WTC7

.posts recentes

. Entre a espada e a parede

. Trabalho com precariedade

. Saindo da UE

. A rapina de Timor-Leste: ...

. Empresa de limpeza em Tel...

. De quem é o vírus Zika?

. Bem-vindos ao apartheid d...

. Adolescente americana ame...

. Perante o caos, o saque e...

. A canalhice final contra ...

. Atirá-los ao mar

. Pensar a violência

. O que queremos dizer quan...

. “Je Suis CIA”

. A Rússia invade a Ucrânia...


Tecnologia de FreeFind

.Arquivos


eXTReMe Tracker

.subscrever feeds

blogs SAPO
Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010

A delegada eleita e o dissidente, nas eleições municipais em Cuba

O processo de eleições municipais em Cuba culminou no dia 19 de Maio, com a constituição das Assembleias Municipais e as eleições dos presidentes e vice-presidentes entre os recém-eleitos delegados.

Previamente a esta etapa, entre 24 de Fevereiro e 24 de Março, celebraram-se nos 169 municípios de toda a ilha milhares de assembleias de nomeação em reuniões com os residentes de cada área. A 25 de Abril tiveram lugar as eleições onde, a partir do voto secreto, foram eleitos 15,093 delegados em todos os municípios, entre os mais de 45 mil nomeados pelos cidadãos. Foram submetidos à consideração dos eleitores desde um mínimo de dois até um máximo de oito nomeados em cada circunscrição, de acordo com a lei. E nesse domingo qualquer dos candidatos devia alcançar não menos de 50% dos votos válidos para ser eleito.

Uma segunda volta teve lugar a 2 de Maio para os casos em que nenhum dos candidatos tivesse alcançado mais de 50% dos votos válidos. Nesses casos, os dois candidatos com maior número de votos avançaram para a uma segunda volta. Esta é uma situação normal que aconteceu em todos as 14 eleições municipais celebradas desde 1976. (Uma circunstância inusual ocorreu este ano, quando um candidato faleceu justamente antes das eleições de 25 de Abril e uma nova nomeação teve de ser realizada depois dessa data; os eleitores desta circunscrição foram às urnas pela primeira vez a 2 de Maio). Por todas estas razões, 14% das circunscrições (2,107) foram a uma segunda volta no dia 2 de Maio.

 

Nestas eleições, três circunscrições terminaram com um empate entre os dois candidatos que passaram à segunda volta e uma terceira volta teve lugar a 5 de Maio, na qual finalmente houve um ganhador em cada uma delas, completando-se assim a fase das eleições municipais parciais e assentando as bases para a etapa de constituição das Assembleias Municipais a 19 de Maio.

Foram eleitos 15,093 delegados, que podiam ter idades desde os 16 anos (idade mínima requerida para votar e ser eleito a nível municipal). É importante assinalar que exceptuando apenas uma pequena proporção (por exemplo o Presidente e Vice-presidente das Assembleias Municipais e alguns Presidentes e Vice-presidentes dos Conselhos Populares), cada Delegado realiza o seu trabalho como representante do povo que o elegeu de modo voluntário, sem receber pagamento ou remuneração de nenhum tipo, mantendo o seu emprego habitual. Em casos excepcionais nos quais se requer que o Delegado esteja dedicado a tempo inteiro à sua gestão, eles recebem o mesmo salário correspondente ao seu posto de trabalho e nem mais um centavo. A partir do princípio de que este é um trabalho não profissional, o seu trabalho como Delegado tem lugar na sua maior parte depois do seu horário laboral e durante os fins-de-semana.

 

Um dos aspectos mais chamativos das investigações sobre os processos eleitorais em Cuba e do seu tipo de democracia, baseia-se na questão de quem são os eleitos, quais são as suas histórias e o que fazem na sua vida política, profissional e pessoal. Estes aspectos que cativam a investigação são válidos no só a respeito dos delegados municipais, mas também, por exemplo, relativamente aos Deputados eleitos para a Assembleia Nacional do Poder Popular (parlamento). Enquanto alguns deputados são bem conhecidos em Cuba e no exterior, a grande maioria não o é, acontecendo o mesmo com quase todos os Delegados Municipais (que de acordo com a Constituição da República devem constituir até 50% da legislatura nacional). Ainda respeitante aos mais conhecidos Deputados (como Fidel Castro, Raúl Castro, Ricardo Alarcón e outros) que são conhecidos nacional e internacionalmente, podemos verificar que as suas características principais, acções e evolução histórica, fora de Cuba estão ocultas à luz pública ou aparecem completamente distorcidas ao ponto de serem vítimas de difamação.

