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Domingo, 10 de Dezembro de 2006

Ilusão e Realidade

Por volta de 1990, quando eu estava a viver em Nova Iorque, eu, com mais duas ou três pessoas, fomos convidados para um serão na Missão Norte-Coreana nas Nações Unidas onde fomos agraciados com uma espantosa e deliciosa refeição de cozinha coreana, seguida da visualização de um vídeo interminável e aborrecido (a meu ver, de ocidental farto), que tentava apresentar a situação da Coreia do Norte.

Depois de terminado o vídeo, os nossos anfitriões, que eram anfitriões educados, modestos e maravilhosos, perguntaram-nos o que pensávamos sobre o vídeo, o que me colocou numa situação extremamente desconfortável porque, como peça de propaganda dirigida a uma audiência ocidental, era uma nódoa. No fundo, cenas intermináveis de enormes manifestações, fábricas, campos, amplas avenidas e citações de Kim il Sung, dificilmente iriam persuadir uma audiência americana, que cresceu com uma dieta de imagens lustrosas e sedutoras da superioridade do modo de vida ocidental, de que a Coreia do Norte era a melhor coisa que apareceu desde a invenção do pão fatiado.

Tentar explicar isto aos nossos anfitriões não foi fácil e, como era de esperar, não consegui, ou eles foram tão educados que não me disseram. O que isto revelou foi a imensa distância entre as nossas culturas. Os nossos anfitriões coreanos sabiam tanto do modo de vida americano como nós tínhamos do deles, independentemente da nossa simpatia por eles.

Era óbvio que eles estavam genuinamente orgulhosos das suas conquistas, que tinham sido conseguidas com muito custo, com a perda de 4 milhões de pessoas durante a Guerra Coreana e a destruição total do seu país pelas mãos “acção policial” liderada pelos EUA, como era eufemisticamente chamada.

A destruição norte-americana da Coreia é apenas um entre tantos crimes de guerra de cometidos pelo imperialismo, dos quais temos sido completamente mantidos na ignorância. Tivéssemos nós sido devidamente informados da horrenda escala de destruição, tanto humana como material, e penso que os acontecimentos poderiam ter terminado de forma diferente.

É normalmente aceite, pelo menos na Esquerda, que sem um esforço de propaganda em massa, persuadindo a maioria da população a apoiar as acções imperialistas, estas seriam, muito provavelmente, impossíveis. Se isto é verdade ou não, não é fácil de provar, pois não se tem em conta até que ponto fomos seduzidos pelos nossos próprios interesses em apoiar o projecto imperialista.

Mas se há uma coisa em que a Esquerda é boa, é por os pontos nos “ii” e o tracinho no “t”, simplesmente porque nós temos de fazer a nossa pesquisa de forma a tentar provar o nosso caso, já que a imprensa corporativa irá atacar o mínimo erro para nos deitar abaixo e provar que estamos enganados.

A História é, para nós, uma arma poderosa com a qual se investiga e explica o presente; como as coisas chegaram ao ponto em que estão. No entanto, isto não é algo fácil de conseguir. Requer um imenso tempo e esforço e depois tem de ser destilado em algo de fácil digestão.

Num artigo anterior, mencionei um livro, Strange Liberators [Estranhos Libertadores] de Gregory Elich, que é uma análise bastante detalhada da política externa dos EUA e especialmente sobre como as suas palavras vão completamente ao contrário das suas acções.

 

O livro é grande (400 páginas), por isso, em vez de fazer uma análise completa à obra, eu pensei que fazia mais sentido dividir em partes, a primeira das quais será sobre a Coreia do Norte.

Strange Liberators debruça-se durante três capítulos sobre a forma como os EUA lidaram com a desafortunada Coreia do Norte e ao fazer isso rebenta com o mito deste membro do chamado “eixo do mal”.

Independentemente do que vocês acham da versão do socialismo da Coreia do Norte, ou mesmo do seu historial em direitos humanos (dependendo do que se entende por direitos humanos), os registos são claros no que toca à forma como os EUA humilharam, ameaçaram e literalmente deixaram à fome, a população da Coreia do Norte, até capitularem às principais exigências norte-americanas.

