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“No Iraque Pós-Guerra, Usar as Forças Militares para Defender Interesses Vitais dos EUA, Não para a Reconstrução da Nação” — Fundação Heritage
E caso não tenham percebido a ideia, o mesmo documento da Fundação Heritage, datado de 25 de Setembro de 2002 prossegue dizendo-nos,
“Proteger as infra-estruturas iraquianas de sabotagem interna ou de ataques estrangeiros para recolocar o Iraque nos mercados globais da energia e para assegurar que os EUA e os mercados mundiais de energia tenham acesso aos seus recursos.”[1]
Tudo o que disser o contrário na imprensa estatal ou corporativa é apenas propaganda e/ou mentiras. Ponto final parágrafo.
Oleando as engrenagens do capitalismo com petróleo
O ponto de viragem no qual o petróleo tomou o lugar central aconteceu significativamente quando se iniciou o século XX e os navios imperiais mais poderosos, os alemães e os britânicos, deixaram o carvão e passaram e utilizar o petróleo. A partir desse ponto os destinos da Pérsia e do mundo árabe tornaram-se irrevogavelmente centrais para as ambições imperialistas ocidentais. Foi tanto assim que até à data estamos a viver (e a morrer) com os resultados, mais notavelmente os palestinianos e os iraquianos, sem esquecer as duas Guerras Mundiais onde o petróleo foi fulcral para todos as partes em combate, não apenas para a luta como para o controlo.
“Raramente discutido, no entanto, é o facto dos objectivos geo-políticos estratégicos da Grã-Bretanha, muito antes de 1914, incluírem não apenas o esmagamento o seu maior rival industrial, a Alemanha, mas, pela conquista através da guerra, o assegurar um controlo britânico inquestionável sobre o precioso recurso que, já em 1919, provava ser a matéria-prima estratégica de futuros desenvolvimentos económicos – o petróleo.” — ‘A Century of War’, F William. Engdahl, pág.38.[2]
O petróleo aumentou o alcance dos navios imperiais para dar a volta ao globo sem necessidade de reabastecimento, permitindo que a marinha britânica tomasse controlo dos oceanos e rotas comerciais do mundo. Um dos objectivos da Primeira Guerra Mundial era negar à Alemanha o acesso aos campos petrolíferos recém-descobertos onde agora é o Irão. Isto significava controlar o acesso ao Médio Oriente onde os britânicos controlavam o Canal do Suez (‘roubado’ aos franceses), o que eventualmente determinou o destino do povo da Palestina e de todo o Médio Oriente.
Claro que o petróleo é apenas um componente mas sem ele nada funciona, muito menos um exército mecanizado. Sem petróleo não há nada daquilo que o mundo moderno está dependente.
‘O jornal Energy Bulletin de 17 de Fevereiro de 2007 assinala que o consumo de petróleo dos aviões, barcos, veículos e instalações do Pentágono fazem dele o maior consumidor de petróleo do mundo. Nessa altura, a marinha dos EUA tinha 285 barcos de combate e de apoio e cerca de 4000 aviões em operação. O exército dos EUA tinha 28,000 veículos blindados, 140,000 veículos multi-usos de alta mobilidade, mais de 4,000 helicópteros de combate, várias centenas de aeronaves e uma frota de 187493 veículos. Exceptuando os 80 submarinos e porta-aviões nucleares, que libertam poluição radioactiva, todos os outros veículos consomem petróleo.’[3]
Os meios de comunicação corporativos, se alguém grita ‘Petróleo!’ quando se fala do Iraque, querem que acreditemos que essa pessoa é uma espécie de maluco, daqueles que são raptados por Ovnis, nada mais nada menos que uns adeptos da ‘teoria da conspiração’.
Em 2003, quando os EUA e o Reino Unido invadiram o Iraque, eu fiquei espantado com os argumentos desesperados da imprensa corporativa de que a invasão não tinha nada a ver com o petróleo, acusando os que afirmavam que o petróleo tinha tudo a ver com a invasão, de serem uns loucos adeptos da teoria da conspiração a obviamente a viverem na Área 51.
“Abundam as teorias da conspiração …. Outros defendem que foi por causa do petróleo…. Teoria que não faz sentido.” — The Independent, 16 de Abril de 2003.
