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Quinta-feira, 10 de Abril de 2008

Pico do Solo + Pico do Petróleo = Pico de Espólios

Ver parte 2

Em nome do avanço “para lá do petróleo”, Grandes Petrolíferas, Gigantes da Genética, governos, investidores e outros, estão a fazer parcerias que irão alargar o controlo corporativo de mais recursos em todo o globo – mantendo entretanto intactas as causas das alterações climáticas. Com alguma relutância em reconhecerem que a primeira geração de agrocombustíveis não é económica nem é ecológica, os investidores viram-se para outras tecnologias vivas, incluindo biologia sintética, para o novo plano de combustíveis alternativos.

Tema: Nos países da OCDE, grandes incentivos governamentais e subsídios – estimados em 15 mil milhões de dólares/ano – estão a fomentar os agrocombustíveis [1] e a estimular alianças inéditas que alargam o poder corporativo sobre uma grande parte dos recursos mundiais [2].  Grandes Petrolíferas, Grandes Agrícolas, Grandes Cabeças (e outros) estão a unir-se para colher os únicos benefícios certos dos agrocombustíveis – mais lucros. Neste comunicado, o ETC Group delineia as novas alianças corporativas fomentadas pela corrida (e que a fomentam) aos combustíveis “bio”. Também incluímos uma nova vaga de investidores corporativos que estão a apostar que os biólogos sintéticos consigam transformar os micróbios em fábricas de produção de combustível.

Impacto: Com a prosperidade dos agrocombustíveis, a terra e o trabalho do Sul estão outra vez a ser explorados para perpetuar os padrões de consumo injusto e insustentável do Norte. Culturas de combustível estão a competir com culturas de alimentos – e os pequenos agricultores e os consumidores pobres estão a perder. Como são necessárias grandes quantidades de energia para fazer estes cultivos, os agrocombustíveis de primeira geração (a partir de cultivos como o milho e a canola) podem afinal acelerar, em vez de parar, as alterações climáticas. O Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento avisa que as consequências das alterações climáticas poderão ser “apocalípticas” para algumas das pessoas mais pobres do planeta. Em face de impactos catastróficos das alterações climáticas, é inaceitável impor os riscos acrescidos e o fardo dos agrocombustíveis à parte Sul do globo. A última coisa que o Sul necessita é de pressão para fazer culturas de combustíveis em vez de culturas de alimentos. Como os agrocombustíveis não são ecologicamente nem economicamente eficientes, os adeptos da biotecnologia estão a promover uma nova geração de matérias-primas e técnicas para acelerar a produção de combustível, incluindo árvores trabalhadas geneticamente. Estas alternativas vão apresentar uma pilha de problemas.

Apostas Financeiras: Os cultivos para produção de energia, os cultivos energéticos, são o segmento do mercado agrícola mundial em maior crescimento. De acordo com estimativas da indústria, o mercado global potencial para biocombustíveis líquidos poderá crescer dos 11 mil milhões de galões por ano [cerca de 41,3 mil milhões de litros], em 2006, para 87 mil milhões de galões [cerca de 327 mil milhões de litros] em 2020. O mercado global de agrocombustíveis era de 20,5 mil milhões de dólares em 2006, e prevê-se que cresça até 80,9 mil milhões de dólares numa década [3]. Nos países da OCDE, investidores e multinacionais estão a usufruir de cerca de 15 mil milhões de dólares anuais em incentivos governamentais para os combustíveis alternativos.

Política/Acção: Por todo o globo, organizações da sociedade civil (OSC) estão a exigir o fim do crescimento dos agrocombustíveis. Nos EUA e na Europa, OSC estão a pedir uma moratória sobre incentivos aos agrocombustíveis, incluindo a suspensão de todas as metas, subsídios e financiamento através dos mecanismos de comércio do carbono. A moratória deveria ser adoptada por todos os governos. Estruturas instaladas que encorajem o transporte insustentável de matérias-primas, pessoas, e produtos, devem ser contestadas. Os governos não conseguiram antecipar os impactos negativos sociais, económicos e ambientais, da primeira geração de agrocombustíveis. Os governos que se vão reunir em Roma na Conferência de Alto Nível da FAO sobre Segurança Alimentar Mundial e os Desafios da Bioenergia e das Alterações Climáticas, de 3 a 5 de Junho de 2008, devem rejeitar os agrocombustíveis de primeira geração e evitar os impactos negativos das alternativas da segunda geração. 


