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Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

O Príncipe muda de pele

As serpentes mudam de pele periodicamente. Vendo a história recente de Itália, e perante o que vem acontecendo há alguns meses, dá a sensação que também o Príncipe, esse poder oculto que domina, como sustenta Roberto Scarpinato, a história de Itália desde sempre, está em pleno período de muda de pele ou de troca de vestuário.

 

 

Sabe-se que o braço direito de Berlusconi está condenado, estando ainda a decorrer o recurso, a sete anos por cumplicidade com a máfia; demitiram vários ministros por corrupção; destapou-se uma “rede gelatinosa”  de corrupção que afecta ministros, políticos, empresários, juízes, altos prelados, agentes dos serviços secretos e jornalistas; soube-se da existência de uma nova sociedade secreta que pretendia condicionar os membros do Tribunal Constitucional. Anteontem houve a demissão do Secretário de Estado de Economia, Nicola Cosentino, acusado desde há um ano pelos juízes de Nápoles de ser o referente político do clã mais importante da Camorra. Também anteontem se publicaram escutas desta sociedade secreta em que mencionavam um tal "César", e segundo escrevem os polícias, "César" é Berlusconi.
Unidas as tesselas do mosaico, vê-se claramente que governa um sistema criminoso, que tem contactos com a criminalidade organizada. Não é o Berlusconi ser de direita. Não valem os adjectivos de sempre. Berlusconi representa a institucionalização do acesso ao poder do crime organizado, entendido como alta burguesia mafiosa -colletti bianchi, colarinhos brancos - com contactos com a “baixa” máfia. No pós-guerra, a Itália, para evitar o “perigo” comunista, converteu-se pouco a pouco numa democracia mafiosa. Com a chegada de Berlusconi ao poder, converteu-se primeiro numa ditamole mafiosa, esvaziando de poder legislativo o Parlamento e governando à base de decretos-lei e moções de confiança. Durante este período Berlusconi aprovou 41 leis ad personam. O Parlamento esteve atarefadíssimo cuidando dos interesses pessoais de Berlusconi. Hoje, este sistema de governo dá mais um passo e, a julgar por essa pressa que têm na aprovação da "lei mordaça", aposta numa ditadura mafiosa sem rodeios, sistema que nem sequer os pós-fascistas, que ainda têm algum sentido de Estado e de ideologia política, estão dispostos a admitir.
Digo democracia ou ditamole mafiosa porque uma ou duas vezes por ano costumamos ler alguns dados sobre a facturação das máfias em Itália. O título costuma ser sempre o mesmo: “A máfia é a empresa que mais factura em Itália”. Em 2007, segundo um dossiê da associação de comerciantes Confesercenti citado pelo procurador geral antimáfia, a cifra ascendia a 90.000 milhões de euros, isto é, 7% do PIB. No passado dia 2 de Março, o presidente da Comissão Antimáfia do Parlamento italiano afirmava que a cifra oscilava entre 120 e 140.000 milhões de euros “segundo as estimativas mais prudentes”, o que equivale ao PIB da Roménia. Um negócio florescente que, sendo estes dados correctos, teria crescido 50.000 milhões -uns 65%, mais de 20% ao ano, em 3 anos de dura crise. Estamos perante um sistema económico que dificilmente se poderá mudar da noite para o dia.
Ainda que a imprensa tenda a retratar a máfia como um assunto de baixa criminalidade, a dimensão desse enorme e crescente negócio obriga a pensar que há um fortíssimo poder que se move na sombra e que manobra sem dúvida os cordelinhos do grande teatro da política. As provas da existência desse poder que todo a gente conhece mas ninguém vê existem precisamente graças às escutas telefónicas, que se converteram, abrandadas que foram as penas duras contra os mafiosos e desincentivado o arrependimento de mafiosos, no único instrumento da magistratura para combater o lado obscuro do poderoso poder.
Como dizíamos, para encobrir o modus operandi do Príncipe, Berlusconi e os seus engendraram a última lei vergonhosa conhecida como a “lei mordaça”. Esta lei actua em dois sentidos, por um lado restringe o Ministério Público e a polícia judiciária de poderem realizar escutas; e por outro lado cerceia a liberdade de publicar as ditas escutas sob pena de multas altíssimas e inclusivamente de prisão. Frank La Rue, especialista da ONU, declarou que a iniciativa, que entre outras medidas pretende limitar a publicação das intercepções telefónicas, constitui uma ameaça à liberdade de expressão. Houve uma greve importantíssima em Itália pela liberdade de expressão, à qual Berlusconi, Presidente do Conselho de Ministros, respondeu dizendo o seguinte: "Uma imprensa que desinforma, que não apenas distorce a realidade, mas que também pisa sistematicamente o sagrado direito à privacidade dos cidadãos invocando a 'liberdade de imprensa' como se se tratasse de um direito absoluto. Mas em democracia não existem direitos absolutos, já que todos os direitos encontram um limite noutros direitos igualmente válidos". Estas declarações suscitaram grande escândalo, sim porque são graves, mas a chave de leitura desta lei não está no ataque à liberdade de expressão. Por acaso se pode afirmar que durante estes 16 anos de império do conflito de interesses em Itália houve tal liberdade? Por acaso não é certo que muitos jornalistas italianos têm a mordaça posta há anos? Berlusconi pode ser molestado pelos jornais livres, mas não lhe faz falta essa lei mordaça, basta-lhe retirar a 90 cooperativas as subvenções estatais e teriam de encerrar. Que o digam os colegas do Il Manifesto, que se manifestaram ontem perante o Parlamento para denunciar a sua situação. A Berlusconi interessa-lhe só a privacidade de Príncipe; que ele possa fazer e desfazer o que lhe der na gana, sem se preocupar com uma magistratura que esteja a escutar a suas feitorias ou com uma imprensa lhes dê eco depois.
Cartoon  Berlusconi Itália
Cartoon de Riber Hansson, Svenska Dagbladet, Suécia
As escutas mostram que a pele do Príncipe está prestes a cair. Que aspecto terá a nova pele do Príncipe?   Continuará a ser a de um Berlusconi finalmente ditador se conseguir que seja aprovada a "lei mordaça"? Será, como propunha ontem D'Alema, a pele de um conglomerado que conte com o apoio dos pós-fascistas do Fini mais os democratas-cristãos de Casini mais o centro-esquerda do PD: um “o-que-quer-que-seja” mas sem Berlusconi? Um governo técnico com uma ampla maioria com Giulio Tremonti, actual ministro da Economia, como presidente? Simplificando: ditadura mafiosa ou retorno à democracia mafiosa sem Berlusconi?
Cartoon  Berlusconi Itália
Cartoon de Riber Hansson, Suécia
Nem um nem outro, claramente. A esquerda ficará em minoria outra vez ao não aceitar tamanha alternativa, pois o que a esquerda jamais aceitará é que o sistema tenha de ser forçosamente mafioso. Surge então a pergunta que foi feita ao juiz Giovanni Falcone antes de o matarem: pode-se vencer a Máfia? Respondeu Falcone: sendo um feito humano, a Máfia tem um princípio e há-de ter um fim. O magistrado antimáfia Nicola Gratteri, especialista em 'Ndrangheta que vive sob escolta desde 1989, mostrava-se céptico  num destes dias e dizia que enquanto houver homens, haverá Máfia. O que não obsta a que se lute contra ela. Afirmou Gratteri que não basta repressão  militar: fazem falta, em primeiro lugar, medidas políticas como alterar o código penal, o código de procedimento penal e o ordenamento penitenciário. Em suma, a batalha contra a máfia, segundo ele, não será somente militar mas também social e cultural. A batalha deve centrar-se na conveniência económica, não ética, de não pertencer às máfias.

