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Sábado, 10 de Novembro de 2007

Revolta na Dubaibilónia

Quem construiu Tebas, a das sete portas?

Nos livros colocamos os nomes dos Reis,

Mas os Reis, puxaram eles as pedras?

Babilónia, tantas vezes destruída,

Quem outras tantas a reconstruiu?

Em que casas de Lima Dourada

moravam seus obreiros?

Quando a Muralha da China foi terminada,

para onde foram os seus pedreiros?

Bertol Brecht, Questões de um operário letrado.

Dubai, nova Babilónia

Dubai, nova Babilónia


A nova Babilónia do século XXI chama-se Dubai. Este emirado petrolífero do Golfo entrou num frenesim faraónico e está prestes a transformar-se num verdadeiro pesadelo climatizado. Burj Dubai, a torre que vai dominar a nova Babilónia, será a mais alta torre jamais construída. O número de andares permanecerá em segredo até ao final da obra. Mas a máquina infernal acaba de empancar: os escravos revoltaram-se. Diremos em termos modernos, os operários entraram em greve.

A greve? É a única actividade exótica da qual não se pode falar nos Emirados Árabes Unidos. Interrogado no ano passado pelo programa ‘Envoyé spécial [Enviado Especial]’ da televisão France2 sobre as condições de trabalho dos operários imigrantes destes estaleiros babilónicos, o responsável local preferiu deixar a palavra ao seu conselheiro francês, que balbuciou: “Hmm, trabalhar nos Emirados, aqui não é a Segurança Social.”

Em 2005, os 10 milhões de trabalhadores imigrantes a trabalhar nos países do Conselho de Cooperação dos Estados Árabes do Golfo: Arábia Saudita, Sultanato de Oman, Kuwait, Baraine, Catar e Emirados Árabes Unidos (Abu Dabi, Ajman, Sharjah, Dubai, Fujairah, Ras Al Khaimah, e Umm Al Qwain) enviaram para os seus países 30 mil milhões de dólares. Um dinheiro ganho arduamente. Nas obras do Dubai podem estar 45º Celsius à sombra. Não há horários. Os estaleiros funcionam 24 sobre 24 horas. Para irem dos estaleiros até aos seus alojamentos, os quais foram apelidados justamente de ‘acampamentos’, os trabalhadores têm de esperar pelo seu autocarro durante horas. Para eles, o pesadelo não é mesmo climatizado.

Os patrões dos emirados petrolíferos começaram a proceder a uma substituição massiva da mão-de-obra a partir da primeira guerra do Golfo, substituindo os trabalhadores egípcios, palestinianos, jordanos, iraquianos e iemenitas por trabalhadores da Ásia, principalmente de 5 países: Índia, Bangladesh, Paquistão, Sri-Lanka e China. Os indianos são os mais numerosos. Do milhão e meio de trabalhadores indianos nos emirados, mais de metade trabalha no Dubai e 300 000 no Abu Dabi. Eles vêm geralmente de três estados da União Indiana: Rajasthan, Pendjab et Andhra Pradesh.

 

Estaleiro Burj Dubai

O estaleiro de Burj Dubai


Torre Burj Dubai

A torre que sobe (Janeiro 2006) …


Torre Burj Dubai

e sobe (Junho 2006) …


Torre Burj Dubai

e sobe (Outubro 2007) … até onde?

 

 

Estes são trabalhadores da primeira geração, antigos camponeses e operários agrícolas. Eles foram recrutados por agências de trabalho escravo ou imigraram ilegalmente para os Emirados. Recebem salários que vão de 93 a 131 euros por mês, por jornadas de trabalho de 12 horas ou mais. Depois de dois ou três anos, estes operários dão conta que estavam bem enganados: bem feitas as contas, eles teriam feito melhor se tivessem procurado trabalho numa das zonas especiais que aparecem como cogumelos na Índia, de Deli (Guraong) a Hyderabad (rebaptizada Cyberabad), onde ganhariam tanto ou mais, com a vantagem de estarem no seu país.