O livro de Elich documenta este processo de forma minuciosa, repleto de páginas com referências. O problema para nós, claro está, é que não temos acesso aos meios de comunicação em massa de forma a podermos explicar a realidade da situação, nem é fácil reduzir, como faz a imprensa corporativa, acções ou intenções a frases com impacto que possam ser digeridas por populações alimentadas literalmente há gerações com uma dieta de papa política.

Então como é que se consegue transmitir a natureza de um estado predador e imperialista, a todos os que ainda não estão convertidos, sem cair no abuso da estatística nem em versões de frases chave da esquerda?

Elich consegue-o com uma boa dose de sarcasmo impregnado de ironia, e depois jorra os factos por cima, sendo uma boa fonte em que podemos confiar, por exemplo:

“Os EUA, guiados pela preocupação da paz e estabilidade na região, tentaram pacientemente encorajar uma relutante Coreia do Norte a negociar. Esta é a imagem popular, tão entranhada como inexacta.” (pág. 63)

Mas ter acesso aos factos é quase como uma escavação arqueológica em que poucos têm habilidade, compreensão ou paciência para a empreender. Felizmente, temos pessoas como Elich, que fazem a escavação por nós.

Os capítulos de Elich sobre a Coreia do Norte focam especificamente a alegada ameaça nuclear da Coreia do Norte aos Estados Unidos, uma acusação que seria risível se não fosse o facto de, usando a “ameaça nuclear” como pretexto, os Estados Unidos terem estado extremamente perto, em inúmeras ocasiões, de desencadearem uma guerra nuclear com a península coreana!

Esta simples realidade bastaria, tenho a certeza, para persuadir muitos mais milhões de pessoas sobre as reais intenções dos EUA, se fosse mais conhecida. Mas claro, os grandes meios de comunicação têm subtilmente escondido os factos ao público.

Em primeiro lugar, os EUA apanharam uma boa porrada durante a Guerra da Coreia e tal como a Guerra do Vietname, não ia ser perdoada nem esquecida, e desde aí, a mera existência da RDPC (República Democrática Popular da Coreia) é uma afronta ao capital norte-americano. Foram feitos todos os esforços, excepto a guerra, para apagar a RDPC da face do planeta.

Nos anos 1990, com uma mudança no governo da Coreia do Sul, foram dados passos em direcção a uma certa aproximação entre o Norte e o Sul, o que do ponto de vista dos EUA era algo definitivamente inaceitável.

Foram feitos todos os esforços para sabotar o restabelecimento de relações entre a Coreia do Norte e a do Sul, como se pode ver pelo retomar do jogo de guerra “Team Spirit” em 1993, suspenso por George H.W. Bush e reiniciado por Clinton (lá se vai a ideia daqueles que continuam a pensar que uma administração dos Democratas seria uma mudança para melhor!).

O “Team Spirit” envolvia bombistas, mísseis cruzeiro e forças navais, e só para chatear ainda mais os norte-coreanos, Clinton anunciou que alguns dos mísseis nucleares que tinham estado apontados para a antiga União Soviética, seriam redireccionados para a Coreia do Norte.

Previsivelmente, os norte-coreanos anunciaram que então iriam abandonar o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNPAN), mas no seguimento de conversações com os EUA, a RDPC afirmou que continuaria como signatária.

Mas imediatamente, a AIEA (Agência Internacional de Energia Atómica) exigiu que a RDPC abrisse todas as instalações nucleares a inspecções, “algo que a agência nunca tinha exigido a nenhuma nação … um pedido que foi instigado por oficiais dos EUA … As relações aqueceram mais quando a Coreia do Norte descobriu que os inspectores da AIEA estava a passar informações secretas a oficiais norte-americanos.” (pág. 63)

A propaganda dos EUA reforçou-se com o aviso de Clinton de que “à Coreia do Norte, não se pode permitir que desenvolva a bomba nuclear.” (pág. 64). Não foi apresentada nenhuma prova para suportar esta alegação. Como toda a propaganda Goebleliana, foi aceite em virtude da contínua repetição pela administração Clinton e pelos seus papagaios dos grandes meios de comunicação.

Decorriam os preparativos para a guerra.

