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Domingo, 10 de Dezembro de 2006

Morte de Jean Charles de Menezes

“Não há nada de patriótico em pretender amar o nosso país mas desprezar o nosso governo.” Presidente Bill Clinton

 

À medida que mais informação vem à tona, sobre as circunstâncias do assassinato do infeliz Brasileiro, fica bastante claro que desde o momento em que ele saiu do seu apartamento em Tulse Hill, para ir para o seu trabalho como electricista, era um homem morto.

Muito provavelmente, o verdadeiro cenário foi o seguinte:

O bloco de apartamentos está sob vigilância de uma equipa da polícia, com base, sem dúvida, em “informações recebidas”.

Menezes deixa o apartamento, vai até à paragem e apanha o autocarro para a estação de metro de Stockwell. É seguido pela equipa de vigilância da polícia, quando entra na estação e, ao contrário do que a polícia diz, ele não salta o torniquete mas usa o seu bilhete para passar no torniquete.

Neste ponto, uma equipa à paisana toma conta e segue Menezes até ao interior da estação. Menezes vai até à plataforma da Northern Line, onde está uma composição com as portas abertas.

Menezes corre para tentar ainda apanhar esse metro. A polícia segue-o de perto. Menezes tropeça ao entrar na carruagem. A polícia entra também, salta-lhe em cima e desfere-lhe o golpe final, sete tiros na cabeça e um no ombro.

Indubitavelmente, a isto seguiu-se uma comunicação triunfal para o seu superior, “Apanhámo-lo chefe!”. Mais um “terrorista” morto.

A partir daqui, foi sempre a piorar, para os polícias. Na identificação, aperceberam-se que o seu “terrorista islâmico” é de facto, um Brasileiro. Uuups! Grande asneirada. O que fazer?

Entretanto, o comissário da polícia de Londres, Blair “da Yard” [da Scotland Yard – polícia de investigação britâncica], na sua pressa em reivindicar um sucesso (mais um passo no seu caminho para atingir uma distinção por “serviços prestados à pátria”, sem dúvida), já anunciou que Menezes está definitivamente “ligado directamente à rede terrorista”.

O problema agora é, como encobrir a asneira? Deste ponto em diante, essa tarefa foi indo por água abaixo.

De forma a justificar o assassinato de Menezes, é necessário “massajar” os factos de forma a conseguir encaixá-los no crime.

Passo 1: Dizer que ele vestia um casaco comprido, num dia quente de verão, quando, de facto, ele levava vestido um casaco de ganga leve. Muito suspeito, pois debaixo do casaco comprido podia estar escondida uma bomba. Para além disso, insinuam que o seu comportamento era “suspeito”

 

Passo 2: Em vez de ter passado normalmente pelo torniquete da estação, a polícia alega que ele saltou por cima do torniquete, para entrar na estação. Claro que agora, no cenário deixado pela “Operação Kratos”, a polícia tem “licença para matar”.

 

Passo 3: Neste momento, a “brigada especial” toma conta, e segue-o até à plataforma da estação. A partir deste ponto e até ao momento em que entra na carruagem, os acontecimentos são de certa forma, conjecturados. Muito provavelmente, uma vez na plataforma, Menezes foi avisado para parar (versão da polícia) e foi perseguido pela brigada, com armas em riste. Compreensivelmente, ao ver-se perseguido por três homens armados, não identificados, Menezes foge. Ou então, ao ver a carruagem na estação, ele corre para tentar entrar antes das portas fecharem, tropeça na entrada e é seguido pela tal brigada.

Passo 4: De qualquer das formas ele é perseguido por três homens que, de acordo com Whitby, uma das testemunhas, “lhe saltaram em cima” e dispararam várias balas, à queima-roupa (Whitby disse cinco, outra testemunha disse três, mas de facto, de acordo com a polícia, foram oito). De uma ou de outra forma, Menezes morreu.

Sem dúvida que a primeira acção da brigada especial terá sido, comunicar aos seus superiores que o suspeito tinha sido “neutralizado”. Nesta altura, devido à sua pele escura, ainda se assumia que Menezes fosse um “Asiático”. Fosse ele, de facto, um Asiático e sem dúvida que a história elaborada pelas autoridades seria algo diferente. Dada a atmosfera de histeria criada à volta dos acontecimentos de 7 de Julho e do dia anterior à morte de Menezes, o desafortunado falecimento do “homem Asiático”, seria “lamentável” mas compreensível. E, no fundo, quem se interessa que um estranho Asiático bata as botas? A compreensão iria para a polícia que, de qualquer forma, está “sob grande tensão”.

Entretanto, o Blair “da Yard” aparece a anunciar ao mundo que a vítima estava “de certeza ligada directamente à rede terrorista”. Este foi o primeiro de vários erros cometidos pelo estado, que, sem dúvida, forçou a invenção da história que foi depois libertada para a imprensa.

