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Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

'Bilderbergues' do mundo, uni-vos!

 “No Iraque Pós-Guerra, Usar as Forças Militares para Defender Interesses Vitais dos EUA, Não para a Reconstrução da Nação” — Fundação Heritage

 

E caso não tenham percebido a ideia, o mesmo documento da Fundação Heritage, datado de 25 de Setembro de 2002 prossegue dizendo-nos,

“Proteger as infra-estruturas iraquianas de sabotagem interna ou de ataques estrangeiros para recolocar o Iraque nos mercados globais da energia e para assegurar que os EUA e os mercados mundiais de energia tenham acesso aos seus recursos.”[1]

 

Heritage Foundation

 

Tudo o que disser o contrário na imprensa estatal ou corporativa é apenas propaganda e/ou mentiras. Ponto final parágrafo.

 

Oleando as engrenagens do capitalismo com petróleo

 

O ponto de viragem no qual o petróleo tomou o lugar central aconteceu significativamente quando se iniciou o século XX e os navios imperiais mais poderosos, os alemães e os britânicos, deixaram o carvão e passaram e utilizar o petróleo. A partir desse ponto os destinos da Pérsia e do mundo árabe tornaram-se irrevogavelmente centrais para as ambições imperialistas ocidentais. Foi tanto assim que até à data estamos a viver (e a morrer) com os resultados, mais notavelmente os palestinianos e os iraquianos, sem esquecer as duas Guerras Mundiais onde o petróleo foi fulcral para todos as partes em combate, não apenas para a luta como para o controlo.

 

“Raramente discutido, no entanto, é o facto dos objectivos geo-políticos estratégicos da Grã-Bretanha, muito antes de 1914, incluírem não apenas o esmagamento o seu maior rival industrial, a Alemanha, mas, pela conquista através da guerra, o assegurar um controlo britânico inquestionável sobre o precioso recurso que, já em 1919, provava ser a matéria-prima estratégica de futuros desenvolvimentos económicos – o petróleo.” — ‘A Century of War’, F William. Engdahl, pág.38.[2]

 

O petróleo aumentou o alcance dos navios imperiais para dar a volta ao globo sem necessidade de reabastecimento, permitindo que a marinha britânica tomasse controlo dos oceanos e rotas comerciais do mundo. Um dos objectivos da Primeira Guerra Mundial era negar à Alemanha o acesso aos campos petrolíferos recém-descobertos onde agora é o Irão. Isto significava controlar o acesso ao Médio Oriente onde os britânicos controlavam o Canal do Suez (‘roubado’ aos franceses), o que eventualmente determinou o destino do povo da Palestina e de todo o Médio Oriente.

 

Claro que o petróleo é apenas um componente mas sem ele nada funciona, muito menos um exército mecanizado. Sem petróleo não há nada daquilo que o mundo moderno está dependente.

 

‘O jornal Energy Bulletin de 17 de Fevereiro de 2007 assinala que o consumo de petróleo dos aviões, barcos, veículos e instalações do Pentágono fazem dele o maior consumidor de petróleo do mundo. Nessa altura, a marinha dos EUA tinha 285 barcos de combate e de apoio e cerca de 4000 aviões em operação. O exército dos EUA tinha 28,000 veículos blindados, 140,000 veículos multi-usos de alta mobilidade, mais de 4,000 helicópteros de combate, várias centenas de aeronaves e uma frota de 187493 veículos. Exceptuando os 80 submarinos e porta-aviões nucleares, que libertam poluição radioactiva, todos os outros veículos consomem petróleo.’[3]

 

Os meios de comunicação corporativos, se alguém grita ‘Petróleo!’ quando se fala do Iraque, querem que acreditemos que essa pessoa é uma espécie de maluco, daqueles que são raptados por Ovnis, nada mais nada menos que uns adeptos da ‘teoria da conspiração’.

 

Em 2003, quando os EUA e o Reino Unido invadiram o Iraque, eu fiquei espantado com os argumentos desesperados da imprensa corporativa de que a invasão não tinha nada a ver com o petróleo, acusando os que afirmavam que o petróleo tinha tudo a ver com a invasão, de serem uns loucos adeptos da teoria da conspiração a obviamente a viverem na Área 51.

