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Segunda-feira, 23 de Setembro de 2013

Em defesa do voto

“(…) o tecido fabricado na sombra chega ao seu fim, e então parece que a fatalidade arrasta tudo e todos, que a história não é mais que um enorme fenómeno natural, uma erupção, um terramoto, do qual acabam sendo vítimas todos, o que quis e o que não quis, o que sabia e o que não sabia, o que foi activo e o que foi indiferente. E este último irrita-se, queria eximir-se das consequências, queria que ficasse claro que ele não tinha querido, que ele não é responsável. Alguns choram piedosamente e outros maldizem obscenamente, mas nenhum, ou poucos, se preguntam: se eu também tivesse feito o meu dever de homem, se tivesse tentado fazer valer a minha voz, o meu parecer, a minha vontade, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum, ou poucos, se culpam pela sua indiferença, pelo seu cepticismo, por não ter dado o seu apoio moral e material a aqueles grupos políticos e económicos que combatiam, precisamente, para evitar esse mesmo mal; que se propunham conseguir esse mesmo bem. Eles, porém, preferem falar de fracasso das ideias, de programas definitivamente afundados e de outras graças semelhantes. Continuam na sua indiferença, com o seu cepticismo. Amanhã seguirão com a sua vida de renúncia a toda a responsabilidade directa ou indirecta”. 

António Gramsci, 26 de agosto de 1916

 

 

Durante anos a esquerda mais combativa considerou as instituições e os representantes políticos como a parte mais interessada e mísera da política. Por oposição a eles, reivindicava-se a entrega generosa do activismo social, a rua como lugar de encontro político por excelência, os movimentos sociais como o tecido mais honrado onde se catalizavam as lutas e a organização. Pelo contrário, os cargos políticos tinham o pecado de ter um salário, o que em muitos casos não era verdade, um gabinete, um poder que nem sempre punham ao serviço dos cidadãos.

Como resultado de tudo isso, pedir o voto era juntar-se à parte menos honrosa da política da esquerda. Muitos dos cidadãos mais críticos tinham o orgulho de não ter votado ou, pelo menos, de não ter votado em nenhum partido com representação institucional, o que os deixava, aos seus próprios olhos e aos de muitos, sem nenhuma responsabilidade perante qualquer tropelia que algum cargo maior ou mais pequeno fizesse, ou deixasse fazer. Evidentemente, em nenhum forum formal ou informal de discussão podiam atirar à cara desse cidadão o comportamento de nenhum cargo eleito porque com o seu voto não tinha eleito ninguém. Nenhuma traição das instituições tinha relação com o seu comportamento eleitoral, porque aparentemente nada do que sucedia nessas instituições estava relacionado com o seu voto.

A direita, por outro lado, fazia o oposto. Não se caracterizava por colaborar nos movimentos sociais, nem por dedicar muito do seu tempo livre ao ativismou à militância. Isso sim, quando chegavam as eleições, religiosamente iam à urna alavancavam os seus partidos ao poder nacional, autonómico e municipal.

Com essa situação, e ao passo que as mobilizações por questões partilhadas pela esquerda não deixan de aumentar, são muitos os que se questionam por que razão não avançamos. Por quê não se conseguem travar os cortes ou mudar as políticas. A resposta mais primária é clara. Porque os que governam são outros, porque os votos foram para eles e porque essa força crítica da sociedade não se reflectiu nas eleições. Sem dúvida há muitos mais elementos a analizar (individualismo cidadão, desconfiança da política, sistema eleitoral injusto), mas é paradoxal que os movimentos sociais falem de ocupar o Parlamento simbolicamente em jornadas de mobilização e não de ocupá-lo literalmente com deputados que nos representem elegendo-os nas urnas.