Cenário: De acordo com os apologistas dos agrocombustíveis, os há um sem fim de benefícios dos cultivos energéticos. Como uma alternativa limpa e verde aos combustíveis fósseis, dizem eles, os agrocombustíveis vão criar empregos, alargar os mercados para os agricultores (especialmente no hemisfério sul), limpar o ar, combater o aquecimento global, promover a independência energética, tornar produtiva a terra “infértil”, assegurar a uma população preocupada que os governos estão a combater as alterações climáticas, demonstrar que as corporações estão a pensar “verde”, e por aí fora.

Dois relatórios recentes – “Agrocombustíveis: Fazendo uma verificação com a realidade em nove áreas chave” (Junho de 2007) e o número especial da revista Seedling, editada pela GRAIN, sobre os agrocombustíveis (Julho de 2007) – confirmam que os anunciados benefícios dos agrocombustíveis são meros fantasmas verdes [4].

O Pico do Solo [5] é Idêntico ao Pico do Petróleo: Em nome da “energia sustentável”, milhares de agricultores e comunidades indígenas foram forçados – muitas vezes de forma violenta – a sair das suas terras para dar lugar a cultivos para produção de energia. Terrenos (incluindo zonas pantanosas, que se calcula que armazenem 30% de todo o carbono terrestre) estão a ser queimadas e limpas para permitir plantações de monoculturas. Isto são “desertos verdes” (muitas vezes com cultivos de soja e milho geneticamente modificados), que destroem a biodiversidade e consomem doses massivas de químicos (fertilizantes e pesticidas [6]).Tanto os alimentos como os combustíveis derivam das mesmas plantas, por isso os preços dos alimentos sobem acompanhando a exigência de mais cultivos para produção de energia. As alterações climáticas vão exacerbar a insegurança alimentar do Sul. A pressão para cultivar “energia” em vez de alimentos será uma dificuldade acrescida.

Mesmo um relatório que circulou na Mesa Redonda de Setembro de 2007 da OCDE reconhece a natureza destrutiva dos agrocombustíveis. “Biocombustíveis: É a Cura Pior do que a Doença?” avisa: “A corrida às colheitas energéticas ameaça provocar falta de alimentos e danificar a biodiversidade, com benefícios limitados [7].” (Pouco depois das discussões na OCDE, lobistas da Associação de Combustíveis Renováveis e da Associação Europeia de Combustível Bioetanol exigiram que a OCDE recusasse o documento.) Por causa da natureza insustentável e claramente contraproducente dos agrocombustíveis, a sociedade civil está a pressionar os governos a recuarem nas metas designadas para o uso de agrocombustíveis [8]. Mesmo assim, os incentivos governamentais (incluindo subsídios) para o cultivo de agrocombustíveis estão no seu auge. De acordo com a ONU, as colheitas energéticas são o segmento do mercado agrícola mundial em maior crescimento [9]. A produção global de agrocombustíveis duplicou nos últimos cinco anos espera-se que duplique novamente nos próximos quatro [10].

 

Agrocombustíveis: A Verdade Realmente Inconveniente

Acrescentar aos combustíveis fósseis uma pequena percentagem de agrocombustíveis, como alguns governos (principalmente do Norte) começaram a ordenar, não faz nada para romper – de facto, perpetua – as estruturas económicas e sociais que encorajam o transporte de matérias-primas, pessoas e produtos por todo o mundo, todos os dias. A agricultura já é um contribuinte importante para as emissões de carbono – responsável por 14% das emissões globais, a mesma percentagem que os transportes – por isso, não podemos parar as alterações climáticas fazendo aumentar dramaticamente a produção cultivos energéticos [11]. Mais ainda, os agrocombustíveis não encorajam mudanças no voraz consumo de energia do Norte – nem ameaçam os lucros das Grandes Petrolíferas. De acordo com projecções, o consumo de petróleo vai aumentar uniformemente, apesar do crescimento dos agrocombustíveis, e em 2030, o crude irá continuar a ser o combustível dominante – perfazendo 33% do consumo global de energia, que é apenas uma pequena diminuição da sua actual percentagem (38%) [12]. As Grandes Petrolíferas passarão do petróleo para combustíveis de base biológica para compensar perdas em parcelas do mercado.

