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Sábado, 13 de Outubro de 2007

Pequena localidade revolta-se no sul da China

Cidadãos ocupam o edifício do governo local, fartos das vendas de terrenos rurais comunais

 

Após anos de suspeição a fervilhar e de uma crescente revolta, os cidadãos de uma calma localidade do sul da China, com 3500 habitantes, decidiram que não estavam para aturar mais isto.

 

Ficaram perturbados com o que viram: os políticos locais pareciam ficar cada vez mais ricos e todas as outras pessoas a ficarem para trás, enquanto os terrenos que eram propriedade de toda a comunidade iam desaparecendo, para dar lugar a investimentos comerciais.

 

Os cidadãos locais quiseram saber como foram negociados estes terrenos e para onde estavam a ir as receitas daí provenientes.

Eles tinham direito a saber.

Por lei, os terrenos rurais – ao contrário dos urbanos – são propriedade de toda a comunidade, e são vistos como a pedra basilar para os camponeses da China ganharem a sua vida.

Por isso, a 2 de Julho, centenas de cidadãos cercaram o edifício municipal de Xiantang, exigindo examinar as contas.

Hoje – 101 dias depois – os cidadãos ainda aí estão.

Pode ser inédito na China moderna. Cidadãos não apenas a acusar os seus líderes de corrupção, mas a retirá-los do gabinete e a continuarem a ocupar o edifício da administração central – uma estrutura moderna, de cinco andares, enfeitada com uns inflamados cartazes vermelhos.

É uma visão surpreendente num estado autoritário.

“APOIAR O ESPÍRITO ANTI-CORRUPÇÃO DO SECRETÁRIO GERAL HU JINTAO”, grita um cartaz de 20 metros, invocando o nome do presidente chinês. “CONSTRUIR EM CONJUNTO UMA SOCIEDADE HARMONIOSA. LUTAR PARA ACABAR COM OS OFICIAIS CORRUPTOS QUE VIOLAM OS DIREITOS DAS PESSOAS”.


Xiantang

Imagem publicada no jornal japonês Daily Yomiouri

No interior do edifício, alguns cidadãos instalaram as coisas básicas para aí permanecerem, trazendo algo onde dormir, pequenos fogões e utensílios de cozinha. Outros apenas ocupam o edifício durante o dia.

Recentemente, numa tarde estavam cerca de 200 pessoas dentro do edifício.

Alguns têm perto de 20 anos. Mas muitos são de meia-idade ou já com cabelos brancos, e alguns têm mesmo para cima de 80 anos.

Todos pretendem um exame minucioso aos negócios do governo local e, encontrando algo de errado, querem que sejam instaurados processos.

Nas grandes e confortáveis instalações municipais, os cidadãos colocaram uma imagem do antigo líder Mao Tse-tung.

"Mao concedeu-nos esta terra", explica solenemente a cidadã Lai Shunyou, sentada numa das poltronas. "E eles [o governo local] venderam a terra a investidores, nas nossas costas!"

Lai Jiawen, com mais de 40 anos, fala apressadamente. "Se não os enfrentarmos agora, não vai sobrar nenhum pedaço de terra. Nós vivemos da terra. Mas agora não temos quase nada."

Ali perto, alguns dos mais idosos arranjam lugar para se sentar e ouvem atentamente.

"Estes idosos choram quase todos os dias", diz uma mulher, Li Jianrong.

A corrupção que envolve os membros de governos locais e os negócios de terrenos estão espalhados por toda a China.

O próprio governo central o disse abertamente.

No passado mês, um funcionário do Ministério do Território e dos Recursos anunciou uma campanha nacional para acabar com essa corrupção.

Gan Zangchun criticou os governos locais que têm "expandido arbitrariamente as áreas de desenvolvimento, violando os planos directores", afirmando que o governo central está preparado para agir. Dada essa intenção, os cidadãos daqui não compreendem porque é que o governo não veio em seu auxílio, a nenhum nível.

