A licença para matar de Israel: há uma campanha genocida em Gaza
Na guerra, mesmo antes de começarem os combates, uma das tarefas prioritárias é invalidar o inimigo enquanto um ser humano com moral. Depois, quando entram em ação os cartunistas, nem como ser humano. Isto pode resumir-se com a condenação por parte de William Gladstone "dos turcos" na década de 1870, apelidando-os de "uma grande espécie anti-humana da humanidade.” As atrocidades cometidas, ou alegadamente cometidas, pelo exército irregular otomano deram o tom à guerra, fazendo aquilo a que agora se chama, o massacre e a limpeza étnica de centenas de milhares de muçulmanos da Bulgária. Sobre estas atrocidades, Gladstone não tinha nada a dizer. Assim que a população doméstica tenha sido persuadida de que o inimigo é intrinsecamente mau, brutal e desumano, qualquer horror é credível. Fazendo os alemães profundamente parte da "civilização ocidental", tendo dado ao mundo alguma da sua maior literatura, filosofia, música e descobertas científicas, tinha de se encontrar uma identidade alternativa para que as histórias de atrocidades fossem credíveis. Isto fez-se transformando os alemães nos "hunos", uma referência à tribo nómada da Ásia Central que invadiu o império romano no século IV. Como os hunos eram possivelmente de origem turca, serviram também para a propaganda usada contra o Império Otomano – "os turcos". Os "hunos" rapidamente começaram a ser descritos como macacos com um capacete bicudo com as mãos a escorrer sangue. Tendo sido transformados em monstros, a população britânica podia agora acreditar que os hunos tinham uma fábrica onde os cadáveres eram derretidos e transformados para obter gordura, que tinham violado freiras belgas, que tinham cortado os peitos a mulheres e atirado bebés ao ar apanhando-os com as suas baionetas. O efeito na população era duplo, criando nos militares uma ânsia de matar e uma semelhante vontade de fazer sangue na frente interna. Só depois da guerra terminar é que se verificou, da forma possível tanto tempo após os acontecimentos, que essas histórias eram mentiras contadas para inflamar a população britânica contra o inimigo. A campanha contra "os turcos" foi ainda menos limitada. O efeito devastador nos civis da guerra no leste da Anatolia e no Cáucaso quase não precisavam de serem exagerados. O que aconteceu aos arménios ainda envenena as relações entre arménios e turcos. Ao mesmo tempo, o sofrimento dos muçulmanos e a sua morte pela mesma combinação de causas (massacres, contaminações, doenças e má nutrição) é largamente ignorado. "Os turcos" já eram monstros para lá do limite humano. É o retorno da "espécie anti-humana da humanidade” de Gladstone. Contaram-se as histórias mais macabras, com acusações a serem apresentadas como factos. A campanha anti-turca continuou depois da guerra, preparando a mentes das pessoas para a invasão grega do ocidente da Anatólia em 1919. Os títulos das notícias na imprensa britânica e norte-americana são evidentes: "Milhões de gregos massacrados, atirados ao mar", "Um milhão de gregos mortos pelas forças turco-teutónicas na Ásia", "Turcos escaldam 250 mil". A verdade, revelada por uma comissão inter-aliados em dois relatórios, um deles em 1919, que foram censurados por serem tão embaraçosos para os governos gregos e britânicos, era que as atrocidades tinham sido cometidas maioritariamente pelo exército grego e pelos civis no seu encalce. A escala era tão grande que a campanha grega foi descrita por um comissário do Comité Internacional da Cruz Vermelha e por Arnold Toynbee, também testemunha, como uma "guerra de extermínio" dos turcos. As atrocidades alegadas contra os turcos em 1914-18 também envolviam a morte de bebés de forma horrenda, queimados vivos e as cabeças entregues num saco a um comandante. Era possível acreditar nestas histórias de atrocidades porque "os turcos" já tinham sido apresentados como criaturas odiosas, capazes de qualquer coisa. O propósito era elevar o nível de ódio na população em ambos os lados do Atlântico. Isto não quer dizer que não tenham acontecido verdadeiras atrocidades. Isso acontece sempre, na guerra, mas a intenção aqui é a desumanização com recurso a qualquer mentira que possa inflamar os ânimos da população e manter o apoio popular num nível alto. Um bebé enquanto arma de guerra foi usado em 1990 quando uma mulher chorosa descrevia a forma como soldados iraquianos tinham arrancado bebés das suas incubadores num hospital do Kuwait e os tinham atirado pelo chão, mas a história era falsa. A mulher afinal era filha do embaixador do Kuwait em Washington e o seu guião tinha sido escrito por uma firma de relações públicas. As mentiras das armas de destruição em massa contadas em 2003 permitiram a matança de centenas de milhares de civis a a ruína do seu país. Mais mentiras foram contadas para justificar a destruição da Líbia e da Síria.