O Mundo Viciado em Petróleo
(Manny Francisco, Manila,Filipinas)
Pelo contrário, as empresas do petróleo não se fizeram rogadas em vir falar sobre o papel fulcral do petróleo na invasão do Iraque, ecoando o que disseram os engravatados da Fundação Heritage:
“Eu diria que especialmente as empresas petrolíferas dos EUA… anseiam por um Iraque aberto ao negócio [depois do derrube de Saddam],” disse um executivo de uma das maiores empresas petrolíferas do mundo.”
“O que eles [os neo-conservadores do governo Bush] têm na ideia é a desnacionalização, e a divisão em parcelas do petróleo iraquiano para as empresas americanas. Nós conquistamos o Iraque, instalamos o nosso regime, produzimos petróleo ao máximo e dizemos à Arábia Saudita que vá para o inferno.” James E. Akins, antigo embaixador dos EUA na Arábia Saudita.
“Irá provavelmente ditar o fim da OPEP.” Shoshana Bryen, director de projectos especiais do JINSA (Instituto Judeu para Assuntos de Segurança Nacional), isto é, depois da queda do Iraque e da privatização do seu petróleo.
“As empresas americanas terão uma grande oportunidade com o petróleo do Iraque,” Ahmed Chalabi no jornal Washington Post.
Em “O Futuro do Iraque Pós-Saddam: Um Plano para o Envolvimento Americano”, uma série de documentos de Fundação Heritage, é desenvolvido um plano para a privatização do petróleo do Iraque e de facto para a privatização de toda economia iraquiana.[4]
Será uma conspiração? Bem, isso depende de como definem essa palavra. As definições do dicionário são estas:
Eu penso que todas colectivamente se encaixam na descrição da invasão do Iraque, afinal Bush e Blair conspiraram para burlar o mundo através da fabricação de provas sobre as armas de destruição em massa do Iraque de modo a invadirem ilegalmente o país. Eles conspiraram (com outros) para destruir um país e roubar os seus recursos, ergo: uma conspiração.
Dito isto, há aqueles que vão muito mais longe, afirmando que há uma conspiração global que já remonta desde há cem anos entre as classes políticas dos Estados Unidos e do Reino Unido que, em conjunto com poderosos banqueiros e conglomerados da energia, conseguiram controlar o planeta, os seus recursos, mercados e trabalhos. Mas será isso uma conspiração ou é meramente o imperialismo a fazer o que sabe melhor: roubar, matar e colonizar? Por outras palavras, precisamos de uma conspiração para explicar os acontecimentos? E se realmente existe uma conspiração há mais de cem anos? Isso não muda nada, continuamos a confrontar-nos com as mesmas forças.
O que é preciso perguntar é: Por que é que os meios de comunicação corporativos/estatais insistem em usar a palavra conspiração para ridicularizar quem questione a ortodoxia vigente? A resposta é imediatamente óbvia: a palavra conspiração foi distorcida de modo a não significar a sua definição do dicionário, mas sim tudo o que desafie as razões apresentadas pelos nossos mestres políticos sobre o funcionamento das coisas.
A História está repleta de todo o género de conspirações estatais e/ou corporativas, desde o Incêndio no Reichstag à provocação no Golfo de Tonkin, ou ao derrube feito pela CIA/ITT de Allende no Chile, às não existentes armas de destruição em massa do Iraque, daí a necessidade de não deixar que se estabeleça uma ligação entre o petróleo e o Iraque/Irão/Afeganistão, só para o caso das pessoas chegarem às conclusões certas sobre por que é que acontecem as coisas.
A linguagem é assim mutilada para servir os objectivos da classe corporativa, isto com a ajuda dos verdadeiros doidos das conspirações, que vêm tudo como uma conspiração, por vezes iniciadas há séculos atrás e que envolvem cabalas secretas de um ou de outro tipo. Ligar a esquerda a esta malta serve para degradar o nosso argumento e seguramente é esse o objectivo.
Não há dúvidas que a classe criminosa internacional traça ligações, projecta e planeia. É isso que o Council on Foreign Relations [Conselho de Relações Estrangeiras - EUA] (CFR) faz, tal como a Chatham House (Instituto Real de Assuntos Internacionais), o equivalente no Reino Unido, e ambas as organizações foram montadas no início do século XX com o fortalecimento da ‘Aliança Anglo-Saxónica’. A lista de membro do CFR ilustra o facto de os principais governos ocidentais serem efectivamente servos do Grande Capital.
