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Sexta-feira, 8 de Dezembro de 2006

A Raça Importa

Nestes dias, escrever sobre “raça” é como por o pé em ramo verde, especialmente se formos branquinhos, mas não se escapa do facto de que o tema da raça é central a praticamente todos os grandes assuntos do nosso tempo. De facto, pode ser argumentado que desde que o imperialismo deixou de ser um brilho no olhar de alguns banqueiros e comerciantes do séc. XVI, definiu a forma como o mundo “evoluiu”.

“A raça importa” [Race Matters] é o título de um livro bem influente escrito pelo “teólogo da libertação” Cornel West, na década de 1980. O título, propositadamente com dois sentidos, pois para além ser importante ter em conta a raça, foi também importante na definição do nosso actual estado das coisas, tendo o tema da raça sido um ponto de clivagem entre dois mundos, o dos que têm e o dos que não têm. Entendo que, sem unirmos estes dois mundos, estamos condenados, pois a questão da raça permite aos estados imperialistas dividir e reinar, como tem feito durante séculos.

Para alguns isto é óbvio, tão óbvio que dividir e reinar tem sido um mantra para a Esquerda, deixando ainda por responder a questão de como se deve lidar com o assunto, pois o tema é sensível e muitos recusam-se simplesmente a debatê-lo, tão poderosos são os demónios que a palavra carrega.

Para alguns, é o sentimento de culpa, para outros, uma mistura de ideias erradas sobre a natureza do racismo, uma situação que as elites dominantes perceberam bem e a exploraram até ao tutano. Jogando com os medos das pessoas, por um lado, e por outro, com os seus sentimentos de culpa por serem “brancos” e a noção subjectiva que ser branco implica uma inapreensível vantagem sobre os que o não são.

Portanto, caímos numa confusão sobre quem somos e sobre o que realmente significa ser branco ou ser preto. Tenho argumentado que o conceito de branco ou de preto é uma ideia inteiramente subjectiva, mais ligada à “cor” da nossa mentalidade, do que à cor da pele, um estado talvez mais bem ilustrado pelo conceito de “de cor” existente na África do Sul. Sem surpresas, os Americanos Pretos passam dificuldades ao lidarem com a noção Sul Africana de “de cor”, vindo eles de uma cultura onde se é, ou branco ou preto (pondo de lado a questão dos Latinos, Asiáticos, etc).

Talvez uma melhor forma de aprofundar o assunto é incluir o género na luta que enfrentamos com a verdadeira libertação do domínio do capital, pois em ambos os casos, a raça e o género não são apenas conceitos fluidos, definidos pelo contexto e história mas são também centrais nos modos como o capital foi capaz de agarrar o planeta e dividi-lo nos últimos 500 anos.

Masculino e feminino, tal como preto e branco, divisões óbvias (e convenientes) entre as pessoas, mas também conceitos fluidos que quando vistos cultural e historicamente, nem um nem outro significam o que muitos imaginariam (e gostariam) que fosse. Para além disso, questões sobre o género, tal como a raça, tocam o coração de questões sobre a identidade. Por isso, não surpreende que aqueles que atravessam a “linha do género” se encontrem em situação parecida com aqueles que atravessam a “linha da raça”.

Ambos provocam profundos sentimentos de insegurança e medo engendrados por uma sociedade que construiu as suas fortunas precisamente em três condições fundamentais da existência, a raça, o género e a classe. Vistas separadamente, não se consegue nenhuma solução, mas observá-las colectivamente é uma imensa tarefa, sendo por isso um desafio para nós, revolucionários [revos], expor as raízes históricas subjacentes às três.

Mas em qualquer dos casos, foram estes os meios através dos quais grandes quantidades de mais valias foram obtidas. Pela escravatura e exploração colonial, por um lado, e pela exploração impiedosa do trabalho feminino, por outro lado. Sem estes, não teria sido possível o lançamento económico da Europa nem a revolução científica que levou ao nascimento do capitalismo industrial.

Nestas situações foi necessária uma explicação racional para justificar, em primeiro lugar, a existência do colonialismo e escravatura e, em segundo lugar, a perda de poder da mulher como parte integrante da vida económica da sociedade pós-feudal. Em ambos os casos, o crescimento da ciência durante a chamada “Idade do Iluminismo” forneceu os meios.

Nos quatro séculos seguintes, a “pesquisa” científica forneceu os meios para a formação de uma fundamentação para a alegada superioridade da “raça branca” e dos homens sobre as mulheres, que atingiu o seu apogeu no séc. XIX, com a emergência de uma série de ideias pseudo-científicas. Ideias, que de uma forma ou de outra, ainda estão presentes nos nossos dias.

