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A 12 de Agosto de 2008, , escritor e jornalista de reputação internacional, foi despedido da Radio France Internationale, em condições de inaudita brutalidade, que testemunham os novos métodos de gestão sob a presidência de Nicolas Sarkozy e do triunfo neo-conservador da equipa atlantista que gravita na esfera dirigente do pólo audiovisual francês difundido para o estrangeiro sob a batuta de Christine Ockrent, esposa do ministro trânsfuga dos Negócios Estrangeiros francês.
Este despedimento tinha sido antecipado por uma preparação psicológica arranjada pela SDJ (a Sociedade dos Jornalistas) que se chocava, bem antes da convocação do jornalista presumível faltoso, com as condições de realização do objecto de delito: a entrevista ao presidente Bachar al Assad, no prelúdio da sua visita a França.
A razão invocada para este súbito despedimento é efectivamente surrealista: Richard Labévière é acusado de não ter informado a direcção da rádio sobre a entrevista ao presidente sírio Bachar El Assad que ele tinha realizado em Damasco e que foi difundida a 9 de Julho pela TV5 e a 10 de Julho pela RFI, nas vésperas da visita oficial de El Assad e Paris, a convite do presidente Sarkozy.
Richard Labévière não é um vulgar Siné[1]. Ele foi redactor em chefe da RFI – posto do qual foi despedido por ter dado o seu apoio a Alain Ménargues[2], ele próprio obrigado a resignar por “anti-semitismo” a pedido do embaixador de Israel em França, Nissim Zvili. Depois foi responsável pela emissão matinal “Propose ?”, que lhe foi retirada em 2005, a pedido do mesmo embaixador. Não lhe restava mais nada do que a emissão “Géopolitique, le débat [Geopolítica, o debate]”, de 40 minutos, ao sábado. Já não a tem.
Richard Labévière
Bernard Kouchner deverá encontrar-se com Bachar El Assad na terça-feira em Damasco. Estamos curiosos de saber como ele explicará o despedimento de Labévière. Invocará ele o último livro publicado pelo jornalista em colaboração com o filósofo Bruno Jeanmart, Bernard-Henri Lévy ou la règle du Je [Bernard-Henri Lévy ou a regra do Eu] [3], um ataque contra o sátrapa mediático BHL, as iniciais pelas quais é conhecido? Ou será que vai explicar ao seu anfitrião sírio que “nós” não aguentávamos mais ouvir Labévière dizer que a capital de Israel é Tel Aviv e não Jerusalém?
E como explicará Kouchner este incrível despedimento à Madame Anne Gazeau-Secret, sua embaixadora em Haia, nos Países Baixos, e que para além disso é esposa de Richard Labévière ?
E quando é que os meios de comunicação franceses irão tornar pública a informação sobre o despedimento? No momento em que escrevo, quatro dias depois do despedimento, nenhum deles mencionou o assunto. A única informação publicado no mundo foi disponibilizada em árabe: Assafir e Al Manar em Beirute, Al Quds Al Arabi em Londres e um sítio na internet do Alep na Síria. Esquisito? Você disse esquisito?
Em conclusão, não posso deixar de encorajar os leitores que desejem informações em tempo real sobre os factos e as malfeitorias da França sarkoziana a começaram a aprender árabe. Para os que não seguem as minhas recomendações, aconselho-os a ler o excelente artigo de Mohamed Balut, correspondente em Paris do jornal diário Assafir, de Beirute. Para os que ignoram esta língua, eis um curto resumo do artigo:
« Depois da sua entrevista a El Assad
Despedimento de um jornalista francês simpatizante da causa árabe
O facto de ter falado com o presidente Bachir El Assad pode ter custado ao jornalista francês, para além da, o seu lugar na RFI e na TV5; Os meios de comunicação oficiais franceses não parecem estar ao corrente de que há uma reaproximação franco-síria, ou então tentam ignorá-la. Richard Labévière escreveu dezenas de artigos de apoiando a causa palestiniana e 2 livros no ano passado, um deles com Pierre Péan, “Bethléhem en Palestine” [4]. No seguimento desta publicação, ele encontrou no seu gabinete uma carta que dizia “Nós vamos-te tirar a pele”. A questão que se coloca depois do seu despedimento: será possível criticar Israel nos meios de comunicação franceses? É também preciso lembrar que Labévière afrontou no seu livro “La règle du je [A regra do eu]”, a filosofia judia de BHL, o qual, numa série de artigos na sua revista “Le régle du jeu [A regra do jogo]” criminaliza todas as pessoas que criticam Israel. Alain Ménargues já tinha pago o preço, Pascal Boniface, o conhecido investigador francês, foi isolado por uma violenta campanha da imprensa depois de ter publicado o seu livro com o revelador título “Est-il permis de critiquer Israël ? [É permitido criticar Israel?]”. Será uma coincidência que a mesma equipa constituída por Pierre Ganz, responsável das emissões em francês da RFI, Frank Weil-Rabaud e Nicolas Vespucci, que fizeram campanha contra Ménargues, tenha tomado a iniciativa de fazer campanha contra Labévière. E quem é que manifestou o seu apoio a Richard Labévière ? Unicamente o sindicato CFDT… »
Notas
[1] Desenhador satírico e anarquista despedido do hebdomadário Charlie-Hebdo por "anti-semitismo" pelo seu chefe neocon Philippe Val por ter escrito que Jean Sarkozy, o filho de Nicolas, se preparava para se converter ao judaísmo com vista ao casamento com a herdeira da cadeia de lojas Darty.
