O terrorismo de Estado de Israel ao longo dos anos
Os grandes meios de comunicação documentaram amplamente o terrorismo do Hamas, da Jiade Islâmica e de outros grupos contra cidadãos israelitas que atingiram o seu nível mais horrendo e sádico no massacre de 7 de outubro. Os média normalmente definem terrorismo como qualquer ato de violência contra civis com base numa ideologia, o que descreve corretamente o terrorismo do Hamas. Mas há outra definição de terrorismo que se refere a atos de violência contra civis para intimidar e/ou derrotar os seus líderes políticos. Com base nessa definição, Israel tem vindo a aterrorizar as comunidades palestinianas ao longo dos últimos 75 anos. Isto, obviamente, não explica, muito menos desculpa, os horrores que o Hamas infligiu aos israelitas há umas semanas, mas temos de ter em atenção o impacto de atos terroristas de ambos os lados nas políticas israelitas, palestinianas e dos países árabes.
Tal como os horrores do Holocausto no fim da décadas de 1930 e início da de 1940 contribuíram para a brutalidade israelita contra os palestinianos, o terrorismo da Nakba em 1948 contribuiu para a hostilidade árabe contra Israel. É a “cadeia do ódio” que o lendário historiador Arnold Toynbee descreveu na década de 1950. A Nakba, que significa “catástrofe” em árabe, não é bem conhecida por alguns e é negada por alguns outros, mas o deslocamento forçado e a expulsão de palestinianos das suas casas durante a guerra árabe-israelita em 1948 é certamente bem conhecida pelos árabes.
Israelitas pediram a demissão do Secretário-Geral da ONU por dizer meramente que os ataques do Hamas de 7 de outubro "não aconteceram no vácuo". Israelitas até se mostraram contra os comentários de uma das duas reféns libertadas que afirmou ter sido bem tratada pelos guardas e médicos palestinianos que garantiram que ela recebia os cuidados necessários. Habitualmente, os israelitas rejeitam qualquer crítica às suas ações considerando-as antissemitas procurando demonizar o seu inimigo.
A atroz campanha de bombardeamento israelita com milhares de ataques aéreos em Gaza é uma clara violação da lei internacional e das leis da guerra pela falta de qualquer proporcionalidade, pelas enormes quantidades de bombas largadas sobre comunidades civis incapazes de se defenderem. A falta de Israel providenciar uma estratégia de saída para os gazenses é uma violação da lei internacional. O fracasso de Israel providenciar alimentos, água e combustível é outra violação do direito internacional. A soma de todas estes atos horrendos aponta para terrorismo ou mesmo genocídio.

Cartoon de Paresh Nath, U.T. Independent, Índia
Os grandes meios de comunicação basicamente ignoraram o facto de Israel ter transformado Gaza numa "prisão a céu aberto", um termo usado pelo antigo Primeiro Ministro britânico David Cameron, logo após a vitória do Hamas nas eleições de 2006. O ato eleitoral foi inicialmente apoiado pelo governo Bush, particularmente pela Secretária de Estado Condi Rice. O termo "prisão a céu aberto" levantou críticas por parte dos israelitas, mas o facto de 2 milhões de palestinianos sofrerem 50 anos de ocupação e 15 anos de bloqueio não pode ser negado. Quando eu estive em Israel no final da década de 1970 numa visita oficial e me referi a Israel como um Estado de apartheid, fui igualmente criticado pelos meus anfitriões israelitas.
Metade da população de Gaza são crianças e as táticas de Israel fizeram com que as crianças palestinianas crescessem numa sociedade caracterizada pelo medo, falta de segurança e desesperança. Foram destruídos serviços médicos e a taxa de desemprego em Gaza é a pior do mundo. Os estudantes palestinianos conseguiram bolsas académicas no Ocidente, incluindo nos Estados Unidos, mas não lhes foi permitido sair do território. O tipo de imagens que estamos a ver atualmente em resultado dos bombardeamentos israelitas deveriam ter sido mais divulgadas nos anteriores bombardeamentos de 2009 e 2014. Os governos dos Estados Unidos em grande parte ignoraram este terrorismo.
Sete em cada dez palestinianos de Gaza estão registados como refugiados e muitos deles são oriundos de famílias que foram forçadas a abandonar as suas aldeias em 1948. Muitos outros foram forçados a sair das suas casas devido a violência ou outras guerras. Quatro anos depois do ataque israelita a Gaza em 2014, dezenas de milhar de palestinianos em Gaza não tinham ainda conseguido regressar a suas casas. As crianças mais velhas em Gaza sobreviveram a três guerras que mataram mais de 3800 palestinianos antes da atual campanha. Mais de 700 destes mortos eram crianças. Muitas crianças viram membros da sua família, amigos ou outros serem mortos ou gravemente feridos.
Um relatório da ONU em 2012 previu que o enclave palestiniano se tornaria "inabitável" em 2020 se nada fosse feito para aliviar o bloqueio. Em junho de 2017 um relatório da ONU sobre as condições de vida em Gaza afirmava que todos os indicadores iam na direção errada e que o ponto limite estava a aproximar-se mais rapidamente do que anteriormente previsto. Na primeira semana da atual guerra vimos 6000 bombas destruir ou danificar 11000 estruturas.
Os Estados Unidos e o governo Biden são cúmplices desta campanha porque enviámos armamento militar sofisticado o mais rapidamente possível. Atualmente, os Estados Unidos apressaram-se a enviar artilharia de 155mm, bombas inteligentes e mísseis terra-terra para apoiar a campanha aérea e no terreno contra uma comunidade indefesa. Numa demonstração de coragem pouco usual, um responsável oficial do Departamento de Estado, Josh Paul, demitiu-se em protesto contra a entrega de material militar a um exército israelita que não necessita dele.
A combinação de um Netanyahu não confiável e de um Biden vulnerável não indicia uma oportunidade para um cessar-fogo, ainda menos para uma solução política. Biden aconselhou realmente Netanyahu para não se “deixar levar pela raiva", mas este é um exemplo de muito pouco e muito tarde. O Secretário de Estado de Biden, Antony Blinken, está particularmente à toa quanto ao contexto da guerra, chegando a Israel a dizer que estava lá "como judeu". A sádica campanha de bombardeamento israelita contribuiu para a indisponibilidade dos líderes árabes para se encontrarem com o Presidente Biden. Todos os recentes governos dos Estados Unidos parecem acreditar que a transferência de armas financiada por este país vai contribuir para a segurança de Israel e encorajar concessões de Israel que possam permitir um Estado palestiniano. Este é um cálculo falso e perigoso.
Texto de Melvin Goodman publicado a 27 de outubro de 2023 no Counter Punch.
