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Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

'Bilderbergues' do mundo, uni-vos!

 “No Iraque Pós-Guerra, Usar as Forças Militares para Defender Interesses Vitais dos EUA, Não para a Reconstrução da Nação” — Fundação Heritage

 

E caso não tenham percebido a ideia, o mesmo documento da Fundação Heritage, datado de 25 de Setembro de 2002 prossegue dizendo-nos,

“Proteger as infra-estruturas iraquianas de sabotagem interna ou de ataques estrangeiros para recolocar o Iraque nos mercados globais da energia e para assegurar que os EUA e os mercados mundiais de energia tenham acesso aos seus recursos.”[1]

 

Heritage Foundation

 

Tudo o que disser o contrário na imprensa estatal ou corporativa é apenas propaganda e/ou mentiras. Ponto final parágrafo.

 

Oleando as engrenagens do capitalismo com petróleo

 

O ponto de viragem no qual o petróleo tomou o lugar central aconteceu significativamente quando se iniciou o século XX e os navios imperiais mais poderosos, os alemães e os britânicos, deixaram o carvão e passaram e utilizar o petróleo. A partir desse ponto os destinos da Pérsia e do mundo árabe tornaram-se irrevogavelmente centrais para as ambições imperialistas ocidentais. Foi tanto assim que até à data estamos a viver (e a morrer) com os resultados, mais notavelmente os palestinianos e os iraquianos, sem esquecer as duas Guerras Mundiais onde o petróleo foi fulcral para todos as partes em combate, não apenas para a luta como para o controlo.

 

“Raramente discutido, no entanto, é o facto dos objectivos geo-políticos estratégicos da Grã-Bretanha, muito antes de 1914, incluírem não apenas o esmagamento o seu maior rival industrial, a Alemanha, mas, pela conquista através da guerra, o assegurar um controlo britânico inquestionável sobre o precioso recurso que, já em 1919, provava ser a matéria-prima estratégica de futuros desenvolvimentos económicos – o petróleo.” — ‘A Century of War’, F William. Engdahl, pág.38.[2]

 

O petróleo aumentou o alcance dos navios imperiais para dar a volta ao globo sem necessidade de reabastecimento, permitindo que a marinha britânica tomasse controlo dos oceanos e rotas comerciais do mundo. Um dos objectivos da Primeira Guerra Mundial era negar à Alemanha o acesso aos campos petrolíferos recém-descobertos onde agora é o Irão. Isto significava controlar o acesso ao Médio Oriente onde os britânicos controlavam o Canal do Suez (‘roubado’ aos franceses), o que eventualmente determinou o destino do povo da Palestina e de todo o Médio Oriente.

 

Claro que o petróleo é apenas um componente mas sem ele nada funciona, muito menos um exército mecanizado. Sem petróleo não há nada daquilo que o mundo moderno está dependente.

 

‘O jornal Energy Bulletin de 17 de Fevereiro de 2007 assinala que o consumo de petróleo dos aviões, barcos, veículos e instalações do Pentágono fazem dele o maior consumidor de petróleo do mundo. Nessa altura, a marinha dos EUA tinha 285 barcos de combate e de apoio e cerca de 4000 aviões em operação. O exército dos EUA tinha 28,000 veículos blindados, 140,000 veículos multi-usos de alta mobilidade, mais de 4,000 helicópteros de combate, várias centenas de aeronaves e uma frota de 187493 veículos. Exceptuando os 80 submarinos e porta-aviões nucleares, que libertam poluição radioactiva, todos os outros veículos consomem petróleo.’[3]

 

Os meios de comunicação corporativos, se alguém grita ‘Petróleo!’ quando se fala do Iraque, querem que acreditemos que essa pessoa é uma espécie de maluco, daqueles que são raptados por Ovnis, nada mais nada menos que uns adeptos da ‘teoria da conspiração’.

 

Em 2003, quando os EUA e o Reino Unido invadiram o Iraque, eu fiquei espantado com os argumentos desesperados da imprensa corporativa de que a invasão não tinha nada a ver com o petróleo, acusando os que afirmavam que o petróleo tinha tudo a ver com a invasão, de serem uns loucos adeptos da teoria da conspiração a obviamente a viverem na Área 51.