Foi chegada a altura de uma “engenharia reversa”, daí o “casaco comprido”, o “saltar o torniquete”, o seu “comportamento suspeito”, levando à necessidade do uso de força letal para “proteger a vida de pessoas inocentes”.

Finalmente, foi revelada a política de “atirar a matar” da Operação Kratos, de forma a retirar a culpa à asneirada da polícia. Blair e companhia ficam assim, em teoria, inatacáveis, protegidos pela capa da “política”. A campanha de propaganda aparece na altura certa.

Aparece o primeiro de muitos artigos de desinformação, nomeadamente o de que ele poderia ser um “estrangeiro ilegal”, justificando assim a sua fuga da policia, numa tentativa de justificar o assassinato. O Ministério do Interior [Home Office] publicou inicialmente um rigoroso desmentido e condenou, de forma clara, a especulação da imprensa sobre o estatuto de Menezes, mas isto claro, em linha com a táctica de quanto mais “palha” melhor. A ideia é semeada nas mentes do público independentemente dos desmentidos oficiais.

O estatuto de Menezes passa por uma série de revisões durante essa semana, com mais uma história insinuando que o carimbo do seu passaporte é “falso”. O Ministério do Interior recusa comentar. Apesar de tudo, na globalidade, a impressão passada para o público é que alguma coisa não batia certo, em relação a Menezes. Tudo a alimentar a máquina da propaganda. Os principais meios de comunicação apressam-se a defender os actos da polícia, num total alinhamento com a política oficial, num assassinato consentido pelo estado.

As testemunhas do assassinato desaparecem completamente. Não há mais entrevistas da nossa intrépida imprensa. Uma breve nota de imprensa é emitida pelo sindicato RMT, dizendo que o condutor do metro, que compreensivelmente fugiu, como toda a gente, quando foram disparados os tiros, foi perseguido pela polícia e teve uma arma apontada à cabeça, antes de ser libertado (fico a pensar, seria ele “escuro”?). Telefonei para o RMT e disseram-me que o condutor era, na realidade, membro do ASLEF, o outro sindicato dos trabalhadores dos transportes. A única reportagem que encontrei sobre isto foi no jornal Morning Star. Tentei falar com o gabinete de imprensa do ASLEF, mas sem sucesso. Pelo que sei, o ASLEF não comentou o acontecimento e não há menção nenhuma ao caso, na página da internet do ASLEF. Também, é apenas uma história paralela à “guerra ao terrorismo”.

Com o passar dos dias, emerge finalmente que a história divulgada pela polícia sobre os acontecimentos que levaram à morte de Menezes, é de alguma forma irrelevante, mas agora a propaganda em defesa do governo já vai a velocidade de cruzeiro e os verdadeiros factos desaparecem sob um manto de justificações divulgadas pela polícia e pelo governo. Principalmente a política de “atirar a matar”. É necessário disparar primeiro e talvez fazer perguntas depois, mas em qualquer caso, o estado não tem outra escolha para além de instituir tal política, dada a natureza da ameaça, bombistas suicidas, que têm de ser abatidos antes de fazerem explodir as suas bombas.

No entanto, gostaria de fazer alguns reparos à táctica do governo, que mostram algumas falhas graves nos cálculos governamentais, que se cruzam com o desastroso falecimento de Menezes.

Em primeiro lugar, parece claro que à medida que a situação vai de mal a pior no Iraque, se revelou o desastre estratégico que é a “guerra ao terrorismo”, da qual a aliança EUA/RU provavelmente não recuperará. Todas as tentativas de arrastar os outros estados capitalistas para o mesmo barco, falharam redondamente. Por isso, a cada dia que passa, a “coligação mortífera” vê-se cada vez mais isolada, e o mais perigoso, cada vez mais desesperada. Aqueles que desdenham a ideia que os acontecimentos de 7/7 foram realmente instigados pelos serviços de segurança do “Eixo do Terror”, os EUA, o RU e Israel, precisam de ter esta realidade em atenção. Esqueçam as fotografias alegadamente forjadas, imagens retocadas e coisas assim.

E se forem necessárias provas disto, apenas precisamos de reparar na mudança de rumo anunciada esta semana: adeus “guerra ao terrorismo”, olá “guerra ao extremismo violento”. Extremismo, é claramente uma definição mais vaga e abrangente do que “terrorismo”. Com certeza, esta mudança na táctica é pensada para nos prepara para o próximo nível na construção de um estado policial, simplesmente porque é inevitável que a resistência às políticas de Blair irão aumentar, com a soma das implicações da invasão falhada.