Já há minorias que combatem dia-a-dia estas máfias, e não com palavras mas com acções. Voltemos a Scarpinato para concluir. O autor de Il ritorno del Principe recordava há pouco tempo que os momentos mais destacados da história de Itália foram protagonizados por minorias. Minoria eram os mil de Garibaldi. Minoria era a Resistência antifascista. Minoria era a elite que escreveu a Constituição. Minoria é hoje a esquerda sem representação parlamentar. Minoria são os políticos jovens do PD que não aceitam um governo de realpolitik (mafioso). Minoria são os trabalhadores da FIAT de Pomigliano que não aceitaram a chantagem que lhes impunham: queres trabalhar a ritmo "chinês" ou preferes ficar parado em terra da Camorra? Minoria são os sindicalistas da FIOM da FIAT de Melfi que foram despedidos como represália por terem participado na greve. Minoria são os precários. Minoria é o que não é maioria nem "zona cinzenta". Minoria são os hospitais da Emergency, a associação Libera contra as máfias, o comité Addio Pizzo, que liberta a economia do imposto mafioso, o Fórum italiano de movimentos pela água pública, o observatório Antigone que cuida do respeito pelo direito nas prisões, os movimentos pelo direito à habitação como a Action, a defesa do património da PatrimonioSOS, a informação da Antimafia 2000, Megachip, Lettera 22, Peace Reporter, Radio Città Aperta, Fortress Europe, Giornalismo Partecipativo e tantos e tantos outros. Minoria são os que fazem e não apenas falam.