 

“Abundam as teorias da conspiração …. Outros defendem que foi por causa do petróleo…. Teoria que não faz sentido.” The Independent, 16 de Abril de 2003.

 

Mundo Viciado em Petróleo

O Mundo Viciado em Petróleo

(Manny Francisco, Manila,Filipinas)

 

Pelo contrário, as empresas do petróleo não se fizeram rogadas em vir falar sobre o papel fulcral do petróleo na invasão do Iraque, ecoando o que disseram os engravatados da Fundação Heritage:

 

“Eu diria que especialmente as empresas petrolíferas dos EUA… anseiam por um Iraque aberto ao negócio [depois do derrube de Saddam],” disse um executivo de uma das maiores empresas petrolíferas do mundo.”

“O que eles [os neo-conservadores do governo Bush] têm na ideia é a desnacionalização, e a divisão em parcelas do petróleo iraquiano para as empresas americanas. Nós conquistamos o Iraque, instalamos o nosso regime, produzimos petróleo ao máximo e dizemos à Arábia Saudita que vá para o inferno.” James E. Akins, antigo embaixador dos EUA na Arábia Saudita.

 

“Irá provavelmente ditar o fim da OPEP.” Shoshana Bryen, director de projectos especiais do JINSA (Instituto Judeu para Assuntos de Segurança Nacional), isto é, depois da queda do Iraque e da privatização do seu petróleo.

“As empresas americanas terão uma grande oportunidade com o petróleo do Iraque,” Ahmed Chalabi no jornal Washington Post.

 

Em “O Futuro do Iraque Pós-Saddam: Um Plano para o Envolvimento Americano”, uma série de documentos de Fundação Heritage, é desenvolvido um plano para a privatização do petróleo do Iraque e de facto para a privatização de toda economia iraquiana.[4]

 

Será uma conspiração? Bem, isso depende de como definem essa palavra. As definições do dicionário são estas:

  1. o acto de conspirar.
  2. um plano malévolo, ilícito, traiçoeiro, ou subreptício formulado em segredo por duas ou mais pessoas;
  3. uma combinação de pessoas com um propósito secreto, ilícito, ou malévolo.
  4. Jur. um acordo entre duas ou mais pessoas para cometerem crime, fraude, ou outro acto incorrecto.
  5. Qualquer concorrência de acções; conluio para obter um dado resultado.

Eu penso que todas colectivamente se encaixam na descrição da invasão do Iraque, afinal Bush e Blair conspiraram para burlar o mundo através da fabricação de provas sobre as armas de destruição em massa do Iraque de modo a invadirem ilegalmente o país. Eles conspiraram (com outros) para destruir um país e roubar os seus recursos, ergo: uma conspiração.

Dito isto, há aqueles que vão muito mais longe, afirmando que há uma conspiração global que já remonta desde há cem anos entre as classes políticas dos Estados Unidos e do Reino Unido que, em conjunto com poderosos banqueiros e conglomerados da energia, conseguiram controlar o planeta, os seus recursos, mercados e trabalhos. Mas será isso uma conspiração ou é meramente o imperialismo a fazer o que sabe melhor: roubar, matar e colonizar? Por outras palavras, precisamos de uma conspiração para explicar os acontecimentos? E se realmente existe uma conspiração há mais de cem anos? Isso não muda nada, continuamos a confrontar-nos com as mesmas forças.

 

O que é preciso perguntar é: Por que é que os meios de comunicação corporativos/estatais insistem em usar a palavra conspiração para ridicularizar quem questione a ortodoxia vigente? A resposta é imediatamente óbvia: a palavra conspiração foi distorcida de modo a não significar a sua definição do dicionário, mas sim tudo o que desafie as razões apresentadas pelos nossos mestres políticos sobre o funcionamento das coisas.