[2] Autor de dois livros que as autoridades de Israel e os seus amigos franceses não perdoaram: Les Secrets de la guerre du Liban : Du coup d'état de Béchir Gémayel aux massacres des camps palestiniens [Os Segredos da guerra do Líbano: Do golpe de estado de Béchir Gémayel aos massacres dos campos palestinianos] e Le Mur de Sharon [O Muro de Sharon].
[3] Jogo de palavras baseado na pronúncia semelhante da palavra francesa jeu (jogo) e je (eu) em alusão ao título da revista dirigida por Bernard Henri-Lévy, La règle du jeu, que por sua vez remete para a obra-prima do cineasta Jean Renoir.
[4] O autor enganou-se: o livro é de 1999.
PS : Não posso deixar de vos encorajar a seguir o meu exemplo e assinar a seguinte petição:
Abuso de poder e delitos de opinião: a imprensa francesa mais uma vez amordaçada e o seu pluralismo violentamente atacado no que toca à questão do Próximo e Médio Oriente. O audiovisual francês difundido para o estrangeiro (RFI, TV5, Monde e France24) dirigido pela esposa do Ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Christine Okrent, e o publicitário Alain de Pouzilhac, tomam conta das opções editoriais dos três grandes meios de comunicação públicos para lhes impor um pensamento e um discurso únicos, incodicionalmente pró-Israel. O despedimento estival e precipitado de Richard Labévière, Redactor em chefe da RFI e especialista no Próximo e Médio Oriente, por ter entrevistado o presidente sírio Bachar el Assad, inscreve-se na lógica de novos atentados ao pluralismo jornalístico, à liberdade de expressão, e aos Direitos do Homem em França; o país dos princípios e da filosofia das Luzes. Não deixemos que a arbitrariedade e o diktat ideológicos se instalem na França.
Assinar a petição
Texto de Fausto Giudice, publicado no seu blogue Basta!, a 16 de Agosto de 2008. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala.
Cidadãos ocupam o edifício do governo local, fartos das vendas de terrenos rurais comunais
Após anos de suspeição a fervilhar e de uma crescente revolta, os cidadãos de uma calma localidade do sul da China, com 3500 habitantes, decidiram que não estavam para aturar mais isto.
Ficaram perturbados com o que viram: os políticos locais pareciam ficar cada vez mais ricos e todas as outras pessoas a ficarem para trás, enquanto os terrenos que eram propriedade de toda a comunidade iam desaparecendo, para dar lugar a investimentos comerciais.
Os cidadãos locais quiseram saber como foram negociados estes terrenos e para onde estavam a ir as receitas daí provenientes.
Eles tinham direito a saber.
Por lei, os terrenos rurais – ao contrário dos urbanos – são propriedade de toda a comunidade, e são vistos como a pedra basilar para os camponeses da China ganharem a sua vida.
Por isso, a 2 de Julho, centenas de cidadãos cercaram o edifício municipal de Xiantang, exigindo examinar as contas.
Hoje – 101 dias depois – os cidadãos ainda aí estão.
Pode ser inédito na China moderna. Cidadãos não apenas a acusar os seus líderes de corrupção, mas a retirá-los do gabinete e a continuarem a ocupar o edifício da administração central – uma estrutura moderna, de cinco andares, enfeitada com uns inflamados cartazes vermelhos.
É uma visão surpreendente num estado autoritário.
“APOIAR O ESPÍRITO ANTI-CORRUPÇÃO DO SECRETÁRIO GERAL HU JINTAO”, grita um cartaz de 20 metros, invocando o nome do presidente chinês. “CONSTRUIR EM CONJUNTO UMA SOCIEDADE HARMONIOSA. LUTAR PARA ACABAR COM OS OFICIAIS CORRUPTOS QUE VIOLAM OS DIREITOS DAS PESSOAS”.
Imagem publicada no jornal japonês Daily Yomiouri
No interior do edifício, alguns cidadãos instalaram as coisas básicas para aí permanecerem, trazendo algo onde dormir, pequenos fogões e utensílios de cozinha. Outros apenas ocupam o edifício durante o dia.
Recentemente, numa tarde estavam cerca de 200 pessoas dentro do edifício.
Alguns têm perto de 20 anos. Mas muitos são de meia-idade ou já com cabelos brancos, e alguns têm mesmo para cima de 80 anos.
Todos pretendem um exame minucioso aos negócios do governo local e, encontrando algo de errado, querem que sejam instaurados processos.