 

“Abundam as teorias da conspiração …. Outros defendem que foi por causa do petróleo…. Teoria que não faz sentido.” The Independent, 16 de Abril de 2003.

 

Mundo Viciado em Petróleo

O Mundo Viciado em Petróleo

(Manny Francisco, Manila,Filipinas)

 

Pelo contrário, as empresas do petróleo não se fizeram rogadas em vir falar sobre o papel fulcral do petróleo na invasão do Iraque, ecoando o que disseram os engravatados da Fundação Heritage:

 

“Eu diria que especialmente as empresas petrolíferas dos EUA… anseiam por um Iraque aberto ao negócio [depois do derrube de Saddam],” disse um executivo de uma das maiores empresas petrolíferas do mundo.”

“O que eles [os neo-conservadores do governo Bush] têm na ideia é a desnacionalização, e a divisão em parcelas do petróleo iraquiano para as empresas americanas. Nós conquistamos o Iraque, instalamos o nosso regime, produzimos petróleo ao máximo e dizemos à Arábia Saudita que vá para o inferno.” James E. Akins, antigo embaixador dos EUA na Arábia Saudita.

 

“Irá provavelmente ditar o fim da OPEP.” Shoshana Bryen, director de projectos especiais do JINSA (Instituto Judeu para Assuntos de Segurança Nacional), isto é, depois da queda do Iraque e da privatização do seu petróleo.

“As empresas americanas terão uma grande oportunidade com o petróleo do Iraque,” Ahmed Chalabi no jornal Washington Post.

 

Em “O Futuro do Iraque Pós-Saddam: Um Plano para o Envolvimento Americano”, uma série de documentos de Fundação Heritage, é desenvolvido um plano para a privatização do petróleo do Iraque e de facto para a privatização de toda economia iraquiana.[4]

 

Será uma conspiração? Bem, isso depende de como definem essa palavra. As definições do dicionário são estas:

  1. o acto de conspirar.
  2. um plano malévolo, ilícito, traiçoeiro, ou subreptício formulado em segredo por duas ou mais pessoas;
  3. uma combinação de pessoas com um propósito secreto, ilícito, ou malévolo.
  4. Jur. um acordo entre duas ou mais pessoas para cometerem crime, fraude, ou outro acto incorrecto.
  5. Qualquer concorrência de acções; conluio para obter um dado resultado.

Eu penso que todas colectivamente se encaixam na descrição da invasão do Iraque, afinal Bush e Blair conspiraram para burlar o mundo através da fabricação de provas sobre as armas de destruição em massa do Iraque de modo a invadirem ilegalmente o país. Eles conspiraram (com outros) para destruir um país e roubar os seus recursos, ergo: uma conspiração.

Dito isto, há aqueles que vão muito mais longe, afirmando que há uma conspiração global que já remonta desde há cem anos entre as classes políticas dos Estados Unidos e do Reino Unido que, em conjunto com poderosos banqueiros e conglomerados da energia, conseguiram controlar o planeta, os seus recursos, mercados e trabalhos. Mas será isso uma conspiração ou é meramente o imperialismo a fazer o que sabe melhor: roubar, matar e colonizar? Por outras palavras, precisamos de uma conspiração para explicar os acontecimentos? E se realmente existe uma conspiração há mais de cem anos? Isso não muda nada, continuamos a confrontar-nos com as mesmas forças.

 

O que é preciso perguntar é: Por que é que os meios de comunicação corporativos/estatais insistem em usar a palavra conspiração para ridicularizar quem questione a ortodoxia vigente? A resposta é imediatamente óbvia: a palavra conspiração foi distorcida de modo a não significar a sua definição do dicionário, mas sim tudo o que desafie as razões apresentadas pelos nossos mestres políticos sobre o funcionamento das coisas.

 

A História está repleta de todo o género de conspirações estatais e/ou corporativas, desde o Incêndio no Reichstag à provocação no Golfo de Tonkin, ou ao derrube feito pela CIA/ITT de Allende no Chile, às não existentes armas de destruição em massa do Iraque, daí a necessidade de não deixar que se estabeleça uma ligação entre o petróleo e o Iraque/Irão/Afeganistão, só para o caso das pessoas chegarem às conclusões certas sobre por que é que acontecem as coisas.