 

Os cubanos em geral conhecem os seus Delegados Municipais eleitos, já que são seus vizinhos e costumam ver-se todos os dias, ou pelo menos com alguma frequência. No entanto, como consequência da desinformação dos meios de comunicação, em geral para as pessoas fora de Cuba, os Delegados eleitos a nível local aparecem envoltos num mistério: uma página em branco. Os jornalistas internacionais devem proporcionar aos não-cubanos alguns retratos sobre quem são estes 15,093 Delegados eleitos pelos cidadãos com diversos exemplos, nenhum deles exagerando as suas qualidades positivas, ou ressaltando apenas experiências negativas. Mas parece haver um esforço dos meios internacionais para esconder as realidades deste aspecto do sistema político cubano perante a opinião pública internacional. Em vez de fazerem um trabalho sério como jornalistas sobre estes Delegados eleitos que são seres humanos como você e eu, são eliminados do conhecimento da opinião pública internacional. É frequente ver como eles são catalogados em frases que os “etiquetam” como membros do Partido Comunista de Cuba (PCC) ou da ala juvenil do Partido, a União de Jovens Comunistas, com uma clara intenção de apresentar a sua nomeação e eleição como sendo condicionada por essa militância política. E nada fica mais longe da realidade.

 

Mais ainda, existem muitas pessoas nomeadas e eleitas como membros das Assembleias Municipais que não são militantes do Partido nem da sua ala juvenil. Por exemplo, pessoalmente eu conheço uma pessoa que não é membro do Partido, e que em todas as eleições onde foi nomeado e posteriormente eleito durante 25 anos, com os restantes candidatos sempre membros do Partido. Esta pessoa que vive no município Praça da Revolução da província da Cidade de Havana, foi nomeada e eleita como Delegado Municipal por 25 anos, foi por seu turno, Delegado Provincial durante 8 anos e Presidente do Conselho Popular durante 5 anos. Por outra parte, depois das eleições municipais de 25 de Abril o resultado total para as 15 assembleias municipais da província da Cidade de Havana, indica que só  56% dos seus delegados eleitos são membros do Partido; isso mostra por si mesmo que não é obrigatório ser membro do Partido para ser nomeado e até para ser eleito nas votações secretas nas urnas.

Neste contexto torna-se muito desagradável ler o artigo de Fernando Ravsberg, jornalista da BBC Mundo, estabelecido em Havana há muitos anos. O seu artigo intitula-se “Dissidentes cubanos em campanha eleitoral.”  O tema central do artigo, publicado a 13 de Março, tal como o título sugere, refere-se ao papel de um dissidente que decidiu participar no procedimento local de nomeação de candidatos na circunscrição 47 do Conselho Popular de Punta Brava, situado no município de La Lisa, um dos quinze municípios da província da Cidade de Havana.

O artigo aparece escrito de modo que reflecte claramente a intenção de dar uma atmosfera falsa de repressão social e medo contra aqueles que não estão de acordo com a revolução mas participam nas eleições de um modo ou de outro. Por exemplo, o Sr. Ravsberg escreve que a Assembleia de nomeação local estava a decorrer tranquilamente sem sinais de “repressão”. Mas o jornalista abre as portas a qualificar nesse sentido, quando se refere à presença de um simples polícia, como sinal de um foco de “repressão. “Havia apenas um polícia em toda a área, desviando o trânsito de modo a que não interferisse com a Assembleia de nomeação que era no exterior e normalmente as pessoas ocupavam parte da rua. (Seria possível considerar pela BBC Mundo os polícias de trânsito, os “Bobbies” em Londres, como parte das “forças repressivas”?) Mais ainda, apesar do seu “moderado” comentário sobre a ausência de sinais de “repressão”, o mesmo é negado noutras partes do seu artigo quando a palavra do dissidente é tomada como verdade absoluta, e o jornalista permite que o dissidente o afirme. A intenção de manipulação volta a reluzir quando no artigo em questão uma vez mais o jornalista assume as palavras do dissidente como um facto, e assinala que o dissidente se referia a que “perto dali havia mais policias mas não os vimos”. Do mesmo modo, enquanto o artigo admite que a situação na área onde se celebrava a Assembleia de nomeação transcorria tranquila, sem aparentes pressões, no mesmo se asseverava, a partir do que lhe expressara o dissidente, que noutras Assembleias de nomeação se exerciam evidentes pressões contra os dissidentes, mas sem factos que o demonstrassem. Uma vez mais, uma alegação não sustentada saída da boca de um dissidente, era apresentada como uma verdade absoluta no seu artigo.

