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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007

Tentando fazer a Quadratura do Círculo Climático

Afogar ou Nadar – A ‘escolha’ aparentemente é nossa, de acordo com Hilary Benn, mas apenas se conseguirem respirar debaixo de água e nadar.

Aqui no Reino Unido nós temos um ministro do ambiente, de seu nome Hilary Benn, filho do decano da ‘esquerda’ do Partido Trabalhista, Anthony Wedgwood-Benn, cujas oscilações pela direita e pela a esquerda já são lendárias (actualmente está algures naquilo que se diz ser a esquerda).

Wedgie, como é conhecido, renunciou ao seu ‘pedigree’ aristocrático para se tornar simplesmente o Wedgie Benn. Em todo o caso, Hilary (que parece ter perdido ainda mais do seu legado aristocrata) está anda nesta altura por Bali, onde a Conferência sobre as Alterações Climáticas acabou de chegar a uma conclusão dramática e foi entrevistado pela BBC Rádio 4 no dia 14 de Dezembro.

A conversa foi impressionante por aquilo que não foi dito, mais do que por aquilo que ele podia ou devia ter referido. Dito isto, Hilary pensa aparentemente que a ‘escolha’ é nossa, por exemplo, é da nossa ‘escolha’ usar as lâmpadas de baixo consumo ou viajar de avião apenas uma vez por ano. É isso ou calcular quantas viagens de carro são equivalentes a uma viagem de avião, faça a ‘escolha’, qual é que vai ser? Não estou a brincar, isto é o que o nosso erroneamente chamado ministro do ambiente disse a quem o ouvia quando questionado sobre o projecto de fazer uma nova pista para o aeroporto de Heathrow, duplicando o número de pessoas que irão usá-lo para 50 milhões por ano.

Pior ainda, ele continuou dizendo que nós podemos comer o bolo e ficar com ele, aparentemente não cabe a nós fazer essa ‘escolha’, é uma força da natureza sobre a qual o pobre Benjy não tem controlo. De acordo com Benjy, “nós podemos continuar a ter crescimento e reduzir o consumo.”

Francamente, para um homem com a inteligência e a formação de Benjy, esta foi uma embaraçosa demonstração de como evitar o ponto central: a economia.

Bem, eu não sei o que é que vocês acham, mas eu entendo que a palavra crescimento significa um aumento de produção de tudo que esteja ligado às nossas actividades económicas, o que, se pensarmos nisso, é o que quase todos nós fazemos durante quase toda a vida (chamam-se empregos ou trabalhos, em círculos menos prosaicos). Por outras palavras, na raiz da questão está uma coisa sobre a qual aparentemente não temos ‘escolha’, nomeadamente a forma como conduzimos as nossas actividades económicas.

E foi por isso que Benjy tentou de forma tão patética, e estúpida, fazer a quadratura do círculo climático, enquadrando-o com um sistema económico que tem de crescer para poder sobreviver.

 Acordo Climático selado com reviravolta dos EUA

“Eu penso que progredimos bastante,” disse Paula Dobriansky, chefe da delegação dos EUA. “A UE veio para as negociações exigindo que as nações industrializadas se comprometessem a cortar 25-40% até 2020, uma exigência que teve a oposição implacável de um bloco que incluía os EUA, o Canadá e o Japão.”

Mais à frente podemos ler

“A disputa foi resolvida com um texto que não menciona metas específicas de emissões mas que reconhece que “são necessárias profundas reduções nas emissões globais para atingir o principal objectivo”. — Sítio da BBC News, 15/12/07

Resolvida? Como é que pode estar resolvida se a verdadeira questão, as metas para as emissões etc., foi retirada do texto final? Tal como Benjy, a notícia da BBC evita engenhosamente, e distorce mesmo, a questão fundamental, a economia do capitalismo e a sua fundamental ligação à alteração do clima.

O ‘Roteiro de Bali’ é do género do ‘Mapa para a Paz’ no Médio Oriente, constituído por frases vagas e inúteis que os desobrigam, concordando em não concordar com nada verdadeiramente substancial.