A linguagem é assim mutilada para servir os objectivos da classe corporativa, isto com a ajuda dos verdadeiros doidos das conspirações, que vêm tudo como uma conspiração, por vezes iniciadas há séculos atrás e que envolvem cabalas secretas de um ou de outro tipo. Ligar a esquerda a esta malta serve para degradar o nosso argumento e seguramente é esse o objectivo.

 

Não há dúvidas que a classe criminosa internacional traça ligações, projecta e planeia. É isso que o Council on Foreign Relations [Conselho de Relações Estrangeiras - EUA] (CFR) faz, tal como a Chatham House (Instituto Real de Assuntos Internacionais), o equivalente no Reino Unido, e ambas as organizações foram montadas no início do século XX com o fortalecimento da ‘Aliança Anglo-Saxónica’. A lista de membro do CFR ilustra o facto de os principais governos ocidentais serem efectivamente servos do Grande Capital.

 

Tal qual o grupo Bilderberg, composto por ‘capitães internacionais da indústria’ e políticos-chave das classes políticas dos principais estados capitalistas. Mas será isto uma conspiração? A um certo nível, não. No fundo é legítimo que as classes dominantes se organizem e planeiem. É por isso que Washington DC está a rebentar pelas costuras com tantas ‘Fundações’ e ‘Institutos’. Desde o final da Segunda Grande Guerra, milhares de milhões de dólares tanto públicos como privados, foram despejados nessas organizações. O seu objectivo? Espalhar o ‘mercado livre’ e combater quem se oponha, por meios correctos ou por meios pouco correctos.

 

‘“…os homens mais poderosos do mundo reuniram-se pela primeira vez” em Oosterbeek, Países Baixos [há mais de cinquenta anos], “debateram o futuro do mundo,” e decidiram reunir-se anualmente em segredo. Apelidaram-se de Grupo Bilderberg e os seus membros representam a nata das elites dominantes mundiais, principalmente da América, Canadá e Europa Ocidental, com nomes familiares como David Rockefeller, Henry Kissinger, Bill Clinton, Gordon Brown, Angela Merkel, Alan Greenspan, Ben Bernanke, Larry Summers, Tim Geithner, Lloyd Blankfein, George Soros, Donald Rumsfeld, Rupert Murdoch, outros chefes de estado, senadores influentes, congressistas e deputados, responsáveis do Pentágono e da NATO, membros da realeza europeia, figuras mediáticas seleccionadas, e outros convidados – alguns em segredo segundo algumas fontes, como Barack Obama e muitos dos seus oficiais de topo.” — ‘A Verdadeira História do Grupo Bilderberg’ Por Daniel Estulin.[5]

 

É claro que o capitalismo moderno evoluiu ao longo de gerações e gerações com toda a aparência de uma conspiração em amplo sentido, e uma do mais sofisticado que há, empregando um vasto exército de operacionais que incluiu elementos fulcrais nos meios de comunicação, academias, homens de negócio e políticos, quer dentro ou fora da governação. Uma ‘conspiração’ para manter o capitalismo como a única forma permissível de sociedade, como poderia ser de outra forma? Simplesmente há muita coisa em jogo e para provar isso basta-nos ver como esta poderosa elite internacional de negócios/governos/meios de comunicação conspirou para matar a COP15 [Conferência da ONU sobre as mudanças climáticas, que decorreu em Copenhaga] independentemente das consequências.

 

Ligações familiares, de formação, e de negócios —com o estado como ‘mediador’— criaram aquilo que é agora uma rede internacional que liga as classes dominantes dos mais poderosos estados capitalistas. É por isso que eles têm um Grupo Bilderberg, é onde os líderes dos negócios, a classe política, académicos e membros seleccionados dos meios de comunicação se encontram e formulam estratégias e tácticas, necessárias num mundo onde as comunicações são agora virtualmente instantâneas. Não serve ter governos a fazerem declarações que estão fora da linha do ‘consenso’, como acontece de tempos a tempos, e a ilusão esfuma-se por breves momentos.

Num mundo onde as forças económicas dominantes são poucas centenas de grandes corporações, corporações que de facto asseguram que os seus respectivos governos promovem políticas favoráveis à sua sobrevivência e que aumentem a prosperidade dos seus principais accionistas, a coisa lógica a fazer é combinarem sobre os assuntos que os afectam a todos. Eu ficaria extremamente surpreendido se o Grupo Bilderberg ou outro parecido, não existisse.