 

Eu assisti a dezenas de Assembleias de nomeação e a processos de votação secreta nas urnas durante as eleições a nível local em 1997-98, 2000 e 2007-08. Todas essas etapas do processo político cubano desenrolaram-se numa atmosfera de calma, sem sinais de repressão policial nem qualquer outro evento dessa natureza. Investigações realizadas demonstraram que esses auto-denominados dissidentes podem participar nas eleições de qualquer modo, dentro do estabelecido pelas leis cubanas, como qualquer outro cidadão na posse dos seus direitos. São provavelmente poucos os países do mundo onde os dias de nomeação e de votação são tranquilos. É certo que nós não podemos comparar as Assembleias de nomeação pois não existe outro país no mundo, para além de Cuba, onde os cidadãos tenham o direito legal de propor directamente os seus próprios vizinhos que considerem devem ser candidatos para as eleições, e de se auto-proporem. A falsa acusação de “repressão”, “forçar as pessoas a votar”, etc., são outras frases usualmente utilizadas como pretexto para evitar referir-se às pobres demonstrações vindas dos dissidentes em processos de nomeação, quando eles decidem participar.

 

Enquanto o Sr. Ravsberg presta atenção ao dissidente Silvio Benítez e à sua campanha eleitoral, como se fosse o centro da política cubana desse dia (ou, precisamente por esse motivo, o jornalista coloca-o no centro das notícias das eleições municipais), por que não escreve sobre a cidadã que foi nomeada e eleita pelos seus vizinhos como candidata às eleições municipais de 25 de Abril? Tudo o que teve para dizer sobre ela é que é membro de PCC, médica, e que faz parte da equipa de saúde pública da localidade. E de facto todo o artigo é escrito como se a nomeação fosse um teatro de contagem de mãos no ar para votar entre a “candidata do PCC” e o “dissidente”.

No sistema eleitoral cubano, o PCC e a União de Jovens Comunistas não propõem nem nomeiam pessoas para as eleições, só os cidadãos de modo individual têm esse direito. Com o objectivo de contribuir para fabricar uma imagem do PCC como controlador de tudo, em detrimento dos direitos dos cidadãos, ao contrário do que estipula a Constituição Cubana e a Lei Eleitoral, os comentários do Sr. Ravsberg objectivamente procuram denegrir a seguinte noção importante: a soberania reside nas mãos do povo mesmo quando os cubanos pensem que este é um aspecto que deve ser melhorado e que se deve aperfeiçoar.

 

De facto, o jornalista desinforma os seus leitores neste sentido, seja essa a sua intenção ou não.

No mesmo sentido, o artigo assinala que uma pessoa idosa (e que desse modo se ajusta à imagem preconcebida de um veterano “duro” da luta revolucionária) se referiu ao dissidente com o objectivo de evitar que fosse nomeado.

 

No dia 30 de Abril de 2010 eu entrevistei a “outra nomeada” que foi eleita como delegada no dia 25 de Abril. (Dra. Daysi Victores, entrevista gravada pelo autor, Havana, 30 de Abril de 2010.) A entrevista com a Dra. Daysi Víctores teve lugar em Havana numa agradável tarde de sexta-feira, no modesta escritório do Conselho Popular de Punta Brava. Junto a ela encontravam-se Armando Nelson Padrón Alfaro, Presidente do Conselho Popular e Juanita Mejías Carbonell, Secretária deste Conselho Popular. Este Conselho Popular, órgão de base do sistema estatal e de governo cubano, é um dos sete Conselhos Populares com que conta La Lisa, que tal como outros municípios em Cuba, se foi descentralizando deste modo com o objectivo, entre outras razões, de ser mais eficiente na solução dos problemas locais e outorgar mais poder aos Delegados eleitos, pensando sempre que a meta final nas suas agendas é a de melhorar, como afirmam sempre os cubanos.

