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Domingo, 10 de Dezembro de 2006

O Inferno da NATO

Civilizado (adjectivo): culto, educado, refinado, instruído, cortês, elegante, sofisticado, urbano.

Civilizar (verbo): instruir, educar, cultivar, melhorar, fazer avançar, desenvolver, refinar.


Se o velhinho Dante Alighieri ainda estivesse cá hoje, tenho a certeza que teria dificuldade em encontrar palavras para descrever os males infligidos pelas chamadas nações civilizadas sobre os indefesos do planeta, presumindo que ele estivesse totalmente informado sobre o que se está a passar.

Eu sei que não devia estar surpreendido, mas no entanto estou. Surpreendido, em primeiro lugar, por viver numa cultura bárbara que se conseguiu mascarar de civilizada, e em segundo lugar, que tenha conseguido persuadir o mundo de que possui credenciais de civilização acima de tudo. Em terceiro lugar, surpreende-me que tenha sido capaz de manter a ilusão por uns longos quinhentos anos.

A maioria de nós associa a ideia de civilizado com a aprendizagem e com o respeito pela cultura, embora a raiz da palavra tenha a ver com o habitante de cidade.

“Mísseis atingiram tanques de armazenamento do complexo petroquímico [em Panchevo, nordeste de Belgrado], soltando no ar mais de 900 toneladas de monómero de cloreto de vinilo (MCV) altamente cancerígeno. Ao nascer do dia, nuvens de MCV deslocaram-se para a cidade, registando-se níveis 10600 vezes superiores ao limite de segurança humano, e as nuvens libertadas do complexo eram tão espessas que os residentes não conseguiam ver o sol. O MCV é perigoso já de si próprio, mas quando queimado liberta gás fosgéneo como sub-produto, uma substância tão tóxica que foi usada como gás venenoso na I Guerra Mundial. Fogos violentos libertaram cloro gasoso, outra substância que foi usada como gás venenoso durante a I Guerra Mundial, em conjunto com uma miríade de químicos perigosos, como nafta, etileno diclorídrico, ácido hidroclorídrico. Mais de 2000 toneladas de PVC dicloroetano altamente tóxico escorreram para o solo, obrigando a uma proibição do uso de vegetais cultivados nessa localidade. Uma chuva venenosa caiu sobre a região, e centenas de toneladas de petróleo e químicos infiltraram-se no solo e no rio Danúbio. Depois de um míssil ter falhado por pouco um tanque de amónio líquido, os trabalhadores entraram em pânico com o receio das consequências de uma explosão desse tanque e verteram o amónio líquido no Danúbio.” [1]

Como se não bastassem os fortes explosivos usados num bombardeamento “normal” de homens, mulheres e crianças, que “apenas” lhes tira a vida, temos aquilo a que eu chamo guerra ecocida, em que não são imediatamente visíveis os seus efeitos devastadores, que persistem durante gerações, em ecossistemas completos, efeitos estes de que apenas fazemos uma vaga ideia mas que só podem ser desastrosos para os nossos descendestes.

O leque de armas ecológicas usada pelas chamadas nações civilizadas é devastador o suficiente, mas como os alvos contêm eles próprios, muitas vezes, substâncias tóxicas e carcinogéneas, os efeitos das armas ecológicas são multiplicados através dos químicos libertados para o ambiente.

É inconcebível que quem planeia a guerra não tenha noção das consequências de alvejar complexos industriais modernos, cujos conteúdos, quando libertados, tornam o ambiente praticamente inabitável, por vezes durante gerações. Quando acontecem acidentes em instalações semelhantes de países ocidentais, tocam todas as sirenes, planos de contingência são activados, comunidades inteiras são evacuadas, estabelecem-se zonas de exclusão, entram em acção equipas de limpeza com as mais recentes técnicas para minimizar o dano ambiental.

Não é bem assim para os desafortunados habitantes da Jugoslávia, do Iraque e do Líbano, onde alvejar locais de produção e armazenamento de electricidade e químicos, faz parte integrante de uma política de terror deliberada, pois não apenas tem impacto nas pessoas que vivem e trabalham na zona, mas também coloca em perigo toda a população, através da destruição dos sistemas de tratamento e distribuição de água, da falta de electricidade em hospitais. De facto, todo o mecanismo da sociedade moderna entra em paragem, como consequência.

Igualmente devastador é o quase total silêncio dos media ocidentais, que consistente e deliberadamente têm ocultado informação ao público sobre os terríveis efeitos destas armas aterradoras em literalmente milhões de pessoas. ‘Fire and forget’ [expressão usada referindo-se aos mísseis auto-guiados que, depois de serem lançados, não necessitam de mais nenhum controlo até atingirem os alvos, e que significa ‘dispara e esquece’] toma agora um sentido completamente novo.

O uso destas armas em alvos industriais constitui um crime de guerra de dimensões absolutamente devastadoras que é crível que as nossas populações domésticas, se soubessem realmente a escala e o impacto destas armas de destruição em massa, reagiriam com horror e repulsa por tal destruição estar a ser cometida não apenas em seu nome, mas por sociedades que se intitulam civilizadas. Não admira que os grandes meios de comunicação nos escondam a realidade.