 

 

Texto de Gorka Larrabeiti publicado na Tlaxcala a de 17 de Julho de 2010. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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Sexta-feira, 8 de Dezembro de 2006

Uma Nação na Desonestidade / L'affaire Berlusconi

Uma Nação na Desonestidade

 

A história que se segue (L’afaire Berlusconi) foi originalmente enviada apenas aos subscritores da Newsletter do InI (vejam o que estão a perder em não a subscrever!) mas como os media e o governo fizeram um trabalho tão bom de esconder esta imundice ofensiva que é o governo Trabalhista e os seus membros corruptos, pensei que era melhor generalizar a sua publicação e acrescentar algumas coisas.

 

Se houve alguma coisa “conquistada” pela política, no pós-guerra, no Reino Unido (e de uma maneira geral nas chamadas democracias Ocidentais), foi a destruição da participação política pelo que se costumava chamar, as massas. Por exemplo, o Partido Trabalhista perdeu talvez um quarto de milhão de membros, desde que chegou ao poder em 1997.

 

Em geral, podemos dizer que o falhanço do socialismo em atrair grandes apoios teve um papel significativo neste processo, tendo como resultado um cínico fatalismo sobre a classe política dominante independentemente das suas alegadas filiações (isto é, Trabalhistas, Conservadores).

 

Desta forma, a exaltação que acompanhou a vitoria Trabalhista [Labour] de 1997 mostrou um eleitorado sinceramente chateado com 20 anos de poder Conservador [Tory] e outro que sinceramente acreditava que um governo Trabalhista traria verdadeiras mudanças para melhor.

 

No entanto, qualquer análise à política pós-guerra no Reino Unido revela um Partido “Trabalhista” firmemente agarrado ao capitalismo, não obstante o seu alegado “rosto humano”. Em grande medida, o Partido Trabalhista desenvolveu programas e políticas que um governo Conservador (até 1979) não foi capaz, muito por causa de uma classe trabalhadora organizada embora o Partido Trabalhista fosse cúmplice.

 

Explorando as suas credenciais “dos trabalhadores”, sucessivos governos “Trabalhistas” abriram a porta a governos Conservadores cada vez mais à direita. A Democracia foi reduzida a nada mais que organizar eleições; Trabalhistas, Conservadores, Trabalhistas, Conservadores... ad infinitum... até o Partido Conservador se tornar irrelevante, com os Democratas Liberais [Liberal Democrats] a serem uma ineficaz “válvula de segurança.

 

E de facto, isto foi e é, o principal “sucesso” do governo Blair. Conseguiu um dos serviços com mais sucesso na história da política. Com efeito, desenvolveu um programa “de dupla face” ao apresentar-se publicamente como um governo progressista e “modernizador”, enquanto fazia os programas mais regressivos e reaccionários da sua história. Foi capaz de fazer isso porque recrutou um completo exército de propagandistas e “bem falantes” que conseguiram disfarçar um programa regressivo e reaccionário e apresentá-lo como progressista.