 

A Dra. Daysi Víctores tem agora 66 anos de idade, nasceu em Camaguey no seio de uma família humilde. O seu pai era trabalhador e a sua mãe ama de casa.O casal teve quatro filhos. Em 1961 Daysi parte para o oriente do país onde participa na campanha de alfabetização, levada a cabo pelo governo revolucionário. Depois do regresso à sua cidade de Camaguey, ela vai para Havana com bolsa de estudo para estudar medicina. Os seus três irmãos e irmãs também estudaram e tiveram várias profissões, como posteriormente fizeram os filhos de Daysi. Ela declarou que: “se não tivesse havido a Revolução, ser médica nunca teria sido possível para a filha de uma família humilde”. Ela estabeleceu-se em Havana. Durante a sua carreira médica ocupou diversas responsabilidades, por exemplo em 1974 como Directora da policlínica em Punta Brava e mais tarde noutros centros de saúde como o de Arroyo Arenas. De facto, ela foi mandada a diversas policlínicas para enfrentar diferentes problemas que ali surgiam, relacionados com o seu trabalho ligado à saúde, e procurando solucioná-los. Mais tarde foi Vice-directora de Medicamentos no município de La Lisa, cargo no qual se reformou. Entre outras tarefas ela foi à Etiópia em missão internacionalista como profissional de saúde em 1981.

Daysi Víctores, Cuba

 

Daysi foi eleita como Delegada neste 25 de Abril de 2010 para o seu quarto mandato. Tendo em conta que cada mandato dura dois anos e meio, isso significa que prestou serviços durante sete anos e meio como Delegada antes destas eleições. Em todas as Assembleias Municipais são criadas uma série de Comissões Permanentes de Trabalho nas quais são integrados os Delegados eleitos. No anterior mandato ela foi a Presidente da Comissão Permanente de Trabalho que se debruça sobre a Saúde e Higiene no seu Município. (Todas estas comissões e seus membros devem ser renovadas assim que se estabeleçam as Assembleias Municipais de 19 de Maio). Daysi é membro do PCC desde 1980, proposta e eleita pelos seus companheiros de trabalho, isto é, a empresa de medicamentos onde ela laborava. A militância no PCC em Cuba parte de processos de selecção nos centros de trabalho ou de estudo e não nos bairros onde as pessoas vivem.

Daysi, e os dois membros do Conselho Popular presentes na entrevista mostraram-se orgulhosos de mencionar as conquistas do Poder Popular local, ao mesmo tempo que mencionaram criticamente as limitações que eles consideravam que deveriam ser superadas. Para resolver os problemas, ou pelo menos para tentar resolvê-los, cada um dos Delegados locais trabalha no colectivo com os demais Delegados no Conselho Popular e com a sua Presidente, assim como com as entidades administrativas correspondentes, conseguindo-se assim fortalecer o trabalho das Assembleias Municipais, que são os órgãos máximos estatais e de governo nos municípios.

 

Entre as conquistas alcançadas está o melhoramento no acesso à água potável em colaboração com a empresa Águas de la Habana, responsável por este serviço; realizou-se a completa renovação do sistema de águas residuais de esgotos; a iluminação pública; a renovação dos serviços funerários; o banco e o posto de correios; a completa remodelação do parque para as crianças; as melhorias no serviço da policlínica, assim como nas actividades de recreação e desportivas para a juventude, para citar apenas algumas.

E durante a entrevista fez-se um balanço que não ignorou as deficiências, que também foram assinaladas por eles na entrevista. Por exemplo, quando afirmavam que “é verdade que nos falta muito, nós temos problemas grandes em gastronomia, mesmo tendo estes melhorado”. Ou relativamente a outro tipo de situações, assinalavam que ao mesmo tempo que estão a tentar construir um pequeno centro comercial com um talho e uma mercearia, deparavam-se com uma “situação económica que nos limita algumas situações”.

 

Esperamos que com isto os leitores comecem a ver mais para lá da apresentação anónima que fazem os meios internacionais sobre os representantes eleitos em Cuba, que para além de tentarem simplificar o tema etiquetando-os simplesmente como comunistas, como se isso fosse o beijo da morte.

 

Relativamente a isto é fácil de ver, com um olhar despreconceituoso, que há algo que tem de se ter em linha de conta. É que ao mesmo tempo que se obtiveram muitas conquistas, na situação real que atravessa Cuba existe um terreno fértil para os oportunistas, tendo em conta, como mencionámos anteriormente, que existem ainda limitações e objectivos a alcançar em geral para satisfazer as exigências da população. Algo que não foi ignorado pelo “dissidente” na sua “campanha eleitoral”.

O que se passou a 11 de Março de 2010, na Assembleia de Nomeação à qual assistiu e que é descrita pelo Sr. Ravsberg no seu artigo, e nas duas Assembleias prévias que tiveram lugar a 4 e a 8 de Março, nas quais não esteve envolvido o dissidente e que não são objecto do seu artigo?