 

A História está repleta de todo o género de conspirações estatais e/ou corporativas, desde o Incêndio no Reichstag à provocação no Golfo de Tonkin, ou ao derrube feito pela CIA/ITT de Allende no Chile, às não existentes armas de destruição em massa do Iraque, daí a necessidade de não deixar que se estabeleça uma ligação entre o petróleo e o Iraque/Irão/Afeganistão, só para o caso das pessoas chegarem às conclusões certas sobre por que é que acontecem as coisas.

A linguagem é assim mutilada para servir os objectivos da classe corporativa, isto com a ajuda dos verdadeiros doidos das conspirações, que vêm tudo como uma conspiração, por vezes iniciadas há séculos atrás e que envolvem cabalas secretas de um ou de outro tipo. Ligar a esquerda a esta malta serve para degradar o nosso argumento e seguramente é esse o objectivo.

 

Não há dúvidas que a classe criminosa internacional traça ligações, projecta e planeia. É isso que o Council on Foreign Relations [Conselho de Relações Estrangeiras - EUA] (CFR) faz, tal como a Chatham House (Instituto Real de Assuntos Internacionais), o equivalente no Reino Unido, e ambas as organizações foram montadas no início do século XX com o fortalecimento da ‘Aliança Anglo-Saxónica’. A lista de membro do CFR ilustra o facto de os principais governos ocidentais serem efectivamente servos do Grande Capital.

 

Tal qual o grupo Bilderberg, composto por ‘capitães internacionais da indústria’ e políticos-chave das classes políticas dos principais estados capitalistas. Mas será isto uma conspiração? A um certo nível, não. No fundo é legítimo que as classes dominantes se organizem e planeiem. É por isso que Washington DC está a rebentar pelas costuras com tantas ‘Fundações’ e ‘Institutos’. Desde o final da Segunda Grande Guerra, milhares de milhões de dólares tanto públicos como privados, foram despejados nessas organizações. O seu objectivo? Espalhar o ‘mercado livre’ e combater quem se oponha, por meios correctos ou por meios pouco correctos.

 

‘“…os homens mais poderosos do mundo reuniram-se pela primeira vez” em Oosterbeek, Países Baixos [há mais de cinquenta anos], “debateram o futuro do mundo,” e decidiram reunir-se anualmente em segredo. Apelidaram-se de Grupo Bilderberg e os seus membros representam a nata das elites dominantes mundiais, principalmente da América, Canadá e Europa Ocidental, com nomes familiares como David Rockefeller, Henry Kissinger, Bill Clinton, Gordon Brown, Angela Merkel, Alan Greenspan, Ben Bernanke, Larry Summers, Tim Geithner, Lloyd Blankfein, George Soros, Donald Rumsfeld, Rupert Murdoch, outros chefes de estado, senadores influentes, congressistas e deputados, responsáveis do Pentágono e da NATO, membros da realeza europeia, figuras mediáticas seleccionadas, e outros convidados – alguns em segredo segundo algumas fontes, como Barack Obama e muitos dos seus oficiais de topo.” — ‘A Verdadeira História do Grupo Bilderberg’ Por Daniel Estulin.[5]

 

É claro que o capitalismo moderno evoluiu ao longo de gerações e gerações com toda a aparência de uma conspiração em amplo sentido, e uma do mais sofisticado que há, empregando um vasto exército de operacionais que incluiu elementos fulcrais nos meios de comunicação, academias, homens de negócio e políticos, quer dentro ou fora da governação. Uma ‘conspiração’ para manter o capitalismo como a única forma permissível de sociedade, como poderia ser de outra forma? Simplesmente há muita coisa em jogo e para provar isso basta-nos ver como esta poderosa elite internacional de negócios/governos/meios de comunicação conspirou para matar a COP15 [Conferência da ONU sobre as mudanças climáticas, que decorreu em Copenhaga] independentemente das consequências.

 

Ligações familiares, de formação, e de negócios —com o estado como ‘mediador’— criaram aquilo que é agora uma rede internacional que liga as classes dominantes dos mais poderosos estados capitalistas. É por isso que eles têm um Grupo Bilderberg, é onde os líderes dos negócios, a classe política, académicos e membros seleccionados dos meios de comunicação se encontram e formulam estratégias e tácticas, necessárias num mundo onde as comunicações são agora virtualmente instantâneas. Não serve ter governos a fazerem declarações que estão fora da linha do ‘consenso’, como acontece de tempos a tempos, e a ilusão esfuma-se por breves momentos.