Nesta semana, o anúncio de novos e ainda mais repressivos poderes estatais, é uma clara indicação do aumento do desespero da elite dominante, justificada pelos “convenientes” acontecimentos de 7 de Julho (e daquilo que eu ainda considero como o trapalhão acidente, tentativas de imitação obviamente amadoras a 21 de Julho)

A polícia disse a Tony Blair, na última noite, que necessita de novos e arrojados poderes para combater a ameaça terrorista, incluindo o direito a deter um suspeito até três meses, sem acusação, em vez dos actuais 14 dias.

Agentes oficiais também querem poderes para atacar e fechar páginas na internet, uma nova ofensa criminal para o uso da internet na preparação de actos de terrorismo e “suprimir o uso inapropriado da internet”.

Também querem que passe a ser ofensa criminal, a recusa, pelos suspeitos, em dar à polícia, livre acesso aos seus ficheiros do computador ao recusarem-se a dar as palavras passe.

Mas que diabo é “o uso inapropriado da internet”? Assim que o estado embarca neste caminho de repressão, para fazer cumprir a sua política contra a vontade da população, está numa rua de sentido único em direcção ao fascismo, pois não há forma de recuar ou de dar meia volta. O único sentido é ainda mais repressão ou então o derrube daquilo que está efectivamente a tornar-se numa ditadura.

O terreno, representado por um modelo social democrata, de governação através de algum tipo de consentimento e compromisso, já não dá, abandonado que foi, como muito do resto da bagagem inconveniente da social democracia, tal como responder perante o povo.

E à medida que a situação fica mais polarizada pelas acções do governo, é inevitável que o “terrorismo” seja transformado em “extremismo”, aumentando assim a rede que cerca uma percentagem crescente da sociedade que se opõe ao “ordinário” fascismo de Blair. Quando formos a ver, as fontes independentes de media, como esta, serão chamadas de “extremistas”, simplesmente porque nos opomos às políticas do governo.

Na frente de todo esta campanha vem a demonização do Islão por parte do estado, que se tornou ainda mais estridente e extrema.

É por isso que eu nem concordo… que afinal, eles só nos queiram por para fora dos países Árabes, não é isso. É muito mais fundamental que isso. Eles querem uma guerra entre o Islão e outras religiões, é isso que querem. É por isso que se referem sempre a isto como, a cruzada da aliança Sionista e todo este tipo de disparates. É isso que eles querem. Querem uma situação em que nós acabemos divididos. – Tony Blair

Sendo nós, claro, os brancos, aliança Anglo-Saxónica dos EUA e do Reino Unido. Interessante, a única vez que o termo “cruzada da aliança Sionista” foi usado, foi alegadamente por Osama bin Laden em Outubro de 2004 numa gravação que foi classificada pela CIA de “confiança moderada” em ser de bin Laden. Por isso, nem temos mesmo a certeza se Osama usou realmente a frase. Para além disso, o discurso foi divulgado num desses sites fantasma, muito usados pela alegada rede terrorista da Al-Qaeda.

E nós não vamos lidar com este problema, com as raízes tão profundas como são, até confrontarmos estas pessoas, a todos os níveis. E não apenas os seus métodos, mas as suas ideias. [ênfase minha – W.Bowles] – Tony Blair

Atentem ao uso da expressão “Não apenas os seus métodos, mas as suas ideias” proclamando a natureza da relação entre os EUA e o RU, com os EUA a alterarem também a sua campanha de propaganda para a harmonizarem com a realidade da opção militar falhada. Ao não conseguir vencer a “guerra ao terrorismo”, só resta uma opção, entrar em guerra com a sua própria população, à medida que aumenta a oposição às políticas falhadas.

 

O discurso de onde foram retirados estes excertos, revela um Blair ainda mais desequilibrado, com secções do discurso a assemelharem-se a “uma corrente de raiva consciente”, repleta de todas aquelas frases sonantes, agora já usuais. Mas o mais perturbante é a forma como a realidade é distorcida, como neste exemplo:

Israel não devia existir, sim, a política externa Americana é má, sim, o que aconteceu no Iraque ou Afeganistão foi pensado para exterminar o Islão, se as pessoas aceitarem estas ideias falta só um pequeno passo para o extremismo do terrorismo.

Por outras palavras, se foram contra a política dos EUA/RU no Iraque, Afeganistão ou contra o seu apoio às políticas do governo de Israel, então estamos a curta distância do “extremismo do terrorismo”. E há ums sugestão de que a invasão foi pensada para “exterminar o Islão”, a primeira vez que Blair o diz.

Extremismo e terrorismo são agora termos equivalentes. É óbvio que aqueles de nós que se opõem às políticas governamentais estão a ser preparados para a próxima fase, a inexorável lógica da derrapagem para o fascismo.

 

Texto da autoria William Bowles, publicado a 30 de Julho de 2005 em http://williambowles.info/ini/ini-0354.html e traduzido por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 18:34
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