Agrocombustíveis 1.0: Açúcares fermentados oriundos de cultivos para produção de energia (cana de açúcar, milho, soja, canola e jatrofa, por exemplo) representam a primeira geração de alternativas ao petróleo. Mas depois desta primeira geração de agrocombustíveis, ainda não está bem definida qual será a linhagem familiar seguida. Não se sabe qual tecnologia estará primeiro disponível no mercado e como irá interagir com as tecnologias ainda em desenvolvimento. As alianças corporativas mostradas na Tabela 2 reflectem uma vasta gama de aplicações tecnológicas para lá da primeira geração de agrocombustíveis.

O consumo de combustível tem vindo a crescer em todo o mundo, e calcula-se que o consumo global de energia aumente mais de 50% até 2030 [13]. O petróleo irá permanecer como rei num futuro previsível (ver Caixa 1, acima). Em vez de olharem para os agrocombustíveis como uma ameaça, as Grandes Petrolíferas vêm uma oportunidade de diversificação. Com um mercado global de agrocombustíveis de 20,5 mil milhões de dólares em 2006 (calcula-se que cresça para 80,9 mil milhões de dólares numa década) e mais de 10 mil milhões de dólares em incentivos governamentais, as companhias petrolíferas estão ansiosas por colher os únicos benefícios garantidos dos agrocombustíveis – aumento de lucros das corporações [14]. A Tabela 1 mostra como as Grandes Petrolíferas estão a fazer equipa com as Grandes Agrícolas, Grandes Companhias de Automóveis e “Grandes Cérebros” (Academias) para promover e lucrar com os cultivos energéticos de primeira geração. Também se juntam as Gigantes da Genética para assegurar o domínio das sementes dos agrocombustíveis e a propriedade intelectual.

O que é que vem pelo Oleoduto?


O espectro do pico petrolífero espicaçou a procura de novas fontes de energia de base biológica (mas pouco entusiasmo com a diminuição do consumo energético). O leque de potenciais fontes de combustível é grande – desde algas e gordura animal, até microorganismos, passando pelos eucaliptos geneticamente modificados, entre muitos outros. Ninguém sabe ao certo quais as tecnologias que se irão suceder na produção de mais energia e de mais lucros. Petrolíferas gigantes como a BP estão a diversificar os seus investimentos para assegurarem o salto para qualquer que seja a alternativa que se mostre ser a mais promissora. Mas não pensem que vão ser adoptadas primeiro as opções mais produtivas e/ou menos danosas para o ambiente: os governos poderosos e as corporações vão trabalhar em conjunto para determinar as vencedoras – as tecnologias que melhor sirvam os seus interesses.


A Caminho: Combustível Celulósico Os agrocombustíveis de primeira geração são simplesmente muito ineficientes para representarem mais do que uma gota no barril global de petróleo (apesar de poderem causar muitos danos às pessoas e ao planeta. Assim sendo, continua a busca por tecnologias mais eficientes de produção de combustíveis. A alternativa que actualmente está a conseguir mais notoriedade (mas pouca energia) são os combustíveis celulósicos. A ideia do combustível celulósico torna todas as plantas, vivas ou mortas, e todas as partes de plantas, em matéria-prima para combustível – não apenas aquelas partes das plantas que contêm açucares e que são facilmente extraídas e fermentadas. O dramático aumento das potenciais fontes de combustível da “biomassa” vegetal é a principal atracção do combustível celulósico, o que foi salientado por George W. Bush no seu discurso do “Estado da União” em 2007. O presidente dos EUA disse, “Nós temos de continuar a investir em novos métodos de produção [de combustível] – usando tudo, desde aparas de madeira até ervas e desperdícios agrícolas [15].”