Não sei se os que saem ou que saímos à rua nos representam ou representamos. Em qualquer caso, de pouco serve isso porque os que decidem são outros. Não há outra opção que conseguir que esses que decidem nos representem, e os que decidem saem de uma urna. As sondagens dizem que as pessoas confiam mais na Plataforma de Afectados pelas Hipotecas (PAH) e nas ONGs do que nos partidos. Mas essa gente deve compreender que as leis são feitas pelos deputados eleitos que se apresentaram nas listas dos partidos. Haverá que procurar pessoas nas quais se possa confiar e depois elegê-las como deputados.

Esses mesmos activistas que se movem num círculo de idealização do movimento social, exigindo o candidato perfeito e, perante a ausência da perfeição, optam pela abstenção ou pelo voto testemunhal sem possibilidade de reflexo institucional, defendem o valor dos processos de esquerda latino-americanos como o resultado da chegada ao poder de governos dignos mediante o voto cidadão. Afirmam com contundência que “sí, se puede”, apesar de que, seguramente, haverá, e pereberão, erros e misérias nesses governos. Governos que também tiveram que enfrentar todos os obstáculos de umas democracias cheias de armadilhas nas leis eleitorais, campanhas mediáticas de agressão e dinheiro ao serviço das candidaturas de direita; e, no entanto, conseguiram salvá-los.

 

esquerda, direita, votoCartoon de Yaakov Kirschen, Dry Bones

 

O seguinte problema é a fragmentação da esquerda, uma fragmentação que para a mobilização não é necessariamente negativa se depois existirem frentes comuns e coordenação, mas sim é trágica em convocatórias eleitorais. São muitos os cidadãos politicamente conscientes que depois desesperam ao encontrar a esquerda dividida numa infinidade de grupos políticos nas eleições. Parece que esse “narcisismo das pequenas diferenças”, como diria Freud, está instalado nos líderes da esquerda espanhola. A discussão sobre que grupo ou líder tem mais ou menos responsabilidade na desagregação também seria estéril. Provavelmente os maiores deveriam ser mais generosos na incorporação de companheiros dos partidos minoritários, e provavlemente sempre ficariam alguns nestes últimos para manter a sigla e a bandeira, porque já se sabe que há quem prefira ser cabeça de rato do que cauda de leão.

O jornalista Pablo Iglesias assinalava numa entrevista que o que permite o éxito eleitoral da esquerda não é tanto um avanço na difusão do seu ideário entre a população, mas a percepção de um projecto alternativo perante os governos da troika que pode ter êxito político. Inclusivamente, Chávez chegou ao poder na Venezuela com um programa político bastante difuso, sería posteriormente empurrado pela cidadania,e pela sua coerência, honestidade e valentia, razão pela qual se teriam conseguido os avanços sociais.

Perante esta divisão, a única opção que resta ao cidadão crítico é aglutinar o seu voto já que não o fazem os responsáveis pelas siglas. Isto é, há que votar, porque, não as desdenhando, não são as manifestações, os movimentos sociais nem as ocupações de praças as que decidem as políticas e as legislações, mas sim os tipos que foram eleitos nas urnas. A não ser que se interrompa a institucionalidad mediante uma revolução, algo difícil de imaginar na Europa. E, para além de votar, deve fazer-se uma opção que defenda todas as mobilizações que hoje se estão a desenrolar, mas também que depois tenha um reflexo institucional, que modifique a distribuição actual dos mandatos, dominada pelos grandes partidos que têm governado Espanha há mais de trinta anos. Se conseguirmos essa aglutinação, é verdade que nenhum deputado nem nenhum governo nos pode garantir que não haja uma traição, mas teremos conseguido verdadeiramente varrer os que dominaram as últimas décadas e entrará alguma luz. Se depois continuarmos a lutar na rua e a exigir coerência aos recém chegados, irá demonstrar-se que essa luz era uma alternativa.

Se não fizermos isto, de nada servirá continuarmos a dizer que não nos representam, porque não teremos sido capazes de o demonstrar.

 

Texto de Pascual Serrano, publicado na revista "Atlántica XXII" nº26, de Maio de 2013. Tradução de Alexandre Leite.

 

publicado por Alexandre Leite às 19:00
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