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Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Especulemos

Há muitíssima especulação neste momento, quer do lado da esquerda quer da direita, sobre aonde nos levará esta crise do capital, predominando a noção de que isto assinala o fim do Império dos EUA, que o chamado mundo unipolar chegou ao fim, que está a emergir um novo mundo multipolar, liderado pela China, Rússia, Índia e Brasil.
A teoria baseia-se no facto de os EUA já não serem a potência económica número um mundial, e é verdade que até mesmo uma esmagadora força militar está dependente da economia que a financia. Mas até que ponto é verdade esta ideia e mesmo sendo verdade, de que escala temporal estamos aqui a falar?

Para além disso, é apenas uma das inúmeras consequências possíveis, muito dependendo da forma como os países capitalistas lidarem com a crise. Uma conclusão forçosamente se tira, a de que com tantos triliões que se fala serem necessários para salvar o capitalismo de si mesmo e a facilidade com apareceram somas tão vastas, um facto salta à vista sobre o papel do dinheiro, nomeadamente que o valor que lhe tem sido atribuído é totalmente fictício.
No fundo, é só um papel que há muito deixou de representar uma riqueza real dado que existe apenas na imaginação dos que alegadamente gerem o sistema. Claro que para aqueles de nós que apenas têm alguma quantidade dele, aqui no mundo real, ele possui um valor real, mas não confundamos o mundo do capital financeiro com o mundo em que nós vivemos.

O problema vem do facto de uma pequena percentagem da população mundial ter efectivamente sugado a riqueza real do nosso sistema e a ter substituído por uma moeda nacional, isto é, por aquela a que estamos agarrados e que se chama dívida, e as dívidas só fazem sentido se nós concordarmos pagá-las e ao contrário dos bancos nós não temos governos que sejam clementes com as nossas necessidades.

Mas voltemos por momentos à ideia de um novo mundo multipolar que está a emergir liderado pela China, a potência industrial do mundo. O problema desta ideia é que foi o mundo desenvolvido que criou esta situação de forma a reduzir os custos de produção, exportando as fábricas para países como a China. Por seu lado, os mercados para a estupenda capacidade produtiva da China estão ligados directamente ao consumo ocidental e a produtos que são tão baratos que praticamente são dados. Talvez com o tempo, o consumo interno da China possa preencher essa falha mas isso é duvidoso devido aos salários pateticamente baixos pagos à classe trabalhadora chinesa.

E já nesta altura, literalmente milhares de fábricas chinesas estão a dar o berro, não apenas por causa da recessão global mas também porque (previsivelmente) os salários estão pouco a pouco a subir na China e com o piorar da situação poderemos esperar grandes manifestações de operários exigindo aumentos e, tem de se acrescentar, os principais países capitalistas estão rapidamente a ficar sem países com trabalho barato para onde possam transferir a produção, tal como Marx previu há mais de 150 anos.
Pior ainda, os vastos lucros acumulados pela China são em dólares, por isso o destino da economia chinesa depende inteiramente do futuro bem-estar do capitalismo dos EUA, e por sua vez, também todo nós estamos atados dos EUA nesta operação financeira global! Assim, também a China está atada aos EUA! O lema da China será sem dúvida, “não afundem o barco” (não mais do que o que já está agora).

A reacção dos mais versados dos poderes capitalistas desenvolvidos da UE foi de insistir naquilo que parecem ser as mesmas políticas económicas keynesianas que se praticaram depois do fim da Segunda Grande Guerra, tornando mais uma vez o estado no principal investidor de capital, mas há grandes diferenças entre o pós-guerra e a actual situação:

1) Ao contrário dos anos 1940 onde o estado era o maior investidor, e de forma crucial, dirigia também a natureza do investimento através de instituições estatais, e era um investimento em grandes projectos sociais, habitação, educação, transporte, cuidados de saúde, energia e comunicações (devo acrescentar que estes eram projectos nos quais o capital privado não estava disposto a investir devido à natureza de longo prazo de qualquer possível retorno sobre o investimento). Hoje, por contraste, vemos uma abordagem distanciada, o dinheiro está a ser entregue efectivamente como um “presente” de “nós” para os ladrões e aldrabões fazerem com ele o que quiserem;

2) Ao contrário da situação nos anos 1940, que depois da destruição provocada pela guerra e potenciados pela riqueza acumulada pelos EUA através do financiamento da Guerra, necessitavamos de uma reconstrução, nós vivemos agora num mundo de sobre-produção global, então, onde e como é que o novo ambiente de acumulação de capital irá ter lugar?

3) Muito do grande crescimento do período do pós-guerra residiu na reorganização da produção de guerra para o novo mundo de consumo em função do automóvel, televisão, bens de consumo e ironicamente, habitação (pondo de lado para já a emergência da Guerra Fria e o complexo industrial militar que distorceu o desenvolvimento económico de formas tão desastrosas, que ainda vivemos, e morremos, com os seus efeitos).

