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Sexta-feira, 8 de Dezembro de 2006

Sentados na casa que o Capital construiu

Dizem que viajar engrandece a mente, a não ser, claro está, que o destino seja um centro comercial, pois aí vai ser preciso um GPS para percebermos em que país estamos.

 

Gerês, norte de Portugal (a grande distância)

Estou sentado numa esplanada numa pequena aldeia no norte de Portugal, perto da fronteira com Espanha, a saborear uma bebida local chamada bagaço acompanhando um café. A região é famosa pelos alambiques fabricados em cobre, usados principalmente, ao que parece, na destilação deste poderoso licor que sabe um pouco como o slivowitz, e apesar da maior parte ser ilegalmente produzida, está à venda em qualquer café e até é exportado para Espanha.

A paisagem é montanhosa mas densamente coberta com árvores, ponteada por pequenas aldeias e espaços de cultivo. O tempo está perfeito, a rondar os 28º. O meu anfitrião, que é dentista, está a trabalhar aqui perto, por isso tenho algum tempo para matar enquanto ele trata dos dentes locais. Aprecio esta aldeia, que seria bastante calma e adormecida, não fosse a infindável amostra da indústria automóvel global a passar mesmo aqui à minha frente.

 
Estância turística do Gerês

Há menos de 30 anos, esta região estava isolada e bastante empobrecida. Mesmo hoje em dia, se não fosse o dinheiro enviado pelos milhares de emigrantes que foram à procura de uma nova vida, seria sem dúvida uma terra estagnada. Por todo o lado há casarões, a maioria casas novas, com Audis e Maquinões à porta.

 
Gerês. Um outrora elegante hotel do séc. XIX, agora abandonado e decadente. Os hóspedes banhavam-se nas águas termais próximas, abandonadas também como o hotel.

É difícil compreender precisamente quão diferente está Portugal a não ser que se tenha conhecido o país antes da queda do ditador Salazar e da entrada na EU. Em menos de uma geração, saiu do séc. XIX (ou ainda mais para trás) e entrou no séc. XXI. De uma economia pobre, de subsistência rural, com enormes serviços públicos (perto de 30% da “população trabalhadora”), construído com base no ouro roubado na América Latina e no comércio de escravos, passou a ser apenas mais um componente da chamada economia global.

 
Mesmo em frente ao hotel abandonado, ergue-se uma torre de cimento, totalmente fora de escala com o que a rodeia. Quanto dinheiro terá mudado de mãos para que se permitisse este ponto negro na paisagem.

Mas só vendo televisão ou visitando os ubíquos centros comerciais é que nos apercebemos do impacto total que tem tido a globalização. Os mesmos produtos, as mesmas lojas, os mesmos anúncios na televisão. É uma completa ridicularização da ideia da “escolha pessoal livre” que tem sido o assunto central da propaganda Ocidental, nos últimos cinquenta anos, na sua guerra contra o “socialismo ainda existente”.

Que irónico, que com o “triunfo” do Capital, tudo se torne idêntico, desde as zonas rurais de Braga aos centros comerciais do Porto. Manda a Pizza Hut!

Têm-nos vendido a ideia de que no socialismo era tudo igual, as mesmas roupas, a mesma comida, as mesmas “escolhas”; uniformidade. Mandava o Estado!

No Capital global, a aparência é de uma “escolha” infinita, mas a realidade é a de um pequeno número de companhias de nível planetário, todas modeladas pelo “fast-food” e bens de consumo Americanos. Quer se trate de um centro comercial em Sandton, Joanesburgo, Porto, Berlim, Moscovo, Beijing ou outros, vejo sempre as mesmas “escolhas”. As lojas de roupa de marca espalham-se como vírus, Pepe Jeans, Levis, e por aí fora. Todos os jovens se vestem igual, ouvem a mesma música (invariavelmente em inglês) e têm-lhes sido vendidas as mesmas aspirações.

Com as diferenças nacionais e regionais a desaparecerem por baixo da avalanche de “escolhas”, no interior de um papel de embrulho muito bonito, pode-se encontrar a realidade de milhões de fábricas desde o Haiti a Xangai produzindo porcarias com “New York”, “London”, “Paris”, ou “Rome”, enganadoramente estampadas na lapela.

Onde está, então, a diferença entre as lojas geridas pelo estado na antiga União Soviética e as redes globais das Nikes, não contando com a qualidade? Tenham em mente que os trabalhadores do Haiti ou da cidade do México, não têm meios para comprar os produtos que continuamente produzem, nem o apoio da segurança social que os antigos estados socialistas tinham. Tudo é ilusão, embrulhos e Relações Públicas. Livre para escolher e livre para ter fome.

Não me interpretem mal, o socialismo que Estaline construiu, como já vimos, foi um profundo falhanço, mas a ideia e as aspirações eram e continuam a ser tão válidas hoje como eram em 1917, tornadas ainda mais vitais com a entrada do capitalismo naquilo que podem ser os seus últimos espasmos violentos e destruição niilista. Esperemos que se tenham aprendido as lições do passado e que tenhamos tempo para corrigir o que está mal antes que seja tarde demais.

E com o Ocidente desenvolvido a ficar preso nas cada vez mais profundas contradições que o capital excedente produz, as liberdades pelas quais lutámos e conseguimos obter a tão grande custo, estão a ser retiradas. Grão a grão, inexoravelmente, até ficar apenas o embrulho brilhante que envolve um vazio. Uma casca sem sentido. E isso vê-se nas estatísticas das doenças mentais, na fragmentação social e na profunda insatisfação que as pessoas sentem, com as mentiras que lhes têm sido oferecidas. Insatisfação que nem um milhão de centros comerciais irá resolver.

Dois mundos, um a alimentar-se parasiticamente do outro, com a propaganda global estridente e ilusoriamente a dizer que está tudo bem, excluindo claro está, um pequeno bando de fanáticos, extremistas, terroristas e fundamentalistas, chamem-lhe o que quiserem, que, dizem-nos, possuem o poder de deitar tudo por terra, tão frágil e vulnerável é a casa que o Capital construiu. E se acreditam nisto, acreditam em tudo.

 

Traduzido por Alexandre Leite, a partir de um texto de William Bowles publicado a 29 de Maio de 2006 em http://williambowles.info/ini/2006/0506/ini-0417.html

 

 

publicado por Alexandre Leite às 22:46
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