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Terça-feira, 18 de Junho de 2019

Tiananmen e Chernobil, do silêncio comunista ao espetáculo capitalista

Por estes dias temos assistido a um remember dos acontecimentos históricos sucedidos no mundo comunista do século XX: os protestos de Tiananmen e o acidente de Chernobil. Não é objetivo da minha reflexão discutir sobre a informação que dispomos daqueles acontecimentos e sobre a precisão ou não do nosso conhecimento. O que creio que sim vale a pena é observar a capacidade que tem o mundo  ocidental e a sua maquinaria de informação/entretenimento/ideológica de converter em atualidade acontecimentos passados quando lhe interessam, apresentar o formato mais atrativo da história e conseguir que a sua versão afaste qualquer discussão, debate ou investigação sobre os factos.

 

No assunto Tiananmen, o mais destacável é como, para o cidadão ocidental, o nome de uma praça aparece unido inevitavelmente a uns acontecimentos de protestos contra o governo comunista chinês. Diretamente, os meios de comunicação falam dos 30 anos de Tiananmen, os anos que passaram desde esses protestos, apesar de a praça ter uns quarenta anos mais. Ninguém pensa no massacre dos 300 estudantes em Tlatelolco quando os meios de comunicação referem esse local da cidade do México. De modo que Tiananmen é a praça de um massacre mas a praça das Três Culturas, onde aconteceu o massacre mexicano, é um complexo arquitetónico.

Um dos paradoxos dos protestos de Tiananmen é que a foto mais emblemática da repressão é precisamente um tanque que se imobiliza para não atropelar um manifestante. Ocorrem-me muitas mobilizações e protestos no mundo onde as forças da ordem não respeitaram um manifestante semelhante e não passaram à história por sangrentas repressões, como sucede com a praça chinesa. Desde o caracazo venezuelano ao massacre de El Mozote em El Salvador. E, claro, creio que há muitos muitos países onde não é preciso recuar 30 anos para encontrar repressão e massacres dos seus exércitos.

cartoon, Tiananmen

Cartoon de Paresh Nath, The Khaleej Times, UAE

O outro tema trazido à atualidade foi o acidente de Chernobil graças a uma série do canal de televisão HBO, com o mesmo nome. Tal como com os acontecimentos de Tiananmen, Chernobil sofreu por parte das autoridades comunistas um grande secretismo, o que permitiu ao ocidente fazer as suas próprias interpretações e manejar os dados que considerou oportunos. Para começar, no que diz respeito ao número de vítimas que, em ambos os casos, a amplitude é muita. No caso do acidente nuclear, porque o cálculo supõe não só as mortes pelo acidente, apenas umas dezenas, mas também os falecidos em consequência das radiações recebidas.

Chernobil, cartoon, chernobyl

Cartoon de Christo Komarnitski, Bulgaria

O que é evidente é que as lacunas sobre o que aconteceu, o secretismo que rodeou a tragédia, característico de uma guerra fria que ainda se fazia sentir, e a estigmatização do governo comunista de então, eram ingredientes estupendos para um produto audiovisual com o formato de ficção em vez do de documentário. Não é minha intenção justificar nem branquear as responsabilidades daqueles governos, vou limitar-me a suspeitar da oportunidade de tanta insistência e da forma como é feita. Que uma série de ficção, com cenas dramatizadas, com alguns personagens criados especialmente para a série (a física bielorrussa Ulana Khomyuk), sem oferecer fontes rigorosas, nem documentação, seja a via principal de conhecimento do acidente de Chernobil para a população ocidental de hoje, não implica nenhum avanço de aproximação à verdade. Não se pode compreender que a única pessoa que se preocupasse em investigar o motivo do desastre fosse uma física da república vizinha da Bielorrússia, que fosse a Chernobil por sua conta para entrevistar os técnicos moribundos no hospital. E que, ainda por cima, terminasse detida pelo KGB. O lógico é que o próprio estado soviético, ainda que não tivesse nenhuma intenção de transparência, tentasse saber o que se tinha passado. Poderão argumentar que isto é só uma série, que não pretendem apresentar-se como investigadores e reveladores de uma verdade, mas isso é irrelevante, a realidade é que "documentação" que os cidadãos terão sobre aqueles acontecimentos será a história que viram no canal HBO.

