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Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

Islândia: o que se passou?

"A economia islandesa é próspera e flexível" (FMI, 4/7/2008).

"Existe um perigo muito real... de que a economia islandesa, no pior dos casos, possa ser absorvida com os bancos num remoinho e que o resultado possa ser a bancarrota nacional". (Discurso à nação do primeiro-ministro da Islândia, Gier Haarde, 6/10/2008).

O que é que aconteceu na Islândia neste período de três meses que possa explicar esta mudança? Claramente noutras ocasiões assinalámos a arrogância e estupidez da burguesia e seus representantes em instituições como o FMI, que claramente cometeram um erro na sua avaliação da economia islandesa. Mas a Islândia foi um dos países mais afectados pela actual crise mundial do sistema capitalista.

Para explicar a crise particular dos bancos da Islândia o melhor que podemos fazer é remetermo-nos a um artigo publicado pelo The Financial Times a 1 de Julho de 2008, escrito por Robert Wade, professor da London School of Economics. O professor Wade explica que antes do ano 2000 a maioria dos bancos islandeses eram de propriedade pública e aplicavam uma política conservadora em questões como os empréstimos e o crédito. Os juros reais, isto é, os juros levando em linha de conta a alta taxa de inflação da Islândia, eram baixos e inclusivamente negativos. Não se dava facilmente crédito e era bastante difícil conseguir empréstimos individuais. Devido à pressão da classe capitalista, invejosa dos enormes benefícios que conseguiam os bancos noutras partes, no ano 2000 o sistema bancário islandês desregulou-se e privatizou-se.

Citemos o professor Wade: "Os bancos foram privatizados no ano 2000 mediante um preço rápido e dirigido politicamente. A propriedade passou para pessoas que tinham estreitas relações com os partidos da coligação conservadora governante que apenas tinha experiência na banca moderna". Os reguladores bancários "preferiram uma regulamentação reguladora o mais livre possível". (Robert Wade. The Financial Times. 1/7/2008). Obviamente que o que este bom professor que dizer é que a elite islandesa viu a oportunidade de fazer negócios com o sistema bancário e portanto arranjou tudo para que assim fosse. A democracia parlamentar simplesmente foi um meio para conseguir este objectivo. Estas acções, claro, foram aplaudidas pela classe capitalista mundial e louvadas por instituições como o FMI.

Os bancos, trabalhando principalmente como bancos comerciais internos, estenderam as suas operações à banca de investimento. A desregulação permitiu aos bancos, empresas e indivíduos pedir emprestadas grandes somas de dinheiro e este capital fictício provocou um crescimento massivo. A maior parte deste dinheiro vinha de fora da Islândia no que era conhecido como "bicicleta financeira" [operações nas quais se recebe dinheiro emprestado numa moeda a taxas baixas para o colocar noutra moeda a taxas mais altas. NdT]. Era uma forma que tinham os especuladores capitalistas de pedir dinheiro emprestado fora da Islândia, isto é, à Zona Euro, com juros baixos, em troca de coroas islandesas e depois emprestar aos bancos, empresas e indivíduos islandeses com juros mais altos.

Enquanto os juros de zonas como a do Euro estavam baixos e o crédito nestes lugares era facilmente acessível, a festa continuou. Os bancos e as empresas endividaram-se para financiar investimentos tanto na Islândia como no estrangeiro. Dedicaram-se a comprar valores na Europa incluindo muitas empresas hipotecárias britânicas. O Banco Central da Islândia levantou os requerimentos necessários de reserva e tentou parar o aumento da inflação causado pelo crescimento financeiro subindo os juros até uns 15 por cento. Isto provocou uma afluência de capital estrangeiro, um aumento da bicicleta financeira e mais crescimento. Proclamou-se o milagre da economia islandesa, inclusivamente alguns ideólogos burgueses chegaram a anunciar que era "o primeiro país do mundo gerido como um fundo de alto risco", e isso fazia da Islândia um modelo para o futuro.