Num mundo onde as forças económicas dominantes são poucas centenas de grandes corporações, corporações que de facto asseguram que os seus respectivos governos promovem políticas favoráveis à sua sobrevivência e que aumentem a prosperidade dos seus principais accionistas, a coisa lógica a fazer é combinarem sobre os assuntos que os afectam a todos. Eu ficaria extremamente surpreendido se o Grupo Bilderberg ou outro parecido, não existisse.

E os assuntos são fáceis de adivinhar: controlo/propriedade e acesso aos recursos; acesso a mão-de-obra barata; livre movimento de capitais; e por último, mas não menos importante, neutralizar os que desafiam o domínio do capital onde quer que eles apareçam.

 

Alinhado contra nós, o povo, está um vasto aparelho de controlo e manipulação que envolve órgãos governamentais, ‘não’-governamentais, fundações privadas, meios de comunicação, estatais e corporativos, ‘entretenimento’ em todas as suas extraordinárias formas, think tanks, institutos, fundações, academias, órgãos formais e informais, quer nacionais quer internacionais, associações, ONGs e ‘ONGs’, instituições de solidariedade e ‘instituições de solidariedade’, todas elas fortemente subsidiadas pelo estado e/ou corporações. Quem precisa dos ‘Illuminati’ quando temos todos estes alinhados contra nós?

 

Notas

1. Ver ‘In Post-War Iraq, Use Military Forces to Secure Vital U.S. Interests, Not for Nation-Building’ por Baker Spring e Jack Spencer, Backgrounder #1589, 25 de Setembro de 2002.

“A Administração deveria tornar claro que a presença militar dos EUA no Iraque após a guerra pretende assegurar interesses vitais dos EUA, não serve para o exercício da chamada construção de uma nação — a política aberta da Administração Clinton da enviar tropas americanas para regiões problemáticas onde não estavam ameaçados interesses vitais dos EUA.”

2. Penso que a melhor (e mais sucinta) análise deste período é a que foi feita por F. William Engdahl no seu livro ‘A Century of War’ Anglo-American Oil Politics and the New World Order’. Podem ver a minha crítica ao livro aqui. Comprem o livro aqui na Pluto Books.

3. Ver ‘Pentagon’s Role in Global Catastrophe: Add Climate Havoc to War Crimes’ por Sara Flounders com dados sobre o gigantesco apetite por petróleo por parte do exército norte-americano.

E aqui têm a fonte, ‘US military oil pains’ por Sohbet Karbuz, Energy Bulletin, 17 de Fevereiro de 2007. Note-se que os dados usados no artigo já têm mais de dois anos e estão longes de estarem completos, já que apenas incluem o petróleo comprado directamente pelo Departamento da Defesa dos EUA. Quaisquer que sejam os números eles estão a subir, provavelmente tão alto como 30 mil milhões de dólares anualmente, sem nenhum sinal de redução no horizonte, pelo menos de acordo com o Departamento da Defesa:

““No ano fiscal de 2005, o DESC [Departamento de Energia] irá comprar cerca de 128 milhões de barris de combustível com um custo de 8.5 mil milhões de dólares, e o combustível para aviação constitui perto de 70% das compras de produtos petrolíferos do Departamento da Defesa.”

“Para alguns, isto ainda não é suficiente. “Como o consumo de petróleo do Departamento da Defesa representa a maior prioridade de todos os usos, não haverá limites fundamentais ao fornecimento de combustível do Departamento da Defesa durante muitas e muitas décadas.”” — ‘United States Department of Defense … or Empire of Defense?’ Por Sohbet Karbuz, 6 de Fevereiro de 2006

4. http://www.heritage.org/Research/MiddleEast/bg1632.cfm,
http://www.heritage.org/Research/MiddleEast/bg1633.cfm

5. Ver ‘The True Story of the Bilderberg Group and What They May Be Planning Now.’ Uma crítica ao livro de Daniel Estulin feita por Stephen Lendman

