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Sábado, 15 de Setembro de 2007

Quem disse que Marx não era Verde?

“Uma visão ecológica da economia é ter o suficiente, não é ter mais.” - John Bellamy Foster
Revisão do livro: “ Ecology Against Capitalism [Ecologia contra o Capitalismo] de John Bellamy Foster
“Pela primeira vez... a natureza torna-se puramente um objecto para a humanidade, puramente uma questão de utilidade; deixa de ser reconhecida como um poder em si mesmo; e a descoberta teórica das suas leis autónomas aparece apenas como uma manobra para a sujeitar às necessidades humanas, quer como objecto de consumo quer como meio de produção.” - Karl Marx, Grundrisse
A alguns de nós na Esquerda, parece-nos que reina a confusão na maioria do que resta da Esquerda, apanhada como está nas suas próprias quezílias internas, principalmente sobre quem disse o quê a quem e quando, por isso, quando sai um livro como Ecology Against Capitalism [Ecologia contra o Capitalismo], eu sinto-me muito bem 'vingado'!
E que não haja dúvidas, a abordagem de Foster é radicada no Marx Clássico, fomos nós que não compreendemos correctamente nos últimos 150 anos. Ao longo de todo o livro fica evidenciado porque é que isto é tão importante para a nossa actual situação, quer seja na sua análise da economia do capitalismo, quer na importância fundamental dos valores básicos como a humildade, o respeito e a justiça, não apenas para cada um mas também para a nossa casa, a Terra.
Não é que as pessoas valorizem mais o dinheiro, mas valorizam muito menos tudo o resto – não é que sejam mais ganancioso, mas não têm outros valores para compararem a ganância.”— Dee Hock, antigo dirigente do cartão de crédito Visa.
Para começar, com uma prosa lúcida e lógica, Foster mostra como e porque é que a própria natureza do capitalismo, o 'código genético' do capitalismo, é a fonte e a causa do nosso actual problema, e ainda mais importante, que por muito que se “conserte” o sistema, as coisas não se vão resolver e, de facto, “consertar” irá muito provavelmente aumentar a velocidade do deslize em direcção à catástrofe pelo simples expediente de adiar lidar com as inevitáveis consequências de uma economia que apenas pode sobreviver expandindo os seus mercados, ou como eufemisticamente se diz, o 'crescimento'.
É a Economia Capitalista, Estúpido
Há vários assuntos que necessitam ser compreendidos por qualquer um que se interesse suficientemente sobre o que se está a passar no mundo, que Foster desmonta, o primeiro dos quais é o papel fundamental da economia, pois sem compreender a natureza da economia capitalista, é impossível perceber quão periclitante é a situação, bem como dar os passos necessários para transformar o nosso mundo.
Foster cita uma nota confidencial de Lawrence Summers, na altura economista-director do Banco Mundial, escrita em 1991 e que chegou ao jornal Economist, tendo sido publicado num artigo intitulado “Let them eat pollution [Eles que comam poluição]”, que resume a atitude da classe capitalista e daqueles que lhe são servis.
“Aqui entre nós, não deveria o Banco Mundial estar a encorajar mais migração das indústrias poluentes para os PMD (Países Menos Desenvolvidos)? Lembro-me de três razões:
1) Os custos para a saúde atribuíveis à poluição dependem dos futuros custos pelo aumento de morbilidade e mortalidade. Deste ponto de vista os custos de saúde deveriam ser feitos no país com menores custos, que serão os países com salários mais baixos. Eu penso que a lógica económica de despejar um monte de lixo tóxico no país de mais baixo salário é impecável e devemos ter isso em atenção.
2) ... Eu sempre achei que os países pouco populosos de África estão bastante 'sub-poluídos': a sua qualidade do ar é provavelmente ineficientemente baixíssima [sic] comparada com Los Angeles ou com a Cidade do México...
3) ... A preocupação com um agente que causa uma alteração de 1 num milhão nas probabilidades de cancro da próstata, será obviamente muito maior num país onde as pessoas vivem até uma idade em que podem ter cancro na próstata, do que em países onde a mortalidade até aos cinco anos de idade é de 200 por cada mil... Enquanto que a produção é móvel, o consumo de um bom ar não é negociável. O problema dos argumentos contra todas estas propostas de mais poluição nos PMD (direitos intrínsecos a alguns bens, direitos morais, preocupações sociais, falta de mercados adequados, etc.) [é que eles] podiam ser devolvidos e usados com maior ou menor eficácia contra qualquer proposta do Banco de liberalização.” (pág. 60-61)

É bem verdade Sr. Summers! Nada como dizer as coisas como elas são. O Economist achou que a linguagem de Summers era “censurável” mas “a sua economia é de difícil resposta”, reforçando mais uma vez a visão de que a moralidade ou a ética no capitalismo são conceitos muito fluidos, determinados em primeiro lugar pelas exigências de acumulação de capital. Claro que o Economist reconheceu que para o capitalismo, Summers estava a esclarecer o negócio e apenas objectou que ele estivesse a dizê-lo em termos tão crus.