Tal qual o grupo Bilderberg, composto por ‘capitães internacionais da indústria’ e políticos-chave das classes políticas dos principais estados capitalistas. Mas será isto uma conspiração? A um certo nível, não. No fundo é legítimo que as classes dominantes se organizem e planeiem. É por isso que Washington DC está a rebentar pelas costuras com tantas ‘Fundações’ e ‘Institutos’. Desde o final da Segunda Grande Guerra, milhares de milhões de dólares tanto públicos como privados, foram despejados nessas organizações. O seu objectivo? Espalhar o ‘mercado livre’ e combater quem se oponha, por meios correctos ou por meios pouco correctos.
‘“…os homens mais poderosos do mundo reuniram-se pela primeira vez” em Oosterbeek, Países Baixos [há mais de cinquenta anos], “debateram o futuro do mundo,” e decidiram reunir-se anualmente em segredo. Apelidaram-se de Grupo Bilderberg e os seus membros representam a nata das elites dominantes mundiais, principalmente da América, Canadá e Europa Ocidental, com nomes familiares como David Rockefeller, Henry Kissinger, Bill Clinton, Gordon Brown, Angela Merkel, Alan Greenspan, Ben Bernanke, Larry Summers, Tim Geithner, Lloyd Blankfein, George Soros, Donald Rumsfeld, Rupert Murdoch, outros chefes de estado, senadores influentes, congressistas e deputados, responsáveis do Pentágono e da NATO, membros da realeza europeia, figuras mediáticas seleccionadas, e outros convidados – alguns em segredo segundo algumas fontes, como Barack Obama e muitos dos seus oficiais de topo.” — ‘A Verdadeira História do Grupo Bilderberg’ Por Daniel Estulin.[5]
É claro que o capitalismo moderno evoluiu ao longo de gerações e gerações com toda a aparência de uma conspiração em amplo sentido, e uma do mais sofisticado que há, empregando um vasto exército de operacionais que incluiu elementos fulcrais nos meios de comunicação, academias, homens de negócio e políticos, quer dentro ou fora da governação. Uma ‘conspiração’ para manter o capitalismo como a única forma permissível de sociedade, como poderia ser de outra forma? Simplesmente há muita coisa em jogo e para provar isso basta-nos ver como esta poderosa elite internacional de negócios/governos/meios de comunicação conspirou para matar a COP15 [Conferência da ONU sobre as mudanças climáticas, que decorreu em Copenhaga] independentemente das consequências.
Ligações familiares, de formação, e de negócios —com o estado como ‘mediador’— criaram aquilo que é agora uma rede internacional que liga as classes dominantes dos mais poderosos estados capitalistas. É por isso que eles têm um Grupo Bilderberg, é onde os líderes dos negócios, a classe política, académicos e membros seleccionados dos meios de comunicação se encontram e formulam estratégias e tácticas, necessárias num mundo onde as comunicações são agora virtualmente instantâneas. Não serve ter governos a fazerem declarações que estão fora da linha do ‘consenso’, como acontece de tempos a tempos, e a ilusão esfuma-se por breves momentos.
Num mundo onde as forças económicas dominantes são poucas centenas de grandes corporações, corporações que de facto asseguram que os seus respectivos governos promovem políticas favoráveis à sua sobrevivência e que aumentem a prosperidade dos seus principais accionistas, a coisa lógica a fazer é combinarem sobre os assuntos que os afectam a todos. Eu ficaria extremamente surpreendido se o Grupo Bilderberg ou outro parecido, não existisse.
E os assuntos são fáceis de adivinhar: controlo/propriedade e acesso aos recursos; acesso a mão-de-obra barata; livre movimento de capitais; e por último, mas não menos importante, neutralizar os que desafiam o domínio do capital onde quer que eles apareçam.
Alinhado contra nós, o povo, está um vasto aparelho de controlo e manipulação que envolve órgãos governamentais, ‘não’-governamentais, fundações privadas, meios de comunicação, estatais e corporativos, ‘entretenimento’ em todas as suas extraordinárias formas, think tanks, institutos, fundações, academias, órgãos formais e informais, quer nacionais quer internacionais, associações, ONGs e ‘ONGs’, instituições de solidariedade e ‘instituições de solidariedade’, todas elas fortemente subsidiadas pelo estado e/ou corporações. Quem precisa dos ‘Illuminati’ quando temos todos estes alinhados contra nós?