Um dos princípios éticos do jornalismo televisivo é renunciar à dramatização das notícias, isto é, não contar uma violação ou um assalto a um banco mediante uma teatralização de atores, pelo que isso implica  de manipulação da emoção das audiências. Imaginem a reação de uns espectadores perante um acusado de violação e assassinato se, na informação sobre o julgamento, se exibe a dramatização desse crime com todo o tipo de detalhes, sangue, terror da vítima e maldade nos gestos do assassino. Pois isso é a série de Chernobil. Nela, a intencionalidade é cuidada ao milímetro sem importar o rigor. Até a responsável pelo vestuário, Odile Dicks-Mireaux, reconheceu que o realizador, Johan Renck, "deu a diretriz de que queria que fosse um vestuário feio". E reconhece tranquilamente que na série “acrescentaram alguma decadência” e "a roupa é mais da URSS do que a de então em Pripyat, onde se viam calças de ganga, sapatos coloridos e roupa que ia chegando do estrangeiro”. Se era preciso projetar uma imagem decrépita do comunismo, então fez-se isso. Poucos deram conta, e muitos menos se recordam, que no filme As vidas dos outros, a cor torna-se alegre e brilhante ou sórdida e apagada conforme as imagens correspondem aos dissidentes ou às autoridades, conforme se esteja na Alemanha Ocidental ou na Oriental.

Em qualquer dos filmes americanos que estamos habituados a ver, os que sacrificam a sua vida ou a colocam em perigo para salvar outros, são apresentados como heróis. Pelo contrário, esses mesmos, na série do HBO são mostrados como se fossem levados pela direção soviética para o matadouro. Militares, polícias, bombeiros e médicos morrem todos os anos em muitos países do mundo cumprindo o seu trabalho obedecendo a ordens superiores e, em última instância, aos seus governos. No entanto, na série Chernobil são apresentados como enganados e empurrados pelo governo comunista. Muitos deles eram profissionais que conheciam bem o risco, dificilmente podiam ser enganados, sem dúvida foi o seu sentido de solidariedade que os motivou, como se pode apreciar nalguns momentos da série. Apesar disso, essas decisões heróicas e voluntárias aparecem encenadas precedidas de miseráveis tentativas de engano por parte do governo.

Se a alternativa ao ocultismo soviético é o espetáculo ocidental de uma série de ficção, a única coisa que fica demonstrada é uma maior inteligência para pastorear os cidadãos de uns do que os outros. É paradoxal que  que aqueles que no seu desenlace final do último capítulo da série, fazem do rigor científico e da verdade um baluarte, sejam os mesmos que criam uma série de ficção audiovisual sem aval científico nem documental. A frivolidade e o espetáculo imperante no ocidente faz crer que um produto televisivo de ficção nos vai dar lições de história e veracidade científica. Se o governo soviético teve um comportamento desajeitado acreditando que com o silêncio e a mentira podiam enganar um povo, o do ocidente tem uma brilhante atuação de espetacularidade que pretende substituir aquele silêncio e mentira por exibição e entretenimento recorrendo a todos os recursos narrativos necessários desde que o resultado seja atrativo para os espectadores. E o que é pior, dando lições de cátedra sobre o valor do rigor e da verdade.

 

Obviamente, uma boa narrativa requer que se eliminem as partes que não interessam. A URSS não deixou nunca de homenagear os liquidadores, todas as pessoas que se expuseram para paliar os efeitos do desastre. Os diferentes monumentos erguidos mostram que não houve intenção de esquecer o sucedido. E também não se ficou pelas meras homenagens, há uns anos um bombeiro ucraniano ucraniano denunciava que  "quando existia a União Soviética, cuidavam de nós, curavam-nos, preocupavam-se connosco. Agora os governos esqueceram-nos". Teria sido um bom final para a série, procurar mostrar como são vistos hoje esses heróis, já "libertados do jugo soviético".

Também poderiam ter investigado onde foram recebidos e assistidos, durante anos, os afetados pela radiação e contar que, depois da queda da URSS, 26 mil pessoas foram a Cuba, um governo que continuava a ser comunista, para receberem tratamento médico gratuito.

Mas contar tudo isto implicaria visitar agora os locais, recolher testemunhos e declarações e o resultado seria um rigoroso documentário em vez de uma atrativa série de televisão com efeitos especiais e dramas ficcionados. Demasiado aborrecido para a nossa sociedade do espetáculo.