 

Vejam, por exemplo, o que Blair fez ao Serviço Nacional de Saúde. Conseguiu privatizar segmentos inteiros pelas portas das traseiras, algo que nem a Thatcher conseguiu (ela só consegui cortar-lhes os fundos). À forca de propaganda eficaz, o governo Trabalhista fez com que a privatização parecesse modernização! Nada é o que parece. Explicações tornam-se exercícios de circunlocução e confusão. Lendo a “política” Trabalhista para a saúde ou educação, por exemplo, ninguém consegue fazer a mínima ideia do seu real significado. Os reais objectivos são enterrados sob camadas de generalidades e jargões, com o verdadeiro objectivo sendo só revelado pelas consequências, isto é, depois de um parlamento indolente ter carimbado as leis, ficando assim tarde de mais.

 

E ao explorar efectivamente um Partido Conservador moribundo como o partido de um rico e privilegiado Velho Poder Instalado [Old Establishment] (que sem duvida, é), conseguiu esconder a realidade do Novo Partido Trabalhista ser o partido das corruptas corporações internacionais e dos seus desonestos penduras “novos ricos”; o “Novo Poder Instalado.

 

L’affaire Berlusconi epitomiza esta nova classe política do capital internacional, composto por servos administrativos dos grandes negócios, advogados, investidores bancários, donos dos media e directores de corporações farmacêuticas, da energia e do armamento. Estes são, em todos os sentidos das palavras, os Novos Imperialistas.

 

Mas nada teria sido possível sem desligar o processo político que fazia funcionar a democracia mesmo com os constrangimentos e limitações do capitalismo. Um processo que necessitou, em primeiro lugar, de um poder político consolidado numa mão cheia de mandantes, o Gabinete de Blair e o seu exército de “conselheiros”, e em segundo lugar, um encorajamento aos cidadãos para se preocuparem apenas em consumir e apreciarem a “boa vida” mesmo que isso signifique fazer créditos de milhões e milhões de libras. De facto, do melhor para escravizar as pessoas com correntes invisíveis que os unem fortemente ao status quo.

 

Entretanto, uma classe política ambígua e cínica, habilmente assistida por um grupinho de profissionais de media que são, em todos os sentidos, intrínsecos da manutenção do sistema, tem sido capaz de mascarar a realidade do que foi feito ao processo democrático.

 

Em vez disso, foi-nos apresentado um conjunto de falsos “assuntos”, todos resultantes de um sistema que retirou o poder a grandes secções da sociedade, especialmente jovens, idosos, doentes, pobres e pessoas com pouca formação.

 

O governo de Blair, alinhando-se pelo mínimo denominador comum representado por uns media mercenários sob a forma de jornais como o Sun e o seu proprietário, Rupert Murdoch (e exemplificado com os Berlusconis), tem efectivamente explorado os frustrados, alienados e os seus medos e inseguranças.

 

Não é por acaso que as corporações mais próximas do governo de Blair são as gigantes corporações de media tais como a News Corp de Murdoch e as grandes companhias de energia, Shell/BP.

 

Foi isto que tornou o L’affarire Berlusconi tão perigoso pois tinha o potencial de expor a sujidade escondida do Novo Partido Trabalhista e as suas relações incestuosas com gangsters como Berlusconi e os aldrabões Tessa Jowel e o seu marido David Mills.

 

 

 

L’affaire Berlusconi

 

Para aqueles que não vivem aqui [Reino Unido] e que não estão a par do último escândalo que lavou como uma onda de esgotos a classe política desta nação mergulhada nas trevas da ignorância, vou tentar resumir o mais sucintamente possível.

 

Tessa Jowel, Secretária de Estado da Cultura, e casada com David Mills, um manhoso advogado que alegadamente recebeu um suborno de 334 000 libras (equivalente a cerca de 485 000 euros) de Berlusconi (um antigo cliente/sócio), o Primeiro Ministro de Itália, em troca por um testemunho que ajudaria a exonerar Berlusconi das acusações de corrupção de que estava a ser alvo.

