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investigandoonovoimperialismo

Patologizar a desigualdade

07.02.21

No anterior artigo falava sobre a importância de não converter a atual crise sanitária no eixo dos nossos problemas económicos, sociais e/ou sanitários. Dizia que, como nas anteriores crises que atravessámos, tínhamos uma oportunidade para identificar as desigualdades sociais pré-pandemia que deveriam ser a base de trabalho para qualquer atuação centrada na justiça social. O nosso problema não é só a covid-19, bem, talvez para algumas pessoas sim; mas esta crise adensa-se na profunda desigualdade social que vai aumentar se não olharmos mais além do que os metros da nossa distância social. Por isso defendia que se devia falar de sindemia. O conceito de sindemia remete-nos para as sinergias de ação entre as diferentes epidemias que confluem neste momento atual. Algumas delas são transmissíveis e outras não, como grande parte das doenças crónicas presentes numa significativa percentagem da população. A forma como interagem com a desigualdade social na prevenção, no desenvolvimento e intervenção de tais doenças interfere apenas sobre o impacto sanitário, já que a erradicação da desigualdade não pode ser sanitária. Sem dúvida é necessário rever os impactos diferenciais na saúde, por outro lado, não é mais do que aplicar os princípios legais vigentes, bastando recordar para já que um dos princípios que regem a Osakidetza [Serviço de Saúde o País Basco] é a equidade. Às vezes entende-se a equidade meramente como tratar todas as pessoas de forma igual, quando a equidade requer assinalar aquilo que gera iniquidade e colocar os meios para que o acesso de todas as pessoas aos recursos seja em igualdade de condições. Um exemplo simples, nestes tempos de distância e de meios telemáticos: quem não possuir meios tecnológicos ou não os saiba utilizar, vai ficar excluído de quase todos os recursos públicos. Outro exemplo é a distribuição das vacinas, mas não apenas o facto de diretores, padres, autarcas, etc. terem acedido a um recurso, a vacina, quando não era suposto, mas o facto da AstraZeneca não cumprir o seu contrato blindado e praticamente inacessível para vender a quem der mais. O capital e a sua premissa do lucro máximo à custa da vida humana é posto em marcha a partir de laboratórios e gabinetes, com investimentos privados que aproveitam a crise para obter lucro, sem pestanejar, como em tantas outras ocasiões. Escandaliza-nos porque está a acontecer na Europa, mas a Anesvad denunciava que já em novembro passado 54% das vacinas estavam vendidas a países que representam apenas 13% da população mundial.

Covid fome desigualdade

Cartoon de Jimmy Margulies - politicalcartoons.com


O sistema para fazer frente ao problema da desigualdade, sem o abordar, realiza duas ações: uma, patologiza a desigualdade redesenhando o problema e convertendo-o num problema isolado, pessoal; outra, criminaliza os que sobre essa desigualdade.

No caso da patologização da desigualdade, continuando a abordar a questão através da estrutura normativa, fragmentou-se a violência contra as mulheres e o que obtemos é a perda do apoio estrutural. Esta estrutura normativa que diferenciou entre violência de género, violência sexual, assédio laboral, trata de mulheres, etc., redesenhando a origem desta violência e ignorando o seu objetivo. A busca do ato isolado acarreta uma perda de lógica, de compreensão do problema, tentando focalizar a violência num ato pontual que deriva da patologização do agressor material. Conjuntamente, existe uma tendência para patologizar o desconforto das mulheres e etiquetá-lo como entidades clínicas com soluções farmacológicas. Tudo isso, ainda que com consequências muito bem diferenciadas, forma parte dessa propensão de converter em doença o que é político.

Por outro lado, a criminalização dos que vivem na pobreza, como acontece na Canhada Real [favela na região de Madrid], ou no caso das mulheres que se sintetiza em frases como «eu não sei como é que algumas se deixam levar» ou «agora já não se podem mandar piropos a uma mulher porque te vão acusar de violência». No caso dos imigrantes, os meios de comunicação alentavam o imaginário de assaltantes ou de pessoas que vinham beneficiar dos nossos serviços sociais ou até mesmo violar as «nossas mulheres».

Estes dois elementos, a patologização e a criminalização são inter-relacionados espalhando o desafeto do coletivo e colocando o foco da atenção naquilo que ao sistema lhe interessa porque assim é mais fácil empurrar a raiva e o desalento para o particular, para o próximo, para o quotidiano, despolitizando o nosso "que fazer" e convertendo-o em inimigos os vizinhos.

Outro tema importante na hora de tornar mais compreensível a realidade é a sobre-utilização das metáforas que podem parecer interessantes na hora de dimensionar um problema estrutural, mas que podem resultar ineficazes no momento de abordar a origem e promover a assunção de responsabilidades no que diz respeito às nossas práticas.

A tendência para humanizar os vírus e ver como doença o humano, promove essa propensão a patologizar o que humanamente fazemos. Dizer que o machismo e o racismo são piores vírus do que a verdadeira pandemia, enferma e externaliza o problema. Precisamente o contrário que pode acontecer com a Covid-19, quando se diz de que é "inteligente" ou se usam termos como "vencer a batalha". Se queremos transformar o mundo necessitamos de novas narrativas, sem inimigos, sem guerras. O enfoque vai guiar a nossa interpretação e a posterior atuação, para além de modelar os nossos imaginários, promovendo um enfrentamento ativo ou passivo do que (nos) acontece.

Não vá acontecer de esperarmos que a vacina acabe com o machismo, o racismo ou a pobreza e nos esquecermos de que o que fazemos quotidianamente deriva do nossa humana ideologia. Reduzir as metáforas, assumir as responsabilidades individuais e coletivas do que cada um faz, exigir responsabilidades políticas a quem as tem e responsabilidades éticas a cada uma e cada um de nós seria o que humanamente nos corresponde fazer.  

 

Texto de Maitena Monroy publicado a 5 de fevereiro de 2021 na naiz:. Tradução de Alexandre Leite.


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