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Sábado, 9 de Junho de 2007

Sobre o boicote académico a Israel

Os académicos não gostam de boicotes académicos. De facto, nós detestamos limitações externas de qualquer género. Nós apreciamos as nossas universidades por serem um precioso santuário para o debate crítico (apesar de ele raramente ser feito) e nós não gostamos de ver nenhuma delas ser banida, mesmo por razões ostensivamente louváveis. Claro, há universidades nalguns países que são meras almofadas dos seus regimes. Mas normalmente isso não é por culpa delas. Por isso nós evitamos as palestras com a voz do estado em vez de as denunciarmos e protegemos as universidades para que possam fazer crescer esse raro ponto de luz.

 

Mesmo assim, em casos muito excepcionais, um boicote académico aparece na nossa agenda. Isto acontece quando as universidades de um país são reconhecidas como tendo um papel central na legitimação de um regime que sistematicamente inflige enormes abusos dos direitos humanos ao seu próprio povo, e qualquer pretensão de que as universidades são fortalezas independentes de livre pensamento intelectual, torna-se insultuosa para a consciência humana. Mas como universidades em muitos regimes opressores encaixam neste critério, na prática é requerida uma segunda condição: que as suas faculdades tenham a liberdade de agir de forma diferente.

 

Em países democráticos onde os abusos dos direitos humanos abundam tão descontroladamente, como em Israel, não é defensável que as faculdades admitam e promovam a ideia de que as suas instituições – jorrando os soldados profissionais e arquitectos da ocupação – não desempenham um papel nesses abusos, e que participem em associação como membros de topo no clube do ensino internacional. É especialmente indefensável quando as próprias universidades praticam discriminação na sua investigação, nos seus subsídios e nas políticas de admissão. As faculdades das universidades supostamente devem responsabilizar as suas instituições por certos níveis de objectividade, justiça, e não-discriminação. Quando são capazes de influenciar esses níveis e recusam, a incompetência torna-se hipocrisia. A paralisia moral torna-se culpabilidade moral.

 

Com estes argumentos, nos anos 1980, académicos internacionais descontentes lançaram um boicote académico à África do Sul do apartheid, cujas universidades estavam finalmente identificadas como bastiões da supremacia branca e cujas faculdades brancas, privilegiadas pela democracia racial, podiam ser responsabilizadas. De forma semelhante, vemos agora ser levantado um boicote às universidades de Israel, entre outros, pelo Sindicato das Universidades e Colégios Britânicos. Os académicos de Israel, muito naturalmente, estão consternados com a ideia de um boicote e o governo de Israel está preocupado que a ideia esteja a ganhar relevância. Daí uma delegação académica israelita ter de vir a Inglaterra para travar uma batalha contra o boicote com todas as bandeiras outrora desfraldadas pelos defensores do apartheid – “liberdade académica”, “equilíbrio”, “proporcionalidade” – e agora acenadas novamente.

 

Os argumentos dos académicos israelitas são de facto demasiado reminiscentes do apartheid da África do Sul para escaparem a comparações. Especialmente, os académicos da África do Sul tentavam vencer o boicote evitando discutir os abusos do apartheid. Os argumentos dos académicos israelitas contra o boicote também não discutem as razões para ele acontecer, que são a ocupação por Israel dos territórios palestinianos e a subjugação de quase quatro milhões de civis sob domínio militar. Em vez disso, eles enfatizam a necessidade de “equilíbrio” – que, no discurso de Israel é uma palavra código para desviar completamente a atenção da ocupação e reiterar a velha ideia da inocência de Israel, a vitimização, e a negação. E como não discutem a ocupação, eles não focam a responsabilidade das próprias universidades nela.

