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Domingo, 10 de Dezembro de 2006

Sem ter por onde ir a não ser para a frente

 

A APPO Inicia uma Longa Caminhada até à Cidade do México

 

Na quinta-feira, 21 de Setembro, membros da Assembleia Popular do Povo do Oaxaca (APPO) lançaram-se numa caminhada desde o “zócalo” (praça central) na cidade de Oaxaca até ao zócalo da Cidade do México, percorrendo uma distância de 506 km, mais de 314 milhas.

No zócalo, à medida que as pessoas marcavam presença e se juntavam para os discursos preliminares, calculei perto de dois mil participantes para a “marcha caminata” – a caminhada, em vez de uma cavalgada motorizada. Na sexta-feira, 22 de Setembro, o jornal  Noticias calculou que 5000 pessoas estavam na estrada quando os caminhantes chegaram a Etla, uma localidade a 25 km, debaixo de um sol abrasador.

Um professor mencionou o facto de haver algum medo de atiradores, dispostos ao longo da estrada. O boato paira no ar apesar da maioria das pessoas parecerem bem dispostas e de não terem sido relatados nenhuns tiroteios nas duas últimas semanas. O estado de espírito muda frequentemente, mas não consegui falar com ninguém que pense que o governador vai voltar. Um amigo ainda aumentou mais os rumores ao afirmar que tinha ouvido dizer que o governador ia dirigir-se para Fort Lauderdale [EUA].

Muitos professores que partiam na caminhada traziam guarda-sóis, que se não resistem às balas, pelo menos dão uma boa sombra. Os guarda-sóis estavam ao alto quando os primeiros caminhantes serpentearam pelas ruas de Oaxaca que, em muitos locais, estão bloqueadas por automóveis e camiões, barricadas de metal ou sacos de areia, madeira queimada, arame farpado, ou por uma combinação de tudo isto.

Uma das estradas da rota, a Morelos, estava impedida e os manifestantes tiveram de esgueirar-se por entre barreiras de automóveis, com os seus guarda-sóis a brilharem ao sol enquanto dedicavam cantigas ao “ex-governador” Ulisses Ruiz Ortiz (“URO”). Para mim, as palavras pareceram-me como “vai-te fod**, tu e a tua mãe”, mas por vezes o meu espanhol não é muito bom. Tanto homens como mulheres caminham – “pantalones e pantaletes” – e cantam e gritam palavras de ordem naquela que é a primeira etapa da sua viagem.

As barricadas servem para proteger o acesso às estações de rádio que são de vital importância nas comunicações da APPO. Para além disso, vi nove carrinhas de 5 metros estacionadas no centro da cidade, na esquina da Hidalgo com a Huzares. Disseram-me que iriam ser usadas para bloquear a auto-estrada enquanto passassem os manifestantes. Apesar de isso não fazer muito sentido, não tenho outra explicação, e realmente vi as carrinhas.

No primeiro dia, a partida foi só depois da 1:30 da tarde, depois de duas horas de discursos. Adolfo López informou a população de que Germán Mendoza Nube, o dirigente do Sindicato dos Camponeses Pobres actualmente preso, tinha iniciado uma greve de fome. Mendoza Nube, que é paraplégico, também sofre de diabetes e tem insuficiência renal. A vida da prisão não lhe está a fazer muito bem.

A bênção do projecto, chamado Por la dignidad de los pueblos de Oaxaca [Pela dignidade dos povos de Oaxaca], foi feita por Manuel Marinero Magaña, um padre alegadamente excomungado ao tornar público que se tinha casado e que tinha um filho. Depois da cerimónia religiosa, um professor, José Antonio Altamirano entregou uma bandeira nacional a um membro da APPO que foi usada nas anteriores caravanas de professores, em 1986 e 1997.

Quando os manifestantes chegarem à Cidade do México, tencionam estabelecer um acampamento em frente ao Senado, para exigir a destituição de URO. A data prevista para a chegada será por volta de 3 de Outubro.

Na tarde em que teve início a marcha, a secção local de Oaxaca do Sindicato Nacional de Trabalhadores da Educação (SNTE), Secção 22, estava reunida em assembleia estadual de professores. O porta-voz do sindicato, Daniel Rosas Romero, disse que os professores partiriam assim que terminasse a assembleia, o que explica porque é que apesar de só terem saído 2000 do zócalo, terem chegado 5000 à localidade de Etla, no final do dia.

Entretanto, o PRI [Partido Revolucionário Institucional] enviou um pedido ao governo federal de envio de forças armadas para Oaxaca. Os professores devem estar preocupados, não apenas com possíveis atiradores furtivos ao longo do caminho, mas também com a imensa logística necessária para alimentar 5000 caminhantes, fornecer-lhes roupa limpa e substituir calçado. O movimento depende do apoio das pessoas, que, pelo menos nesta primeira fase, apareceram ao longo da estrada com tortilhas, fruta fresca a garrafas de água. Entre os caminhantes estão o ex-reitor da Universidade Autónoma Benito Juares de Oaxaca (UABJO), Felipe Martínez Soriano, e um membro da liderança colectiva da APPO, César Mateos Benítez. Os estudantes da UABJO declararam três dias de greve às aulas em apoio à APPO.

