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investigandoonovoimperialismo

Por que o fazem?

12.05.24

Grupos de estudantes da universidade de Bolonha ocuparam a Praça Scaravilli com as suas tendas.

Por que o fazem? Não posso responder por eles, porque eu respondo por mim.

Por que o fazemos?

Por vezes as nossas ações podem parecer inúteis, inconsequentes. Neste caso sabemos bem que o são: não conseguiremos parar o genocídio do Estado sionista com o nosso protesto.

Mas as ações inconsequentes podem ajudar a entender melhor o que está  para acontecer,  a difundir a consciência do iminente, a preparar o irremediável. 

Em Gaza está a desenrolar-se o primeiro ato de uma guerra mundial que o supremacismo branco em decadência aprontou contra a Humanidade.

Em Gaza está a repetir-se um genocídio como aquele que os colonos europeus levaram a cabo contra a população das planícies da América do Norte. Mataram mulheres e crianças, chegaram lume às tendas dos indígenas de pele vermelha, destruíram os seus meios de subsistência, mataram à fome, violaram, estriparam a vida para que aquelas terras pudessem tornar-se naquilo que se tornaram: a base de uma civilização estruturalmente psicótica, perseguida pela maldição da violência de todos contra todos, achacada por uma loucura incurável que acaba por se voltar contra ele própria.

civilização guerra paz armas

Cartoon de Monireh Ahmadi

Do genocídio colonialista germinou uma civilização que multiplicou por mil a potência das armas de extermínio, mas destruiu em si mesmo a humanidade e a razão, precipitando um suicídio que tende a arrastar as suas vítimas para o abismo.

Em Gaza está a repetir-se um extermínio como o que os alemães executaram contra milhões de judeus, com a cumplicidade ativa de uma maioria da população europeia.

Depois de 1945, no final dessa guerra, alguém disse: nunca mais. A Resistência antifascista, os organismos internacionais de paz, os intelectuais judeus que escaparam ao Holocausto - disseram: Nunca Mais, Nie Wieder.

Mas aquela promessa foi agora rompida, atropelada, esquecida. 

O Nie Wieder é agora, em Gaza. E desta vez ninguém poderá remediar, nem prometer, porque desta vez o desastre é definitivo, irreparável.

Em 1945, apesar da morte de dezenas de milhões de pessoas (nunca saberemos verdadeiramente quantos), havia a energia de uma sociedade jovem,  e a confiança num futuro ainda possível, um futuro de democracia, ou de socialismo, ou de paz e de respeito pelos direitos humanos.

Mas hoje, a civilização branca, senil, decadente, moribunda, esqueceu todas as promessas. Dispõe da potência desmedida das armas e da alta tecnologia, e com aquela potência os exterminadores brancos - israelenses, americanos, russos, europeus - acreditam poder adiar a sua própria morte.

Netanyahu, Macron, Trump, Biden,  Putin, Zelenskyy acreditam fazer parte de um romance de Norman Spinrad que se chamava Bug Jack Barron,  no qual se criavam crianças para lhes retirar sangue com o qual se rejuvenesciam os transumanos. Acreditam que o sangue de vinte mil crianças palestinianas podem restituir o seu vigor perdido para sempre.

Não acontecerá. Morrerão como morrem os lobos, mas infelizmente as suas armas são capazes de apagar do planeta qualquer réstia de civilização humana, e talvez até de vida.

Os estudantes que ocupam Bolonha e outros lugares não podem parar o Holocausto.

Mas podem sinalizar que estamos do lado dos colonizados de todo o mundo e que desertamos da guerra que os novos Hitler estão a impor.

 

Texto de Franco Berardi publicado a 7 de maio de 2024 em Il Desertore. Tradução para português de Alexandre Leite.


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