A velha piada diz que se pode fazer de tudo a partir da lenhina, excepto dinheiro.” – Andy Aden, investigador no Laboratório Nacional de Energias Renováveis, em Golden, Colorado (EUA), comentando a dificuldade de converter biomassa rica em lenhina em combustível [16]

Com a promessa do combustível celulósico, as corporações estão a vislumbrar uma cor verde ainda mais carregada. Mas há barreiras técnicas para atingir essa visão. Aparas de madeira, ervas, massarocas de milho e árvores, não são actualmente matéria-prima atractiva para agrocombustíveis, pela mesma razão que não são atractivos para a alimentação (humana): são difíceis de degradar e de serem transformados em energia. Apenas certas enzimas microbianas (algumas das quais existem no sistema digestivo dos ruminantes) conseguem digerir e transformar a celulose disponível nestas plantas em hemicelulose. Outro obstáculo é o elevado conteúdo de lenhina. A lenhina, presente em quase todas as plantas, é responsável pelo transporte de água e desempenha um papel importante na capacidade da planta de sequestrar carbono. Mas não é digerida pelas enzimas e apenas pode ser dividida por certas bactérias e fungos. Em geral, quanto maior o conteúdo de lenhina, mais rígida é a planta e mais difícil se torna para as enzimas atingirem a celulose e dividi-la em hemicelulose.

Apesar de ainda não estar desenvolvida uma forma barata e eficiente de produzir combustível celulósico, as empresas e governos estão a focar muita energia nesse desenvolvimento e investigação, com os EUA e a China a tomarem a dianteira. De acordo com uma firma de estudos de mercado sedeada no Reino Unido, a New Energy Finance, os investidores capitalistas investiram 235 milhões de dólares no desenvolvimento de combustível celulósico em 2006 [17]. Em 2006, o governo central da China divulgou que iria gastar 5 mil milhões de dólares durante os próximos dez anos para expandir a capacidade do etanol, com um enfoque no etanol celulósico [18]. O Programa de Biomassa do Departamento de Energia dos EUA (DE), administrado pelo Gabinete de Eficiência Energética, tem um robusto orçamento de 224 milhões de dólares para 2007. O DE irá investir 385 milhões em seis fábricas de etanol celulósico nos próximos quatro anos (2007-2010) e irá colaborar com a indústria para desenvolver enzimas para converter biomassa celulósica em biocombustíveis.

A indústria e os governos estão a seguir por dois caminhos para obter combustível celulósico mais eficiente em termos de custos (eventualmente, esses dois caminhos podem cruzar-se). Uma avenida é reformular a biomassa vegetal para que possa ser mais facilmente convertida em combustível:

Lenhina geneticamente alterada em árvores: Apesar de preocupações de cientistas e protestos da sociedade civil, as empresas de biotecnologia estão a tentar alterar geneticamente árvores com reduzido conteúdo de lenhina para criar matéria-prima mais eficiente para combustível. A Arborgen, com sede no sudeste dos Estados Unidos, lidera o esforço de alterações genéticas em árvores. Como primeiro passo, a companhia está a desempenhar um papel importante num consórcio internacional para sequenciar o genoma do eucalipto. O eucalipto é actualmente a árvore mais valorizada para produzir fibras e papel, e pode tornar-se igualmente importante como matéria-prima para agrocombustível com pouca lenhina [19]. Em Agosto de 2007, a Arborgen anunciou que tinha adquirido os viveiros e sementeiras de três empresas – a International Paper e a MeadWestvaco nos EUA, e a Rubicon Limited na Nova Zelândia e Austrália [18]. De acordo com a Arborgen, estas aquisições “acrescentam operações de produção líder a nível mundial, vendas e distribuição” ao seu negócio principal de “obtenção de árvores adultas” [19]. A Arborgen está a posicionar-se para controlar a cadeia completa, desde a árvore até ao depósito.