A marcha é a representação física da determinação do movimento social/de professores em se verem livres de URO. Poder-se-ia dizer que dar um passo em frente é a forma mais óbvia de dizer ni un paso atrás (nem um passo para trás). Cada dia que passa torna-se mais evidente que a situação da APPO afecta a aliança PRI-PAN na legislatura nacional, o Departamento do Interior, o Supremo Tribunal Mexicano, os pais de crianças sem aulas, os comerciantes do zócalo – por outras palavras, toda a gente. Alguns pais estão a organizar aulas ou a tentarem o ensino doméstico. Os vendedores de rua de Oaxaca perseguem todos os estrangeiros que ainda restam para lhes tentar vender o que conseguirem, e alguns estrangeiros organizaram jantares para manter os seus restaurantes favoritos. Em tudo isto, aqueles que mais detestam a APPO também detestam o URO e querem-no longe, mas não têm outro remédio à mão.

Entretanto o PAN [Partido de Acção Nacional] assegura que o PRI não irá romper a aliança expulsando o governador Ulisses Ruiz Ortiz, do PRI, já que muitos concordam que se URO for embora, muitos outros governadores irão também, com as ideias da APPO a espalharem-se a outros estados. Os partidos políticos concordaram novamente em adiar a discussão sobre a dissolução do poder em Oaxaca, e eles rejeitaram a formação de uma comissão legislativa. A legislatura nacional já falhou duas vezes na tentativa de resolver o assunto. O senador do PRD [Partido da Revolução Democrática] Pablo Gómez resumiu a situação para o jornal La Jornada dizendo que “o PAN gostaria muito de expulsar o governador de Oaxaca, mas não o faz porque não quer um conflito com o PRI no preciso momento em que há uma crise política no país, e não vai cortar as relações com o partido que o apoia” – referindo-se ao apoio do PRI ao presidente Calderón, enquanto Lopez Obrador aceitou o título de presidente dado pelos seus apoiantes do PRD.

O Secretário do Interior, Carlos Abascal, manteve longas conversações com negociadores da APPO que não deram em nada, já que a base para negociação, por parte do comité negociador de Oaxaca, era a saída de URO. As negociações foram mais uma vez canceladas, apesar do líder do SNTE, Enrique Rueda Pacheco não escolher a palavra “canceladas”. Talvez apenas suspensas. Se URO for embora antes de 1 de Dezembro (antes de cumprir dois anos completos de mandato), têm de ser feitas novas eleições. Se ele for embora depois de 1 de Dezembro, será nomeado um governador interino, do PRI.

A greve dos professores já vai em quarto meses. O movimento popular, apesar da propaganda falar em diminuição da energia dos professores e do seu empobrecimento devido à falta de salários, está a crescer evidentemente entre as comunidades indígenas. Penso que ao longo do seu caminho, os caminhantes irão falar com outros, quer em Oaxaca quer noutros estados (Puebla fica no caminho) sobre a formação de APPOs. Os governadores de Puebla e do estado vizinho Morelos estiveram ambos ligados a grandes escândalos de corrupção nos últimos anos.

Um artigo de 19 de Setembro no jornal El Porvenir de Monterrey dizia “as assembleias populares ao estilo de Oaxaca começaram a proliferar noutros estados, tais como Michoacán, Guerrero, Cidade do México e Baja California, e do outro lado da fronteira em Los Angeles e Sacramento.” O relato descreve comunidades nos Estados Unidos chegando mesmo até ao Alasca, onde Oaxaqueños se estabeleceram, levando com eles os costumes e a governação participativa. Dinheiro para os professores está a chegar dos EUA, quer de comunidades mexicanas quer de professores americanos.

A batalha da propaganda foca-se na “chegada iminente” da polícia federal ou de tropas federais, incluindo uma caravana militar disfarçada de autocarros com músicos. A 20 de Setembro, o jornal Las Noticias relatou a Polícia Federal de Prevenção continua a mandar agentes a Oaxaca, mas disfarçados. Supostamente eles irão destronar o movimento e salvar a pele a URO, mas o jornal citou a APPO como a sua fonte. A APPO disse simultaneamente, através do seu responsável para a segurança e ordem, Gustavo Adolfo López, que a polícia federal está aqui para nos deter mas não vão conseguir. “Oaxaca não é San Salvador Atenco” afirmou, e isso é verdade.

No terceiro dia de caminhada, domingo, 24 de Setembro, o governador ameaçou os professores com uma intervenção do exército, aumentando a tensão, O governador apareceu em público em Oaxaca pela primeira vez este mês, tendo-se encontrado com legisladores num hotel em virtude dos edifícios governamentais estarem bloqueados.

Infelizmente, alguém julgou que ele estava num outro hotel na cidade. Juntou-se um grupo de pessoas e a situação ficou perigosa, tendo sido efectuados disparos. De acordo com alguns relatos, foram os seguranças do hotel que fizeram os disparos, mas o La Jornada relatou no final dessa noite que os atiradores eram polícias à paisana. Pelo menos um apoiante da APPO foi baleado, de acordo com o La Jornada.

Ao mesmo tempo, o director estatal de educação declarou que se os professores não regressarem às salas de aula amanhã, serão despedidos e substituídos por “fura greves” recrutados entre professores reformados e pais.

A comunidade do comércio de Oaxaca reclamou um encerramento das lojas para 28 e 29 de Setembro, não usar electricidade ou telefones, não pagar impostos e encerrar os transportes. É difícil dizer em quem é que isso irá colocar mais pressão. Mas o crescimento da APPO e do movimento popular no meio rural está tão impulsionado que já não pode dar um passo atrás.

 

 

 

Texto publicado a 24 de Setembro em http://www.narconews.com/Issue43/article2096.html e traduzido por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 19:09
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