Quando o 'balanço' é medido puramente em termos de lucro, e se a vítima é essencialmente incapaz de se defender contra as pilhagens do capital internacional, então os pontos de vista de pessoas como Summers irão prevalecer. Reparem também no uso da palavra 'liberalização' por parte de Summers, a palavra-chave para os neo-liberais desde a década de 1970, ou seja, o vale tudo.

Apoiando esta visão do mundo está a noção, prevalecente desde a erroneamente chamada Idade das Luzes, nos séculos XVI e XVII, de que os habitantes do nosso planeta não são nada mais do que pequenas peças dum grande mecanismo.

“A nossa actual ordem social está confinada numa visão mecanicista da liberdade humana, e na relação humana com a natureza, directamente em conflito com imperativos ecológicos. Esta ênfase mecanicista da nossa cultura data da emergência da moderna visão científica do mundo, que apareceu com a economia capitalista mundial.” (pág.52)

O que resulta daí, e o que torna a luta tão difícil, é uma fachada de 'ciência' e uma visão da 'natureza humana' que se propõe ser objectiva e baseada em factos, mas Foster sublinha que,

“As descobertas nestas ciências como na Física e na Ecologia minaram a mecânica Newtoniana, que ainda não foi substituída por outra visão do mundo equivalente .” (pág.53)

Citando o grande físico David Boehm,

“Os valores... têm uma significância por trás deles... Se o universo significa um mecanismo e os valores nele implícitos, os indivíduos têm de se desenrascar por eles próprios. Com o mecanismo, os indivíduos são separados e têm de pensar primeiro neles. Nós estamos todos a empurrar-nos uns aos outros e toda a gente está a tentar vencer. A significância da 'integralidade' é que tudo está relacionado internamente com tudo o resto, e portanto, ao fim e ao cabo, não faz sentido ignorar as necessidades dos outros. De forma semelhante, se virmos o mundo como sendo feito de muitos bocadinhos, nós iremos tentar explorar cada bocado e acabaremos por destruir o planeta. No presente, não nos apercebemos adequadamente que somos um todo com o planeta e que todo o nosso ser e substância vêm dele.” (pág.53)

Até que as visões holísticas e relativistas do mundo substituam as interpretações mecanicistas, já fora de prazo, da realidade,

“A luta pelo bem-estar material do grosso da população, que já foi compreendida no passado principalmente em termos económicos, está cada vez mais a ter um contexto holístico ambiental. Por isso, será a luta pela justiça ambiental – a luta da inter-relação de raça, classe, género, opressão imperial e a depredação do ambiente – que irá provavelmente ser o elemento definidor do século XXI.” (pág.49)

Foster demonstra claramente que uma economia baseada na contínua produção e consumo de bens (maioritariamente desnecessários de indesejados), é estruturalmente incapaz de dar os passos necessários para parar a catástrofe que está prestes a acontecer.

“O capitalismo tem de ser visto como uma economia de custos por pagar.”— K. William Kapp, The Social Costs of Private Enterprise [O Custo Social do Empreendedorismo Privado]

E no processo de revelação da natureza capitalista, Foster destrói muitos dos grandes mitos, incluindo a falácia de que 'consertos' tecnológicos do capitalismo serão a solução, como por exemplo encontrar 'fossas' para o excesso de carbono que a indústria está a gerar, ou a ideia igualmente falaciosa que aplicando as 'leis' do mercado à natureza, o 'mercado' irá por si próprio resolver o problema do aquecimento global.

“Muita da economia ambiental procura por isso a criação de mercados para resolver os problemas da poluição e da degradação ambiental... Particularmente popular entre os políticos e economistas ambientais neoclássicos é a utilização do estado para estabelecer incentivos com base no mercado, tais como as licenças de poluição.

Toda a visão [económica] neoclássica, já não devem restar dúvidas nesta altura, se apoia na transformação do ambiente num conjunto de bens. Para além disso, é bem explícito o objectivo de ultrapassar as chamadas falhas ambientais do mercado, construindo mercados subsitutos de produtos ambientais. Se a degradação ambiental e a poluição forem evidentes, justifica o economista, é porque o ambiente não foi ainda totalmente incorporado na economia de mercado, e não está a funcionar de acordo com as leis da oferta e da procura. No entanto, o carácter falso da economia ambiental neoclássica torna-se evidente quando nos apercebemos que toda esta metodologia se baseia num mito utópico de que o ambiente pode e deve ser parte de um sistema de mercado auto-regulado.” (pág.29-30)

E de forma previsível isto é exactamente o que as corporações e os governos estão a fazer com todo o tipo de produtos e serviços que nos são vendidos como “verdes”. Mas como assinala Foster,

“A Natureza não é um bem produzido para ser vendido no mercado... Nem o mercado está organizado de acordo com as leis das preferências individuais de consumo... a 'mercantilização' da natureza.”