Texto de Pascual Serrano publicado a 11 de junho de 2019 no El Diario. Tradução de Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018

A imprensa esconde o papel da OTAN no aparecimento de mercados de escravos na Líbia

Mercados de escravos no século XXI. Seres humanos a serem vendidos por umas centenas de dólares. Protestos em massa em todo o mundo.

Os meios de comunicação americanos e britânicos acordaram para a cruel realidade da Líbia, onde refugiados africanos estão à venda em mercados de escravos ao ar livre. No entanto, um detalhe crucial deste escândalo está a ser desvalorizado ou mesmo ignorado em muitas reportagens da imprensa: o papel da Organização do Tratado do Atlântico Norte no aparecimento da escravatura a essa nação do norte de África .

Em março de 2011, a OTAN lançou uma guerra na Líbia expressamente para derrubar o governo do perene líder Muamar Kadafi. Os Estados Unidos e os seus aliados fizeram cerca de 26 mil sobrevoos à Líbia e lançaram centenas de mísseis cruzeiro, destruindo a capacidade do governo de resistir às forças rebeldes.

O presidente norte-americano Barack Obama e a Secretária de Estado Hillary Clinton, em conjunto com os seus comparsas europeus, insistiram que a intervenção militar estava a ser levada a cabo por razões humanitárias. Mas o cientista político Micah Zenko (Foreign Policy, 22/3/2016) usou os próprios documentos da OTAN para demonstrar como “a intervenção na Líbia tinha a ver com uma mudança de regime desde o início.”

A OTAN apoiou um conjunto de grupos de rebeldes que lutavam no terreno na Líbia, muitos dos quais dominados por extremistas islâmicos portadores de visões violentamente racistas. Os militantes do bastião de Misurata, apoiado pela OTAN, até se referiram a eles mesmos em 2011 como “uma brigada para purgar escravos, de pele negra”—uma arrepiante previsão dos horrores que estavam para chegar.

A guerra terminou em outubro de 2011. Aviões americanos e europeus atacaram a caravana onde seguia Kadafi e ele foi brutalmente assassinado por rebeldes extremistas—sodomizado com uma baioneta. A Secretária Clinton, que desempenhou um papel decisivo na guerra declarou à televisão CBS News (20/10/2011), “Nós chegamos, vimos e ele morreu!”. O governo líbio foi dissolvido pouco tempo depois.

Nos seis anos que entretanto se passaram, a Líbia foi revirada pelo caos e pelo derramamento de sangue. Vários putativos governos competem pelo controlo desse país rico em petróleo e, nalgumas áreas, ainda não há uma autoridade central. Morreram muitos milhares de pessoas, apesar de ser impossível verificar a verdadeira contagem. Milhões de líbios foram deslocados—um número impressionante, quase um terço da população, tinha fugido para a vizinha Tunísia até 2014.

Os meios de comunicação corporativos, no entanto, esqueceram em grande medida o papel fulcral da OTAN na destruição do governo da Líbia, na desestabilização do país e no reforço do poder dos traficantes de seres humanos.

Para além disso, mesmo as poucas notícias que assumem uma cumplicidade da OTAN no caos da Líbia não dão o passo seguinte, de detalhar o bem documentado racismo violento dos rebeldes apoiados pela OTAN que encetaram a escravatura depois de terem feito uma limpeza étnica e de cometer crimes brutais contra os líbios negros.

 

Ó OTAN, onde andas tu?

A CNN (14/11/2017) tornou pública uma história explosiva em meados de novembro que possibilitou uma visão em primeira mão ao negócio de escravos na Líbia. Essa rede de meios de comunicação obteve um terrível vídeo que mostra jovens refugiados africanos a serem leiloados.“Grandes e fortes rapazes para trabalhos agrícolas,” vendidos por tão pouco como 400 dólares [340 euros].