Notas
1. Ver ‘In Post-War Iraq, Use Military Forces to Secure Vital U.S. Interests, Not for Nation-Building’ por Baker Spring e Jack Spencer, Backgrounder #1589, 25 de Setembro de 2002.
“A Administração deveria tornar claro que a presença militar dos EUA no Iraque após a guerra pretende assegurar interesses vitais dos EUA, não serve para o exercício da chamada construção de uma nação — a política aberta da Administração Clinton da enviar tropas americanas para regiões problemáticas onde não estavam ameaçados interesses vitais dos EUA.”
2. Penso que a melhor (e mais sucinta) análise deste período é a que foi feita por F. William Engdahl no seu livro ‘A Century of War’ Anglo-American Oil Politics and the New World Order’. Podem ver a minha crítica ao livro aqui. Comprem o livro aqui na Pluto Books.
3. Ver ‘Pentagon’s Role in Global Catastrophe: Add Climate Havoc to War Crimes’ por Sara Flounders com dados sobre o gigantesco apetite por petróleo por parte do exército norte-americano.
E aqui têm a fonte, ‘US military oil pains’ por Sohbet Karbuz, Energy Bulletin, 17 de Fevereiro de 2007. Note-se que os dados usados no artigo já têm mais de dois anos e estão longes de estarem completos, já que apenas incluem o petróleo comprado directamente pelo Departamento da Defesa dos EUA. Quaisquer que sejam os números eles estão a subir, provavelmente tão alto como 30 mil milhões de dólares anualmente, sem nenhum sinal de redução no horizonte, pelo menos de acordo com o Departamento da Defesa:
““No ano fiscal de 2005, o DESC [Departamento de Energia] irá comprar cerca de 128 milhões de barris de combustível com um custo de 8.5 mil milhões de dólares, e o combustível para aviação constitui perto de 70% das compras de produtos petrolíferos do Departamento da Defesa.”
“Para alguns, isto ainda não é suficiente. “Como o consumo de petróleo do Departamento da Defesa representa a maior prioridade de todos os usos, não haverá limites fundamentais ao fornecimento de combustível do Departamento da Defesa durante muitas e muitas décadas.”” — ‘United States Department of Defense … or Empire of Defense?’ Por Sohbet Karbuz, 6 de Fevereiro de 2006
4. http://www.heritage.org/Research/MiddleEast/bg1632.cfm,
http://www.heritage.org/Research/MiddleEast/bg1633.cfm
5. Ver ‘The True Story of the Bilderberg Group and What They May Be Planning Now.’ Uma crítica ao livro de Daniel Estulin feita por Stephen Lendman
Texto de William Bowles publicado a de 14 de Janeiro de 2010 em Creative-I. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala.
Há muitíssima especulação neste momento, quer do lado da esquerda quer da direita, sobre aonde nos levará esta crise do capital, predominando a noção de que isto assinala o fim do Império dos EUA, que o chamado mundo unipolar chegou ao fim, que está a emergir um novo mundo multipolar, liderado pela China, Rússia, Índia e Brasil.
A teoria baseia-se no facto de os EUA já não serem a potência económica número um mundial, e é verdade que até mesmo uma esmagadora força militar está dependente da economia que a financia. Mas até que ponto é verdade esta ideia e mesmo sendo verdade, de que escala temporal estamos aqui a falar?
Para além disso, é apenas uma das inúmeras consequências possíveis, muito dependendo da forma como os países capitalistas lidarem com a crise. Uma conclusão forçosamente se tira, a de que com tantos triliões que se fala serem necessários para salvar o capitalismo de si mesmo e a facilidade com apareceram somas tão vastas, um facto salta à vista sobre o papel do dinheiro, nomeadamente que o valor que lhe tem sido atribuído é totalmente fictício.
No fundo, é só um papel que há muito deixou de representar uma riqueza real dado que existe apenas na imaginação dos que alegadamente gerem o sistema. Claro que para aqueles de nós que apenas têm alguma quantidade dele, aqui no mundo real, ele possui um valor real, mas não confundamos o mundo do capital financeiro com o mundo em que nós vivemos.