 

O artigo da BBC Mundo admite que os dissidentes estavam em campanha eleitoral, apresentando candidatos em várias circunscrições, mesmo quando é do conhecimento de todos que as campanhas eleitorais não são legais em Cuba. Não obstante, o jornalista cita inclusivamente o dissidente Sílvio, que disse que o seu trabalho de campanha se baseava em ir de “casa em casa como fazem as Testemunhas de Jeová”.

De acordo com os entrevistados em Punta Brava, Sílvio esteve a trabalhar em diferentes lugares, mas foi despedido dos seus empregos. Depois disso, disseram eles, começou a trabalhar como dissidente. Eles afirmam que mesmo não trabalhando, vive muito bem.

Em relação à sua campanha eleitoral para a Assembleia de nomeação de 11 de Março, em que consistiu ela?

Segundo os entrevistados, na circunscrição vive um certo número de pessoas com problemas de alcoolismo, e, nalguns dos casos, apresentam problemas económicos. O alcoolismo, mesmo não tendo a extensão que acontece noutros países, existe como um problema em Cuba. Sílvio aproximou-se dessas pessoas que se encontram por vezes com necessidades desesperadas para suportar os seus hábitos alcoólicos, e nalguns casos descuidam as suas posições políticas. Os entrevistados queixaram-se de que o dissidente lhes pagou para que assistissem às reuniões e votassem nele nas suas áreas de nomeação.

 

Isto não é difícil de acreditar, depois do Departamento de Estado dos EUA ter dado a conhecer as cifras de como os 20 milhões de dólares da USAID se investem em Cuba para subverter a ordem através dos seus agentes pagos. Os fundos são distribuídos encobertamente para não expor os receptores beneficiados. Para mostrar apenas dois exemplos: dos 20 milhões de dólares, 750 mil estão destinados a promover “direitos humanos e democracia” em Cuba, e outros 400 mil para “identificar líderes locais” que possam posteriormente levar a cabo actividades a nível local. Quase todas as categorias da ajuda financeira podem ser aplicadas a alguém como Sílvio e ao seu partido político que está a apresentar candidatos.

 

Mas a demagogia caminha junto com o uso dos fundos em Cuba. De acordo como relato do Sr. Ravsberg, Sílvio tenta “desvendar a mentira e a manipulação do governo”. Não obstante, na reunião da área de nomeação, Sílvio falou invocando Raúl Castro e a necessidade de levar a cabo mudanças! Depois da reunião se ter celebrado e concluído a sua votação, quando se tornou mais evidente o que se tinha passado, alguns cidadãos acercaram-se à Comissão Eleitoral de Circunscrição e manifestaram-lhe que sentiam ter votado em Sílvio porque não tinham sido capazes de ver a sua manipulação. Como a Secretária do Conselho Popular Juana Mejías disse, “ele propunha-se como delegado porque ele considerava que tinha condições para poder representar o povo, tendo em conta as palavras de Raúl. De tal modo, ele realmente manipulou a noção de mudança à qual nós aspiramos e a que aspira o companheiro Raúl Castro. Estas mudanças são mudanças positivas para melhorar a vida económica do país, para mais socialismo e mais democracia.”

 

Mais ainda, não é certo dizer que só uma pessoa de idade avançada falou em favor da candidata “comunista”. Os entrevistados disseram que de facto três pessoas falaram a seu favor, um foi o representante da Associação de Combatentes (organização cubana que, como em muitos outros países, agrupa veteranos de lutas anteriores essencialmente), o qual foi depreciativamente referido pelo Sr. Ravsberg como uma pessoa idosa. Os outros que falaram a favor de Daysi foram adultos de idades inferiores. E ainda mais, não é correcto que a intervenção fosse orientada para dar um veto ao direito de Sílvio de ser nomeado. Ainda que ele se tenha auto-nomeado, o que é um direito seu, todas as intervenções reafirmaram o direito de uma pessoa se poder propor a si mesma.

 

Os entrevistados confirmaram o facto de que nenhum dos que propuseram Daysi, o tenha feito com base em ela ser militante do PCC. Todos os argumentos a favor de Daysi foram com base na sua actividade com os vizinhos do bairro.

Durante todas as reuniões de nomeação às que eu assisti nos últimos doze anos nunca ninguém foi apresentado como candidato pelo partido. De facto fui testemunha em diversas ocasiões nas quais pessoas que não eram membros do partido foram nomeadas e foram vencedoras durante as votações secretas como indicam as estatísticas às que me referi anteriormente (para as 15 assembleias municipais da província da Cidade da Habana, indica que só 56% dos seus delegados eleitos são membros do Partido.)