Nem a polícia se quis meter.

No passado dia 21 de Setembro, dois homens ligados à antiga administração local chegaram aos gabinetes e começaram a carregar caixas para uma carrinha, preparando-se para as levarem embora.

Alguns habitantes quiseram saber o que estava dentro das caixas. Quando os homens lhes disseram que eram "tortas da lua" – um doce tradicional chinês, típico das festas outonais – perto de 1000 pessoas bloquearam a passagem do veículo. Depois abriram as caixas e descobriram documentação contabilística municipal relativa a vários anos.

Até esse momento, os habitantes locais não tinham conseguido localizar os livros da contabilidade.

Os registos revelaram detalhes relativos a negócios de terrenos, aluguer de fábricas, e despesas de administração que eram desconhecidos da população.

“Havia milhões em receitas – que era uma novidade para os habitantes locais”, referia um curto mas detalhado resumo intitulado “Um apelo desesperado dos habitantes de Xiantang”, compilado por cidadãos e fornecido ao jornal Toronto Star.

Os cidadãos chamaram a polícia para registar uma tentativa de roubo dos livros da contabilidade, mas a polícia disse que o incidente ultrapassava a sua jurisdição.

“As pessoas sentiram-se ultrajadas”, disse Lai Shunyon.

Nos últimos 100 dias, os cidadãos enviaram delegações a vários níveis governamentais, fazendo apelo a uma investigação. Eles dirigiram-se à cidade de Longjiang, às autoridades distritais de Shunde, à cidade de Foshan, à província de Guangdong, e até ao gabinete de petições do governo nacional, que atende pedidos dos cidadãos de províncias distantes que julgam ter sido mal atendidas pelos governos locais.

Nenhum destes gabinetes os satisfez.

Uma dita investigação feita por uma equipa local, foi desconsiderada pelos habitantes que a consideraram uma tentativa de branqueamento.

 Eles sublinham que não era permitida a participação dos cidadãos.

Também se queixaram que as notícias sobre Xiantang estão a ser bloqueadas.

“Ninguém pode saber do sofrimento dos habitantes. Os repórteres estão proibidos de falar sobre isso,” diz uma carta dos cidadãos.

Nenhum dos jornais chineses de âmbito nacional, que são todos propriedade do estado ou controlados por ele, relatou o protesto dos cidadãos.

Apenas um jornal de Hong Kong, o The Sun, apresentou uma breve reportagem nos finais de Setembro.

Entretanto, sem o apoio do governo e sem cobertura mediática, os cidadãos dizem que passaram a ser alvo de intimidação e ataques vingativos, aparentemente originados da família e dos apoiantes dos políticos afastados do poder.

Eles dizem que os recentes “incidentes terroristas” incluem o incêndio da casa de um dos habitantes; o assalto a uma mulher de 60 anos à frente de outras pessoas no edifício municipal; espalhar óleo vermelho nas portas de mercearias e barbearias daqueles que participam na ocupação; e o bloqueio de uma porta da casa de um cidadão com uma toalha embebida em gasolina.

Os habitantes acreditam que a sua segurança e as suas vidas estão sob ameaça.

Mesmo assim, continuam a guardar as contas da localidade, na esperança de que “autoridades mais elevadas e sensatas” lhes façam justiça e ordenem finalmente uma investigação exaustiva.

Entretanto, um responsável que chegou esta semana à cidade de Longjiang disse que não podia comentar os acontecimentos de Xiantang e encaminhou as questões para o gabinete de imprensa de Shunde. Questões que repetidamente ficaram por responder.

E responsáveis do gabinete de imprensa da província de Guangdong recusaram responder a perguntas enviadas por fax a seu pedido.


 

Texto publicado no jornal canadiano The Star, de Toronto, a de 11 de Outubro de 2007. Tradução de Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 13:46
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