O problema vem do facto de uma pequena percentagem da população mundial ter efectivamente sugado a riqueza real do nosso sistema e a ter substituído por uma moeda nacional, isto é, por aquela a que estamos agarrados e que se chama dívida, e as dívidas só fazem sentido se nós concordarmos pagá-las e ao contrário dos bancos nós não temos governos que sejam clementes com as nossas necessidades.
Mas voltemos por momentos à ideia de um novo mundo multipolar que está a emergir liderado pela China, a potência industrial do mundo. O problema desta ideia é que foi o mundo desenvolvido que criou esta situação de forma a reduzir os custos de produção, exportando as fábricas para países como a China. Por seu lado, os mercados para a estupenda capacidade produtiva da China estão ligados directamente ao consumo ocidental e a produtos que são tão baratos que praticamente são dados. Talvez com o tempo, o consumo interno da China possa preencher essa falha mas isso é duvidoso devido aos salários pateticamente baixos pagos à classe trabalhadora chinesa.
E já nesta altura, literalmente milhares de fábricas chinesas estão a dar o berro, não apenas por causa da recessão global mas também porque (previsivelmente) os salários estão pouco a pouco a subir na China e com o piorar da situação poderemos esperar grandes manifestações de operários exigindo aumentos e, tem de se acrescentar, os principais países capitalistas estão rapidamente a ficar sem países com trabalho barato para onde possam transferir a produção, tal como Marx previu há mais de 150 anos.
Pior ainda, os vastos lucros acumulados pela China são em dólares, por isso o destino da economia chinesa depende inteiramente do futuro bem-estar do capitalismo dos EUA, e por sua vez, também todo nós estamos atados dos EUA nesta operação financeira global! Assim, também a China está atada aos EUA! O lema da China será sem dúvida, “não afundem o barco” (não mais do que o que já está agora).
A reacção dos mais versados dos poderes capitalistas desenvolvidos da UE foi de insistir naquilo que parecem ser as mesmas políticas económicas keynesianas que se praticaram depois do fim da Segunda Grande Guerra, tornando mais uma vez o estado no principal investidor de capital, mas há grandes diferenças entre o pós-guerra e a actual situação:
1) Ao contrário dos anos 1940 onde o estado era o maior investidor, e de forma crucial, dirigia também a natureza do investimento através de instituições estatais, e era um investimento em grandes projectos sociais, habitação, educação, transporte, cuidados de saúde, energia e comunicações (devo acrescentar que estes eram projectos nos quais o capital privado não estava disposto a investir devido à natureza de longo prazo de qualquer possível retorno sobre o investimento). Hoje, por contraste, vemos uma abordagem distanciada, o dinheiro está a ser entregue efectivamente como um “presente” de “nós” para os ladrões e aldrabões fazerem com ele o que quiserem;
2) Ao contrário da situação nos anos 1940, que depois da destruição provocada pela guerra e potenciados pela riqueza acumulada pelos EUA através do financiamento da Guerra, necessitavamos de uma reconstrução, nós vivemos agora num mundo de sobre-produção global, então, onde e como é que o novo ambiente de acumulação de capital irá ter lugar?
3) Muito do grande crescimento do período do pós-guerra residiu na reorganização da produção de guerra para o novo mundo de consumo em função do automóvel, televisão, bens de consumo e ironicamente, habitação (pondo de lado para já a emergência da Guerra Fria e o complexo industrial militar que distorceu o desenvolvimento económico de formas tão desastrosas, que ainda vivemos, e morremos, com os seus efeitos).
Não há equivalência entre a actual situação (a ‘Guerra ao Terrorismo’ simplesmente não é um substituto da guerra ao comunismo), por isso no curto prazo (pelo menos) estamos a entrar num mundo que tem mais em comum com o mundo que conduziu ao estalar da Segunda Grande Guerra e não com o mundo que se lhe seguiu; desemprego em massa, cortes ainda mais massivos na despesa social e, se o capitalismo for fiel à sua cartilha, a necessidade de uma Terceira Grande Guerra para despoletar uma nova ronda de destruição e acumulação de capital.
Alguns apontaram a necessidade de uma espécie de ‘New Deal’[*] mas será isso possível? De onde virá o dinheiro depois de pagar a fiança aos bancos? Para além disso, as grandes potências capitalistas já não são potências industriais, e a maioria da ‘riqueza’ gerada vem de duas fontes: 1) o consumo e 2) serviços financeiros, só que ambos estão neste momento pelas ruas da amargura.