O outro mito dos economistas clássicos, o conceito de 'desmaterialização', isto é, a emergência duma chamada economia de conhecimento, aquilo a que os 'especialistas' chamam uma economia 'leve', também se revela uma fantasia, pois em termos absolutos, o volume de produção tem vindo a crescer apesar do facto de conseguirmos fazer 'mais por menos', o que em todo o caso tem acontecido sempre desde que a espécie humana existe.

“As características anti-ambientais inerentes ao capitalitsmo, como se pode ver pelo aquecimento global, estão em forte contraste com as visões daqueles que nos recente anos têm avançado com a noção de que o capitalismo não é uma ameaça e que contém nele próprio a solução para os problemas ambientais globais.” (pág.22)

Assim sendo, o capitalismo,

“representa... a alienação da natureza da sociedade, de forma a desenvolver uma relação unilateral, egoísta, com o mundo.” (pág.31)
Foster continua dizendo,
“Do ponto de vista ecológico, desde que a diversidade da vida seja um objectivo, o mercado é extremamente ineficiente comparado com a própria natureza... transformando florestas em bens, tem levado à sua degradação (isto, simplificando muito), a diminuir em vez de aumentar os domínios da natureza orgânica neste sentido.” (pág.33-34)
O capitalismo respondeu à crise que enfrentamos, tentando mercantilizar tudo, um processo que é tão velho como o capitalismo e que agora inclui o genoma humano e a reprodução humana e até os nossos cérebros (aquilo a que o economista ecologista-socialista Martin O’Connor chama “a fase ecologista do capital”).

Continuando a citar O'Connor, podemos ler,

“A imagem relevante já não é a do homem a agir sobre a natureza para 'produzir' valor, sendo a partir daí apropriado pela classe capitalista. Em vez disso, a imagem é da natureza (e da natureza humana) vista como incorporada no capital, regenerando-se a si mesma ao longo do tempo através de regimes controlados de investimento em todo o mundo, tudo isto integrado num 'cálculo racional de produção e trocas', com o milagre do sistema de preços a extender-se no espaço e no tempo. É a natureza concebida à imagem do capital.”

Há muito mais pontos neste livro que eu não referi aqui, mas para alguém que se intitule socialista ou que esteja à procura de explicações e de uma alternativa, esté é o livro a ler. A lógica de Foster, bem como a sua humanidade, são imperdíveis.


Há um ultimo ponto neste livro que tenho de trazer à atenção do leitor, e é talvez este ponto que é mais relevante para a nossa condição, aquilo a que Foster chama a “passadeira rolante global da produção”, na qual todos nós estamos metidos.

Foster divide-a em seis elementos:

1. A crescente acumulação de riqueza por uma secção da população relativamente pequena, no topo da pirâmide social.

2. O movimento de longo prazo de trabalhadores saindo do auto-emprego e indo para trabalhos assalariados que são contingentes da contínua expansão da produção.

3. A luta competitiva entre as exigências de negócio, com risco de extinção da manutenção da riqueza acumulada, e novas tecnologias revolucionárias que servem para expandir a produção.

4. Os bens são produzidos de forma a criar uma vontade insaciável de ter mais.

5. O governo torna-se cada vez mais responsável por promover o desenvolvimento da economia nacional, ao mesmo tempo que assegura algum nível de “segurança social”, pelo menos para uma parte dos seus cidadãos.

6. Os meios de comunicação e de educação dominantes fazem parte da passadeira rolante, servindo de reforço das suas prioridades e valores. (pág. 44-45)

Foster chama-lhe uma “grande gaiola de esquilo” na qual muitos de nós estão aprisionados, incluindo os investidores e gestores que são levados a expandir a sua escala de operações ou vêem morrer as suas corporações. É uma questão de correr cada vez mais depressa apenas para ficar no mesmo lugar.

“Visto desta forma, não são os indivíduos, agindo de acordo com os seus desejos inatos, mas antes a passadeira rolante da produção onde estamos todos colocados, que se tornou o grande inimigo do ambiente.” (pág. 45)


Os sublinhados são da responsabilidade do autor do texto, William Bowles. Texto publicado em Creative-I a 1 de Setembro de 2007. Traduzido por Alexandre Leite.

Ecology Against Capitalism de John Bellamy Foster, Monthly Review Press, 2002.

publicado por Alexandre Leite às 21:21
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