 

Admitimos o facto de que o papel do partido na sociedade, no sistema político e durante o processo eleitoral, é muito complexo, mas isso será focado e apresentado noutro momento.

 

Mas passemos a outro aspecto muito importante. O que é um dissidente num bairro? Daysi assinalou na sua entrevista que esse cidadão nunca participa em nenhuma reunião ou actividade, quer política quer actividade cultural. Armando Nelson Padrón, Presidente do Conselho Popular acrescentou que: “… Sílvio não se representa nem a ele mesmo. É um desempregado habitual, não é um homem que trabalhe. Nunca fez nada pelos seus vizinhos, e aparece a falar de direitos humanos. Nem ele nem a sua esposa nunca fizeram nada por nenhum vizinho, nem por nenhum cidadão deste local. Nunca mexeu um dedo para melhorar a vida desta população, nunca na vida. Portanto, não tem representação nenhuma e por isso a Assembleia de vizinhos não votou nele…”

 

No artigo de Ravsberg, todo o tom do jornalista e as cifras que referia davam a impressão de que os dissidentes tinham tido uma vitória. Ele disse que o dissidente tinha obtido 14 votos a favor enquanto que a representante “candidata do Partido Comunista” tinha obtido 50 votos e que tinha havido muitas abstenções (as abstenções não são tidas em conta nestas reuniões, pede-se aos cidadãos que votem a favor de cada nomeado, e só se pode votar em apenas um dos candidatos propostos; a contagem dos votos “de braço no ar” realiza-se logo de seguida a cada proposta e aquele que alcança maior quantidade de votos é declarado como nomeado pela assembleia).

 

No caso da circunscrição Nº 47 de Punta Brava, houve outras duas assembleias de nomeação. A meu pedido foram-me dadas as cifras pela Comissão Eleitoral do Município La Lisa. (Comissão Eleitoral do Município La Lisa, comunicação ao autor, 11 de Maio de 2010.) Se bem que é certo que ao comparar com o total de assistentes deduz-se que muitos eleitores não votaram nem por um nem por outro (Daysi ou Sílvio), a contagem oficial é  de 71 votos para Daysi e 13 para Sílvio.

Analisemos brevemente estes resultados. Sílvio tinha todas as vantagens. Primeiramente, ele participou numa campanha, a qual não apenas é ilegal em Cuba, como vai contra a cultura política que existe no povo, da ética que se foi consolidando na vida política cubana posterior a 1959. Daysi não realizou nenhum tipo de campanha, ajustando-se ao estabelecido nos procedimentos eleitorais que eu tenho seguido, e à ética do povo cubano. Em segundo lugar, ele utilizou fundos para a compra de votos. Terceiro, como Daysi não vive na área da assembleia de 11 de Março, ela não assistiu à mesma, ao passo que Sílvio vive ali junto aos seus vizinhos mais próximos, que sim assistiram. Nesse caso ela só podia esperar que outros a propusessem e falassem por ela, enquanto Sílvio estava supostamente no seu elemento. Quarto, a tendência geral nas eleições municipais em Cuba não é a de votar mecanicamente nem automaticamente nos Delegados que tenham completado um mandato. Por exemplo, todos os anos desde 1976, aproximadamente menos de 50% das recandidaturas são reeleitas. Em geral existem diversas razões para este comportamento, para além dos casos em que os cidadãos não estão satisfeitos com o seu trabalho como delegado e não o propõem. Por exemplo, os implicados decidem não voltar a concorrer, ou mudara-se para outra circunscrição e portanto não são elegíveis. Inclusivamente pode acontecer que mesmo sendo proposto por um cidadão, não alcance a maioria de votos para ser nomeado em nenhuma assembleia.

 

Apesar de todas as evidentes manobras e condições em geral a favor de Sílvio, Daysi obteve 71 votos frente aos 13 de Sílvio. E como mencionei anteriormente, é possível pensar que muitos destes 13 votos foram devidos à demagogia do dissidente quando falou de Raúl e das mudanças. A campanha do dissidente pode ter encontrado uma resistência devido a que os cubanos não gostam da politiquice, e muito menos do uso de fundos, do suborno de qualquer forma, característico nas políticas dos governos neo-coloniais da República sob o domínio dos EUA, questões que os cubanos deixaram já há muito para trás desde o triunfo da revolução.