 

Qualquer que seja o nosso conceito de neutralidade política, os académicos nunca trabalham no vácuo. Em zonas de conflito, o nosso trabalho é inerentemente político como em qualquer outra actividade. Por exemplo, suspendamos momentaneamente a desconfiança e aceitemos que o que diz o professor Zvi Hacohen da Universidade Ben-Gurion, citado no jornal Ha’aretz (15 de Maio de 2007), que “há uma alargada cooperação entre as nossas universidades e as palestinianas e jordanas”, apesar de ele não especificar o que é a cooperação “alargada”. O seu argumento é dificilmente confirmado pelas faculdades palestinianas, das quais as únicas declarações públicas sobre a questão foram de apoio ao boicote.

 

Mas em qualquer dos casos, ele não pode pretender que essa colaboração seja apolítica, quando os colegas investigadores palestinianos são mantidos presos sob regras militares draconianas pelo seu próprio governo, e a ocupação está a destruir as esperanças das suas famílias na viabilidade das suas instituições e na segurança básica de toda a comunidade. Nem pode pretender que a sua universidade seja politicamente neutral quando subsiste em parte com privilégios obtidos por impressionantes violações dos direitos humanos e dirige investigações com o objectivo de preservar e fortalecer esses privilégios.

 

Ignorar tal cumplicidade não é ser neutral: é permitir. Promove uma capa de normalidade sobre uma chocante situação dos direitos humanos e ajuda dessa forma e protegê-la de um escrutínio.

 

Os defensores de Israel nesta controvérsia também protestam que o boicote viola a moral económica do trabalho académico. “Comunicação, compreensão e colaboração internacional é do que se trata neste campo”, disse a professora Miriam Schlesinger da Universidade Bar Ilan, a quem foi pedido que se demitisse da direcção de um jornal de traduções por ela ser israelita. No entanto, a comunicação, compreensão e colaboração com as universidades palestinianas é precisamente o que as universidades israelitas abandonaram de forma inaceitável. Em vez disso, os académicos israelitas estão ocasionalmente a permitir que instituições palestinianas rastejem até à sua porta, nas mãos do seu próprio governo, enquanto eles mesmos compartilham elevadas discussões nos decorados salões de Oxford e Cambridge.

 

Um terceiro argumento é que um boicote é demasiado indiscriminado, castigando os progressistas intelectuais israelitas em conjunto com reaccionários nacionalistas e com coniventes passivos. Schlesinger até lhe chama uma “punição colectiva” – uma referência infeliz, já que a ocupação feita por Israel e a brutalização de 4 milhões de pessoas é muitas vezes denunciado como uma punição colectiva e a frase sugere, mais uma vez, uma peculiar interpretação israelita da palavra ‘equilíbrio’. No entanto o castigo colectivo está errado quando falta uma responsabilidade colectiva. Os civis palestinianos de um campo de refugiados não são capazes de o controlar e daí não serem responsáveis pelo que alguns militantes façam para resistir à ocupação, e resistir à ocupação é, em todo o caso, um direito humano. Os professores israelitas têm a capacidade de tomar uma posição contra os abusos dos direitos humanos levados a cabo pelas suas instituições e sendo assim têm a responsabilidade moral de o fazer.

 

Assim sendo, é também uma falsa simetria moral que a Dra. Schlesinger equipare o seu direito a pertencer a uma direcção de um jornal académico com o direito dos estudantes palestinianos a terem ensino universitário. Foi-lhe negado o posto na direcção não apenas por ela ser israelita mas por ela ser cúmplice, pelo poder que ela tem através da sua nacionalidade e do seu trabalho, de uma brutal ocupação. Aos palestinianos é negado o direito e uma educação meramente por não serem judeus. A primeira proibição, mesmo que controversa, é um gesto moral; a segunda é um gesto racista.

 

Um quarto argumento é que Israel está a ser injustamente apartado. Por exemplo, como os EUA e a Grã-Bretanha se uniram recentemente para matarem, ou condenarem indirectamente à morte, centenas de milhares de pessoas no Iraque, seguramente que seriam mais indicados para um boicote. No entanto, este argumento assemelha-se ao grave apartheid da África do Sul, pois esse país tentou argumentar da mesma forma com a proporcionalidade e que o mundo não a aplicava. Os erros de estado não são medidos pela contagem de mortos, nem são ordenados pela sua gravidade mensurável. Se fossem, apenas nos poderíamos focar num conflito de cada vez.