Nas grandes e confortáveis instalações municipais, os cidadãos colocaram uma imagem do antigo líder Mao Tse-tung.
"Mao concedeu-nos esta terra", explica solenemente a cidadã Lai Shunyou, sentada numa das poltronas. "E eles [o governo local] venderam a terra a investidores, nas nossas costas!"
Lai Jiawen, com mais de 40 anos, fala apressadamente. "Se não os enfrentarmos agora, não vai sobrar nenhum pedaço de terra. Nós vivemos da terra. Mas agora não temos quase nada."
Ali perto, alguns dos mais idosos arranjam lugar para se sentar e ouvem atentamente.
"Estes idosos choram quase todos os dias", diz uma mulher, Li Jianrong.
A corrupção que envolve os membros de governos locais e os negócios de terrenos estão espalhados por toda a China.
O próprio governo central o disse abertamente.
No passado mês, um funcionário do Ministério do Território e dos Recursos anunciou uma campanha nacional para acabar com essa corrupção.
Gan Zangchun criticou os governos locais que têm "expandido arbitrariamente as áreas de desenvolvimento, violando os planos directores", afirmando que o governo central está preparado para agir. Dada essa intenção, os cidadãos daqui não compreendem porque é que o governo não veio em seu auxílio, a nenhum nível.
Nem a polícia se quis meter.
No passado dia 21 de Setembro, dois homens ligados à antiga administração local chegaram aos gabinetes e começaram a carregar caixas para uma carrinha, preparando-se para as levarem embora.
Alguns habitantes quiseram saber o que estava dentro das caixas. Quando os homens lhes disseram que eram "tortas da lua" – um doce tradicional chinês, típico das festas outonais – perto de 1000 pessoas bloquearam a passagem do veículo. Depois abriram as caixas e descobriram documentação contabilística municipal relativa a vários anos.
Até esse momento, os habitantes locais não tinham conseguido localizar os livros da contabilidade.
Os registos revelaram detalhes relativos a negócios de terrenos, aluguer de fábricas, e despesas de administração que eram desconhecidos da população.
“Havia milhões em receitas – que era uma novidade para os habitantes locais”, referia um curto mas detalhado resumo intitulado “Um apelo desesperado dos habitantes de Xiantang”, compilado por cidadãos e fornecido ao jornal Toronto Star.
Os cidadãos chamaram a polícia para registar uma tentativa de roubo dos livros da contabilidade, mas a polícia disse que o incidente ultrapassava a sua jurisdição.
“As pessoas sentiram-se ultrajadas”, disse Lai Shunyon.
Nos últimos 100 dias, os cidadãos enviaram delegações a vários níveis governamentais, fazendo apelo a uma investigação. Eles dirigiram-se à cidade de Longjiang, às autoridades distritais de Shunde, à cidade de Foshan, à província de Guangdong, e até ao gabinete de petições do governo nacional, que atende pedidos dos cidadãos de províncias distantes que julgam ter sido mal atendidas pelos governos locais.
Nenhum destes gabinetes os satisfez.
Uma dita investigação feita por uma equipa local, foi desconsiderada pelos habitantes que a consideraram uma tentativa de branqueamento.
Eles sublinham que não era permitida a participação dos cidadãos.
Também se queixaram que as notícias sobre Xiantang estão a ser bloqueadas.
“Ninguém pode saber do sofrimento dos habitantes. Os repórteres estão proibidos de falar sobre isso,” diz uma carta dos cidadãos.
Nenhum dos jornais chineses de âmbito nacional, que são todos propriedade do estado ou controlados por ele, relatou o protesto dos cidadãos.
Apenas um jornal de Hong Kong, o The Sun, apresentou uma breve reportagem nos finais de Setembro.
Entretanto, sem o apoio do governo e sem cobertura mediática, os cidadãos dizem que passaram a ser alvo de intimidação e ataques vingativos, aparentemente originados da família e dos apoiantes dos políticos afastados do poder.
Eles dizem que os recentes “incidentes terroristas” incluem o incêndio da casa de um dos habitantes; o assalto a uma mulher de 60 anos à frente de outras pessoas no edifício municipal; espalhar óleo vermelho nas portas de mercearias e barbearias daqueles que participam na ocupação; e o bloqueio de uma porta da casa de um cidadão com uma toalha embebida em gasolina.
Os habitantes acreditam que a sua segurança e as suas vidas estão sob ameaça.
Mesmo assim, continuam a guardar as contas da localidade, na esperança de que “autoridades mais elevadas e sensatas” lhes façam justiça e ordenem finalmente uma investigação exaustiva.
Entretanto, um responsável que chegou esta semana à cidade de Longjiang disse que não podia comentar os acontecimentos de Xiantang e encaminhou as questões para o gabinete de imprensa de Shunde. Questões que repetidamente ficaram por responder.
E responsáveis do gabinete de imprensa da província de Guangdong recusaram responder a perguntas enviadas por fax a seu pedido.
Texto publicado no jornal canadiano The Star, de Toronto, a de 11 de Outubro de 2007. Tradução de Alexandre Leite.
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