 

Devemos assinalar que Sílvio, que se proclamou a si mesmo Presidente do seu Partido Liberal em Cuba e portanto, pode-se inferir que o seu partido não é legal, ainda nem sequer foi detido e muito menos levado a tribunal. Ele sente-se em completa liberdade levando a cabo estas actividades que incluem a sua auto-proposição numa Assembleia de nomeação.

Mas talvez o que mais nos diz nisto tudo são os resultados das outras duas Assembleias de nomeação de candidatos desta mesma circunscrição.

A 4 de Março o único nomeado foi Jorge Luís Pérez, que não é um dissidente e obteve 60 votos. Nessa assembleia Daysi não foi nomeada e Jorge Luís ganhou nesta área com a contagem dos votos a ser feita por braço no ar.

A 8 de Março, dos 170 participantes na área onde ela vive, Daysi obteve 170 votos, o que representa 100% dos votos a seu favor.

Os dois nomeados para as eleições foram Daysi e Jorge Luís.

Porquê todo este alvoroço por causa dos 13 votos de Sílvio?

 

O que se passou nas eleições que tiveram lugar a 25 de Abril, de acordo com os números reportados pela Comissão Municipal Eleitoral?

O Sr.Ravsberg continua com outro artigo posterior à ampla votação de 25 de Abril, onde os cubanos votaram nos candidatos previamente nomeados.

Nesse artigo, mais uma vez deposita toda a ênfase nos dissidentes através de: a) As Damas de Branco; b) Sílvio e a sua vizinhança. Sílvio está registado no colégio eleitoral Nº1 e este foi o único colégio eleitoral reportada pelo Sr. Ravsberg. O jornalista refere que aí se contabilizaram 14 votos nulos e 39 boletins em branco e se somarmos aos que não votaram, concluímos que isso representa uns 20% dos eleitores desta área específica, número maior ao reportado em eleições precedentes. De acordo com os números da comissão eleitoral, Daysi recebeu 118 votos contra 110 votos para Jorge Luis. O colégio eleitoral Nº2 contabilizou que 94,7% dos seus eleitores votaram e Daysi obteve 145 e Jorge Luís 144. Neste colégio eleitoral houve 12 boletins em branco (3.86%) e 21 (6.3%) votos nulos.

 

No total da circunscrição, tendo em conta os dois colégios eleitorais, temos os seguintes resultados: Daysi obteve 273 votos e Jorge Luis 254. Houve 22 boletins em branco e 60 boletins nulos, superiores à média nacional. (Noutro artigo, refiro-me aos resultados das eleições municipais, especialmente às especulações da imprensa internacional relativamente aos boletins em branco e anulados.)

Faço só uma pergunta, qual é o significado dos 13 votos de Sílvio numa reunião de uma área que resultou numa derrota sua, frente à nomeação vitoriosa dos outros dois candidatos, Daysi e Jorge Luís e os resultados de votação tão altos que ambos obtiveram nas actuais eleições de 25 de Abril?

 

Por outro lado, penso que não seríamos exagerados se afirmarmos que tudo parece indicar que Daysi tem demonstrado ser boa como Delegada, ou, quanto muito, o seu trabalho satisfaz os eleitores, tendo em conta que a nível nacional só pouco mais de 50% dos Delegados do mandato anterior foram eleitos no dia 25 de Abril, uma tendência que se tem mantido durante todos estes anos. (Susana Lee, “Mas de 5 000 mujeres integraran las Asambleas Municipales del Poder Popular”, Granma, 11 de Maio de 2010.)

 

Com o objectivo de tentar chegar o mais possível à essência do problema, conversei com Fernando Ravsberg no dia 2 de Maio em Havana. Nós não nos conhecíamos previamente. Foi uma discussão agradável e informal, mesmo quando estávamos em desacordo quanto aos factos e à análise do sistema político cubano e do tipo de democracia existente em Cuba. É certo, tal como alguns jornalistas cubanos me disseram, que ele não é tão mau como sucede com outros correspondentes estrangeiros na ilha.

Durante a conversa houve um tema que foi retomado repetidas vezes. Tal como o Sr. Ravsberg citou em diversos artigos, ele entende muitos temas políticos da ilha como uma conspiração do PCC, utilizando o eufemismo das palavras “controlo” e “repressão”, e colocando o PCC e os seus líderes históricos contra o povo.

