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Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2006

Gestão de Crises

 Talvez a tarefa mais difícil, quando tentamos lidar com os acontecimentos actuais, seja estabelecer a ligação entre a economia e a política. A imprensa corporativa nunca apresenta um acontecimento, por exemplo a invasão do Iraque, como estando relacionado com a economia. De facto, qualquer tentativa de o fazer é ridicularizada (dizendo por exemplo que nem tudo no mundo é por causa do petróleo). O modus operandi é, simplificar estupidamente, é o bem contra o mal, não confundam a cabeça das pessoas com as complexidades da vida real, pois se fizerem isso, vão ter de dar muitas mais explicações sobre porque é que os países agem como agem, não batendo certo com a forma como os acontecimentos nos são apresentados pelos grandes meios de comunicação de referência.

 

No meu último artigo, ‘Leaving the scene of the crime’, eu citei uma reportagem do jornal “Independent” sobre a “Crise do Suez”, de Mary Dejevsky que é um exemplo perfeito de como este processo é feito, onde o Império, quer passado, presente ou futuro é reduzido ao nível da psicologia ou de personalidades. Derrota é uma “humilhação nacional”. Sim, há uma passagem sobre economia, mas nunca a apresenta como a causa da invasão Anglo-Franco-Israelita do Egipto. Em vez disso, é metida no contexto da Guerra Fria e no desejo de Nasser de “tomar o controlo do Canal do Suez”. Porque é que ele quereria fazer isso, não é explicado, excepto no contexto do desejo pessoal de poder ou um desejo de humilhar a “Grã-Bretanha”. Diz-nos Dejevesky

 

“A crise do Suez começou quando do jovem e enérgico Presidente do Egipto, Gamal Abdul Nasser, tomou controlo do Canal do Suez depois dos EUA e da Grã-Bretanha se terem recusado a financiar a Barragem de Assuão.”

 

Reparem que de acordo com Dejevsky, Nasser fez isso em grande parte por ser “jovem e enérgico”. Dejevsky também não explica as razões da recusa britânica e norte-americana em financiar a construção da Barragem de Assuão. Razões fundamentalmente económicas desaparecem por baixo do perfil psicológico do Nasser, que era “jovem e enérgico”, seguramente porque tinha muita testosterona a circular na cabeça, veias árabes.

 

Por isso, a causa das guerras que nos é inevitavelmente apresentada é que há uns indivíduos no poder que são maus, indecentes, que querem tomar conta do mundo ou destruir a “civilização” ou, como no caso do Nasser, têm uma espécie de necessidade adolescente de provar que são um “homem a sério”. Uma vez reduzidas a causas tão simplistas, torna-se mais fácil esconder as mais profundas razões por que os países vão para a guerra. Elas até podem existir, apesar de tudo, mesmo para alguém como Dejevesky, essas razões são impossíveis de ignorar, mas tentam-nos fazer crer que tais causas são menos importantes.

Vejam por exemplo a Coreia do Norte, em que nos dizem que Kim Sung II, o presidente da República Democrática Popular da Coreia (RDPC) quer ter armas nucleares para “conquistar” a Coreia do Sul e destruir o “Ocidente”. Ele quer fazer isso basicamente porque é um maluco, um psicopata, ou então, mais uma vez, tem muita testosterona a circular nas suas quentes, veias asiáticas?

         Qualquer que seja a razão, podem ter a certeza que a economia não tem nada a ver com a “crise nuclear coreana”. Mas procurem um bocadinho mais e temos uma imagem distinta dos acontecimentos.

“Nas conversações a seis, a 29 de Setembro de 2005, uma declaração de princípios sobre o desarmamento nuclear, foi assinada entre os EUA e a RDPC… Apesar de, no acordo, ter sido pedido aos EUA para normalizarem as relações com a Coreia do Norte, literalmente no dia seguinte anunciaram a imposição de sanções a contas bancárias norte-coreanas do Banco Delta Asia, sedeado em Macau, com a acusação de estarem a ser usadas para movimentar moeda contrafeita.” [1]

 

         Mais de um ano depois, os EUA ainda não apresentaram nenhuma prova que apoie essa acusação.

 

“Os norte-coreanos disseram que iriam responder às evidências de contrafacção, prendendo os envolvidos e confiscando o seu equipamento. ‘Ambos os lados podem dialogar num órgão consultivo no qual se pode ganhar confiança. Teria um impacto muito positivo na resolução do assunto nuclear da península coreana’, disse Ri. A delegação também sugeriu que se abrisse uma conta norte-coreana numa instituição financeira norte-americana e colocada na supervisão dos EUA, para afastar todas as suspeitas… De forma não surpreendente, as ofertas da Coreia do Norte foram rejeitadas.” [2]

 

         Então, porque é que os EUA inventaram a história da contrafacção da Coreia do Norte?

 

“As medidas tomadas contra o Banco Delta Asia privaram a Coreia do Norte de um importante ponto de acesso a moeda estrangeira, e também funcionaram como um mecanismo de ampliação dos efeitos das sanções. Ao colocar o Banco Delta Asia na lista negra, os EUA fizeram com que outras instituições financeiras reduzissem os negócios com este banco, e ele se visse forçado a cortar relações com a Coreia do Norte. Rapidamente a campanha tomou proporções globais. O Departamento do Tesouro dos EUA enviou cartas de aviso a bancos de todo o mundo, tendo como consequência uma onda mundial de bancos a encerrarem contas da Coreia do Norte. Com medo de retaliações dos EUA, os bancos acharam prudente encerrar as contas da Coreia do Norte em vez de arriscar ficar na lista negra e terminarem o seu negócio. O Sub-Secretário de Estado do Tesouro dos EUA, Stuart Levey, afirmou que as sanções e as ameaças dos EUA fizeram uma “enorme pressão” na RDPC, levando a um “efeito de bola de neve”. As acções dos EUA pretendiam minar quaisquer hipóteses de um acordo pacífico.” [3]

 

Claramente, a “mudança de regime” é o objectivo das acções dos EUA, através da recusa de acesso à RDPC a moeda estrangeira e desse modo limitar a sua capacidade comercial, enfraquecendo a já fraca economia da Coreia do Norte. Porquê sujeitar o povo coreano a tais privações quando nos é dito que é o bem-estar do povo coreano que motiva as acções do Ocidente?