A apelativa reportagem multimédia da CNN abundantes extras: dois vídeos, duas imagens animadas, duas fotografias e um gráfico. Mas faltava lá alguma coisa: nessa história de mil palavras não foi mencionada a OTAN, ou a guerra de 2011 que destruiu o governo líbio, nem Muamar Kadafi, nem nenhuma espécie de contexto histórico e político.

escravatura líbia CNN

 Apesar destas grandes falhas, a reportagem da CNN foi muito saudada e teve impacto num aparelho mediático corporativo que, habitualmente, pouco se debruça sobre o norte de África. Seguiu-se uma lufada de reportagens na imprensa. Esses relatos falaram maioritariamente da escravatura na Líbia como um assunto de direitos humanos intemporal e apolítico, não como um problema com raízes na história recente.

Nas notícias que se seguiram, quando autoridades líbias e das Nações Unidas anunciaram que abririam uma investigação à venda de escravos, a CNN (17/11/2017, 20/11/2017) tornaram a não mencionar a guerra de 2011, nem o papel da OTAN nessa guerra.

Uma reportagem da CNN (21/11/2017) sobre uma reunião do Conselho de Segurança da ONU conta-nos que “Embaixadores do Senegal à Suécia também apontaram as causas na base do tráfico: países instáveis, pobreza, lucros com o comércio de escravos e a falta de cumprimento das leis.” Mas não explicava por que razão a Líbia está instável.

Outro artigo de 1200 palavras da CNN (23/11/2017) também é ofuscante. Só quando se chega ao 35º parágrafo, o penúltimo, é que vem a citação de um investigador da organização de defesa dos Direitos Humanos, a Human Rights Watch: “As autoridades líbias têm vindo a arrastar-se em quase todas as investigações que supostamente iniciaram, mas que nunca concluíram, desde os tumultos de 2011.” A liderança da OTAN nestes tumultos foi, mesmo assim, ignorada.

Uma nota de imprensa da Agence France-Presse (AFP) que foi publicada pela Voice of America (17/11/2017) e por outros sítios da internet, também não nos fornece nenhum contexto histórico da situação política da Líbia. “Testemunhos reunidos pela AFP nos últimos anos, revelam uma ladainha de abusos de direitos por parte de líderes de gangues, traficantes de seres humanos e das forças de segurança da Líbia”, diz-nos o artigo, sem nada revelar sobre o que aconteceu antes de 2017.

 

Reportagens da BBC (18/11/2017), do New York Times (20/11/2017), Deutsche Welle (reproduzuda pelo USA Today, 23/11/2017) e da Associated Press (reproduzida pelo Washington Post, 23/11/2017) também não mencionam a guerra de 2011, nem o papel do OTAN.

Outra história do jornal New York Times (19/11/2017) dá-nos algum contexto:

Desde que a Primavera Árabe de 2011 acabou com a liderança brutal do Coronel Muamar Kadafi, a costa da Líbia tornou-se um eixo do tráfico humano e de contrabando. Isso foi alimentado pela crise de emigração ilegal com a qual a Europa se tem debatido desde 2014. A Líbia, que resvalou para o caos e para a guerra civil depois da revolta, está agora dividida entre três grandes fações.

No entanto, o Times oculta o papel fulcral da OTAN no tumultos de 2011.

Num relato das grandes manifestações que surgiram às portas das embaixadas da Líbia na Europa e em África, em resposta aos leilões de escravos, a agência noticiosa Reuters (20/11/2017) indica: “Seis anos depois da queda de Muamar Kadafi, a Líbia continua a ser um Estado sem lei onde grupos armados competem por território e recursos e onde operam impunemente redes de tráfico de pessoas.” Mas não deu mais nenhuma informação sobre a forma como Kadafi foi derrubado.

Uma reportagem do Huffington Post (22/11/2017), mais tarde republicada pela AOL (27/11/2017), concedeu que a Líbia é “um dos países mais instáveis, atolado em conflitos, desde que Muamar Kadafi foi afastado e morto em 2011”. Não se menciona o papel importante da OTAN nesse afastamento e morte.

Parte do problema tem estado na falta de vontade das organizações internacionais em apontar responsabilidades aos poderosos governos ocidentais. Na sua declaração sobre as notícias de escravidão na Líbia, o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres (20/11/2017) nada disse sobre os acontecimentos políticos dessa nação norte-africana nos últimos seis anos. A reportagem do Centro de Notícias da ONU  (20/11/2017) sobre os comentários de Guterres também não contextualizou nem informou devidamente, bem como a nota de imprensa (21/11/2017) da Organização Internacional para as Migrações (OIM).