A outra via é o uso de biologia sintética para alterar as enzimas, fungos e bactérias para degradarem a biomassa e produzir o combustível. Em Outubro de 2007, a Genencor Inc., que faz parte da Danisco – uma multinacional produtora de ingredientes alimentares e de açúcar – começou a vender uma mistura de enzimas que a empresa afirma estar formulada para degradar a celulose em hemicelulose para combustível [22]. A Novozymes A/S, uma empresa dinamarquesa de biotecnologia também focada nas enzimas, está a colaborar com o centro tecnológico da indústria brasileira de cana-de-açúcar (Centro de Tecnologia Canavieira) para desenvolver a obtenção de etanol a partir do bagaço – um subproduto da produção de açúcar a partir da cana-de-açúcar [23].

Outros investigadores na área da biologia sintética almejam transformar células microbianas em “fábricas químicas vivas” para as induzir a fabricarem substâncias que não fabricariam naturalmente. Uma colaboração de investigação Genencor-DuPont, por exemplo, teve como resultado uma bactéria E. coli alterada que produz um químico útil chamado 1,3-propanodiol (usado em revestimentos, adesivos, solventes e anticongelantes) [24]. Foi conseguido, alterando as vias metabólicas da bactéria. Dentro de uma célula, ocorrem uma série de reacções químicas – desencadeados e reguladas por enzimas. As reacções químicas ocorrem de forma sequencial: imaginem peças de dominó alinhadas – deitar abaixo a peça da ponta, pode desencadear reacções em todo o alinhamento. A série de reacções químicas que compõem o metabolismo da célula – que regula a forma como a célula usa e armazena a energia – é muitas vezes apelidada de “cascada”. As representações visuais de vias metabólicas (em conjunto com as reacções químicas que ocorrem) baseiam-se em diagramas como os dos circuitos electrónicos, dando uma ideia da sua complexidade e das suas interligações. Os cientistas perceberam como manipular estas vias, de forma a definirem quais as reacções que vão ocorrer, alterando os químicos assim produzidos. Em teoria, com suficiente manipulação orientada, qualquer substância química poderia ser produzida desta forma, por isso não é surpreendente que a bioprodução de combustíveis seja o foco de grande parte da investigação da biologia sintética.

Biologia Sintética – O desenho e a construção de novas partes, mecanismos, e sistemas biológicos que não existem no mundo natural e também o redesenhar dos sistemas biológicos existentes de forma a desempenharem determinadas tarefas.


A empresa Amyris Biotechnologies, com sede na Califórnia, anunciou em Setembro de 2007 que reuniu 70 milhões de dólares num fundo de investimento para produzir biogasolina, biodiesel e biocombustível para aviões através de fábricas celulares da biologia sintética [25]. Três anos antes, a empresa obteve ampla cobertura mediática quando a Fundação Gates lhe doou quase 43 milhões de dólares para um projecto para manipular as vias metabólicas da E. coli de forma a produzir ácido artemisínico. A planta Artemisia annua, que é actualmente muito procurada, deixaria de ser necessária [26]. O sucesso na produção de artemisina a um baixo custo, para o tratamento da malária, está ainda para acontecer.

Os trabalhos da Amyris com biocombustível envolvem a mesma tecnologia que o projecto da artemisina: as vias metabólicas de um micróbio são alteradas para que produza uma substância útil e de grande procura pela indústria. Os combustíveis da Amyris são produzidos por fermentação, e a fermentação necessita de açúcar. Actualmente, a matéria-prima de eleição desta empresa é o açúcar de cana, mas poderá vir a ser o milho ou outra fonte celulósica. A Amyris afirma que já alterou vias metabólicas de micróbios para que eles fermentem o açúcar de forma eficiente, para produzir um combustível de hidrocarboneto do género do petróleo, em vez do usual álcool. A empresa diz que a vantagem é que a actual infra-estrutura – incluindo os motores dos automóveis e os oleodutos – não necessita de ser modificada. De facto, a tecnologia de combustível sintético da empresa substitui a necessidade de uma substância com impactos ambientais negativos e com uma disponibilidade limitada (o petróleo), por uma outra substância com impactos ambientais negativos diferentes e com uma disponibilidade limitada (o combustível sintético derivado da celulose de plantas). O combustível sintético da Amyris requer enormes quantidades de cana-de-açúcar ou outra matéria-prima à base de celulose, o que significa que não representa uma solução para o Pico do Solo, mesmo que pudesse, em teoria, solucionar o Pico do Petróleo. A Amyris está presentemente a negociar com o gigante retalhista Costco e com a Virgin Fuels, empresa formada em 2006 por Sir Richard Branson, para vender o seu combustível sintético [27].

