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Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

Golpe de Estado na Academia

O que se denominou por Convergência Europeia do Ensino Superior, tem vindo a ser vendido como uma radical revolução educativa para colocar a Universidade ao serviço das novas exigências sociais. Na verdade, trata-se do equivalente a uma reconversão industrial no mundo académico. O seu objectivo é pôr a Universidade pública ao serviço das empresas. A receita é extremamente simples: o financiamento público será subordinado à prévia obtenção de “fontes de financiamento externas”, isto é, privadas. Na prática, isso significa que, de futuro, toda a geografia do mundo académico (disciplinas, cátedras, departamentos, faculdades, planos de estudos, projectos de investigação, etc.) se vê forçada a moldar-se aos interesses profissionais e às prioridades de investigação empresarial. Abre-se assim um abismo entre o edifício que se levantou sobre si mesmo com a lentidão própria da História da Ciência (26 séculos de diálogos, polémicas e esforços incansáveis de milhões de investigadores) e o imprevisível mundo das exigências empresariais, cada vez mais anárquicas e cada vez mais dependentes de capitais que se movem na Bolsa à velocidade da luz.

Ilustração: Enric Jardi

As universidades públicas teriam de poder ser financiadas com critérios académicos autónomos, que se conformem aos interesses da razão e não aos do mercado. Em muitas ocasiões há que garantir o financiamento público, precisamente porque não existe financiamento privado. Mas há já algum tempo (Bolonha 1999, Lisboa 2000, AGCS, Doha 2001, OMC 2005, etc.) que as autoridades europeias decidiram saltar para o outro lado do abismo. Não é que pretendam privatizar a Universidade; é muito mais rentável colocá-la ao serviço dos interesses privados. Ao verter financiamento público em projectos académicos que já gozam de “fontes externas” de financiamento, o que se faz clara e lentamente é subvencionar, com dinheiro público, actividades empresariais privadas (na mesma altura em que decai o financiamento público de actividades de interesse do cidadão que não sejam rentáveis). Ao mesmo tempo, as empresas apropriam-se de um exército de bolseiros pagos com os nossos impostos e que trabalham para elas e para os seus interesses mercantis próprios.

É mais um passo naquilo a que Galbraith chamou “a revolução dos ricos contra os pobres”, as empresas não se conformam em pagar cada vez menos impostos: agora querem também o dinheiro dos contribuintes. E a isto chamou-se “pôr a Universidade ao serviço da sociedade”.

Para a apresentação à sociedade desta nua e crua reconversão mercantil da Universidade, contou-se com a ajuda dos pedagogos. Eles eram imprescindíveis para disfarçar a mercantilização com roupagens de uma revolução educativa progressista e liberal, contra a suposta rigidez das estruturas académicas. O que as empresas necessitavam, como sempre, era de “flexibilidade”, e a gíria dos pedagogos era a única que podia ter esta temível palavra com tons progressistas e inclusive esquerdistas e anti-autoritários. Havia que perder o respeito às rigorosas distinções do edifício científico e advogar a “formação contínua”, “flexível”, “transversal”, e “psicoafectiva” de um profissional todo-o-terreno, capaz de estar em todo o momento à altura e à medida das necessidades ingovernáveis de um mercado laboral cada vez mais imprevisível e demente. Para formar este tipo de profissional não são precisos cientistas, mas sim treinadores: pedagogos e psicopedagogos capazes de adestrar pessoal para a Olimpíada de um mercado laboral vertiginoso.

O resultado foi uma suicida animosidade em relação aos conteúdos académicos e científicos, que se soma a uma brutal mutilação de conteúdos específicos e que já era exigida pela mercantilização. A redução da duração e profundidade científica de muitas Licenciaturas substanciou um verdadeiro naufrágio académico. Para suprir o défice de especialização, o aluno deve pagar – se o seu bolso permitir – um curso de formação avançada.

Ora bem, é neste ponto em que a manobra dos pedagogos supõe um verdadeiro golpe de Estado nas relações Academia-Profissão que afecta todas as carreiras de cariz teórico (Física, Matemáticas, Filosofia, História, etc.) que têm como saída profissional maioritário o ensino médio. Um Anexo à Lei ECI/3858/2007 (27/12/2007) [em Espanha] institui como requisito para concorrer ao lugar de professor de secundária, ter cursado um Master de Formação de Professores (MFP) destinado a formar competências de psicologia, pedagogia, psicopedagogia e didáctica aplicada. Trata-se, obviamente, de ampliar um ano (e a preço de master) o actual “Certificado de Aptidão Pedagógica” (CAP). Este curso pedagógico nunca foi avaliado objectivamente, dado que não há ninguém com um mínimo de vergonha que se atreva a duvidar dos seus nefastos resultados.

As consequências são muito graves para a Universidade e também para o Ensino Secundário e para o Bacharelato. A maior parte dos alunos universitários que pensem na sua profissão, optará por cursar o MFP e não um dos estudos avançados em filosofia, linguística, física ou biologia. A médio prazo, isso sentencia de morte os mestrados de quase todas as faculdades teóricas e clássicas. Mas o pior é o perfil do professor de secundária a que se aspira. Já não um professor que saiba filosofia, física ou gramática, mas um assessor psicopedagógico de um material humano o qual, na realidade, já se deu por perdido: os alunos em geral de todo o ensino público. Mas isto não é uma solução mas sim um agravamento de um problema cujas raízes são de carácter social, económico e político, não académicas.

Em resposta ao MFP, algumas Direcções de Faculdade começaram a assinar um manifesto acordado na Faculdade de Filosofia da UCM [Universidade Complutense de Madrid] (A Profissão de Professor, http://fs-morente.filos.ucm.es/). Os seus argumentos são muito moderados, mas merecem ser escutados.

Texto de
Carlos Fernández Liria (professor titular de Filosofia na Universidade Complutense de Madrid) publicado pelo jornal espanhol Público a 31 de Março de 2008. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala.
publicado por Alexandre Leite às 20:00
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