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Domingo, 10 de Dezembro de 2006

Israel: Um lobo vestido com roupas de vítima

Israel: Um lobo vestido com roupas de vítima e porque é que a destruição do Líbano é um desastre estratégico para o Império

“Já era para ter terminado. A esta hora, na semana passada, os estrategas militares israelitas estavam a pedir mais 72 horas para terminar o serviço: era tudo o que precisavam, prometiam, para limpar o Hezbollah do sul do Líbano.” — Jonathan Freedland, jornal “The Guardian”, 26/7/2006.

Então vou bufar e soprar e a tua casa irá pelos ares, disse o Lobo. Bem, o Lobo está a bufar e soprar mas a casa não é feita de palha e o Hezbollah está a mostrar ser um oponente com bastante tenacidade. Claro está, que Israel tem um espantoso poder militar clássico, mas terá os meios ou o apoio político no próprio país para uma guerra prolongada?

Sem dúvida que, com tempo suficiente, o Hezbollah será afastado da fronteira mas irá reagrupar noutro lugar, e afinal, quanto tempo é que Israel tem? Tal como o Iraque, este país pode ser destruído, mas não é essa a questão. Tão bárbara destruição, longe de voltar os Libaneses contra o Hezbollah, simplesmente uniu o país contra Israel e os EUA e, importante, contra o resto do Médio Oriente, especialmente os seus líderes, por tão servil apoio aos EUA e aos Sionistas.

Reparem, como previsto, nos pedidos de Tel Aviv e de outros, de uma força liderada pela NATO para ocupar o que resta do Líbano, mas também não era precisa uma bola de cristal para adivinhar isso. Os líderes da UE, no entanto, não estão muito entusiasmados com a ideia, vendo-se a serem arrastados para o mesmo lamaçal de que a maioria deles está a tentar sair, no Iraque. Parece que as opções dos EUA são menos a cada dia que passa.

Para além do mais, quanto mais tempo durar o Blitzkrieg[N.T.1], apesar da enorme vantagem da propaganda e do apoio que teve dos media Ocidentais, Israel terá dificuldade em manter o mesmo nível de bruta destruição e não está definitivamente em posição militar e económica de ocupar todo o país. Nalguma altura o mundo real vai ultrapassar estes bárbaros, quer eles queiram quer não.

Se mais nada fez, a total brutalidade do massacre, acordou muita gente para realidade do estado Sionista, que se mostrou como é: lobos vestidos com roupas de vítima. O mito que dura há décadas, de Israel como vítima, foi finalmente desfeito, mesmo com os media Ocidentais a lutarem desesperadamente para manter vivo o já mais do que morto anti-semitismo, como uma justificação para a conquista imperial/colonial.

O outro aspecto que emergiu deste desastre fabricado pelos EUA é o papel fulcral dos media corporativos/estatais. Penso que já é altura de uma grande campanha direccionada aos media pelo seu papel criminoso de vender o massacre, pois sem a sua cobarde cumplicidade, teria sido impossível levar a cabo o Blitzkrieg.[1]

Mas não nos deixemos iludir, o Hezbollag NÃO é o grande objectivo do Blitzkrieg Nazi (perdão, Sionista). Se fosse, porquê destruir o Líbano como um estado viável? (BBC, Channel 4 e o resto dos media corporativos, tomem nota, sem bem que não vos apeteça).Por que é que Israel não se focou no Hezbollah se era ele o objectivo? Mais questões que os grandes meios de comunicação têm cuidadosamente evitado perguntar.

Porquê forçar a Síria a sair (ver actualização sobre Hariri  para mais informações da ligação de Hariri à actual situação) e depois pedir para voltar e resolver a confusão (outra vez as mesmas questões para os grande media).

No entanto, se existirem alguns aspectos positivos nesta situação, entendo que eles são os seguintes:

Longe de criar condições para um “Novo Médio Oriente” como insiste a maldita Condi [N.T.2] (o que é que lhe deu, ou será a minha incredulidade/ingenuidade que uma mulher negra possa ser tão fortemente assimilada?), o ataque ao Líbano provavelmente irá provocar mais resistência regional. Em primeiro lugar (e esperemos que sim) contra os líderes servis, dos estados Árabes, mas também, se isto é o que os Sionistas têm guardado para a Síria e o Irão, os imperialistas mostraram às pessoas de ambos os países o que os espera.

Depois, considerem a imensa máquina logística que os Lobos estão a tentar morder, uma iniciativa com que eles se irão engasgar, tal como aconteceu no Iraque. É difícil entrar no esquema mental deste animais. Estarão tão iludidos que pensam que as armas conquistam as pessoas? As armas podem matar mas nunca conquistar, é esta a lição da história, uma lição repetida vezes sem conta, mas aparentemente ainda não aprendida em Beltway ou Whitehall ou Tel Aviv quantas quer que sejam as vezes que lhes ensinam isso.

Tenham em conta que, para que o “Novo Médio Oriente” da Condi se torne uma realidade, terão de ser ocupados, durante um futuro considerável, não apenas o Iraque e o Líbano, mas também a Síria e o Irão (o objectivo final, sendo este o único país que conseguirá responder na mesma moeda). Até que ponto, exactamente, é que a Condi vê esta iniciativa a ser executada?

