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investigandoonovoimperialismo

Pele branca, máscaras verdes

22.12.19

Finalizada que está a COP25, que decorreu em Madrid na primeira quinzena de dezembro, pouco ou nada se avançou em termos de acordos climáticos globais como era de esperar, já que não foi capaz de ir mais além das suas versões anteriores, apresentando uma declaração final que parece ser mais um discurso de boas intenções dos Estados presentes, que um posicionamento que realmente coloque a centralidade numa real preocupação pela crise civilizacional atual.

2020 poluição

Cartoon de Arcadio Esquivel, Costa Rica

São alguns dos pontos daquele declaração final da COP25: maior "ambição” dos Estados para lutar contra as alterações climáticas, maior papel da ciência na tomada de decisões, maior transversalidade política para ver o ambiental (finanças, indústria, transporte, energia, agricultura), ressaltar a importância dos oceanos para o clima, maior participação das mulheres na tomada de decisões, a criação de um fundo verde que entregue recursos aos países mais vulneráveis às alterações climáticas, maior regulação dos mercados de carbono, maior multilateralismo, melhores empregos e mas espaço para atores não governamentais.

Por consequência, é uma declaração totalmente voluntarista e difusa, dentro de um quadro neoliberal, que se centra nos boas vontades de cada Estado para travar a crises civilizacional atual, sendo incapaz de exigir limites mínimos às grandes empresas contaminadoras do planeta no que diz respeito a emissões de gases com efeito de estufa, o que mais não faz do que dar toda a liberdade às grandes corporações para que façam os negócios que quiserem com os bens comuns, negando assim a possibilidade de estabelecer certas regulações globais básicas.

Não obstante, apesar deste triste espetáculo, paralelamente a esta declaração, foi apresentado em Bruxelas, pela presidente da comunidade europeia, Úrsula von der Leyen, o denominado European Green Deal [Acordo Verde Europeu], acordo este que procura, em termos gerais, que a Europa seja o primeiro continente do planeta a não produzir emissões de carbono no ano 2050. Isto é, descarbonizar completamente a sua matiz energética até aquele ano, através de distintas medidas que se implementarão de maneira paulatina.

Quanto às medidas, propõe-se impulsionar de forma interconectada as denominadas fontes de energia renováveis, gerar economias circulares, renovação e construção de edifícios eficientes energeticamente, prevenção na contaminação da água e do ar, preservar a biodiversidade, desenvolvimento de modelos alimentares mais saudáveis e oferecer meios de transporte sustentáveis para alcançar o que se denominou como neutralidade climática.

O problema evidente de todas estas medidas, é que embora sendo bastante mais concretas, em comparação com o decidido na falhada COP25, a Europa continua a pensar-se, após 500 anos de história colonial, por cima do resto do mundo. Daí que a ideia da neutralidade climática passe completamente por alto e não se faça caso não apenas do impacto histórico que tiveram as suas economias industrializadas nos últimos 200 anos, em termos de pegada ecológica, como também das múltiplas empresas atualmente extrativas, que com este Acordo Verde Europeu, continuarão a contaminar igualmente os países do Sul Global, por intermédio de mega corporações energéticas, mineiras e agroalimentares.

De igual modo, este acordo omite a dívida climática histórica de países como Inglaterra, Alemanha e França perante o mundo, e nunca põe em dúvida a absurda ideia de um crescimento económico infinito dentro de um planeta com limites finitos. Por outras palavras, ainda que se disfarcem de verdes todas estas medidas internas, continua a ser um projeto capitalista ao fim e ao cabo, ao não equacionar nada sobre perspetivas provenientes do decrescimento ou do ecofeminismo.

Por outro lado, não é por acaso que este novo acordo é tão bem recebido pela ultradireita europeia, a qual está a começar a deixar o negacionismo climático, para dar passo a um novo nacionalismo verde, que está explanado em “as fronteiras são o melhor aliado do meio ambiente”, como assinalou o partido de Marine Le Pen. Em consequência, a Europa, perante a sua debilidade económica frente à China, o que procura é impulsionar um novo racismo ambiental, que continua a saquear os países mais empobrecidos, enquanto que internamente continua a fechar as suas fronteiras a migrantes do Sul Global, os quais são cada vez mais afetados nos seus países por catástrofes de índole climática.

 

Acord Verde Europeu Pacto

Cartoon de Joep Bertrams, Holanda

Por isso, a ideia da pele branca, máscaras verdes, atualiza o afirmado pelo pensador anticolonial Frantz Fanon, já que nos permite ilustrar um novo processo de exclusão impulsionado pelas grandes elites da Europa, às quais pouco ou nada lhes importa o planeta, entendido este como um sistema de vida integrado. Mais lhes interessa usar a preocupação com o meio ambiente como um mero instrumento para construir um mundo por cima de outros mundos explorados e saqueados historicamente por elas mesmas.

Por conseguinte, se às elites europeias realmente importasse o aquecimento global, não falariam em neutralidade climática, mas sim em justiça climática, como pedem todos os povos do mundo, já que só partindo de um olhar relacional e crítico dos processo históricos de acumulação, se poderão construir sistemas de vida alternativos, como propõe a Via Campesina, por exemplo, a partir de uma agricultura ecológica, a qual não deixa ninguém de fora, como se faz neste Acordo Verde Europeu.

 

Texto de Andrés Kogan Valderrama publicado na Rebelion a 21 de dezembro de 2019. Tradução de Alexandre Leite.

 


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