A Al Jazeera (26/11/2017) citou um responsável da OIM que sugeriu, nas palavras da Al Jazeera, que “a comunidade internacional devia dar mais atenção à Líbia pós-Kadafi”. Mas este órgão de comunicação não contextualizou a forma como a Líbia passar a ser "pós-Kadafi". De facto, a fonte da  Al Jazeera acabou por fazer do tema um assunto apolítico: “A escravatura contemporânea está espalhada por todo o mundo e a Líbia não é, de todo, um caso único”.

Embora seja verdade que a escravatura e o tráfico de seres humanos acontecer noutros países, esta narrativa de que está espalhada por todo o lado despolitiza o problema na Líbia, que tem raízes em decisões políticas explícitas tomadas pelos governos e pelos seus líderes: nomeadamente, a escolha de derrubar o governo estável da Líbia, transformar essa nação norte-africana, rica em petróleo, num estado falhado governado por milícias e senhores da guerra, alguns dos quais envolvidos e a lucrarem com a escravatura e com o tráfico humano.

Atenção seletiva ao "pós-OTAN" na Líbia

As reportagens dos meios de comunicação corporativos sobre a Líbia espelham o tratamento dado às notícias sobre o Iémen (FAIR.org, 20/11/2017, 31/8/2017, 27/2/2017) e a Síria (FAIR.org, 7/4/2017, 5/9/2015). O papel dos governos dos EUA e dos seus aliados na criação do caos a nível mundial é minimizado, se não mesmo ignorado.

Espantosamente, uma das únicas exceções a esta impressionante tendência da imprensa aconteceu em abril, e logo no editorial do New York Times. Esse editorial (14/4/2017) não poupou nos termos, fazendo uma ligação direta entre a operação militar apoiada pelos EUA e a atual catástrofe:

Nada disto seria possível se não existisse um caos político na Líbia desde a guerra civil de 2011, quando — com o envolvimento da coligação da OTAN da qual faziam parte os Estado Unidos — o Coronel Muamar Kadafi foi derrubado. Os migrantes tornaram-se o ouro que financia as fações beligerantes na Líbia.

Esta foi uma significativa mudança de posição. Logo depois da OTAN ter lançado a guerra na Líbia em março de 2011, o editorial do jornal Times (21/3/2011) festejou o bombardeamento, esfuziando, “o Coronel Muamar Kadafi há muito que é um bandido e um assassino e nunca pagou pelos seus vários crimes.” Cantou loas à “extraordinária” e “impressionante” intervenção militar, e desejou a queda rápida de Kadafi.

O editorial de abril de 2017 do Times não chegou a ser um mea culpa, mas foi uma rara admissão da verdade.

Na altura em que este editorial surpreendentemente honesto foi escrito, tinha havido alguma atenção dada pela imprensa à Líbia. A Organização Internacional para as Migrações tinha feito uma investigação sobre a escravatura depois da mudança de regime na Líbia, levando a uma corrente de notícias no Guardian (10/4/2017) e noutros jornais. Mas quase logo que esta história começou a atrair a atenção da imprensa corporativa  essa mesma atenção acabou por esmorecer. Mudou-se para a Rússia, para a Coreia do Norte e para o papão do dia.

mercado de escravos na Líbia - Media

Quando os governos ocidentais estavam prestes a intervir militarmente na Líbia, no período que antecedeu o dia 19 de março de 2011, houve uma constante corrente de notícias sobre o lado mau de Kadafi e do seu governo—incluindo uma boa dose de notícias falsas (Salon, 16/9/2016). Os principais jornais apoiaram aguerridamente a invervenção da OTAN, e não fizeram segredo das suas linhas editoriais a favor da guerra.

Quando o governo dos EUA e os seus aliados se preparavam para a guerra, o aparelho mediático corporativo fez o que melhor sabe fazer e ajudou a vender ao público mais uma  intervenção militar.

Nos anos que se seguiram, por outro lado, houve exponencialmente menos interesse na desastrosa situação que se seguiu à guerra na OTAN.  Há alguns picos de interesse, como aconteceu no início de 2017. O interesse súbito mais recente da imprensa foi inspirado pela publicação do chocante vídeo pela CNN. Mas a cobertura mediática invariavelmente desaparece abruptamente.

