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Quinta-feira, 5 de Julho de 2007

Todos a bordo!

Apesar de me custar a admitir, às vezes a BBC mostra algumas coisas que valem a pena ver, não que isto tenha sido feito pela BBC, apenas o transmitiu, e era preciso que tivessem uma parabólica ou uma ‘box’ própria para o poderem ver.

Agora, não sei qual era a intenção do realizador, nem interessa muito, mas a verdade é que o documentário em duas partes “Monsoon Railway” (BBC4) foi fascinante e extremamente informativo, e por uma razão, é que é um retrato de como o industrialismo só funciona realmente quando é verdadeiramente uma tarefa colectiva. E quando eu digo funciona, não o digo sob a forma utilitária.

Alguns factos: a empresa de comboios da Índia (Indian Railways) é o maior empregador civil de pessoas no mundo e o primeiro acto do recém-nomeado Ministro dos Transporte foi anular uma decisão de substituir as chávenas de porcelana produzidas localmente, e usadas por toda a gente que circula nos comboios, por umas de plástico, porque a troca tinha como resultado 100 mil chávenas passarem a ser desnecessárias.

Todos os dias, 11 milhões de pessoas andam de comboio na Índia; só uma das estações é atravessada por 1 milhão de passageiros por dia.

Uma cidade, Kolgagar, no estado de Bengala, no norte da Índia, é a cidade do comboio, com todos os seus 100 mil habitantes directamente ligados à empresa de comboios.

O comboio está tão entranhado na cultura da Índia (já lá está há mais de 150 anos) que até tem o seu próprio Deus e as estações de comboio têm templos e altares para a sua veneração.

E deve ser a única coisa que os britânicos deixaram para trás com algum valor.

Hoje em dia, a empresa Indian Railways é propriedade do estado, e por exemplo, as suas tarifas são estruturadas de forma a subsidiar as tarifas dos pobres. E uma vez funcionário da empresa, a pessoa fica instalada para toda a vida, e ao contrário da visão corrente no ocidente sobre a forma como funcionam ( ou não) as empresas estatais, é evidente que os trabalhadores da Indian Railway estão bastante orgulhosos da sua rede.

Eu entendo que este é um bom exemplo de cultura socialista em acção. Pode não ser a empresa mais 'eficiente' do planeta, é incrivelmente burocrática, toda a rede – a maior da Ásia – se baseia em papeis, montes de papeis, grandes volumes são trocados entre os guardas quando mudam de turnos, e então?

O ponto aqui é que a Indian Railway para além de intrínseca da cultura indiana é também indispensável, socialmente e economicamente. Não é apenas uma empresa, pois agrupada à volta dela estão literalmente milhões de pessoas que não são empregadas directamente pela companhia de comboios, mas prestam serviços aos passageiros e à própria empresa.

Agora, comparando connosco, no chamado mundo desenvolvido, a Índia é um país pobre e onde efectivamente existe pobreza abjecta, mas ao mesmo tempo há algo a acontecer por lá, que emerge da forma como os funcionários dessa empresa se relacionam com as pessoas e os acontecimentos que os rodeiam.

Todas as estações de comboio têm um grupo de residentes permanentes, os rapazes da rua, órfãos e deslocados, que não apenas tentam vender algo às multidões mas que dormem nas estações. Abusados, espancados e até assassinados. Para apoiar estes jovens, os trabalhadores da Railway, apenas numa cidade, montaram 100 abrigos, considerando que como empregados da Railway eles são pessoas privilegiadas que devem partilhar a sua boa sorte.

Um funcionário da companhia sublinhou que ver estas crianças todos os dias da sua vida, simplesmente impedia-o de ignorar a sua condição, a vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Sem dúvida que de outra forma a consequência seria um mau karma.

Então o que é que se passa aqui? Julgava que o colectivo inibia a iniciativa individual, tornava todos iguais... Bem, não na Índia. Sem dúvida que se um 'consultor' ocidental pusesse aqui as mãos, iriam rolar cabeças, linhas iam ser cortadas, tudo em nome da 'eficiência', mas o facto é que a 'eficiência' não é a pedra-de-toque para medir os 'resultados' da Railway.

Em vez disso, a imagem que vemos é de uma empresa que funciona precisamente porque os seus empregados estão fortemente orgulhosos na Railway e no papel essencial que ela tem na vida indiana. É uma lição que temos de re-aprender e que realça porque é que o ataque às comunidades, aqui no ocidente, foi tão intenso e persistente. Não nos pode ser permitido lembrar como eram as coisas, pois acreditem ou não, há uma geração atrás, os trabalhadores em indústrias comparáveis, no Reino Unido, tinham atitudes semelhantes.

Desindustrializar o Reino Unido fez mais do que provocar centenas de milhares de desempregados, destruiu toda uma cultura, centenas de comunidades e de redes de relacionamento que faziam deles o que eles eram.

O Socialismo pode estar morto (por agora) mas a ideia não está certamente, ela vive e respira na Índia e em muitos outros lugares. Pode não ser perfeito, mas o que é que o é? As ideias socialistas quando realizadas, ao contrário das capitalistas, têm de ser 100% perfeitas, ou são julgadas como 'falhanços', mas isto também não é nada de novo.

A Indian Railway pode ser 'ineficiente' (para modelos capitalistas) mas, como todas as empresas sociais, ela resolve mais necessidades do que meramente as económicas. Não apenas ela une a Índia e o seu povo, como também é uma expressão de um etos para o qual não há um equivalente capitalista, nem poderá haver.

E sim, aos nossos olhos enviesados parece algo antiquado e fora de moda mas, se formos a ver, ela anda a passo pois são os trabalhadores da Indian Railway que realmente a movem.




Texto de William Bowles publicado a 1 de Julho em http://www.creative-i.info. Tradução de Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 20:09
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