E os assuntos são fáceis de adivinhar: controlo/propriedade e acesso aos recursos; acesso a mão-de-obra barata; livre movimento de capitais; e por último, mas não menos importante, neutralizar os que desafiam o domínio do capital onde quer que eles apareçam.

 

Alinhado contra nós, o povo, está um vasto aparelho de controlo e manipulação que envolve órgãos governamentais, ‘não’-governamentais, fundações privadas, meios de comunicação, estatais e corporativos, ‘entretenimento’ em todas as suas extraordinárias formas, think tanks, institutos, fundações, academias, órgãos formais e informais, quer nacionais quer internacionais, associações, ONGs e ‘ONGs’, instituições de solidariedade e ‘instituições de solidariedade’, todas elas fortemente subsidiadas pelo estado e/ou corporações. Quem precisa dos ‘Illuminati’ quando temos todos estes alinhados contra nós?

 

Notas

1. Ver ‘In Post-War Iraq, Use Military Forces to Secure Vital U.S. Interests, Not for Nation-Building’ por Baker Spring e Jack Spencer, Backgrounder #1589, 25 de Setembro de 2002.

“A Administração deveria tornar claro que a presença militar dos EUA no Iraque após a guerra pretende assegurar interesses vitais dos EUA, não serve para o exercício da chamada construção de uma nação — a política aberta da Administração Clinton da enviar tropas americanas para regiões problemáticas onde não estavam ameaçados interesses vitais dos EUA.”

2. Penso que a melhor (e mais sucinta) análise deste período é a que foi feita por F. William Engdahl no seu livro ‘A Century of War’ Anglo-American Oil Politics and the New World Order’. Podem ver a minha crítica ao livro aqui. Comprem o livro aqui na Pluto Books.

3. Ver ‘Pentagon’s Role in Global Catastrophe: Add Climate Havoc to War Crimes’ por Sara Flounders com dados sobre o gigantesco apetite por petróleo por parte do exército norte-americano.

E aqui têm a fonte, ‘US military oil pains’ por Sohbet Karbuz, Energy Bulletin, 17 de Fevereiro de 2007. Note-se que os dados usados no artigo já têm mais de dois anos e estão longes de estarem completos, já que apenas incluem o petróleo comprado directamente pelo Departamento da Defesa dos EUA. Quaisquer que sejam os números eles estão a subir, provavelmente tão alto como 30 mil milhões de dólares anualmente, sem nenhum sinal de redução no horizonte, pelo menos de acordo com o Departamento da Defesa:

““No ano fiscal de 2005, o DESC [Departamento de Energia] irá comprar cerca de 128 milhões de barris de combustível com um custo de 8.5 mil milhões de dólares, e o combustível para aviação constitui perto de 70% das compras de produtos petrolíferos do Departamento da Defesa.”

“Para alguns, isto ainda não é suficiente. “Como o consumo de petróleo do Departamento da Defesa representa a maior prioridade de todos os usos, não haverá limites fundamentais ao fornecimento de combustível do Departamento da Defesa durante muitas e muitas décadas.”” — ‘United States Department of Defense … or Empire of Defense?’ Por Sohbet Karbuz, 6 de Fevereiro de 2006

4. http://www.heritage.org/Research/MiddleEast/bg1632.cfm,
http://www.heritage.org/Research/MiddleEast/bg1633.cfm

5. Ver ‘The True Story of the Bilderberg Group and What They May Be Planning Now.’ Uma crítica ao livro de Daniel Estulin feita por Stephen Lendman

 

 

Texto de William Bowles publicado a de 14 de Janeiro de 2010 em Creative-I. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007

Irão, o euro e o dólar

Há poucos dias, a República Islâmica do Irão cumpriu a sua ameaça: não se aceitam dólares, e todas as transacções económicas externas do país passam a fazer-se em euros ou em ienes. Já desde Setembro, uma boa parte das exportações petrolíferas iranianas não se efectuavam em dólares, mas sim em ienes: o Japão é, de longe, o principal importador de petróleo iraniano, sendo o Irão o terceiro fornecedor dessa potência pacífica. Agora, também os parceiros comerciais europeus e asiáticos do terceiro exportador mundial de petróleo têm de aceitar que Teerão já não recebe a moeda dos Estados Unidos.