O Racismo Extremo dos Rebeldes Líbios

A catástrofe que poderia atingir a Líbia depois do colapso do seu Estado foi prevista na altura. O próprio Kadafi avisou os Estados membros da OTAN, que ao desencadearem uma guerra contra ele, iriam lançar o caos na região. No entanto, os líderes ocidentais —Barack Obama e Hillary Clinton nos EUA, David Cameron no Reino Unido, Nicolas Sarkozy na França, Stephen Harper no Canadá—ignoraram a premonição de Kadafi e derrubaram violentamente o seu governo.

Mesmo no pequeno número de relatos na imprensa sobre a escravatura na Líbia que assumem o papel de responsabilidade da OTAN na desestabilização do país, falta ainda alguma coisa.

Olhando retrospetivamente para os rebeldes líbios anti-Kadafi, quer antes quer depois da guerra de 2011, é bastante claro que um ultra-racismo anti-negros se espalhou na oposição apoiada pela OTAN. Uma investigação de 2016 da Comissão de Negócios Estrangeiros da Câmara dos Comuns britânica (Salon, 16/9/2016) reconhece que “as milícias islâmicas tiveram um papel fulcral nos tumultos que se seguiram a fevereiro de 2011.” Mas muitos rebeldes não eram apenas fundamentalistas; eles eram também violentamente racistas.

Infelizmente, não surpreende que estes extremistas líbios escravizassem depois os refugiados e migrantes africanos: eles andavam no seu encalço desde o início.

A maior parte da cobertura jornalística norte-americana e europeia na altura da intervenção militar da OTAN era decididamente pró-rebeldes. Quando os repórteres foram para o terreno, no entanto, começaram a publicar algumas peças mais esbatidas que insinuavam a realidade da oposição. Foram em número insignificante mas são bem esclarecedoras e merecem ser vistas novamente.

Três meses depois do início da guerra da OTAN, em junho de 2011, Sam Dagher, do Wall Street Journal (21/6/2011), relatando com base em Misurata, a terceira maior cidade da Líbia e um grande reduto da oposição, contou que ouviu palavras de ordem tais como “a brigada para a purga de escravos, pele negra.”

Dahger afirmou que o baluarte rebelde de Misurata era dominado por “um núcleo de famílias de comerciantes brancos,” ao passo que “o sul do país, que é predominantemente negro, apoia maioritariamente o Coronel Kadafi.”

Um grafiti em Misurata dizia “Traidores fora daqui.” Por “traidores,” os rebeldes referiam-se aos líbios da cidade de Tauerga, que o Journal explicou ser “habitada principalmente por líbios negros, um legado das suas origens no século XIX como cidade na rota do comércio de escravos.”

Dagher revelou que alguns líderes rebeldes líbios "apelavam à expulsão dos provenientes de Tauerga da zona” e à "proibição dos naturais de Tauerga de poderem trabalhar, viver ou enviar os seus filhos para a escola em Misurata." Ele acrescentou que os bairros onde a maioria dos habitantes eram de Tauerga já estava vazios. Os líbios negros estavam “desaparecidos ou escondidos, temendo ataques dos habitantes de Misurata, havendo relatos de ofertas de recompensas pela sua captura.”

 O comandante rebelde Ibrahim al-Halbous disse ao Journal, “Tawergha já não existe, só Misrata.”

Al-Halbous reapareceria mais tarde numa notícia do jornal Sunday Telegraph (11/9/2011), reiterando ao jornal britânico, “Tauerga já não existe.” (Quando Halbous foi ferido em setembro, o New York Times20/9/2011—descreveu-o simpaticamente como um mártir na heróica luta contra Kadafi. A brigada de Halbous tornou-se nos anos que se seguiram uma milícia influente na Líbia.)

Tal como Dagher, Andrew Gilligan do Telegraph chamou a atenção para o mural pintado ao lado da estrada que liga Misurata a Tauerga: “a brigada para purgar escravos [e] peles negras.”

Gilligan escreveu a partir de Tauerga, ou antes das ruínas da cidade de maioria negra, que ele descreve como  tendo sido “esvaziada de pessoas, vandalizada e parcialmente queimada por forças rebeldes.” Um líder rebelde disse sobre os residentes de pele negra, “Nós dissemos que se eles não saíssem, seriam conquistados e presos. Foram todos embora e não iremos permitir que regressem.”