 

Então que raio se passa aqui? Porque é que os EUA assinam um acordo que reduz a as tensões, normaliza relações e conduziria ao afastamento de algum tipo de “ameaça nuclear” por parte da RDPC, e depois fazem tudo o possível para sabotar esse acordo? Mais uma coisa, porque é que isto não aparece nos meios de comunicação de referência? Porquê esconder ao público informação tão importante, especialmente quando nos estão a dizer que a Coreia do Norte é alegadamente uma ameaça à paz?

Alguém se atreve a sugerir que esses meios de comunicação têm algum tipo de agenda escondida, que não querem que saibamos as verdadeiras razões por trás dos acontecimentos e das acções dos nossos líderes políticos? De que outra forma se explica que tais informações não apareçam na cobertura noticiosa sobre a Coreia do Norte?

Aqueles de nós que têm uma visão céptica dos acontecimentos da forma que nos são apresentados, não vão precisar de ser convencidos, mas e a grande maioria do público que não se apercebe que está a ser a mal informada e enganada?

Obviamente coexistem aqui duas realidades, uma apresentada pelos grandes meios de comunicação e a outra realidade é a do verdadeiro poder a ser exercido por verdadeiras razões, não sendo a economia a menos importante. Entretanto, a Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, no fundo, qualquer país que trace um caminho que não bata certo com os objectivos da economia dos EUA, sentirá a força punitiva do seu poder, quer o líder seja um “jovem enérgico” ou um “populista demagogo” ou qualquer outro epíteto difamatório que sirva para a situação.

A sugestão de que os grandes meios de comunicação se portam deste modo é claramente ridicularizada como as loucuras dos “conspiracionistas” ou ainda pior, essa crítica seria, por si só, a expressão de uma agenda própria escondida. No entanto, de que outro modo se pode explicar a total ausência de referências às reais acções dos EUA na sua relação com a RDPC, que não pelo facto de que os grandes meios de comunicação têm uma agenda não-tão-escondida-assim para manter os factos cruciais afastados do público, especialmente se eles têm alguma importância no controlo das crises engendradas tais como a “ameaça nuclear” da Coreia do Norte. Não interessa expor as acções furtivas dos EUA quando o tom dos media são contínuas histórias sobre as “ambições nucleares” da RDPC e do seu perigoso líder.

E reparem como as “crises” vão e vêm, pelo menos na imprensa corporativa. Num dia o mundo está à beira de uma convulsão nuclear e no dia seguinte não se encontra nem uma palavra sobre as “ambições” nucleares da Coreia do Norte. Mas vistos na continuidade da cobertura das notícias, os acontecimentos consistem numa “crise” atrás da outra. Nunca, claro, por causa do Ocidente. São sempre uns asiáticos indecentes, uns árabes traiçoeiros, ou uns latinos de sangue quente, etc. De facto, é uma infinita liturgia de crises e ameaças ao “nosso” modo de vida, mas estas são sempre “ameaças” que existem num esplêndido isolamento da realidade.

“Nós” somos sempre vítimas de um conjunto de trapaceiros e de todo o tipo de loucos e psicopatas assanhados que aparecem e desaparecem de acordo com os critérios ditados pelas acções e objectivos dos nossos governantes. Mas sem a cumplicidade activa dos media corporativos, tais “ameaças” seriam impossíveis de vender. Assim, palavras aparentemente inócuas como as da Mary Dejevsky, que têm o propósito de ser nada mais do que os seus “pensamentos” sobre as suas ainda pouco desenvolvidas impressões sobre a “crise do Suez” (“A minha geração cresceu na sombra do Suez”), assumem um papel mais ameaçador, pois reforçam a visão imperial do mundo, de um mundo de “nós contra eles”, onde “nós” somos as vítimas, mesmo se, como sugere Dejevsky, seja apenas um ataque fatal aos nossos idos egos imperiais.

Mas é assim que são dão os enganos, e o que torna tais “pensamentos” tão perigosos, é que mascaram a realidade subjacente dos interesses económicos e de poder (por exemplo, a posse do Canal do Suez, que apesar de atravessar o Egipto e correr em terras egípcias, foi “tomado” por Nasser, no universo atabalhoado da Dejevsky, onde a posse é um direito exclusivo daqueles com poder para o conseguir).

Desafiem esse poder e podem ter a certeza que irão ter o que merecem. Primeiro são diabolizados pelos meios de comunicação de referência, depois são isolados pela mítica “comunidade internacional” (termo jornalístico para os grandes poderes económicos dos EUA e da Europa), e segue-se uma dose pouco saudável de explosivos, só para o caso de não terem percebido a mensagem.

Notas

[1]. Para a história completa, ver ‘Why Bush is Seeking Confrontation With North Korea’, por GREGORY ELICH
[2]. idem
[3]. idem

 

Texto publicado por William Bowles no dia 30 de Outubro de 2006 em http://williambowles.info/ini/2006/1006/ini-0459.html e traduzido por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 08:20
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