 

Para mais, a ocupação de Israel da Cisjordânia e da Faixa de Gaza não é uma política externa errada. Todo o sistema estatal israelita – as suas leis, as suas políticas, a sua ideologia do estado judeu, os privilégios concedidos à sua sociedade nacional-judia – está implicado numa grande estratégia demográfica de excluir, aprisionar, e subjugar uns 50% da população do seu território apenas com base na sua identidade étnica. Isto distingue Israel de outros estados que se comportam de modo errado, caindo no especial abismo moral de um estado de apartheid.


Eis o busílis. O pequeno mas crescente boicote internacional a Israel mostra que o terreno político está a transformar-se, que a sua ocupação está a mudar de conceito, se bem que ainda não legalmente, num modelo de apartheid. A Convenção Internacional das Nações Unidas para a Supressão e Punição do Crime de Apartheid define “o crime de apartheid” como “actos desumanos”, tais como “a criação deliberada de condições que impeçam o completo desenvolvimento de um grupo ou grupos” ao negar “o direito à educação, o direito a sair e a entrar do seu país, o direito à nacionalidade [cidadania], o direito à liberdade de movimentos e residência, o direito à liberdade de opinião e expressão, e o direito à livre e pacífica associação e reunião”. A Convenção proíbe particularmente quaisquer medidas tomadas “para dividir a população por linhas raciais ou a criação de zonas reservadas e guetos”.

 

Se esta descrição não faz lembrar o domínio militar israelita sobre os palestinianos, então é difícil imaginar como será o apartheid fora da África do Sul ou como é que a Convenção possa vir a ser aplicada novamente.

 

Israel rejeita ardentemente a analogia com o apartheid, claro, baseando-se em parte no facto dos palestinianos não serem um grupo racial mas um grupo étnico ou nacional (definidos na negativa, como não-judeus). Para além disso, não é suposto que os palestinianos sejam cidadãos de Israel, mas em vez disso são considerados cidadãos de um estado não existente que poderá vir a existir no futuro. Mas quem olhar para os enclaves na Cisjordânia desmembrada e emparedada, não consegue imaginar que estes campos de prisioneiros sirvam para constituir um estado, e neste contexto a distinção entre etnia e raça perde todo o sentido. A palavra apartheid está por todo o lado, e o boicote é um sinal de que o paradigma do apartheid está a tocar a sociedade civil internacional. Os desafortunados académicos de Israel estão rapidamente a perder terreno para o seu crescimento.

 

Como eles estão em negação relativamente aos horrores da própria ocupação, os académicos de Israel que protestam contra o boicote podem não alcançar a sua verdadeira intenção, que é forçá-los a confrontarem esses horrores. Não é aceitável que eles insistam nos privilégios da ‘torre de marfim’ tendo uma catástrofe de direitos humanos tão terrível como a inqualificável ocupação, à sua porta, perpetrada pelos seus próprios governantes e envolvendo as suas instituições nessas crueldades e vilanias. Quando a Dra. Schlesinger ‘rebentou’ em protesto por ser tratada de acordo com a sua nacionalidade em vez da sua individualidade, ela realmente não percebeu a questão. Para reclamar o direito a um tratamento escrupuloso, é preciso estender isso também aos outros. Os académicos israelitas têm de falar a sério sobre estender aos seus colegas palestinianos a dignidade e o respeito que eles próprios esperam. Quando o fizerem, dados os seus formidáveis talentos e recursos, a ocupação enfrentará os seus mais duros opositores.





Virginia Tilley é uma cidadã dos EUA a trabalhar agora como investigadora no “Human Sciences Research Council” em Pretória. Ela é autora do livro The One-State Solution: A Breakthrough for Peace in the Israeli-Palestinian Deadlock.

 


Texto da autoria de Virgínia Tilley publicado a de 27 de Maio na Electronic Intifada. Tradução de Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 00:25
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