A indústria dos biocombustíveis é como o Velho Oeste durante a Corrida ao Ouro….” – Doug Cameron, Director Científico, Khosla Ventures

A Amyris é apenas uma no meio da multidão de empresas de biologia sintética baseadas na Califórnia que tentam converter biomassa em combustível, alterando vias metabólicas de micróbios envolvidos na fermentação. A Solazyme, uma nova empresa virada para as vias metabólicas de micróbios marinhos, está à procura de parceiros empresariais e de investigação académica para aplicar a sua tecnologia de produção de combustível [28]. A LS9, fundada em 2006 com capital das firmas Khosla Ventures e Flagship Ventures, é outra empresa de biologia sintética que espera produzir combustíveis a partir de uma variedade de plantas, que seriam compatíveis com a infra-estrutura de combustíveis líquidos já existente. A Khosla Ventures está a investir em mais de uma dúzia de empresas de combustível de origem biológica [29], incluindo a Gevo, Inc., uma outra empresa de biologia sintética. A Gevo pretende transformar biomassa em butanol e isobutanol, dois combustíveis à base de álcool que contém ligeiramente mais energia do que o etanol. A Gevo tem apoio da Virgin Green Fund, uma empresa de investimento afiliada da Virgin Fuels.

Outras empresas estão a explorar diferentes técnicas para colocarem organismos vivos a produzirem combustível. A BP é líder, formando parcerias com empresas ligadas à investigação do genoma, empresas de biologia sintética e investigadores do sector público, prometendo novos combustíveis usando tecnologias inovadoras de bioprodução. A Synthetic Genomics, Inc., a empresa privada fundada pelo gigante da genética J. Craig Venter, anunciou em Junho de 2007 que a BP fizera um investimento accionista na empresa para sequenciar o genoma de micróbios que ocorrem naturalmente no petróleo, gás natural, carvão e xisto betuminoso [30]. O objectivo é aplicar o que for aprendido com o estudo de micróbios que metabolizam petróleo para projectar novos organismos que possam ser capazes de produzir um combustível como o hidrogénio ou outros químicos [31]. Os detalhes financeiros do investimento da BP não foram revelados.

Ultrapassando a Primeira Geração de Agrocombustíveis com as TI


O etanol celulósico via engenharia genética e biologia sintética não irão longe sem a ajuda das Tecnologias de Informação (TI). Por exemplo, o papel da genómica, que é fortemente dependente da bioinformática – a gestão e análise de dados biológicos – será crucial no desenvolvimento das plantações OGM para a segunda geração de biocombustíveis. As empresas de TI estão a tornar-se mais visíveis e a envolverem-se directamente na investigação de biocombustíveis. Em 2006, a Microsoft ofereceu meio milhão de dólares para apoiar projectos de investigação sobre “os desafios computacionais na biologia sintética [32].” J. Craig Venter, Presidente Executivo da Synthetic Genomics, Inc., afirma que pode ser possível vir a criar novos organismos para produzir combustível directamente. Ele mostra-se entusiasmado com a ideia de usar os computadores mais potentes do mundo – como os do Google – para “caracterizar todos os genes do planeta. [33]”. Mas estaremos prontos para as vontades de uma união BP, Google e Monsanto?
BPoogleMon?


Preocupações com a Biologia Sintética


Quem tem advogado a rota da biologia sintética insiste que transformar micróbios em fábricas é a chave barata para os biocombustíveis e para os químicos farmacológicos e industriais. Craig Venter disse recentemente à revista New Scientist que, num prazo de vinte anos, ele espera que a biologia sintética “se torne a norma para fazer tudo. [34]” E pode ser esse o problema. Organismos feitos-à-meida podem igualmente passar a ser fábricas de bioarmas, assim como fábricas de combustível e de medicamentos. Mas o perigo não é apenas o bio-terrorismo; é também o “bio-erro” – acidentes na biologia sintética que causem danos inesperados à saúde humana e ao ambiente [35]. A experiência com a biotecnologia agrícola mostrou que a intenção de controlar de forma precisa não é suficiente para a contenção dos organismos geneticamente modificados, assim que eles estão nos campos agrícolas. Os organismos vivos, os sistemas e mecanismos da biologia sintética, serão igualmente difíceis de conter e controlar.


