe. Alguns dos sobreviventes da expulsão de Kafrayn que nos acompanharam na visita não tinham lá voltado desde 1948 – quase 60 anos. Eles andaram por lá, como se sonhassem, assinalando onde era o antigo cemitério e a escola. Um sobrevivente, Abu Ghasi, relembrou esta história ao grupo:

“Todos tínhamos ouvido falar do massacre de Deir Yassin uns dias antes, por isso quando as forças sionistas chegaram e começaram a disparar, fugimos todos. Aqueles de nós que sobreviveram esconderam-se num abrigo numa aldeia próxima, e passado pouco tempo ouvimos o estrondo que nos pareceu serem as nossas casas a explodir. Depois das forças judias terem ido, nós regressámos e encontrámos a nossa aldeia completamente destruída. Era óbvio que não tínhamos alternativa a não ser ir para outro lado qualquer, e eventualmente nós instalámo-nos em Um El Fahim."

Uma senhora de idade, do kibutz mais próximo, falou com os sobreviventes e todos concordaram que as suas comunidades se davam bem antes da expulsão. Eles recordaram um autocarro escolar que tinham partilhado, e a mulher confirmou a história das forças sionistas terem arrasado e bombardeado Kafrayn. A viagem acabou com um jantar entre os sobreviventes, habitantes dos kibutzes e o resto do grupo, perto da antiga fonte de Kafrayn, a principal fonte de água.

Alguém tinha pintado na fonte “Morte aos Árabes”, em hebreu, antes de chegarmos, mas nós não deixámos que isso nos impedisse de aproveitarmos a beleza natural à medida que várias pessoas foram falando. Uma mulher judia que tinha imigrado do Canadá para Israel há 27 anos atrás disse que precisou de chegar aos 20 para perceber realmente a verdade sobre o passado e o presente de Israel. Um homem perguntou à mulher habitante do kibutz se ela achava que os seus vizinhos palestinianos deveriam poder regressar, mas ela mostrou-se reticente a responder directamente, dizendo que era uma coisa complicada. Um homem israelita respondeu-lhe com frustração, dizendo, “Nós estamos aqui com 100 mil dunums [mil hectares] de terra vaga. Nós temos em Israel muitos refugiados internos desta terra que permanece vazia. Porque não dar às famílias um dos milhares de dunums para que eles possam voltar para as suas casas?”



Abu Ghasi aponta para o local onde era o cemitério de Kafrayn.

Um sobrevivente de Kafrayn também se dirigiu à habitante do kibutz: “Veja, todos nós queremos paz. É muito fácil de dizer, mas a paz requer que se faça um esforço. Eu perdi 60 anos da minha terra. Como é que pode querer que eu viva em paz com os judeus se eles me recusam o regresso à minha terra e os meus direitos?” Outro refugiado manifestou os seus sentimentos: “A paz não é um tipo de pessoa desfrutar da terra e outros proibidos. Se querem paz, partilhemos tudo. Vivamos juntos.”

Os refugiados palestinianos da nossa visita são os sortudos. Ao contrário dos dois terços de palestinianos que estão na diáspora, Adnan, Muneeb, e Abu Ghasi ainda estão aqui, na Palestina histórica. E apesar de não serem tão privilegiados como os judeus, eles não estão pelo menos a viver sobre ocupação como os seus comparsas refugiados em Gaza e na Cisjordânia. Este ano, eu passei o dia de Deir Yassin em Izbat At Tabib, uma aldeia com 226 refugiados palestinianos de 1948, cujas famílias se reinstalaram na Cisjordânia e têm enfrentado repetidas tentativas de serem expulsos novamente por parte de Israel. Quase toda a aldeia tem ordem de demolição para abrir caminho a estradas e ao Muro.

 

Para além dos massacres e expulsões do passado nunca terem sido oficialmente reconhecidos, a Nakba continua ainda hoje, de uma forma ou de outra, para todos os refugiados palestinianos, quer em Israel, na Cisjordânia, em Gaza ou na diáspora. Isto não é uma velha história – isto é agora, isto é urgente. A Nakba continua. Deir Yassin continua.

 

 


Texto da autoria de Anna Baltzer publicado pela Electronic Intifada a 2 de Maio de 2007. Tradução de Alexandre Leite. Outros textos e fotografias de Anna Baltzer podem ser consultados na sua página pessoal (http://www.annainthemiddleeast.com/) .

publicado por Alexandre Leite às 19:47
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