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Domingo, 10 de Dezembro de 2006

Forçando os factos a encaixar na teoria

Uma reportagem no jornal “Daily Mirror”, de 16/7/2005, com o título “Exclusivo: Terá sido suicídio ?”, tenta usar essencialmente os mesmos factos apresentados aqui mas ainda conclui serem bombistas. Há muitas questões nesta visão, especialmente à luz das últimas informações aparecidas.

Em primeiro lugar, todos compraram bilhetes de ida e volta e um bilhete de oito horas de um parque de estacionamento em Luton, por isso tinham mesmo intenção de voltar. O Mirror assegura que planeavam colocar as mochilas algures, mas foram “enganados” pelo seu “tutor”.

Os quatro tinham grandes mochilas, que seriam dificilmente deixadas numa carruagem, sem dar nas vistas. Qualquer pessoa que conheça o metro de Londres sabe que tentar esconder alguma coisa lá, não é fácil. Não há espaços por baixo de assentos, não há prateleiras para bagagens, de facto, não nenhum sítio para esconder grandes mochilas. Por isso, como é que eles pensavam deixar as suas mochilas sem chamar a atenção? Até aceito que não seja impossível mas têm grandes hipóteses de serem descobertos. E durante mais de uma década de bombas do IRA, nenhuma bomba foi colocada no metro.

A reportagem diz

A polícia e o MI5 [Serviço de Informações Secretas Britânico] estão a investigar se a Al- Qaeda teria dito aos quatro homens que tinham tempo de escapara depois de accionarem os temporizadores. Em vez disso, elas explodiram imediatamente.

Uma fonte da segurança disse: “Se os bombistas sobrevivessem e fossem apanhados, provavelmente iam-se descair. Será que quem os ordenou iria permitir isso? Não nos parece.”

Pensava que a polícia tinha descartado a hipótese dos temporizadores… Mais factos forçados a encaixar na teoria. E quem é que a polícia e o MI5 vão investigar, exactamente? O “químico”, de quem os media tanto falam? “Químico” este que se percebeu agora não ter nenhuma ligação aos atentados. Apenas é proveniente de Leeds, é Egípcio e viajou para o Egipto na altura “certa” (ver notícia da BBC, Bioquímico não tem ligação à Al-Qaeda”)

Dois dos alegados bombistas tinham esposas grávidas e, por último, todos tinham montes de identificação, carta de condução, cartões de crédito, etc… Não é exactamente a descrição de um discípulo fanático da Al-Qaeda. Até a reportagem do Mirror explica que “Os bombistas suicidas normalmente livram-se de todos os objectos identificadores”, apesar de não explicar em que se baseia para dizer isso, mas assumindo que é verdade. A reportagem do Mirror dá a volta a isto, dizendo que eles eram “dispensáveis”, citando novamente uma fonte “da segurança”.

“Quem estava por trás disto não quis perder os seus melhores operacionais numa missão suicida. Em vez disso, optaram por homens facilmente recrutáveis, pouco graduados e que devem ter acreditado que escapavam”

Tudo muito conveniente, sem dúvida, mas a ideia de que eram “pouco graduados”, introduz mais uma suposição totalmente infundada, sobre a natureza dos bombistas suicidas, nomeadamente que eles se dividem em diferentes graduações (ou será qualificações?). Ao fim e ao cabo, morto é morto. Mais uma vez, a reportagem do Mirror dá a volta, citando mais uma “fonte da segurança”.

Se os bombistas sobrevivessem e fossem apanhados, provavelmente iam-se descair. Será que quem os ordenou iria permitir isso? Não nos parece.

E, para o caso de não termos percebido bem, mais um “fonte da segurança” diz ao Mirror

Quem estava por trás disto não quis perder os seus melhores operacionais numa missão suicida. Em vez disso, optaram por homens facilmente recrutáveis, pouco graduados e que devem ter acreditado que escapavam.

Fico espantado como se consegue “facilmente recrutar” alguém que vai rebentar com pessoas aos pedaços, quer acredite ou não que vai escapar. Era preciso ser muito estúpido para se deixar enganar e pensar que até podia “escapar”, especialmente de uma carruagem de um metro subterrâneo, se de facto era esse o local planeado. Nada até agora indica que os alegados bombistas tinham uma educação abaixo do normal, parecendo mesmo relativamente bem integrados e indivíduos “normais”, de acordo com as declarações que já li.

A reportagem também se refere aos atentados de Madrid, de ano passado [2004]

Ataques terroristas semelhantes, contra transportes públicos em Madrid, no ano passado, levados a cabo por elementos que tiveram tempo de escapar e planeavam atacar novamente.

Excepto que no caso de Madrid as bombas explodiram a céu aberto, perto de comboios e autocarros, onde era fácil, para os bombistas, escapar. As bombas também eram muitíssimo maiores do que as usadas em Londres, por isso, não dá para comparar.

Outra questão a que nem a reportagem nem a polícia dão uma resposta pronta, são os 81 minutos de intervalo entre as bombas do metro e a do autocarro.

Uma explicação alternativa à da hipótese de correios de droga, é que ao encontrar a Northern Line fechada em Kings Cross, ter tomado um diferente caminho, após contactar o seu “tutor”, para seguir para o “destino” pretendido, e as bombas podiam ter sido detonadas remotamente. O meu colega Edward Teague sugeriu que as bombas podem ter sido detonadas através de Wi-Fi ou mesmo Bluetooth (apesar do limitado alcance, especialmente do Buetooth, me fazer excluir estas hipóteses). Alternativamente (e muito mais simples), pode ter havido uma falha num dos temporizadores. De acordo com uma testemunha no autocarro, que viu um homem atrapalhado com a sua mochila antes do rebentamento, o homem soltou um grande grito imediatamente antes da bomba rebentar! Talvez tenha descoberto o que realmente transportava?

 

 

E parece que agora a polícia mudou a sua história, mais uma vez, e têm a certeza absoluta que foram usados temporizadores e explosivos comerciais. Então, o que é que aconteceu ao super-carregado peróxido de acetona, para remover verniz das unhas, que supostamente foi encontrado em casa de um dos bombistas?

Quanto mais se sabe, menos verosímil parece a ideia de que estes quatro eram bombistas, quer fossem suicidas ou não. Mas ainda fica a questão de quem montou este esquema, por responder. Principalmente tendo um “padrão” que não se enquadra no de anteriores atentados, especialmente a sofisticação das bombas (bem, de acordo com a polícia).

Tendo em conta todos estes factos, parece ter sido uma operação bastante sofisticada que tem todo ar de ser uma operação patrocinada por um estado.

 

 

Texto publicado originalmente em 17 de Julho de 2005, da autoria de William Bowles, disponível em http://williambowles.info/ini/ini-0348a.html, e traduzido por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 18:31
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