“O tempo de semi-vida do urânio empobrecido é de 4,5 mil milhões de anos, assegurando a permanente contaminação das áreas afectadas. Para terem uma ideia do que isto significa, tenham em consideração que o Sistema Solar é apenas uma bocadinho mais antigo… As armas com urânio empobrecido têm ainda o benefício lateral de serem um meio eficaz de se livrarem de lixo nuclear. Por altura da guerra da NATO [na Jugoslávia], os EUA tinham, em armazém, perto de quinhentas mil toneladas de lixo da produção de armas nucleares, e o Pentágono fornecia o material gratuitamente aos fabricantes de armamento… Uma única partícula de urânio empobrecido alojado nos pulmões é equivalente a uma radiografia ao tórax a cada hora, para o resto da vida.” [2]

 

Os media ocidentais, usando falsos argumentos da NATO de que o urânio empobrecido não provocou aumento de radiação, baseando-se na leitura de contadores geiger, que de facto não medem a radiação alfa provocada pelo urânio empobrecido, foram capazes de minimizar as acusações de que o urânio empobrecido é perigoso para a vida.

Muito se tem falado sobre o uso de bombas de fragmentação mas uma versão ainda mais mortal são as bombas de grafite usadas contra as estações transformadoras de electricidade, pensadas para aniquilar o fornecimento de electricidade.

“São pequenos contentores cheios de pequenas espirais, envolvidas por silicone. Estes pedaços de silicone são cobertos por alumínio, para permitirem a condução de electricidade… Quando estas bombas de fragmentação explodem em cima de uma central de transformação, cria-se uma espécie de rede que cai sobre essa central. O efeito é o mesmo que mandar grandes quantidades de água sobre essas instalações de distribuição. Isso causa curtos circuitos, etc., e todas estas instalações ficam inoperacionais. Mas muito deste material espalha-se numa nuvem de pequenas partículas de silicone. A lã-de-vidro também é feita de silicone. A lã-de-vidro foi proibida há vinte anos. É muito carcinogénica. Estou a referir-me às pessoas que vivem nas áreas onde essas bombas foram largadas. Um fumo denso esteve sobre as suas cabeças durante horas. As pessoas estiveram a inalar essas partículas de silicone.”[3]

Os humanos são mesmo engenhosos quando toca a descobrir métodos de se matarem uns aos outros. O facto de muitos milhões de pessoas altamente especializadas estarem empenhadas em inventar estes horrendos métodos de assassinato, devia fazer-nos revoltar contra os nossos governos por cometerem tais actos maléficos inqualificáveis contra os nossos companheiros humanos, e tudo para atingir o lucro privado.

Tal é o grau de alienação atingido, não apenas porque os cientistas e engenheiros de escritórios distantes estão totalmente desligados dos efeitos da sua ingenuidade, mas porque todos nós estamos numa cultura que tem sido erradamente educada, durante gerações, para aceitar a ideia de que ocupamos um nível superior na “árvore da evolução”, tão venenosa é a nossa concepção de “civilização”.

Quanto tempo mais podemos continuar a esquivar a nossa cumplicidade tácita no assassínio em massa, em virtude de pensarmos que temos alguma licença divina, de um Deus que pode falar de misericórdia e compaixão, e no mesmo fôlego condenar o uso do terror como meio de espalhar a “civilização”, ao estilo Ocidental?

Em última análise, as verdadeiras razões, escondidas dos olhos do público, são económicas. A Jugoslávia, o último bastião de poder social na Europa Ocidental, teve a sua economia interna reduzida a cascalho, pois sob a capa da destruição de alvos “militares”, todas as fábricas e armazéns significativos, todas as infra-estruturas eléctricas, de água, de tratamento de esgotos, de comunicações e transporte, foram bombardeadas, bastas vezes, de forma repetida, independentemente das consequências. E não se iludam, os planos da NATO tornaram claro que a economia jugoslava estava destinada a ser vendida ao capital ocidental.

“O Pacto de Estabilidade para e Sudeste Europeu, apoiado pelo Ocidente, ordena a ampla privatização e o investimento ocidental… O Fórum da Nova Sérvia, fundado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros Britânico… levou profissionais e académicos sérvios à Hungria regularmente, para discussão com “especialistas” britânicos e da Europa Central… O Fórum advogou a “reintegração” da Jugoslávia na família europeia,” um eufemismo que significa o desmantelamento da economia orientada socialmente, e a implementação de uma campanha de privatização em benefício das corporações ocidentais.” [4]

Na realidade, “civilização” e na verdade uma palavra-código para capitalismo, de estilo ocidental, que justifica o uso de exterminação em massa e terror em qualquer país que resista às suas exigências.

 

Notas

1. George Monbiot, “Consigning Their Future to Death,” The Guardian (London), 22 de Abril de 1999.
Tom Walker, “Poison Cloud Engulfs Belgrade,” The Times (London), 19 de Abril de 1999.
Mark Fineman, “Yugoslav City Battling Toxic Enemies”, Los Angeles Times, 6 de Julho de 1999.

2. Scott Peterson, “Depleted Uranium Bullets Leave Trail in Serbia”, Nando Media, 5 de Outubro de 1999.
“Use of Depleted Uranium (DU) Weapons by NATO Forces in Yugoslavia,” Coghill Research Laboratories (UK), Abril de 1999.

3. Interview with Dushan Vasiljevich by delegation, Belgrade, 7 de Agosto de 1999.

4. “Britain Trains New Elite for Post-Milosevic Era,” The Independent (London), 3 de Maio de 2000.

Todas as citações e referências foram retiradas do livro Strange Liberators – Militarism, Mayhem and the Pursuit of Profit de Gregory Elich. Llumina Press, 2006. (amazon.co.uk, amazon.com)

 

 

Texto publicado por William Bowles, a 29 de Setembro de 2006, que pode ser visto em http://williambowles.info/ini/2006/0906/ini-0453.html, e traduzido por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 19:11
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