Gilligan deu nota de “um clima racista. Muitos dos habitantes de Tauerga, que nem eram migrantes nem faziam parte dos famosos mercenários africanos pró-Kadafi, são descendentes de escravos e têm a pele mais escura que a maioria dos líbios.”

A Organização do Tratado do Atlântico Norte deu apoio a estes rebeldes virulentamente racistas em Misurata. As forças da OTAN  fizeram frequentemente ataques aéreos sobre a cidade. Aviões de guerra franceses derrubaram aviões líbios em Misurata. Os Estados Unidos da América e o Reino Unido dispararam mísseis de cruzeiro sobre alvos governamentais líbios, e os Estado Unidos lançaram ataques com aviões não tripulados Predator. A força aérea canadiana também atacou forças líbias, empurrando-as para fora de Misurata.

Num vídeo de relações públicas publicado pelo OTAN em maio de 2011, no início da guerra da Líbia, a aliança militar ocidental admitiu abertamente que permitiu que “os rebeldes líbios transportassem armamento de Bengazi para Misurata.” O cientista político Micah Zenko (Foreign Policy, 22/3/2016) assinalou as implicações desse vídeo: “Um vaso de guerra da OTAN estacionado no Mediterrâneo para controlar o embargo de armas fazia exatamente o oposto, e a OTAN estava confortável com a divulgação de um vídeo que demonstra a sua hipocrisia.”

Durante a guerra e mesmo depois, os rebeldes líbios continuaram a perpetrar ataques sectários e racistas contra os seus compatriotas negros. Estes ataques foram bem documentados pelas principais organizações de defesa dos direitos humanos.

O diretor executivo da Human Rights Watch, Kenneth Roth, saudou a intervenção da OTAN na Líbia em 2011, considerando a declaração unânime de uma zona de proibição de voo por parte do Conselho de Segurança da ONU uma “notável” confirmação da chamada doutrina de “responsabilidade de proteger”.

A organização de Roth, no entanto, não pôde ignorar os crimes dos militantes anti-Kadafi cometidos contra os líbios de pele negra e contra os migrantes.

Em setembro de 2011, quando ainda decorria a guerra, a Human Rights Watch referiu-se à “detenção arbitrária e abuso de trabalhadores migrantes africanos e de líbios negros assumidos como sendo mercenários [pró-Kadafi]”, por parte dos rebeldes líbios.

migrantes negros racismo líbia

Depois, em outubro, a importante organização norte-americana de defesa dos direitos humanos referiu que milícias líbias estavam a “aterrorizar os residentes deslocados da localidade de Tauerga,” a comunidade de maioria negra que era um bastião de apoio a Kadafi. “Toda a cidade de 30 mil pessoas foi abandonada—parte dela saqueada e queimada— e os comandantes da brigada de Misurata dizem que os residentes de Tauerga não devem nunca mais regressar,” segundo a HRW. Testemunhas “fizeram relatos credíveis de algumas milícias de Misurata terem disparado sobre habitantes desarmados de Tauerga, e de detenções arbitrárias e espancamentos de presos, tendo em alguns casos levado à morte dos detidos.”

Em 2013, a HRW debruçou-se sobre a limpeza étnica da comunidade negra de Tauerga. A organização de defesa dos direitos humanos, cujo diretor tão efusivamente tinha apoiado a intervenção militar, escreveu: “A deslocação forçada de aproximadamente 40 mil pessoas, as detenções arbitrárias, tortura e assassinatos são comuns, sistemáticas e suficientemente organizadas para se poder considerar tratarem-se de crimes contra a Humanidade.”

Estas atrocidades são inegáveis e abrem um caminho direto à escravização de refugiados africanos e migrantes. Mas para reconhecer a cumplicidade da OTAN no fortalecimento destes militantes racistas extremistas, a imprensa teria de reconhecer primeiro o papel da OTAN na guerra para a mudança de regime na Líbia em 2011.

 

Texto de Ben Norton publicado na FAIR a de 28 de novembro de 2017. Tradução de Alexandre Leite para Resistir.Info.

publicado por Alexandre Leite às 19:00
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Todos os textos aqui publicados são traduções para português de originais noutras línguas. Deve ser consultado o texto original para confirmar a correcta tradução. Todos os artigos incluem a indicação da localização do texto original.

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