“Nós preparamos um plano detalhado para atacar as instalações [nucleares] de Yongbyon com bombas de precisão. Estávamos altamente confiantes que poderiam ser destruídas sem causar uma reacção nuclear que libertasse radioactividade para a atmosfera … anunciou o Secretário de Estado Adjunto da Defesa, Ashton Carter … Anos mais tarde, o governo sul-coreano efectuou uma simulação de um ataque a Yongbyon e conclui que se todos os edifícios do complexo fossem atingidos, um quarto da população, num raio de 50km, morreria num espaço de horas.” (pág. 64)

Algo pior estava a ser preparado. O pensamento no Pentágono era, “já que estamos nisto, porque não apanhá-los a todos?” (pág. 65). Felizmente, o presidente da Coreia do Sul, Kim Young-Sam, não foi na conversa dos loucos dos EUA.

“Kim avisou o Embaixador norte-americano James Laney que outra guerra transformaria toda a Coreia num banho de sangue.” (págs. 64-65)

No seguimento de um conversa telefónica de 32 minutos, entre Clinton e Sam, os EUA concordaram relutantemente em não “conquistar” a Coreia do Norte. Mas nos doze anos seguintes, os EUA levaram a cabo uma guerra com a Coreia do Norte, por outros meios, incluindo esfomear a população até à submissão, o que levou directa ou indirectamente, à morte de talvez um milhão de pessoas, muitas delas crianças.

Até aos dias de hoje, seguiram-se outras ameaças de ataques militares, incluindo o uso de armas nucleares, ameaças que Elich assinala na sua total realidade horrorosa e de sangue frio.

Por esta altura, já deve ser óbvio que o Iraque, e agora o Irão, são meramente a continuação da política que os EUA têm vindo a fazer nos últimos cinquenta anos; “Se não fizeres como eu digo, rebentamos contigo. Vamos esfomear-te e isolar-te, e forçar os nossos aliados a apoiarem-nos.”

É preciso que perguntem a vocês próprios que possíveis razões farão de um país pequeno, atacado pela pobreza, que nunca atacou ninguém, uma ameaça tão grande aos EUA e que justifique assassinatos, mentiras, subterfúgios e sabotagem.

Os EUA e o seu grande parceiro, o Reino Unido, com a cumplicidade dos media corporativos detidos pelo estado fizeram com que se acreditasse que a Coreia do Norte, se por acaso tivesse os meios (que obviamente não tem), arriscaria a destruição total, invadindo os Estados Unidos da América. Que ideia ridícula!

A resposta, como acertadamente assinala Elich, é simples: lucro. E aqui, Elich vai de certa forma contra a ortodoxia prevalecente, afirmando categoricamente que a invasão do Iraque e do Afeganistão, longe de serem falhanços, são um estrondoso sucesso, quando medidas em dólares.

“Os líderes ocidentais podem enganar-se na facilidade com que serão capazes de impor a sua vontade no Iraque e tomar o controlo da sua economia, mas não há nada de irracional na decisão de ir para a guerra. As baixas têm sido suportadas quase só pelos cidadãos vulgares do Iraque e pelos soldados ocupantes que se ferem e morrem. As despesas são pagas através dos impostos, saídos principalmente dos bolsos dos trabalhadores, enquanto o sector das corporações é que recolhe os ganhos. Os ganhos têm sido reais para essa classe. O facto de muitos dos objectivos da administração Bush não terem sido cumpridos, não exclui o facto de alguns terem sido alcançados. Mesmo ganhos parciais são valorizados, quando o custo é suportado por outros. Que o Iraque, virado do avesso pela guerra, seja um lugar perigoso e agonizante, não preocupa os donos das corporações que nunca lá põem os pés e para quem o Iraque representa um investimento lucrativo.” (pág. 22)

É a mesma lógica fria, que impulsionou a política norte-americana relativa à Coreia do Norte, durante mais de cinquenta anos. Dito de forma simples, desafiem o capitalismo dos EUA e serão destruídos.

 

Strange Liberators – Militarism, Mayhem and the Pursuit of Profit [Estranhos Libertadores – Militarismo, Desordem e a Busca do Lucro] de Gregory Elich. Llumina Press, 2006. (amazon.co.uk, amazon.com)

 

 

Texto publicado por William Bowles em http://williambowles.info/ini/2006/0906/ini-0451.html a 23 de Setembro de 2006, e traduzido por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 19:04
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