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Sexta-feira, 8 de Dezembro de 2006

Clima de Medo

Blair… recuou nos planos de tomar uma posição dura sobre o aquecimento global e o Tratado de Quioto, que Washington ainda não assinou… No final, Blair apenas disse: “Temos de agir sobre as alterações climáticas”, mas não entrou em pormenores.

Blair até disse uma piada sobre a interferência dos EUA, “Espero que não seja a Casa Branca a dizer que não concorda com isto. Eles actuam com muita rapidez, este rapazes” – Londres, (AFP), 28 de Maio de 2006.

Parece que finalmente a realidade da mudança climática global chega aos media? A BBC, por exemplo, está a inundar o público com dossiers aterrorizadores com títulos como “Caos Climático”, uma série, e persuadiram o venerável David Attenborough para a apresentação da série, em conjunto com o previsível alinhamento de “especialistas”, devidamente equipados com tabelas e previsões feitas por computador, do iminente desastre. Uma enxurrada de propaganda que procura atirar a culpa do aquecimento global para nós, a população.

Portanto, temos de fazer a “nossa” parte de, consumirmos menos, usar carros mais pequenos, viajar menos, reciclar, comprar produtos locais e por aí fora. Mas vão ao vosso mercado local (se tiverem um que não necessite que usem o carro para lá chegar) e tentem comprar produtos locais, e vejam o que conseguem trazer.

Uma palavra que não é mencionada na avalanche de glaciares a derreterem e na subida do nível do mar, é Capitalismo. Em vez disso, falam dos nossos “estilos de vida” que não são correctos, como se por um processo místico, os nossos “estilos de vida” existissem independentes do sistema económico em que vivemos.

Chama-se a isto, a Quadratura do Círculo, isto é, sem alterar um milímetro a um sistema económico que se baseia na contínua expansão da produção, chamada Crescimento, de alguma forma, através da “eficiência” e de novas tecnologias, podemos reduzir a produção de carbono a níveis que consigam parar a subida da temperatura da Terra.

O que nunca é mencionado, com os quinhentos anos de exploração capitalista e de um literal saque do planeta, dos seus recursos e pessoas, é que fomos exortados a produzir e consumir como se não existisse o dia de amanhã e agora, quando parece não haver amanhã, a culpa é atirada em primeiro lugar para nós.

E a isto segue-se a culpabilização dos “diabos” dos Chineses e Indianos que, cinquenta anos depois da Guerra Fria (e não tão fria), “viram a luz” e embarcaram na mesma louca rota que o Ocidente seguiu nos últimos quinhentos anos. Na realidade, a ameaça da guerra pendia sobre as suas cabeças se não se juntassem ao “clube”. Agora já o fizeram e as economias Ocidentais voltaram convenientemente as culpas para eles! É preciso ter lata!

Portanto, enquanto a Terra aquece, o Ocidente, em vez de lidar com a crise que nos confronta, prefere tornar o mundo mais seguro para o Capital, invadindo os países que possuem os recursos que tornam possível a continuação do Capitalismo. É a loucura total!

Mas procurem em vão, alguma referência a estas contradições nos chamados documentários, fabricados pela Central de Propaganda.

As contradições na mudança da produção do Ocidente, para fábricas com uma economia de mão de obra barata, nunca são mencionadas. Aí, ainda se consegue produzir uma maior quantidade de coisas inúteis, com menores custos (para os capitalistas). Também não é mencionado o facto da Guerra Fria ter sido, em grande medida, uma abertura das economias dos antigos estados socialistas e pós-coloniais, ao capitalismo.

Mas a realidade é que, sem uma fundamental mudança de rumo da produção interminável de “novos” produtos, aos quais o sistema capitalista está inextricavelmente ligado, o aquecimento global é, de facto, irreversível.

Mas procurem em vão, alguma referência ao sistema económico como causa. É um grande truque de magia. A ordem do dia é, tudo na mesma, por isso, é de admirar que o “governo” de Blair esteja agora a forçar a solução nuclear?

Um simples facto é que o capitalismo se baseia num contínuo crescimento e expansão da produção e de novos mercados, à medida que procura maximizar os lucros. Nada, excepto uma revolução, alterará esta realidade fundamental.

Falar em reduzir o consumo, quando toda a lógica do capitalismo é baseada na contínua criação da procura de “novos” produtos, é pura fantasia. Claro, a BBC não vai sugerir que a causa fundamental do aquecimento global seja o sistema económico capitalista, isso era ir longe demais.

E ainda relacionado com isto, num comentário a um dos meus textos de Portugal, MC disse[1]

Não podemos pensar que vamos mudar o mundo até que vocês, pessoas dos países ricos, reconheçam que parte da vossa riqueza veio da forte exploração e implacável empobrecimento dos nossos países, durante séculos.