Estas falsas ideias estarem agora disfarçadas com descobertas ainda mais poderosas, especialmente no campo da genética, não altera a ficção fundamental, só as torna mais aceitáveis, pois agora podem ser abrilhantadas com uma ciência alegadamente objectiva e neutral. Desta forma ficam ainda mais dificilmente entendidas pela maior parte das pessoas sem uma compreensão alargada da genética e da história da vida neste planeta.

No entanto, de forma aparentemente paradoxal, o crescimento da genética moderna tem sido acompanhado por um retrocesso a ideias fundamentalistas praticamente medievais sobre, por exemplo, as origens da vida. Contudo, num exame mais atento, as duas visões aparentemente singulares, são unidas por ideologias de racismo e sexismo, e para apoiá-las temos a ideologia fundamental do capitalismo baseada numa apropriação ilegítima das ideias de Darwin sobre a evolução, principalmente, a “sobrevivência dos mais aptos” e igualmente ideias falsas sobre a “natureza humana”.

Como é que ideias tão arcaicas e reaccionárias conseguiram reaparecer com tanta força? Em primeiro lugar, claro, nunca desapareceram realmente, pois constituem o coração da ideologia capitalista e, em segundo lugar, o falhanço da alternativa socialista deu nova vida a estas velhas ideias, fortemente desacreditadas.

Quão poderosas são estas ideias, é bastante visível nos grandes meios de comunicação e especialmente na publicidade. Somado a isto, a alteração da natureza das economias “avançadas” do capitalismo, também soltou os medos e inseguranças dos homens, e dos homens brancos em particular. As mulheres a constituírem pelo menos metade, e nalguns casos a maioria, da força de trabalho, quase sempre não sindicalizadas e muitas vezes em trabalho temporário, minaram o poder da velha classe trabalhadora masculina.

Tal como o surgimento do capitalismo industrial destruiu as redes de solidariedade existentes, baseadas na terra e no trabalho artesanal, também as revoluções na produção que destruíram a velha classe trabalhadora da indústria também destruíram as redes de solidariedade baseadas nos sindicatos e partidos políticos da classe trabalhadora.

A acompanhar esta transformação da força de trabalho tem estado o fenómeno do trabalho imigrante, barato, não especializado. Mais um resultado do colonialismo e da sua última manifestação, a “globalização”. E claro, a exportação da fabricação para antigas colónias, mais uma vez usando principalmente mão-de-obra barata, de mulheres e trabalhadores não sindicalizados.

O que parece óbvio é que a situação actual é o resultado de uma continuada exploração capitalista já com uma extensão de cinco séculos, e que o falhanço do socialismo em fornecer uma alternativa viável fez com que se dinamizassem forças que dependem acima de tudo, da aceitação por parte da maioria dos trabalhadores, da ideologia da raça e género promulgadas pelo estado capitalista, apesar de apresentadas com nova roupagem.

Deve também ser evidente que com as nossas redes de solidariedade e protecção arrasadas, ficamos à mercê de ideias reaccionárias, que o surgimento da filosofia socialista no séx.XX, pelo menos em teoria, havia consignado à história.

Também deve ser óbvio que, a não ser que confrontemos estes dois males irmãos, racismo e sexismo como ponto central na luta pela emancipação humana, lidar com o imperialismo será uma tarefa no limiar do impossível. É só por nós, do chamado mundo desenvolvido, não vermos que somos todos vítimas de tão infiltrada e destrutiva ideologia, que os actuais ataques devastadores são possíveis.

A questão de, qual será o melhor modo para confrontar este problema fundamental não é, no entanto, fácil de resolver, pois muita da natureza desta ideologia de racismo, está dependente de factores subjectivos baseados no medo e na insegurança, que estão dentro da cabeça das pessoas. Mesmo só, falar sobre isso, transporta muitos perigos reais e imaginários.

Mas para que não restem dúvidas, os nossos conceitos de raça, género e classe, são produtos de um processo histórico, não são de nenhuma forma, intrínsecos a nós, apesar de toda a propaganda e lavagem cerebral de sentido contrário. Isto não quer dizer que, ultrapassar séculos impregnados de preconceitos e presunções sobre o que é ser humano, seja fácil. Mas também, não há nada que valha a pena ser atingido que seja fácil.

 

 

Traduzido por Alexandre Leite, a partir de um texto de William Bowles publicado a 21 de Março de 2006 em http://www.williambowles.info/ini/2006/0306/ini-0403.html

publicado por Alexandre Leite às 22:23
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