 

 

Texto de William Bowles publicado a de 14 de Janeiro de 2010 em Creative-I. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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Sábado, 9 de Junho de 2007

Sobre o boicote académico a Israel

Os académicos não gostam de boicotes académicos. De facto, nós detestamos limitações externas de qualquer género. Nós apreciamos as nossas universidades por serem um precioso santuário para o debate crítico (apesar de ele raramente ser feito) e nós não gostamos de ver nenhuma delas ser banida, mesmo por razões ostensivamente louváveis. Claro, há universidades nalguns países que são meras almofadas dos seus regimes. Mas normalmente isso não é por culpa delas. Por isso nós evitamos as palestras com a voz do estado em vez de as denunciarmos e protegemos as universidades para que possam fazer crescer esse raro ponto de luz.

 

Mesmo assim, em casos muito excepcionais, um boicote académico aparece na nossa agenda. Isto acontece quando as universidades de um país são reconhecidas como tendo um papel central na legitimação de um regime que sistematicamente inflige enormes abusos dos direitos humanos ao seu próprio povo, e qualquer pretensão de que as universidades são fortalezas independentes de livre pensamento intelectual, torna-se insultuosa para a consciência humana. Mas como universidades em muitos regimes opressores encaixam neste critério, na prática é requerida uma segunda condição: que as suas faculdades tenham a liberdade de agir de forma diferente.

 

Em países democráticos onde os abusos dos direitos humanos abundam tão descontroladamente, como em Israel, não é defensável que as faculdades admitam e promovam a ideia de que as suas instituições – jorrando os soldados profissionais e arquitectos da ocupação – não desempenham um papel nesses abusos, e que participem em associação como membros de topo no clube do ensino internacional. É especialmente indefensável quando as próprias universidades praticam discriminação na sua investigação, nos seus subsídios e nas políticas de admissão. As faculdades das universidades supostamente devem responsabilizar as suas instituições por certos níveis de objectividade, justiça, e não-discriminação. Quando são capazes de influenciar esses níveis e recusam, a incompetência torna-se hipocrisia. A paralisia moral torna-se culpabilidade moral.

 

Com estes argumentos, nos anos 1980, académicos internacionais descontentes lançaram um boicote académico à África do Sul do apartheid, cujas universidades estavam finalmente identificadas como bastiões da supremacia branca e cujas faculdades brancas, privilegiadas pela democracia racial, podiam ser responsabilizadas. De forma semelhante, vemos agora ser levantado um boicote às universidades de Israel, entre outros, pelo Sindicato das Universidades e Colégios Britânicos. Os académicos de Israel, muito naturalmente, estão consternados com a ideia de um boicote e o governo de Israel está preocupado que a ideia esteja a ganhar relevância. Daí uma delegação académica israelita ter de vir a Inglaterra para travar uma batalha contra o boicote com todas as bandeiras outrora desfraldadas pelos defensores do apartheid – “liberdade académica”, “equilíbrio”, “proporcionalidade” – e agora acenadas novamente.

 

Os argumentos dos académicos israelitas são de facto demasiado reminiscentes do apartheid da África do Sul para escaparem a comparações. Especialmente, os académicos da África do Sul tentavam vencer o boicote evitando discutir os abusos do apartheid. Os argumentos dos académicos israelitas contra o boicote também não discutem as razões para ele acontecer, que são a ocupação por Israel dos territórios palestinianos e a subjugação de quase quatro milhões de civis sob domínio militar. Em vez disso, eles enfatizam a necessidade de “equilíbrio” – que, no discurso de Israel é uma palavra código para desviar completamente a atenção da ocupação e reiterar a velha ideia da inocência de Israel, a vitimização, e a negação. E como não discutem a ocupação, eles não focam a responsabilidade das próprias universidades nela.