Uma observação que eu corroboro totalmente e disse isso mesmo. Mas MC prossegue dizendo

Quanto ao consumo em grande escala e à sua uniformidade, não é propriamente uma coisa má, se pensarmos na igualdade. Toda esta conversa sobre a exclusividade no consumo – algo que os grandes meios de comunicação ligam automaticamente à liberdade de escolha – é uma ideia presunçosa e divisória, característica de uma sociedade de classes: no fundo, a exclusividade de um iate ou de um “verdadeiro” queijo Parmesan (ou de um Gucci, Versace ou marca parecida) tem o seu preço.

O consumo em massa é inteiramente um produto da produção capitalista e como tal, baseia-se na produção de mercadorias em massa, em oposição à produção de valores realmente úteis, isto enquanto (talvez) todos preferiríamos iates e carteiras Gucci, o que de facto acontece é que para muito poucos possuírem tais objectos, muitos têm de viver sem eles.

Por outras palavras, a produção da maior parte das mercadorias não é feita pela sua real necessidade mas simplesmente para obter um lucro. Para além disso, é evidente que no fim, as pessoas se sentem insatisfeitas com esse consumo ao apenas criar a necessidade de mais consumo, num ciclo consumista interminável.

MC diz depois

A principal questão é: quando é que o sistema vai mudar de forma a permitir aos mais pobres e explorados do planeta, acesso aos mais básicos bens produzidos em massa, melhorando os seus níveis de vida e promovendo um verdadeiro avanço na condição humana?

As necessidades podem ser satisfeitas sem uma tal produção em massa. Na realidade, as tecnologias que possuímos hoje permitem uma produção em pequena escala de produtos de alta qualidade. Alem disso, como fica amplamente demonstrado pela reinvenção/redescoberta da produção artesanal, as pessoas gostam de produtos feitos à mão. Satisfazem uma real necessidade ao colocarem as pessoas de novo em contacto entre elas, através do próprio objecto; o cunho pessoal e a singularidade do objecto são, por si só, satisfatórios.

Mas de forma a se conseguir atingir isto, será necessário reestruturar a globalidade da economia capitalista, não apenas abolir a propriedade privada de larga escala mas também alterar os nossos objectivos e a nossa relação com a Natureza, algo que não vai ser conseguido da noite para o dia.

Se alguma coisa resulta da evidência do impacto das mudanças climáticas, é o facto de a acompanhar a abolição do modo de produção capitalista, necessitamos de alterar a nossa relação com a Gaia, ao invés de subjugar a Natureza, algo que mesmo as economias socialistas não fizeram, na sua competição com o capitalismo, de forma a satisfazer fundamentalmente necessidades criadas artificialmente. Temos de restabelecer a nossa relação com a nossa casa, a Terra.

De facto, eu sugeria que as pessoas dos países desenvolvidos, em vez de apelarem com base numa visão socialista tradicional, com base na abolição da pobreza, o fizessem baseando-se nos valores de humanidade e na redescoberta do colectivo, ajustando-se melhor à situação.

Esta discussão também se relaciona com os países pobres do mundo, que apesar de materialmente empobrecidos, possuem algo que nós, no mundo desenvolvido já perdemos, nomeadamente um sentimento de pertença, de onde viemos. E isto não é mero sentimentalismo mas baseia-se na minha própria experiência.

Até agora, a esquerda que existe, falhou rotundamente ao não perceber isto, enredada como está, na sua relação histórica com o modo de produção capitalista. Por isso, também não vê que é produto das relações capitalistas, um processo que não é neutral, mas inteiramente determinado pelo modo de produção capitalista.

Fica óbvio que não se trata apenas de consumir menos mas de alterar inteiramente o que produzimos e consumimos. Isto significa transformar os objectivos e valores da sociedade, algo que requer que olhemos novamente para a forma como nos organizamos politicamente. Implica deitar fora a falsa noção que nos tem sido dada sobre o que é a democracia e como funciona. Não é tarefa fácil de cumprir, alimentados como temos sido numa dieta de alegada representação, em vez de uma participação directa no processo de organização social e de tomada de decisões.

Entretanto, temos necessidades imediatas e urgentes. Em primeiro lugar, resistir e derrotar um sistema desesperado, que destrói mais do que cria, que gasta milhares de milhões em armas de destruição em massa quando o mundo enfrenta uma crise de proporções literalmente globais. Fazer a ligação entre esta crise global e o capitalismo, é a nossa primeira ordem de trabalho.

Apesar de concordar na generalidade com as observações do MC, uma análise fundamentada na “culpa” daqueles de nós que tiveram a sorte suficiente para ter nascido no mundo desenvolvido, não é a resposta, pois não foca os assuntos com que nos confrontamos, mesmo que faça alguns sentirem-se melhor.

 

 

[1] – MC comentou um texto anterior na página inglesa. Os comentários ao tal texto escrito em Portugal podem ser vistos em http://www.haloscan.com/comments/liamini/ini_0417/#25663

 

 

 

 

Traduzido por Alexandre Leite, a partir de um texto de William Bowles publicado a 3 de Junho de 2006 em http://williambowles.info/ini/2006/0606/ini-0418.html  

publicado por Alexandre Leite às 22:58
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