A outra diferença fulcral entre o período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial e os dias de hoje é que o socialismo foi visto por muitos como uma verdadeira alternativa ao capitalismo, de facto, não apenas as políticas keynesianas eram vistas como uma forma de salvar o capitalismo, eram também uma apropriação de políticas económicas essencialmente socialistas mas apontadas para a manutenção do capitalismo quando os capitalistas não conseguiram eles próprios fazê-lo.
No entanto não temos essa sorte actualmente, e em grande medida porque não temos uma classe trabalhadora organizada e progressista para implementar um tal programa depois da adopção do chamado programa político e económico neoliberal, que apareceu mais ou menos pelas mesmas razões da tragédia actual, sobre-produção e queda da taxa de lucro (não confundir os vastos lucros obtido pela magia do sector financeiro com a produção de riqueza, cuidados de saúde, habitação, educação, etc.).
Em conclusão, o que é que podemos dizer sobre a natureza das respostas capitalistas a esta crise? Em primeiro lugar, como o estado decidiu tentar manter o actual status quo mas com alguns acordos na direcção do estabelecimento de uma espécie de ordem financeira global, nós ficamos, como eles dizem, nas mãos dos deuses. E a julgar pela actual resposta do G-7, uma espécie de um conjunto de regras globais que regulem os mercados financeiros, simplesmente, isso não está em cima da mesa. Lembrem-se, estas economia nacionais estão todas a competir umas contra as outras, mas ao mesmo tempo todas estão atadas umas às outras pela natureza globalizada do capital financeiro. Tudo o que eles fizeram até agora foi jogar à toa com o sistema sem fazerem ideia das consequências, exceptuando tentar salvar o capitalismo de si próprio.
Depois, estas políticas fiscais irão ter como resultado desemprego em massa às dezenas de milhões e o colapsar da 'boa via' ou de que resta dela. E claro, o desemprego em massa irá conduzir ao colapso das grandes economias movidas pelo consumo. Tais políticas poderiam obviamente despoletar um despertar da consciência de classe, mas não apostem nisso, mesmo que os funcionários do governo britânico consideram um tal cenário (era muita sorte).
“O Proletariado da Classe Média — As classes médias podem tornar-se classes revolucionárias, assumindo o papel concebido por Marx para o proletariado. A globalização dos mercados de trabalho, a redução dos níveis nacionais de assistência social e o desemprego podem reduzir a ligação das pessoas a um qualquer estado particular. O crescente fosso entre eles próprios e o pequeno número de indivíduos super-ricos bem visíveis pode alimentar a desilusão com a meritocracia, ao passo que as crescentes classes baixas urbanas provavelmente representarão uma ameaça à ordem e estabilidade social, à medida que o fardo da dívida adquirida e a falência dos fundos de pensões começarem a morder. Em face destes desafios interligados, a classe média mundial pode-se unir, usando o acesso ao conhecimento, recursos, capacidades e perícias para dar forma a um processo transnacional tendo em vista o seu próprio interesse de classe.” — ‘Relatório do Ministério da Defesa do Reino Unido, The DCDC Global Strategic Trends Programme 2007-2036’ (Terceira Edição) pág.96, Março de 2007
Claro que o problema é que para um cenário assim se realizar é preciso não apenas tempo mas também o desenvolvimento de uma alternativa coerente ao actual caos. Os slogans são muito bons quando representam uma destilação de uma alternativa económica e política existente, mas sem essa alternativa, eles serão apenas slogans vazios.
Por isso eu penso que é correcto afirmar que só a reemergência de uma força revolucionária composta por trabalhadores (quer seja da chamada classe média, quer da classe trabalhadora tradicional) será capaz de nos salvar desta calamidade.
NdT: New Deal: O New Deal (cuja tradução literal em português seria "novo acordo" ou "novo tratado") foi o nome dado à série de programas implementados nos Estados Unidos entre 1933 e 1937, sob o governo do Presidente Franklin Roosevelt, com o objetivo de recuperar e reformar a economia norte-americana, e assistir aos prejudicados pela Grande Depressão. (Fonte:Wikipedia)
Texto publicado por William Bowles em Creative-I.Info a 28 de Outrubro de 2008. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala.
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