 

Qualquer que seja o nosso conceito de neutralidade política, os académicos nunca trabalham no vácuo. Em zonas de conflito, o nosso trabalho é inerentemente político como em qualquer outra actividade. Por exemplo, suspendamos momentaneamente a desconfiança e aceitemos que o que diz o professor Zvi Hacohen da Universidade Ben-Gurion, citado no jornal Ha’aretz (15 de Maio de 2007), que “há uma alargada cooperação entre as nossas universidades e as palestinianas e jordanas”, apesar de ele não especificar o que é a cooperação “alargada”. O seu argumento é dificilmente confirmado pelas faculdades palestinianas, das quais as únicas declarações públicas sobre a questão foram de apoio ao boicote.

 

Mas em qualquer dos casos, ele não pode pretender que essa colaboração seja apolítica, quando os colegas investigadores palestinianos são mantidos presos sob regras militares draconianas pelo seu próprio governo, e a ocupação está a destruir as esperanças das suas famílias na viabilidade das suas instituições e na segurança básica de toda a comunidade. Nem pode pretender que a sua universidade seja politicamente neutral quando subsiste em parte com privilégios obtidos por impressionantes violações dos direitos humanos e dirige investigações com o objectivo de preservar e fortalecer esses privilégios.

 

Ignorar tal cumplicidade não é ser neutral: é permitir. Promove uma capa de normalidade sobre uma chocante situação dos direitos humanos e ajuda dessa forma e protegê-la de um escrutínio.

 

Os defensores de Israel nesta controvérsia também protestam que o boicote viola a moral económica do trabalho académico. “Comunicação, compreensão e colaboração internacional é do que se trata neste campo”, disse a professora Miriam Schlesinger da Universidade Bar Ilan, a quem foi pedido que se demitisse da direcção de um jornal de traduções por ela ser israelita. No entanto, a comunicação, compreensão e colaboração com as universidades palestinianas é precisamente o que as universidades israelitas abandonaram de forma inaceitável. Em vez disso, os académicos israelitas estão ocasionalmente a permitir que instituições palestinianas rastejem até à sua porta, nas mãos do seu próprio governo, enquanto eles mesmos compartilham elevadas discussões nos decorados salões de Oxford e Cambridge.

 

Um terceiro argumento é que um boicote é demasiado indiscriminado, castigando os progressistas intelectuais israelitas em conjunto com reaccionários nacionalistas e com coniventes passivos. Schlesinger até lhe chama uma “punição colectiva” – uma referência infeliz, já que a ocupação feita por Israel e a brutalização de 4 milhões de pessoas é muitas vezes denunciado como uma punição colectiva e a frase sugere, mais uma vez, uma peculiar interpretação israelita da palavra ‘equilíbrio’. No entanto o castigo colectivo está errado quando falta uma responsabilidade colectiva. Os civis palestinianos de um campo de refugiados não são capazes de o controlar e daí não serem responsáveis pelo que alguns militantes façam para resistir à ocupação, e resistir à ocupação é, em todo o caso, um direito humano. Os professores israelitas têm a capacidade de tomar uma posição contra os abusos dos direitos humanos levados a cabo pelas suas instituições e sendo assim têm a responsabilidade moral de o fazer.

 

Assim sendo, é também uma falsa simetria moral que a Dra. Schlesinger equipare o seu direito a pertencer a uma direcção de um jornal académico com o direito dos estudantes palestinianos a terem ensino universitário. Foi-lhe negado o posto na direcção não apenas por ela ser israelita mas por ela ser cúmplice, pelo poder que ela tem através da sua nacionalidade e do seu trabalho, de uma brutal ocupação. Aos palestinianos é negado o direito e uma educação meramente por não serem judeus. A primeira proibição, mesmo que controversa, é um gesto moral; a segunda é um gesto racista.

 

Um quarto argumento é que Israel está a ser injustamente apartado. Por exemplo, como os EUA e a Grã-Bretanha se uniram recentemente para matarem, ou condenarem indirectamente à morte, centenas de milhares de pessoas no Iraque, seguramente que seriam mais indicados para um boicote. No entanto, este argumento assemelha-se ao grave apartheid da África do Sul, pois esse país tentou argumentar da mesma forma com a proporcionalidade e que o mundo não a aplicava. Os erros de estado não são medidos pela contagem de mortos, nem são ordenados pela sua gravidade mensurável. Se fossem, apenas nos poderíamos focar num conflito de cada vez.