Em 2006, 38 organizações da sociedade civil enviaram uma carta aberta para a comunidade da biologia sintética, expressando preocupação pela ausência de um debate na comunidade sobre as implicações na saúde, no ambiente e socio-económicas, e pela ausência de uma regulação supervisora [36]. Há uma enorme complexidade envolvida na criação de novas formas de vida: Como é que se pode evitar a sua acidental libertação para o ambiente ou avaliar os efeitos da sua libertação intencional? Quem as controlará, e como? Como será regulada a investigação? Deveremos originar vida desta forma, quando as questões ambientais e de segurança humana são tão vastas? Quem deverá decidir?

A Tabela 2 mostra alianças que estão a desenvolver diversos projectos para além da primeira geração de agrocombustíveis. Alguns colaboradores pretendem produzir combustível celulósico usando matéria-prima geneticamente alterada, mas outros estão a caminhar por diferentes avenidas, por exemplo, usando algas como um potencial milagre verde ou microorganismos geneticamente modificados que possam processar ou produzir combustíveis.

Qual é o problema do combustível celulósico? Governos e empresas presumem que irão ultrapassar as barreiras técnicas para comercializarem combustível celulósico – talvez durante a próxima década – mas quais são as implicações, se conseguirem eventualmente alcançar o santo Graal? O que acontecerá quando toda a matéria das plantas passar a ser uma potencial matéria-prima para combustível? Quem vai decidir o que é ou não resíduo agrícola?

Se a ideia do combustível celulósico se concretizar e a procura de biomassa das plantas aumentar drasticamente, levanta-se uma multitude de preocupações ambientais e sociais. Helena Paul da EcoNexus, Almuth Ernsting da Biofuelwatch e a escritora científica Alice Friedemann, entre outros, delinearam os pontos ambientais mais prementes [37]:

  • O aumento da produção de biomassa em solo designado como “inútil” ou “marginal” irá provocar um aumento do uso de pesticidas e herbicidas.

  • A remoção de resíduos de plantações dos campos de cultivo irá causar uma diminuição na produtividade do solo e um consequente aumento do uso de nitratos fertilizantes, causando mais emissões de óxido nitroso.

  • A remoção de resíduos de plantações dos campos de cultivo irá aumentar a erosão do solo e diminuir a retenção superficial. [38]

  • A remoção de árvores mortas ou fracas das florestas irá provocar uma diminuição da biodiversidade e diminuir a capacidade florestal de sequestrar carbono.

  • Muitas plantas identificadas como boas candidates para a segunda geração de agrocombustíveis são prejudiciais ao ambiente como espécies invasoras (por exemplo, miscantos, erva panicum, capim-amarelo).

  • Há alto risco de passagem de genes de árvores com redução de lenhina por modificação genética para florestas naturais, com impactos desconhecidos para o ambiente e a biodiversidade.

Em 2008, o ETC Group irá publicar um estudo sobre a ideia da “economia do açúcar”, na qual os combustíveis e químicos industriais são produzidos por fermentação, relacionando-se com a biologia sintética.

Texto da autoria do ETC Group publicado em Dezembro de 2007. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala.

Ver parte 2

publicado por Alexandre Leite às 19:54
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1 comentário:
De Hans-Jürgen Franke a 20 de Setembro de 2008 às 06:59
PRODUÇÃO DE ETANOL COM ALGAS
UMA RESPOSTA À AMEAÇA DE PEAK-OIL & OIL-CRASH

O Prof. Pengcheng "Patrick" Fu da Universidade de Hawaii (EUA) desenvolveu uma tecnologia inovativa, produzindo em escala etanol com cyanobacterias modificadas (blue-green-algae). Esta fonte nova de etanol não entra em conflito com a produção de ração e de alimentos e consome ainda CO2 no seu cultivo no sistema de photo-bio-reator de baixo custo, usando a luz solar.