 

Primeiro, o suborno, perdão, o “presente”, passou por cerca de meia dúzia de companhias bancárias diferentes espalhadas pelo planeta, antes de ir parar ao Reino Unido. Mas, como fazê-lo chegar às ganantes mãos do marido de Jowell? Eles (ou, de acordo com Mills, só ele) decidiram fazer um segundo empréstimo, hipotecando a sua casa de Londres por 400 000 libras (equivalente a cerca de 580 000 euros), meteram o dinheiro ao bolso e usaram o suborno, perdão, o “presente”, para pagar o empréstimo.

 

Brilhante, excepto os advogados Italianos que não estão apenas a investigar Berlusconi mas também o desonesto marido-advogado de Jowell e deixaram escapar para a imprensa um conjunto de documentos incriminatórios sobre as actividade de Mills, incluindo uma confissão escrita por Mills que teria mentido como um louco para tentar livrar Berlusconi das culpas.

 

Mills chama aos 334 000 libras, um “presente”, e diz que apenas os descreveu como um suborno para “obter aconselhamento fiscal” dos seus contabilistas. Acreditem nisso e também acreditarão na seguinte “explicação” da carta original que ele escreveu como sendo

“completamente ridícula”, acrescentando: “é aflitivo como é possível inventar tal coisa”.

 

Numa parte da sua carta aos contabilistas, ele disse

 

“Mantive contactos próximos com o pessoal do B[erlusconi]... eles também souberam que a forma como mostrei as minhas provas (não disse mentiras, mas dei a volta ao assunto, digamos assim) mantiveram o Sr. B fora de grandes problemas. Ele teria tido problemas se eu dissesse tudo o que sabia.” “Marido de Jowell e a questão do presente.” 19 de Fevereiro de 2006

observer.guardian.co.uk/politics/story/0,,1713145,00.html?gusrc=rss

 

(Sendo um media à parte, a BBC diz ter publicado o texto completo desta carta, mas esta e outras secções não aparecem na história da BBC. Vejam lá! Ver “Texto completo: Carta de David Miils”, 27 de Fevereiro de 2006. news.bbc.co.uk/1/hi/uk_politics/4757248.stm e comparar com a historia do Guardian de cima).

 

Quando a história rebentou, o problema de Jowell foi ter de mostrar que não estava envolvida com os negócios sujos do seu maridinho, já que a casa estava em nome dos dois. Levantavam-se questões de conflito de interesses.

 

Ela afirma que assinou documentos sobre a hipoteca mas aparentemente sem perguntar ao marido de onde vinham as 344 000 libras. Temos de imaginar os dois sentados e o marido saca de uns papéis e por acaso pede-lhe para os assinar, “Claro”, diz ela, “sem problemas, onde é que assino?” Sem fazer perguntas. Isto dá um novo significado à frase “a ver navios”. Segundo as regras governamentais, os ministros devem declarar qualquer “presente” dado aos seus cônjuges, para evitar qualquer conflito de interesses.

 

Soube-se que o Sr. Mills regularmente tomava a seu cargo a tarefa de informar a Secretaria Permanente do Ministério da Cultura [DCMS] de mudanças em posições negociais, incluídas no âmbito de 60 directorias.

 

Não achou, no entanto, necessário informar os cidadãos do empréstimo/hipoteca que fez em conjunto com a sua mulher e que depois foi pago suavemente com dinheiro de uma conta offshore.

 

O casal fez cinco empréstimos separados para a sua casa naquilo que parece ser um esquema para ganhar dinheiro rapidamente e capitalizar oportunidades de investimento.

politics.guardian.co.uk/labour/story/0,,1720470,00.html

 

Na semana passada, num esforço para limpar o nome de Jowell, ela foi “investigada” (uso esta palavra ser grande exactidão) pela Secretaria do Gabinete que depois entregou a sua “investigação” a Blair, que a declarou inocente de qualquer acusação. Parece a raposa a guardar o galinheiro!

 

O Código Ministerial, diz em determinada parte

 

“Os Ministros são pessoalmente responsáveis por decidirem as suas acções e comportamentos, à luz do Código e por justificarem as suas acções e comportamentos no Parlamento. O Código não é um livro de regras nem o papel da Secretaria do Gabinete ou de outros oficiais é fazê-lo cumprir ou investigar Ministros, apesar de poderem aconselhar Ministros de forma privada em matérias cobertas pelo Código.