O Banco Central iraniano propõe-se aligeirar a sua reserva de dólares, até deixá-la abaixo dos 20% (e possivelmente irá mais longe, até substituí-los completamente por euros ou ienes). É verdade que o depósito iraniano de dólares apenas soma 60 mil milhões, mas isso – lançado no mercado – bastaria para acelerar o declive do dólar. O passo seguinte, já anunciado muitas vezes, parace ser apenas uma questão de tempo: a abertura de um mercado de valores petrolíferos iraniano, no qual só se negociará em euros. Até agora, há duas bolsas de renome associadas a este negócio, a NYMEX de Nova Iorque e a londrina IPE (International Petroleum Exchange); ambas pertencem a empresas norte-americanas, e em ambas se negoceia com dólares. Se aparecer uma bolsa petrolífera iraniana, o grosso dos importadores europeus e asiáticos lançar-se-iam de cabeça a ela imediatamente. Seria um novo revés para a posição predominante do dólar.

As consequências são claras. Qualquer um poderia então comprar petróleo em euros, os europeus, os chineses e os japoneses desvincular-se-iam da cambaleante moeda, os preços do petróleo serenavam. Os bancos centrais asiáticos poderiam reduzir drasticamente as suas reservas de dólares, permanentemente ameaçadas de desvalorização.

O poderio mundial dos EUA baseia-se no seu mega-poder militar e num regime monetário mundial, através do qual a moeda dos Estados Unidos reina de facto como o dinheiro do mundo: quase 80% do comércio mundial e 100% do comércio petrolífero mundial fazia-se até há pouco tempo em dólares (5 mil e quinhentos milhões diários, 1,5 mil milhões por ano), e os mercados financeiros do mundo são também predominantemente mercados de dólares. Está fora de discussão: o sistema do petro-dólar, em vigor há 40 anos e já muito rodado, é um dos pilares deste regime. Centenas de milhares de milhões flúem anualmente para os EUA, procedentes dos ganhos dos exportadores do petróleo. Com os petro-dólares, estas mega-empresas compram valores americanos – sobretudo dívida pública norte-americana – e financiam assim o gigantesco défice da balança da conta corrente e do orçamento dos Estados Unidos. Bastaria que uns quantos grandes exportadores de petróleo passassem do dólar para o euro (ou para o iene), para o sistema descarrilar.

Os EUA têm por isso todos os motivos para temer um efeito dominó: outros países exportadores de petróleo poderiam seguir o exemplo do Irão; na Venezuela, Rússia e Noruega, dizer adeus ao dólar já é algo praticamente decidido. A acção iraniana oferece uma bem-vinda oportunidade para o fazer. A Arábia Saudita especulou em voz alta várias vezes sobre o assunto, garantindo assim êxitos diplomáticos na disputa com o grande irmão norte-americano. Também a França se comprometeu oficialmente a favor de um papel mais forte do euro no negócio petrolífero internacional. Ainda durante o regime de Saddam Hussein, o Iraque mudou as suas contas do comércio petrolífero dos dólares para os euros (depois da conquista do país, em Abril de 2003, isso foi imediatamente corrigido).

A iniciativa iraniana revela aos americanos sobretudo uma coisa: a fuga do dólar já começou irreversivelmente. Na Ásia, na América Latina e no Médio Oriente há países que procuram romper a vinculação das suas moedas ao dólar. Cada vez menos bancos centrais fora dos EUA estão dispostos a, e em situação de, segurar o dólar à custa das suas próprias economias.

A guerra das sanções contra a pretensa potência atómica iraniana será agora, depois da decisão de Teerão, mais discutível do que nunca. Os EUA estão agora forçados a fazer a sua jogada, e o governo de Bush não se caracteriza pelas suas jogadas inteligentes. Depois das sanções vem a opção da guerra quente. Já que o Irão não capitula, e enfrenta a política de sanções dos Estados Unidos com meios económicos legítimos, é previsível uma escalada. É na preponderância do dólar que se baseia a capacidade militar dos EUA para pagar, quando lhes parece necessário, o crédito de guerras que já nem o estado norte-americano nem a sua economia o permitem. O Império irá contra-atacar, a pergunta é como e quando.


 


Texto de Michael R. Krätke publicado a 22 de Novembro de 2007 em Rebelion.org. Tradução de Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 20:00
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