Muito bem, os Lobos dão à Síria o mesmo “tratamento” que deram ao Líbano. Conseguem mais pessoas realmente chateadas, e depois o quê? O Irão não é nenhum Líbano, nem a Síria, por isso, a não ser que usem bombas nucleares, e excluindo uma ocupação (com quê?), o “plano” da forma que está, é simplesmente impraticável.

Sem dúvida que os “Catastrofistas” entre vós, consideram que a ocupação não é o objectivo, a simples destruição é a “solução” mais simples. Muito bem, mas mesmo a total destruição, apenas adia o embate final. A questão resume-se a saber se os Lobos, não sendo fortes o suficiente para dominar a presa, vão preferir destruí-la?

Eu entendo que aqueles que dirigem a política externa dos EUA são, não apenas extremamente míopes, mas simplesmente incapazes de compreender como as pessoas pensam, pois eles julgam toda a gente como eles pensam.

O Blitzkrieg ao Líbano pode bem ser uma última tentativa desesperada para resgatar o que sobra do “Plano para o Médio Oriente” ou como é mais conhecido, “O Projecto Para o Novo Século Americano”. Apenas precisamos de olhar para o que os bandidos dos grandes meios de comunicação estão agora a dizer. Até os entusiastas apoiantes do Sionismo entenderam a mensagem,

 

“O resultado é que se permitiu que o conflito central alastrasse. Se tivesse sido resolvido, ou mesmo se tivesse existido um esforço sério para o resolver, a actual crise seria inimaginável. Em vez disso, ideia inspiradora de Bush, tem sido que as pessoas do Médio Oriente podem ser bombardeadas até à democracia e aterrorizadas até à moderação. Mostrou-se um dos grandes enganos fatais da sua abominável presidência – e as pessoas de Israel e Líbano estão a pagar o preço.” - “No coração da crise do Líbano estão os enganos fatais de George Bush”, Jonathan Freedland, jornal “The Guardian”, 26/7/2006.

 

Rice não tem a receita do sucesso

A secretária de estado Americana acredita num Novo Médio Oriente, mas a sua apertada focagem na segurança deixa pouco espaço para as aspirações das pessoas vulgares”, Brian Whitaker, jornal “The Guardian”, 25/7/2006.

 

“Ironicamente, ao forçar a Síria a retirar os seus militares do Líbano, no ano passado, os Estados Unidos e os seus aliados diluíram a signficativa influência directa que a Síria pudesse ter sobre o Hezbollah.” - “Por que a Síria tem muito a perder se o Hezbollah for finalmente parado”, por Neil MacFarquhar, jornal “New York Times”, 26/7/2006.

 

Eu podia continuar, mas o que fica claro é que a destruição do Líbano é um desastre estratégico de enormes dimensões. Com disse o Freedland no seu artigo no jornal “The Guardian”

“Já era para ter terminado. A esta hora, na semana passada, os estrategas militares israelitas estavam a pedir mais 72 horas para terminar o serviço: era tudo o que precisavam, prometiam, para limpar o Hezbollah do sul do Líbano.”

Um artigo “estratégico” no jornal NYT, contém todo o tipo de desculpas para explicar o falhanço dos Blitzkrieg, isto é, um falhanço se partirmos do princípio que o objectivo é a destruição do Hezbollah. Aí podemos ler

“No Pentágono, responsáveis estrategas militares indicam este conflito como um exemplo localizado da ampla campanha Americana contra o terrorismo global e disseram que qualquer titubear por parte de Israel poderia prejudicar os esforços dos EUA no Iraque e Afeganistão.

“O Hezbollah 'tem aspectos de uma organização terrorista sem estado, mas também domina um território – e está bastante implantado aí - e é capaz de colocar em risco a população da super-potência regional, de uma forma que, outrora, apenas militares nacionais conseguiam.' disse um oficial com experiência no Iraque, falando sob anonimato, pois não está autorizado a falar publicamente sobre isso.” - “Israel com um desafio complicado no Hezbollah”, por Steven Erlanger e Thom Shanker, jornal New York Times, 26/7/2006.“

Serve para mostrar a falta de tacto que estes bem pagos “estrategas” realmente têm. Quando a realidade se tornar mais clara, podem esperar uma corrida para a porta da saída, por parte dos “aliados” de Israel e dos EUA na região, ao verem chegar a sua hora. Já houve manifestações no Egipto e na Jordânia contra os seus governos, precisamente sobre este assunto. Pode ainda demorar, mas parece-me que o “Novo Médio Oriente” da Condi, pode vir a revelar-se o oposto do pretendido pelos Lobos.

[1]. Ver os últimos dois artigos da MediaLens: Demolindo o Líbano – Parte 1 e Demolindo o Líbano – Parte 2

 

 [N.T.1] – Nota do tradutor: Blitzkrieg era o termo alemão usado para descrever os ataques aéreos surpresa, efectuados pela força aérea nazi na Segunda Guerra Mundial.

[N.T.2]- O autor refere-se a Condoleezza Rice, secretária de estado Norte-Americana.

 

Texto publicado a 28 de Julho de 2006 em http://williambowles.info/ini/2006/0706/ini-0440.html  e traduzido para português por Alexandre Leite.

        

publicado por Alexandre Leite às 18:39
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