 

Para mais, a ocupação de Israel da Cisjordânia e da Faixa de Gaza não é uma política externa errada. Todo o sistema estatal israelita – as suas leis, as suas políticas, a sua ideologia do estado judeu, os privilégios concedidos à sua sociedade nacional-judia – está implicado numa grande estratégia demográfica de excluir, aprisionar, e subjugar uns 50% da população do seu território apenas com base na sua identidade étnica. Isto distingue Israel de outros estados que se comportam de modo errado, caindo no especial abismo moral de um estado de apartheid.


Eis o busílis. O pequeno mas crescente boicote internacional a Israel mostra que o terreno político está a transformar-se, que a sua ocupação está a mudar de conceito, se bem que ainda não legalmente, num modelo de apartheid. A Convenção Internacional das Nações Unidas para a Supressão e Punição do Crime de Apartheid define “o crime de apartheid” como “actos desumanos”, tais como “a criação deliberada de condições que impeçam o completo desenvolvimento de um grupo ou grupos” ao negar “o direito à educação, o direito a sair e a entrar do seu país, o direito à nacionalidade [cidadania], o direito à liberdade de movimentos e residência, o direito à liberdade de opinião e expressão, e o direito à livre e pacífica associação e reunião”. A Convenção proíbe particularmente quaisquer medidas tomadas “para dividir a população por linhas raciais ou a criação de zonas reservadas e guetos”.

 

Se esta descrição não faz lembrar o domínio militar israelita sobre os palestinianos, então é difícil imaginar como será o apartheid fora da África do Sul ou como é que a Convenção possa vir a ser aplicada novamente.

 

Israel rejeita ardentemente a analogia com o apartheid, claro, baseando-se em parte no facto dos palestinianos não serem um grupo racial mas um grupo étnico ou nacional (definidos na negativa, como não-judeus). Para além disso, não é suposto que os palestinianos sejam cidadãos de Israel, mas em vez disso são considerados cidadãos de um estado não existente que poderá vir a existir no futuro. Mas quem olhar para os enclaves na Cisjordânia desmembrada e emparedada, não consegue imaginar que estes campos de prisioneiros sirvam para constituir um estado, e neste contexto a distinção entre etnia e raça perde todo o sentido. A palavra apartheid está por todo o lado, e o boicote é um sinal de que o paradigma do apartheid está a tocar a sociedade civil internacional. Os desafortunados académicos de Israel estão rapidamente a perder terreno para o seu crescimento.

 

Como eles estão em negação relativamente aos horrores da própria ocupação, os académicos de Israel que protestam contra o boicote podem não alcançar a sua verdadeira intenção, que é forçá-los a confrontarem esses horrores. Não é aceitável que eles insistam nos privilégios da ‘torre de marfim’ tendo uma catástrofe de direitos humanos tão terrível como a inqualificável ocupação, à sua porta, perpetrada pelos seus próprios governantes e envolvendo as suas instituições nessas crueldades e vilanias. Quando a Dra. Schlesinger ‘rebentou’ em protesto por ser tratada de acordo com a sua nacionalidade em vez da sua individualidade, ela realmente não percebeu a questão. Para reclamar o direito a um tratamento escrupuloso, é preciso estender isso também aos outros. Os académicos israelitas têm de falar a sério sobre estender aos seus colegas palestinianos a dignidade e o respeito que eles próprios esperam. Quando o fizerem, dados os seus formidáveis talentos e recursos, a ocupação enfrentará os seus mais duros opositores.





Virginia Tilley é uma cidadã dos EUA a trabalhar agora como investigadora no “Human Sciences Research Council” em Pretória. Ela é autora do livro The One-State Solution: A Breakthrough for Peace in the Israeli-Palestinian Deadlock.

 


Texto da autoria de Virgínia Tilley publicado a de 27 de Maio na Electronic Intifada. Tradução de Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 00:25
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Todos os textos aqui publicados são traduções para português de originais noutras línguas. Deve ser consultado o texto original para confirmar a correcta tradução. Todos os artigos incluem a indicação da localização do texto original.

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