Em Junho passado, o governo do Dubai lançou uma campanha de regularização de operários sem autorização de residência, deixando-os escolher entre um bilhete de avião para regressar ao seu país ou uma autorização para ficarem. 280 000 deles preferiram partir. Perante esta rarefacção de mão-de-obra, assistiu-se a um duplo fenómeno: os trabalhadores perceberam que a conjuntura era boa para reivindicar aumentos salariais e melhores condições de trabalho e de via, e os patrões começaram a recrutar trabalhadores no Tibete e na Coreia do Norte!

Se as greves são exóticas nos emirados, elas não são assim tão raras: no Dubai, as últimas aconteceram em Março e Abril de 2006. 2500 trabalhadores contratados pela firma anglo-emirada Al Naboodah Laing O'Rourke para as obras de Burj Dubai, a famosa “torre mais alta do mundo” cessaram o trabalho e enfrentaram as forças de repressão (elas próprias compostas em parte por imigrantes, em geral iemenitas). Eles reclamavam coisas banais: um melhor salário (eles ganham desde 2,75 € para um normal trabalhador até 5,25€ por dia para um carpinteiro qualificado), assistência médica, um melhor tratamento por parte dos capatazes. Esta greve foi seguida, em Abril, por uma dos trabalhadores da marina de “New Dubai”, contratados pela Al Ahmadiyah Contracting Company. Houve confrontos violentos, seguidos pelas habituais expulsões dos ‘cabecilhas violentos’.

 

No sábado 27 de Outubro deste ano, abriu-se um novo ciclo de greves nos estaleiros da Dubaibilónia. Os primeiros a entrar em greve foram os trabalhadores da zona industrial de Jebel Ali e do bairro residencial em construção em Al Qusais. Eles enfrentaram a polícia à pedrada e destruíram algum material. Resumindo, um comportamento de “não civilizados”, como disse um alto funcionário dos Emirados. 4500 operários foram detidos. O governo anunciou inicialmente a sua expulsão, depois, sem dúvida levado à razão pelos patrões dos estaleiros, decidiu afinal expulsar apenas 159, dos quais 90 são indianos. Os outros 4300 retomaram o trabalho a 31 de Outubro. Os resultados imediatamente visíveis são magros: à entrada do Acampamento da Sonapur, um edifício de betão de 3 andares onde dormem os operários, a sociedade de construção afixou um anúncio avisando que dois médicos começarão brevemente a visitar os doentes. E o patrão também se comprometeu a pagar a instalação duma climatização no acampamento e a pagar as botijas de gás utilizadas pelos operários para aquecer a sua comida. Mas pelos vistos não pensa aumentar os salários.

 

A segunda greve começou nas obras da Arabtech Construction Company na quinta-feira, dia 1 de Novembro. Desta vez, são 40 000 trabalhadores, dos quais 10 000 originários de Andra Pradesh, que pararam o seu trabalho. As suas reivindicações são: aumentos dos salários, melhoramento das condições de transporte e alojamento e a supressão das multas (descontadas dos seus salários) infligidas sob quaisquer pretextos. As reacções não se fizeram esperar. O Ministério do Trabalho e a “célula dos direitos do homem” do Ministério da Polícia criaram uma comissão conjunta que visitou os acampamentos e discutiu com os grevistas. Foram feitas promessas de melhorias, especialmente, coisa incrível, a instauração de um seguro de saúde. Resumindo, algo que torna obsoletas as palavras o conselheiro francês acima citado. Os diplomatas indianos também entraram na dança e a sociedade de construção prometeu-lhes “rever os salários” dentro de dois meses. Os grevistas voltaram assim ao trabalho no sábado 3 de Novembro. E o general Dhahi Khalfan Tamim, comandante em chefe da polícia do Dubai fez uma declaração verdadeiramente extraordinária: “Nós poderemos abrir processos contra as empresas de construção que tratem os seus trabalhadores de forma inumana.”

 

Com a sua luta, os párias do Dubai fazem soprar um novo vento nos Emirados.

 

 

 

Texto de Fausto Giudice publicado na Tlaxcala a 5 de Novembro de 2007. Traduzido por Alexandre Leite.
publicado por Alexandre Leite às 20:00
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1 comentário:
De Alan dos santos silva a 10 de Abril de 2008 às 00:28
Essas construções estão previstas para terminar que mês?
Elas são muito boas as construções da nova Babilônia.

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