Fu já desenvolveu cepas de cyanobacterias, que produzem etanol como resíduo e ganhou uma patente mundial com a sua invenção.

O teste no laboratório de biotecnologia em Hawaii utilizou photo-bio-reatores (PBR) com luz artificial e com luz solar. O sol funciona melhor, diz Fu. Transformando um resíduo em uma coisa útil é uma solução importante. As “blue-green-algae” necessitam somente sol e como nutrientes também um pouco açúcar, especialmente à noite no período sem insolação, usando o resultado da produção tradicional de cana, um pouco melasse. Assim temos uma solução interessante para a indústria do setor sucroalcooleiro.

Brasil e outros países tropicais ganham deste modo uma segunda opção, processando o etanol com o novo feedstock micro-algae. Assim cana de açúcar & algas podem atender juntos a grande demanda de etanol do mercado mundial. A produtividade de algas por hectare é no mínimo 10 até 20 vezes maior do que o rendimento da cana, dependendo só da verticalização do cultivo da altura do sistema de photo-bio-reatores verticais. Assim o Brasil poderia produzir mais e mais etanol, usando menos espaço. A produção em massa de etanol com algas poderia ser realizada em grande parte no Nordeste do país, perto dos portos marítimos, estimulando assim a capacidade de exportação desta região carente.


A tecnologia da empresa La Wahie Biotech vai ser ajustada agora para preparar uma planta experimental com alto rendimento, uma BIOFÁBRICA DE ETANOL DE ALGAS, um desafio técnico para o futuro próximo.

Professor Dr. Pengcheng Fu possui passaporte chinês e americano, foi convidado recentemente pelo Governo da China, de estruturar em Beijing um projeto piloto de etanol de algas. A equipe da empresa La Wahie Biotech Inc. em Hawaii coordena ações da matriz da empresa start-up e de uma ONG criada, da FUNDAÇÃO LA WAHIE INTERNATIONAL.


No Brasil está em fase de implantação uma filial em Aracaju-SE; representante é o Professor alemão Hans-Jürgen Franke, especialista em bioenergia.

Fu começou a formação em engenharia química, depois continuou com biologia. Ele estudou na China, Austrália, no Japão e nos Estados Unidos.

Ele trabalha também com a NASA, pesquisando o potencial energético de cyanobacterias para futuras colonizações na Lua e no Marte. Recentemente a empresa La Wahie Biotech ganhou avards e prêmios no campo de Pesquisa e Desenvolvimento. Daniel Dean e Donavan Kealoha, ambos estudantes da Universidade (law, technology and business) são parceiros de Prof. Pengcheng Fu.

Fu diz, que a produção de etanol na base de plantações do agrobusiness como cana de açúcar ou ainda milho é bastante lenta e gasta muitos recursos. Por esta razão ele optou para as cyanobacterias, que convertem a luz solar e o nocivo dióxido de carbono na sua alimentação e deixam como resíduo oxigênio e etanol.

Alguns cientistas pesquisam cyanobacterias para fabricar etanol, usando diferentes cepas. Mas a técnica de Prof. Fu é única. Ele resolveu inserir material genético dentro de um tipo de cyanobacterium, e agora o produto de resíduo é somente etanol, separado no circuito do sistema de photo-bio-reator através de uma membrana. Funciona muito bem, fala Prof. Fu.
O benefício é que a tecnologia de Prof. Fu começa produzir em poucos dias grandes quantidades de etanol com custo inferior do que técnicas convencionais.

O parceiro de Prof. Fu no Brasil - na representação da empresa La Wahie Biotech Inc. em Aracaju - Prof. Hans-Jürgen Franke – está coordenando o desenvolvimento de um sistema de photo-bio-reator de baixo custo. Prof. Franke vai articular agora projetos pilotos no Brasil.

Com o sequestro de dióxido de carbono (CO2) a tecnologia revolucionária de produção industrial de etanol de La Wahie Biotech Inc. serve ainda, para combater o aquecimento global.

Honolulo e Aracaju, 15 de Setembro 2008


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