As contradições bizarras tornam-se visíveis quando se investiga qualquer aspecto do crescimento capitalista. Para dar um exemplo, a destruição das florestas húmidas tropicais. Não muito longe de Bali, em Sumatra para ser preciso, onde foram derrubadas vastas áreas de floresta húmida para fazer, não casas ou mobiliário (por outras palavras, algo de realmente útil), mas sim caixas de cartão para a infinita gama de produtos que enchem os centros comerciais. Caixas de cartão que são depois deitadas fora aos milhões e algumas talvez acabem por ser ‘recicladas’, mas as florestas não podem ser ‘recicladas’.

A ligação entre ambos torna-se óbvia mas parece que não para o Benjy, que não vê nenhuma contradição entre o aumento do crescimento capitalista e o conceito tão mal tratado da ‘sustentabilidade’.

O problema pode parecer difícil de resolver, afinal nós precisamos de empregos para pagar as contas de todos os produtos que compramos (50% dos quais são comprados no Natal, eis uma ironia, na tradicional ‘altura de oferecer’).

Se algum dos nossos governos fosse realmente verdadeiro sobre a situação ele teria de admitir que a única solução é literalmente reformular completamente as nossas economias domésticas (a prazo, obviamente). E isso não significa despedimentos generalizados (aqui é preciso ver os estudos feitos para a conversão da ‘defesa’, por exemplo o ‘Project for Defense Alternatives’).

Mas as nossas classes políticas não o tencionam fazer pois não está nos seus interesses ‘morder a mão que lhes dá a comida’, e a comida estava óptima, obrigado. É por isso que indivíduos como Hilary Benn vão na onda; ele tem um incondicional interesse em manter o satus quo, o seu emprego e todas as regalias que o acompanham.

E a acrescentar ao desastre climático capitalista, o capitalismo entrou numa das suas crises periódicas (e possivelmente a última) mas sob condições nunca antes reunidas, onde a integração técnica do movimento do capital se liga inextricavelmente com as economias nacionais competidoras (quer elas queiram quer não). A velha frase, ‘A General Motors constipa e a Europa espirra’ tem agora um novo tom mais ameaçador: a usual anarquia económica internacional mas agora tem todos os competidores acorrentados entre si através de instituições financeiras globais, que por sua vez são os orgulhosos donos das grandes corporações que determinam o nosso futuro colectivo (ou a falta dele). É um frágil castelo de cartas, que só precisa de um empurrão para colapsar.

O ‘mercado livre’ mostrou que não consegue fazer nada para resolver a actual crise, foi de facto o ‘mercado livre’ que a causou. Vejam o Estado (usando o nosso dinheiro, é claro), que foi forçado a pagar a fiança a virtualmente todas as grandes instituições bancárias.

Numa jogada nunca vista, observamos as instituições bancárias como a Reserva Federal dos EUA, o Banco de Inglaterra e o Banco Central Europeu a juntarem-se para despejar milhares de milhões nos bancos privados, que estão todos enredados por não conseguirem pedir emprestado uns aos outros porque o custo do empréstimo é muito alto.

Até o nome desta última crise do capital, ‘contenção do crédito’, esconde as causas subjacentes. Encontrem, se forem capazes, uma notícia nos grandes meios de comunicação que revele o que realmente é a ‘contenção do crédito’, um sintoma recorrente da sobre-acumulação de capital, e da qual a marosca do sub-prime foi meramente um sintoma. Funcionou enquanto o dinheiro era ‘barato’, isto é, fácil de pedir emprestado, e como os bancos entravam nesta actividade (anteriormente ilegal, e se calhar ainda o é) diziam, ‘não há problema se eles não pagarem, simplesmente ficamos-lhes com as casas’.

Com dezenas de milhares de propriedades (efectivamente desvalorizadas) a pertencerem aos bancos, e sem ninguém com meios para as comprar, foram devastadas comunidades inteiras. Pior, a onda de efeitos sobre bairros inteiros apinhados de prédios é óbvia; os negócios locais vão ao charco à medida que as localidades se transformam em zonas fantasma.

Mas cunhar mais biliões de moedas desvalorizadas apenas protela o dia de apresentar contas, pois até um economista capitalista sabe que essa acção leva a inflação, o que significa que nos tempos seguintes ainda mais pessoas verão as suas libras, dólares e euros desvalorizados, e mais pessoas deixarão de pagar as prestações dos seus créditos, e as contas do cartão de crédito. É uma espiral viciosa sobre a qual os nossos governos não têm um controlo real sem intervenção directa.

