A Sociedade Americana de Cancro apresentou recentemente um conjunto de estatísticas sobre prevalência de cancro e taxas de mortalidade. Embora os dados possam parecer globalmente positivos e reflictam os avanços no tratamento do cancro e nas tecnologias de rastreio, os Estados Unidos continuam a dar o melhor tratamento aos cidadãos abastados e brancos.
O comunicado de imprensa da Sociedade Americana de Cancro aflorou a forma como a raça afecta os resultados na saúde:
“ No total de todos os cancros, os homens afro-americanos têm uma taxa de incidência 19% superior e uma taxa de mortalidade 37% superior à de homens brancos. As mulheres afro-americanas têm uma taxa de incidência 6% inferior mas uma taxa de mortalidade 17% superior à das mulheres brancas, no conjunto de todos os cancros.”
Não é apenas no cancro. Os homens e mulheres afro-americanos têm o dobro da probabilidade de morrer por doença cerebrovascular ou sofrerem um acidente vascular, de acordo com Instituto Nacional de Saúde. A taxa de sida entre afro-americanos é 10 vezes mais alta do que a dos brancos, de acordo com Agência de Investigação e Qualidade em Saúde, que faz parte do departamento de Serviços Humanos e de Saúde.
É rara a semana em que não assistimos à divulgação de um novo estudo que mostra o fraco tratamento de afro-americanos:
Negros à espera de transplante de pulmão têm mais probabilidade de morrer ou de não obterem transplante do que os brancos
Os negros têm mais probabilidade de morrer por sepsis severa
Negros e hispânicos têm menos probabilidade de receber medicamentos fortes para as dores nas urgências
Menos controlo da pressão arterial em negros com doença cardíaca
Cancro da próstata tem mais probabilidade de recidiva em negros do que em brancos
Mulheres negras recebem menos tratamento do cancro da mama
Negros idosos e latinos ainda ficam atrás dos brancos no controlo da diabetes
E se for um afro-americano a viver no Sul, as suas expectativas na saúde são ainda mais sombrias. Num estudo apresentado na Conferência Internacional de Acidentes Vasculares de 2005 da Associação Americana de Acidentes Vasculares, os investigadores relataram que afro-americanos a viverem no Sul estavam em grande desvantagem no combate aos acidentes vasculares.
“No que toca a risco de acidente vascular, é-se penalizado por ser afro-americano, é-se penalizado por viver no Sul, e têm-se uma penalização 'extra' por ser afro-americano a viver no Sul”, disse George Howard na conferência, professor e responsável do departamento de bioestatística da Universidade de Alabama em Birmingham.
A equipa de Howard comparou as taxas de acidentes vasculares nos estados da chamada 'cintura dos acidentes' que inclui o Alabama, Arkansas, Georgia, Louisiana, Mississippi, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Tennessee, Florida e Virgínia, com os estados não sulistas com grande população negra incluindo a Califórnia, Illinois, Indiana, Maryland, Michigan, New Jersey, Nova Iorque, Ohio e Pennsylvania.
Relatórios atrás de relatórios, de agências estaduais e federais, grupos de estudo, organizações sem fins lucrativos, e universidades, sublinharam as disparidades raciais não apenas no acesso a cuidados de saúde mas também em outras áreas como os salários, obtenção de casa própria, e educação. A Rede para a Investigação Multicultural de Cuidados da Saúde, da UCLA, é o último de uma longa linha de programas criados para estudar as disparidades raciais na área da saúde. O grupo da UCLA irá também “criar e desenvolver uma nova geração de investigadores com especialidade em disparidades nos cuidados de saúde”, de acordo com o que foi anunciado.
Mas precisamos de mais estudos e mais investigadores para nos dizerem o que já sabemos? Isso não será contornar o problema?
Já sabemos que estas disparidades existem há décadas. Elas estão bem documentadas. As instituições governamentais e académicas criaram uma indústria do estudo das disparidades, mas não deram passos significativos para as resolver. Até que os decisores políticos reconheçam o legado da escravatura americana e se empenhem em acabar com ele, estas lacunas nunca irão acabar.
Texto de Kathlyn Stone publicado em www.blackcommentator.com a 17 de Abril de 2008. Tradução de Alexandre Leite.
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