Obviamente, a festa não podia durar eternamente. Durante o último ano, na medida que a crise económica se intensificou, os bancos começaram a mostrar-se reticentes a emprestar dinheiro e começaram a pedir a devolução dos seus empréstimos. A bicicleta financeira na Islândia terminou e os empréstimos aos bancos islandeses deveriam ser devolvidos. O problema é que agora os bancos islandeses têm um alto nível de alavancagem financeira, ou seja, dívida em relação aos activos reais. O Financial Times informava a 8 de Outubro que segundo o Banco Central da Islândia, o dinheiro em dívida dos bancos do país ao estrangeiro, no segundo trimestre de 2008, era seis vezes o PIB da Islândia. Aos olhos dos capitalistas, a Islândia converteu-se num "sistema bancário razoavelmente grande com um pequeno país acoplado" (The Financial Times. 8/10/2008), mas o sistema bancário também estava em crise. O governo islandês aprovou medidas de urgência e ordenou aos bancos que vendessem os seus activos no estrangeiro e repatriassem o dinheiro. A 5 de Outubro o governo anunciou que não havia necessidade de introduzir medidas especiais. No meio da crise financeira mundial o parlamento aprovou uma lei, com o apoio da oposição, que permitia ao governo tomar conta dos bancos. Nesse mesmo dia o primeiro-ministro dirigiu-se à nação e anunciou "a perspectiva é desanimadora para muitos".

A bolsa foi suspensa e como os bancos não tinham dinheiro suficiente para cobrir as suas dívidas, um por um foram nacionalizados. O Landsbanki foi nacionalizado a 7 de Outubro, o que levou o governo britânico a congelar uns 4.000 milhões de libras em valores do Landsbanki recorrendo à lei antiterrorista. A justificação legal foi a de combater uma "acção que ia em detrimento da economia britânica", o governo britânico disse que tinha utilizado os seus poderes para proteger os pequenos depositantes britânicos porque não era claro que o Landskanki pudesse cobrir as suas obrigações. Como explicava o Financial Times: "Para aqueles com dinheiro atado ao seu sistema bancário [o da Islândia]... as perdas ameaçam ser grandes". (FT. 8/10/2008). Não contente com etiquetar as acções de um banco como acções terroristas, no dia seguinte o governo britânico assumiu a administração da filial britânica do banco islandês, Kauphting, fazendo com que a empresa com base na Islândia entrasse em bancarrota técnica. O governo islandês viu-se obrigado a nacionalizar também o Kaupthing.

Obviamente que esta é a forma como os capitalistas e os seus representantes se tratam entre si. O governo britânico não representa os trabalhadores da Grã Bretanha nem o governo islandês representa os trabalhadores islandeses. Quando estão ameaçados os benefícios da sua classe capitalista, o governo britânico faz o que quer que seja, sobretudo se for contra um país pequeno e menos poderoso. Assim, congelou os bens dos bancos islandeses na Grã Bretanha independentemente do efeito que isso tivesse para o seu aliado. Por seu lado o governo islandês teve que recorrer à carta nacionalista e tentou culpar o governo britânico. Na realidade, o que está por trás disto é a loucura do sistema capitalista.

Os bancos da Islândia não estavam expostos ao crédito hipotecário de alto risco quando se desencadeou a crise do crédito no ano passado. Mas estavam sim metidos na bolha especulativa que foi ensaiada pelo capitalismo mundial durante o último período, uma bolha que agora rebentou. O governo nacionalizou os bancos, o estado não tem recursos para fazer frente a todas as obrigações dos bancos e agora enfrenta a bancarrota. No ano 2000 os activos combinados dos bancos islandeses eram inferiores ao PIB anual desse ano, agora calcula-se que esses activos, baseados na dívida, sejam aproximadamente 10 vezes o PIB.

Dizem que o governo está a negociar um empréstimo com a Rússia e outro com o FMI. Como sabem os trabalhadores argentinos, o FMI assegura-se de que a classe operária pague as extravagâncias da classe dominante. Em todo o caso, independentemente do endividamento adicional que o governo contraia para fazer frente à crise a curto prazo, está claro que sobre a base do capitalismo não há soluções credíveis para os trabalhadores islandeses. No meio das nacionalizações dos bancos, na imprensa britânica citavam uma mulher que dizia: "Não tinha dinheiro antes, não tenho dinheiro agora (...) Conheço um rapaz que antes do último fim-de-semana tinha 3.000 milhões de coroas e depois 600 milhões. Mas a sua esposa ainda compra na Prada". (The Guardian. 8/10/2008). Trata-se de uma comparação dos sacrifícios que faz cada classe quando se trata da crise. Infelizmente, isto é só o princípio, as condições para a classe trabalhadora vão piorar. Mas este contraste entre os privilegiados e os pobres não se tolerará muito tempo.

 

 

Texto de Jack Smart publicado no El Militante a 30 de Outubro de 2008. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala e InfoAlternativa.

publicado por Alexandre Leite às 19:00
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