Não há equivalência entre a actual situação (a ‘Guerra ao Terrorismo’ simplesmente não é um substituto da guerra ao comunismo), por isso no curto prazo (pelo menos) estamos a entrar num mundo que tem mais em comum com o mundo que conduziu ao estalar da Segunda Grande Guerra e não com o mundo que se lhe seguiu; desemprego em massa, cortes ainda mais massivos na despesa social e, se o capitalismo for fiel à sua cartilha, a necessidade de uma Terceira Grande Guerra para despoletar uma nova ronda de destruição e acumulação de capital.

Alguns apontaram a necessidade de uma espécie de ‘New Deal’[*] mas será isso possível? De onde virá o dinheiro depois de pagar a fiança aos bancos? Para além disso, as grandes potências capitalistas já não são potências industriais, e a maioria da ‘riqueza’ gerada vem de duas fontes: 1) o consumo e 2) serviços financeiros, só que ambos estão neste momento pelas ruas da amargura.

A outra diferença fulcral entre o período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial e os dias de hoje é que o socialismo foi visto por muitos como uma verdadeira alternativa ao capitalismo, de facto, não apenas as políticas keynesianas eram vistas como uma forma de salvar o capitalismo, eram também uma apropriação de políticas económicas essencialmente socialistas mas apontadas para a manutenção do capitalismo quando os capitalistas não conseguiram eles próprios fazê-lo.

No entanto não temos essa sorte actualmente, e em grande medida porque não temos uma classe trabalhadora organizada e progressista para implementar um tal programa depois da adopção do chamado programa político e económico neoliberal, que apareceu mais ou menos pelas mesmas razões da tragédia actual, sobre-produção e queda da taxa de lucro (não confundir os vastos lucros obtido pela magia do sector financeiro com a produção de riqueza, cuidados de saúde, habitação, educação, etc.).

Em conclusão, o que é que podemos dizer sobre a natureza das respostas capitalistas a esta crise? Em primeiro lugar, como o estado decidiu tentar manter o actual status quo mas com alguns acordos na direcção do estabelecimento de uma espécie de ordem financeira global, nós ficamos, como eles dizem, nas mãos dos deuses. E a julgar pela actual resposta do G-7, uma espécie de um conjunto de regras globais que regulem os mercados financeiros, simplesmente, isso não está em cima da mesa. Lembrem-se, estas economia nacionais estão todas a competir umas contra as outras, mas ao mesmo tempo todas estão atadas umas às outras pela natureza globalizada do capital financeiro. Tudo o que eles fizeram até agora foi jogar à toa com o sistema sem fazerem ideia das consequências, exceptuando tentar salvar o capitalismo de si próprio.

Depois, estas políticas fiscais irão ter como resultado desemprego em massa às dezenas de milhões e o colapsar da 'boa via' ou de que resta dela. E claro, o desemprego em massa irá conduzir ao colapso das grandes economias movidas pelo consumo. Tais políticas poderiam obviamente despoletar um despertar da consciência de classe, mas não apostem nisso, mesmo que os funcionários do governo britânico consideram um tal cenário (era muita sorte).

“O Proletariado da Classe Média — As classes médias podem tornar-se classes revolucionárias, assumindo o papel concebido por Marx para o proletariado. A globalização dos mercados de trabalho, a redução dos níveis nacionais de assistência social e o desemprego podem reduzir a ligação das pessoas a um qualquer estado particular. O crescente fosso entre eles próprios e o pequeno número de indivíduos super-ricos bem visíveis pode alimentar a desilusão com a meritocracia, ao passo que as crescentes classes baixas urbanas provavelmente representarão uma ameaça à ordem e estabilidade social, à medida que o fardo da dívida adquirida e a falência dos fundos de pensões começarem a morder. Em face destes desafios interligados, a classe média mundial pode-se unir, usando o acesso ao  conhecimento, recursos, capacidades e  perícias para dar forma a um processo transnacional tendo em vista o seu próprio interesse de classe.”‘Relatório do Ministério da Defesa do Reino Unido, The DCDC Global Strategic Trends Programme 2007-2036’ (Terceira Edição) pág.96, Março de 2007

Claro que o problema é que para um cenário assim se realizar é preciso não apenas tempo mas também o desenvolvimento de uma alternativa coerente ao actual caos. Os slogans são muito bons quando representam uma destilação de uma alternativa económica e política existente, mas sem essa alternativa, eles serão apenas slogans vazios.

Por isso eu penso que é correcto afirmar que só a reemergência de uma força revolucionária composta por trabalhadores (quer seja da chamada classe média, quer da classe trabalhadora tradicional) será capaz de nos salvar desta calamidade.


NdT: New Deal: O New Deal (cuja tradução literal em português seria "novo acordo" ou "novo tratado") foi o nome dado à série de programas implementados nos Estados Unidos entre 1933 e 1937, sob o governo do Presidente Franklin Roosevelt, com o objetivo de recuperar e reformar a economia norte-americana, e assistir aos prejudicados pela Grande Depressão. (Fonte:Wikipedia)

 

 

Texto publicado por William Bowles em Creative-I.Info a 28 de Outrubro de 2008. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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