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investigandoonovoimperialismo

Meus amigos israelitas: é por isto que eu apoio os palestinianos

14.10.23

É um grande desafio mantermos a nossa orientação moral quando a sociedade à qual pertencemos - líderes e meios de comunicação - assume uma superioridade moral e espera que partilhemos com eles a mesma fúria justiceira com a qual reagiram aos acontecimentos de sábado passado, 7 de outubro. Só há uma forma de resistir à tentação de embarcar nisso: já teres compreendido, a dada altura da tua vida - mesmo um cidadão judeu de Israel - a natureza colonial do sionismo e teres ficado horrorizado com as suas políticas anti povo palestiniano. Se tiveres essa compreensão, então não vacilarás, mesmo se as venenosas mensagens retratarem os palestinianos como animais, ou como "animais humanos". Essas mesmas pessoas insistem em descrever o que aconteceu no sábado passado como um "holocausto", maltratando a memória dessa grande tragédia. Estes sentimentos estão a ser veiculados, dia e noite, tanto pelos meios de comunicação como pelos políticos israelitas. Foi esta orientação moral que me levou, bem como a outros na nossa sociedade, a estar ao lado do povo palestiniano de todas as formas possíveis; isso permite-nos, ao mesmo tempo, admirar a coragem dos combatentes palestinianos que tomaram mais de uma dúzia de bases militares, ultrapassando o exército mais forte do Médio Oriente. De igual forma, pessoas como eu não podem deixar de levantar questões sobre o valor moral ou estratégico de algumas ações desta operação. Por sempre termos apoiado a descolonização da Palestina, sabíamos que quanto mais tempo durasse a opressão israelita, menor probabilidade havia de a luta de libertação ser "estéril" – tal como aconteceu em todas as lutas de libertação no passado, em qualquer parte do mundo. Isto não significa que não devemos olhar para o cenário geral, nem por um minuto. Este cenário é o de um povo colonizado a lutar pela sua sobrevivência, num tempo em que os seus opressores elegeram um governo que está decidido a acelerar a destruição, a eliminação de facto do povo palestiniano – ou mesmo do seu desejo de serem um povo. O Hamas tinha de agir e de forma rápida. É difícil proferir estes contra-argumentos porque os políticos e os meios de comunicação ocidentais encarreiraram no discurso de Israel e na sua narrativa, por muito problemática que ela seja. Será que aqueles que decidiram iluminar o edifício do Parlamento em Londres ou a Torre Eiffel em Paris, com as cores da bandeira de Israel, compreenderão verdadeiramente como este gesto aparentemente simbólico é recebido em Israel? Até os sionistas liberais, com um mínimo de decência, entendem este gesto como uma absolvição de todos os crimes que Israel cometeu contra o povo da Palestina desde 1948; e portanto, como um cheque em branco para continuar com o genocídio que Israel está a levar a cabo contra o povo de Gaza. Felizmente, também houve reações diferentes aos acontecimentos nos últimos dias. Tal como no passado, grande parte da sociedade civil no Ocidente não se deixa enganar com esta hipocrisia, já em exibição no caso da Ucrânia. Muita gente sabe que desde junho de 1967, um milhão de palestinianos foram detidos em prisões , pelo menos uma vez na vida. E com a prisão, o abuso, a tortura e a permanente detenção sem julgamento. Estas mesmas pessoas conhecem a horrorosa realidade que Israel criou na Faixa de Gaza quando bloqueou a região, impondo um cerco hermético, iniciado em 2007, acompanhado pelo implacável assassinato de crianças na Cisjordânia. Esta violência não é um fenómeno novo, pois tem sido esta a face permanente do sionismo desde a fundação de Israel em 1948. Por causa dessa mesma sociedade civil, meus queridos amigos israelitas, irá verificar-se que o vosso governo e meios de comunicação estão errados, pois não serão capazes de fazer de vítimas, receber apoio incondicional e escaparem com os seus crimes. Eventualmente, ficará visível o cenário geral, apesar do inerente enviesamento dos meios de comunicação ocidentais. A grande questão, no entanto, é esta: serão capazes, meus amigos israelitas, de ver também claramente o cenário geral? Mesmo depois de anos de doutrinação e engenharia social? E, não menos importante, serão capazes de aprender outra importante lição, que pode ser obtida dos acontecimentos recentes? A lição de que a força, só por si, não consegue encontrar um equilíbrio entre um regime justo, por um lado, e um projeto político imoral, por outro. Mas há uma alternativa. De facto, sempre houve uma: uma palestina livre sem sionismo, libertada e democrática, do rio ao mar; uma Palestina que acolha os refugiados e edifique uma sociedade que não discrimine com base na sua cultura, religião ou etnia. Esse novo Estado procuraria retificar, tanto quanto possível, os males do passado, em termos de iniquidade económica, roubo de propriedades e negação de direitos. Isso poderia ser o prenúncio de um renascimento de todo o Médio Oriente. Nem sempre é fácil mantermos a nossa orientação moral, mas se ela é em direção à descolonização e libertação, então ela guiar-nos-á pelo meio do fumo do propaganda venenosa, das políticas hipócritas e da desumanidade, tantas vezes perpetrada em nome dos "nossos valores ocidentais comuns". 

gaza 2023 direito

Cartoon de Emad Hajjaj (politicalcartoons.com)

Texto de Ilan Pappé, publicado a 10 de outubro de 2023 no The Palestine Chronicle. Tradução de Alexandre Leite.


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