 

Uma coisa que me impressionou fortemente durante este encontro foi o seguinte. Quando perguntei ao Sr. Ravsberg se tinha estado no desfile do 1º de Maio, que tinha acontecido no dia anterior em Havana, com o objectivo de o relatar, respondeu-me “Não”. Quando lhe perguntei por que razão, ele respondeu-me que não considerava este evento como uma história válida para uma notícia, pois existem muitos desfiles de 1º de Maio em todo o mundo, por exemplo na Venezuela. Ao mesmo tempo disse-me que tinha coberto uma actividade das Damas de Branco realizada nesse dia de manhã (2 de Maio), com o objectivo de redigir uma notícia sobre elas.

Realmente senti-me muito marcado por estas duas entrevistas, a de 30 de Abril em Punta Brava, e a de 2 de Maio na casa do Sr. Ravsberg. Mas por razões muito diferentes.

Impressionou-me a completa falta de respeito exibida pelo Sr. Ravsberg em relação a pessoas como Daysi, eleitas delegadas, pelas razões indicadas anteriormente, e o desprezo em relação aos milhares de cubanos que formaram uma multidão impressionante no 1º de Maio em Havana, assim como as manifestações que se efectuaram em toda a ilha e nas quais participaram milhões de pessoas.

Por que falo em termos de um desprezo? Pela simples razão de que durante meses, incluindo a 1 e 2 de Maio, virtualmente todo o seu centro de atenção foram as Damas de Branco. O repúdio em cobrir o 1º de Maio de qualquer forma, enquanto cobria qualquer movimento das Damas de Branco no dia 2 de Maio, excluindo milhões de mulheres cubanas. Isso é um indicador de desprezo da mesma maneira em que cada palavra e acusação infundada pelo dissidente Sílvio na Assembleia da sua área de nomeação é relatada com o maior respeito, enquanto a candidata e eleita delegada, Daysi, permanece invisível aos leitores.

O Sr. Ravsberg podia ter entrevistado Daysi mais tarde ou em qualquer outro momento, conversar pelo menos com alguns dos eleitores na Assembleia de nomeação com o objectivo de obter mais elementos da candidata Daysi.

De acordo com as entrevistas, ele não falou com nenhum deles, para dar a conhecer à opinião pública internacional dados sobre aqueles que foram Delegados em Cuba. Em vez disso contribui para criar uma cortina de fumo de “candidata comunista versus dissidente” associada a qualquer acusação pré-fabricada de “repressão”.

 

Por isso a guerra dos meios de comunicação contra Cuba constitui um problema muito sério para os jornalistas, perante a selectiva decisão sobre o que relatar e o que não relatar. O mesmo se aplica a outros países e líderes que foram diabolizados como Hugo Chávez e a Venezuela.

A actual campanha mediática contra Cuba apoiada pela ala direita na Europa e  EUA utiliza os “dissidentes”, um factor irrelevante na política em Cuba tal como vimos anteriormente. No entanto, a sua presença na ilha é ampliada ao extremo pelo monopólio dos meios de comunicação, Washington e Bruxelas. A meta é desacreditar a Cuba e o seu sistema político para construir um caso contra o tipo de democracia cubana, qualificando-a de repressiva, totalitária ou ditatorial. Tudo isso acentuado para ser utilizado como pretexto que permita a intervenção estrangeira nos assuntos internos de Cuba. As linhas estão a ser traçadas na opinião pública internacional sobre este tema.

 

Não se trata de apresentar uma acusação contra qualquer um dos monopólios mediáticos ou contra um jornalista em específico, mas sim de contribuir para um debate sobre este tema.

 

 

 

 

 

 

Texto de Arnold August publicado em Rebelion.Org a 24 de Maio de 2010. Tradução de Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 09:00
link do post | comentar | favorito
|

Todos os textos aqui publicados são traduções para português de originais noutras línguas. Deve ser consultado o texto original para confirmar a correcta tradução. Todos os artigos incluem a indicação da localização do texto original.

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

Crise Alimentar

A maior demonstração do falhanço histórico do modelo capitalista



Em solidariedade com a ACVC

Camponeses perseguidos na Colômbia

"Com a prosperidade dos agrocombustíveis, a terra e o trabalho do Sul estão outra vez a ser explorados para perpetuar os padrões de consumo injusto e insustentável do Norte"



Investigando o novo Imperialismo

↑ Grab this Headline Animator


.Vejam também:

Associação de Solidariedade com Euskal HerriaManifesto 74
Sara Ocidental Passa Palavra
XatooPimenta NegraO ComuneiroODiárioResistir.InfoPelo SocialismoPrimeira Linha
Menos Um CarroJornal Mudar de Vida
Blogue OndasBioterra





InI Facebook

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.