Cartoon de Emad Hajjaj, jornal Alaraby Aljadeed, Londres
Mais mentiras estão agora a ser contadas na atual guerra. Os meios de comunicação têm passado a história dos bebés decapitados todos os dias, quando a sua única fonte é um soldado, um colono associado a algumas das figuras mais violentas anti-palestinianas na Cisjordânia. Tal como aconteceu inúmeras vezes no passado, os meios de comunicação transformam uma acusação horripilante num facto, sem terem nenhuma evidência credível mas mesmo assim repetem-na irresponsavelmente e diariamente como se fosse verdade. Também não há evidências de violações nem da morte de 260 jovens mortos numa "rave" perto da fronteira com Gaza. A consequência disto é que é passada uma licença a Israel, aos olhos da população e dos políticos, para fazerem o que quiserem em Gaza, onde em poucos dias Israel já matou centenas de crianças. As suas mortes, os seus corpos encurralados nos destroços de edifícios de habitação, ao contrário do boato lançado por um único colono extremista vestido com uniforme militar, são verificáveis. Desde 1948, Israel matou muitos milhares de crianças, até mesmo bebés de colo. Na Cisjordânia, mata frequentemente crianças, em Gaza e no Líbano mata centenas de cada vez que invade. No entanto, só nas raras ocasiões em que são mortas crianças judias durante um ataque palestiniano é que todo o "ocidente" fica indignado. Nesse casos há uma cobertura mediática saturante de todos os pormenores pavorosos, enquanto que as crianças palestinianas mortas – às vezes até irmãos e pais mortos – raramente merecem ser nomeadas. Israel dizimou famílias inteiras em Gaza, não só agora mas também nos seus ataques anteriores, sem que os média ocidentais tivessem alguma coisa a dizer e com os governantes ocidentais a fazerem pouco mais do que se mostrarem contra a violência "desproporcionada", ao passo que não há nada de proporcional quando Israel ataca. O que a história nos demonstra sobre as origens deste conflito desde o início, tendo por base o objetivo sionista de expulsar os palestinianos da sua terra, não parece ter importância para os meios de comunicação nem para os governos ocidentais. É como se a história só tivesse começado há alguns dias quando os palestinianos atravessaram a fronteira e atacaram colonatos judeus construidos na sua terra sujeita a limpeza étnica, um simples facto que os média não querem que os seus leitores saibam porque isso iria expor a desonestidade da sua narrativa. Apesar do que é inegável sobre a campanha sionista para se retirar da Palestina os seus habitantes, expulsando-os, matando-os ou tornado as suas vidas insuportáveis, os governantes ocidentais colocam-se próximos do Estado colonial agressor que eles implantaram no Médio Oriente. O governo e o parlamento de Israel está repleto de fascistas, supremacistas judeus e outros extremistas assassinos. Estas são as pessoas que os média e os governantes ocidentais estão a apoiar em Israel. Podemos ainda não estar no ponto final calamitoso desta guerra centenária mas parece mais perto do que nunca. Há uma campanha genocida em Gaza, permitida para toda e qualquer finalidade pelos governos e meios de comunicação ocidentais. O "quarto poder" nunca pareceu tão degradado e destrutivo.
Texto de Jeremy Salt publicado a 14 de outubro de 2023 no Palestine Chronicle. Tradução de Alexandre Leite.