 

O chamado Código é uma completa farsa. A Secretaria do Gabinete teve cerca de 24 horas para “investigar” l’affaire Berlusconi. Imaginem o que é tentar seguir os movimentos de dinheiro por um carrossel de companhias de fachada, que contabilistas judiciais experientes teriam dificuldade em seguir, e depois fazer a ligação com o conhecimento de Jowell, ou não, da proveniência do dinheiro.

Mas, claro, a poeira não ia limpar Jowell, por isso, neste fim-de-semana, Jowell e o seu marido decidiram “separar-se” e ele resolveu dar um giro até parte incerta.

 

E mais uma vez, sem surpresas, Mills diz que “está desgostoso pelas afirmações de que a sua separação é simulada”, dizendo ao Times que “A ideia de que pessoas pudessem separar-se por razões artificiais - simplesmente não é assim que os seres humanos se comportam.” Ai não?

 

Vários escrivãos servis do governo Trabalhista saltaram em sua defesa incluindo a terrível Margaret Beckett que disse que Jowell devia “ser forte” pois esta a ser sujeita a uma “caça às bruxas”. Fortes palavras, sem duvida.

 

Talvez pior ainda, são as acções do Ministério do Interior [Home Office] que foi sondado pelo pelos procuradores italianos sobre uma possível extradição de Mills para Itália, para ser acusado de fraude fiscal e lavagem de dinheiro. Em vez de ajudar, eles passaram todas as informações à embaixada Italiana em Londres! Em face disto, parece que o Ministério do Interior é cúmplice numa tentativa de fazer descarrilar a investigação. Lembrem-se que Blair e Berlusconi são grandes amigos.

 

O Ministério do Interior disse

 

“Nos finais de 2004 o Gabinete de Investigação de Grandes Fraudes [Serious Fraud Office] recebeu um pedido de um procurador de Milão de aconselhamento legal sobre em que circunstancias seria possível extraditar David Mills segundo a lei do Reino Unido, baseado em possíveis acusações sobre ele. O pedido foi passado ao Ministério Público [Crown Prosecution Service] que fez o aconselhamento legal e depois o Ministério do Interior passou à embaixada Italiana em Maio de 2005, já que os pedidos de extradição são normalmente conduzidos por canais diplomáticos.

 

Quando questionado por que razão tinham passado o caso para a Embaixada Italiana de Londres, o Ministério do Interior disse que se os procuradores conseguissem pedir a extradição isso levaria a

 

“circunstâncias que ninguém iria tolerar,”. “Inquérito a Jowell não irá até o Ministério do Interior

politics.guardian.co.uk/labour/story/0,,1720742,00.html?gusrc=rss

 

Pois claro! Compreensivelmente, os procuradores italianos ficaram bastante chateados com aquilo que lhes pareceu uma interferência do Ministério do Interior na sua tentativa de extradição de Mills. Alegam que os oficiais do Ministério do Interior “espalharam informação reservada por um grande número de pessoas” comprometendo assim a sua investigação, uma alegação que o Ministério do Interior nega, claro.

 

L’affaire Berlusconi é apenas o último de uma longa lista de desonestidades que têm acontecido, revelando uma classe dominante cínica que abandonou, há muito, qualquer pretensão em representar os cidadãos e um governo trabalhista que está grandemente envolvido e na cama com o grande capital. Relações próximas como as que Blair tem com Berlusconi, amiguinho dos neo-fascistas, tipificam um governo que sabe bem que grande parte do eleitorado Britânico se desligou da politica quase totalmente, pensando que, quaisquer que sejam os seus pontos de vista, eles serão completamente ignorados (a não ser que coincidam com a posição neo-liberal de Blair).

 

Não tenham dúvidas que aquilo que soubemos nas passadas duas semanas é apenas a ponta do iceberg, mas não esperem de pé que os chamados media de referência cavem bem fundo no monte de estrume que é o governo Trabalhista.

 

 

Traduzido por Alexandre Leite, a partir de um texto de William Bowles publicado a 9 de Março de 2006 em http://www.williambowles.info/ini/2006/0306/ini-0399.html

 

publicado por Alexandre Leite às 14:12
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