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Quarta-feira, 13 de Junho de 2007

A batalha pelos media é também sobre raça e classe

Os protestos na Venezuela são motivados por mais do que apenas uma estação de televisão. A oligarquia teme que esteja a perder o direito a governar o país.


Depois de 10 dias de manifestações rivais nas ruas de Caracas, foram reavivadas as memórias de tentativas anteriores de derrubar a revolução bolivariana de Hugo Chávez, que já vai no seu nono ano. As demonstrações de rua, que culminaram numa tentativa de golpe em 2002 e num prolongado encerramento da indústria petrolífera nacional, pareceram nessa altura o último recurso de uma oposição incapaz de se impor nas urnas. No entanto a actual agitação é um ténue eco desses tumultuosos acontecimentos, e a luta política está a ter lugar numa escala mais pequena. A batalha actual é pelos corações e pelas mentes de uma jovem geração confusa com o turbilhão de um processo revolucionário não programado.

 

Estudantes universitários oriundos de meios privilegiados enfrentam jovens recentemente emancipados dos subúrbios pobres, beneficiários do aumento de dinheiro do petróleo aplicado em projectos de educação para os pobres. Estes grupos distintos nunca se tinham encontrado, mas ambos os lados ocupam o seu campo de batalha habitual na cidade, um nas frondosas praças da zona este de Caracas, o outro nas ruas estreitas e apinhadas de gente da zona oeste. Esta batalha simbólica será cada vez mais familiar na América Latina nos anos vindouros: ricos contra pobres, brancos contra morenos e pretos, colonos imigrantes contra indígenas, minorias privilegiadas contra a grande massa da população. A História poderá ter chegado ao fim noutras partes do mundo, mas neste continente os processos históricos estão a todo o vapor.

 

Aparentemente, a discussão é sobre os media, e a decisão governamental de não renovar a licença de emissão de uma estação proeminente, a Radio Caracas Television (RCTV), e a entrega das suas frequências a um novo canal televisivo estatal. Quais são os direitos dos canais de televisão comercial? Quais são as responsabilidades dos canais financiados pelo estado? Onde fica o equilíbrio entre ambos? Questões académicas na Europa e nos EUA, mas o debate na América Latina é ruidoso e apaixonado. Aqui há pouca tradição de estações de televisão públicas, e as estações comerciais receberam as suas licenças nos tempos do domínio militar.

 

O debate na Venezuela tem menos a ver com a alegada ausência de liberdade de expressão do que com um assunto permanentemente delicado referido localmente como ‘exclusão’, um eufemismo para ‘raça’ e ‘racismo’. A RCTV não era apenas uma organização politicamente reaccionária que apoiou a tentativa de golpe de estado em 2002, contra um governo eleito democraticamente; era também um canal da supremacia branca. A sua equipa e apresentadores, num país com grande maioria de negros e descendentes de indígenas, eram invariavelmente brancos, como o eram os protagonistas das suas novelas e da publicidade que transmitiam. Era uma televisão ‘colonial’, reflectindo os desejos e ambições de uma potência externa.

 

No desfecho, numa festa de encerramento da RCTV no mês passado, o que se via mais no ecrã eram pulcras jovens loiras de cabelo comprido. Essas imagens dão um óptimo programa de televisão para jovens europeus e norte-americanos, e estas lânguidas loiras são de facto figuras familiares nas competições de Miss Mundo e Miss Universo, nas quais as filhas de imigrantes recém-chegados da Europa são invariavelmente as finalistas na Venezuela. No entanto, a sua ubiquidade na tela televisiva impede o canal de apresentar um espelho da sociedade que é suposto servir e entreter. Ver uma televisão comercial venezuelana (e ainda há várias) é imaginar que fomos transportados para os Estados Unidos. Tudo é baseado numa sociedade moderna, urbana e industrializada, algo distante da experiência da maioria dos venezuelanos. Os seus programas, argumenta Aristóbulo Istúriz, até há pouco tempo Ministro da Educação de Chávez (e um afro-venezuelano), encorajam o racismo, a discriminação e a exclusão.

 

Os novos canais financiados pelo estado (e também há vários, para além das inumeráveis estações de rádio comunitárias) estão a fazer uma coisa completamente diferente, e pouco usual no competitivo mundo da televisão comercial. Os seus programas têm a aparência de serem feitos na Venezuela, e mostram uma imagem da população que se vê nos autocarros e no metro de Caracas. Como em qualquer país do mundo, nem toda a gente na Venezuela tem uma beleza natural. Muitos são velhos, feios e gordos. Hoje têm uma voz e uma cara nos canais de televisão do estado. Muitos são surdos ou ouvem mal. Agora têm tradução para linguagem gestual em todos os programas. Muitos são agricultores com dificuldades de expressão. Mas também eles têm o seu lugar no ecrã. A sua actual e perigosa luta pela terra não está apenas a ser observada por um realizador de documentários vindo da cidade. Estão eles próprios a aprender a fazer os filmes.

 

Blanca Eekhout, directora da Vive TV, o canal cultural governamental, lançado há dois anos atrás, inventou o slogan “Não vejam televisão, façam-na”. Foram dadas aulas de realização de filmes por todo o país. Lil Rodríguez, um jornalista afro-venezuelano e director da TVES, o canal que substitui a RCTV, afirma que o canal se irá tornar “um espaço útil para recuperar os aqueles valores que outros modelos de televisão ignoram sempre, especialmente a nossa herança africana”. Com o tempo, os excluídos irão encontrar uma voz no ‘mainstream’.

 

Isto tem sido pouco debatido no diálogo de surdos nas ruas de Caracas. Para os estudantes universitários em protesto, o argumento sobre os media é apenas mais um pau para bater no continuamente popular Chávez. Apesar disso, enquanto eles lamentam a perda das suas novelas favoritas, já se aperceberam que a eventual perda pode ser mais substancial. Como filhos da oligarquia, eles podem ter expectativas de virem a dirigir o país. Agora, há cara novas a emergir das favelas para os desafiar, uma nova classe educando-se velozmente a ela própria e planeando reclamar os seus direitos.

 

Há apenas algumas semanas, Chávez delineou os seus planos para a reforma das universidades, encorajando um acesso mais aberto e o desenvolvimento de diferentes currículos. Novos colégios e institutos técnicos por todo o país, vão diluir o prestígio dos já estabelecidos, que continuam dominados pelos mais ricos, e a batalha pelos media irá brevemente submergir numa luta mais ampla pela reforma da educação. Chávez não dá importância às queixas e simplesmente avança, com as características de uma pregador evangélico: ele impulsiona as pessoas a terem vidas morais, viver de forma simples e resistir à sedução do consumismo. Embarcou num desafio à ordem estabelecida que durante muito tempo dominou a Venezuela e o resto da América Latina, tendo esperança que a mensagem da sua revolução cultural irá em breve ter eco em todo o continente.


 

Texto da autoria de Richard Gott (autor do livro “Hugo Chávez and the Bolivarian Revolution”), publicado no jornal britânico The Guardian a 7 de Junho de 2007. Esta tradução, de Alexandre Leite, foi previamente publicada em http://tirem-as-maos-da-venezuela.blogspot.com/ .

publicado por Alexandre Leite às 19:15
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