 “Haverá uma outra crise?

“Sim.

“Haverá uma outra crise do crédito?

“Sim.

“Há alguma coisa que possamos fazer?

“Não.” — Alan Greenspan, Setembro de 2007

E por isso com a redução na taxa de juro quer aqui quer nos EUA, o que também faz aumentar a inflação, houve alguns reflexos na descida das acções em Wall Street com o anúncio da Reserva Federal.

Estas ‘curas’ não são mais do que remédios de curto prazo, não fazem nada relativamente às contradições subjacentes de um sistema económico encurralado entre a espada e a parede: expandir ou morrer. O problema é que sem realmente afastar os competidores (China, Índia, a UE, é só escolher) e abrir novos mercados para a mão cheia de corporações que controlam o ‘mercado global’, ou, como fizeram no passado, enormes guerras quem destruam toda a acumulação de capital que inunda o ‘sistema’ (para não falar em ‘resolver’ o caso dos excedentários no mercado de trabalho), não há nenhuma solução.

É isso que Iraque, Afeganistão, Palestina, Irão, Venezuela e outros locais no Sul são realmente, esqueçam a ‘guerra ao terrorismo’, é tudo por causa da economia política do capitalismo e do que ela precisa para se aguentar e quais os fins que pretende atingir de forma a consegui-lo.

O que é deprimente é que esta situação não é nova, tem vindo a acontecer há literalmente centenas de anos, mas agora é mais intenso por causa das interligações entre as grandes economias e pelo facto de muitas das mais valias geradas serem compostas por especulação financeira (que utiliza o circuito global do capital para imprimir dinheiro) ou pelos gastos no consumo (cerca de 60% do chamado PIB do Reino Unido, por exemplo, é composto por despesas de consumo). Por outras palavras, este mítico crescimento não passa de uma ilusão; o crescimento real, por exemplo em habitações a preços acessíveis, melhores cuidados de saúde e educação, transporte público decente e barato, que constituiriam um verdadeiro crescimento, é conspícuo pela sua ausência.

O ‘crescimento’ consiste num infindável jorrar de bens de consumo, todos eles extremamente dispendiosos em energia e recursos em todas as fases do seu ciclo de vida, um ciclo que fica cada vez mais pequeno à medida que as revoluções na produção entram num ritmo ainda mais frenético.

Só há uma maneira de isto ser feito de forma sustentável, e é com o estado a direccionar o investimento não para o benefício dos accionistas mas para o bem público. Há um mundo inteiro desesperado por desenvolvimento real.

Claro que se o Benjy dissesse a verdade sobre a situação ele perderia o seu emprego mais rapidamente do que consegue dizer ‘Roteiro de Bali’ (basta verem o que aconteceu a Michael Meacher, antigo ministro do ambiente, que ousou falar).

No que toca ao discurso público, a economia real é um assunto tabu, relegado para a secção de ‘economia’ dos grandes meios de comunicação, onde quem lá vai são só os interessados no valor da sua carteira de acções. Para os outros, as notícias sobre economia são mostradas como um fait accomplis, muito difícil de perceber e como se não houvesse nada que possamos fazer sobre isso.

Pelo contrário, somos apresentados como a causa das alterações climáticas, tardiamente reconhecidas como uma realidade, presos num ciclo de consumo/dívida, com os nossos futuros totalmente dependentes da manutenção de um sistema insano de contínua expansão da produção.

Não admira que a economia do capitalismo e a sua relação com as alterações climáticas e o avanço da pobreza, sejam um assunto tabu, pois admiti-los à discussão pública iria incomodar bastantes.

Por isso é melhor que a economia seja deixada sossegada, ou melhor, torná-la obscura e difícil de compreender, mistificando os seus processos. Melhor ainda, mostrá-la como uma ‘força da natureza’ sobre a qual nós não temos um verdadeiro controlo.


 

Texto de William Bowles publicado a 15 de Dezembro de 2007 em creative-i.info. Traduzido por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 13:00
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