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Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

'Bilderbergues' do mundo, uni-vos!

 “No Iraque Pós-Guerra, Usar as Forças Militares para Defender Interesses Vitais dos EUA, Não para a Reconstrução da Nação” — Fundação Heritage

 

E caso não tenham percebido a ideia, o mesmo documento da Fundação Heritage, datado de 25 de Setembro de 2002 prossegue dizendo-nos,

“Proteger as infra-estruturas iraquianas de sabotagem interna ou de ataques estrangeiros para recolocar o Iraque nos mercados globais da energia e para assegurar que os EUA e os mercados mundiais de energia tenham acesso aos seus recursos.”[1]

 

Heritage Foundation

 

Tudo o que disser o contrário na imprensa estatal ou corporativa é apenas propaganda e/ou mentiras. Ponto final parágrafo.

 

Oleando as engrenagens do capitalismo com petróleo

 

O ponto de viragem no qual o petróleo tomou o lugar central aconteceu significativamente quando se iniciou o século XX e os navios imperiais mais poderosos, os alemães e os britânicos, deixaram o carvão e passaram e utilizar o petróleo. A partir desse ponto os destinos da Pérsia e do mundo árabe tornaram-se irrevogavelmente centrais para as ambições imperialistas ocidentais. Foi tanto assim que até à data estamos a viver (e a morrer) com os resultados, mais notavelmente os palestinianos e os iraquianos, sem esquecer as duas Guerras Mundiais onde o petróleo foi fulcral para todos as partes em combate, não apenas para a luta como para o controlo.

 

“Raramente discutido, no entanto, é o facto dos objectivos geo-políticos estratégicos da Grã-Bretanha, muito antes de 1914, incluírem não apenas o esmagamento o seu maior rival industrial, a Alemanha, mas, pela conquista através da guerra, o assegurar um controlo britânico inquestionável sobre o precioso recurso que, já em 1919, provava ser a matéria-prima estratégica de futuros desenvolvimentos económicos – o petróleo.” — ‘A Century of War’, F William. Engdahl, pág.38.[2]

 

O petróleo aumentou o alcance dos navios imperiais para dar a volta ao globo sem necessidade de reabastecimento, permitindo que a marinha britânica tomasse controlo dos oceanos e rotas comerciais do mundo. Um dos objectivos da Primeira Guerra Mundial era negar à Alemanha o acesso aos campos petrolíferos recém-descobertos onde agora é o Irão. Isto significava controlar o acesso ao Médio Oriente onde os britânicos controlavam o Canal do Suez (‘roubado’ aos franceses), o que eventualmente determinou o destino do povo da Palestina e de todo o Médio Oriente.

 

Claro que o petróleo é apenas um componente mas sem ele nada funciona, muito menos um exército mecanizado. Sem petróleo não há nada daquilo que o mundo moderno está dependente.

 

‘O jornal Energy Bulletin de 17 de Fevereiro de 2007 assinala que o consumo de petróleo dos aviões, barcos, veículos e instalações do Pentágono fazem dele o maior consumidor de petróleo do mundo. Nessa altura, a marinha dos EUA tinha 285 barcos de combate e de apoio e cerca de 4000 aviões em operação. O exército dos EUA tinha 28,000 veículos blindados, 140,000 veículos multi-usos de alta mobilidade, mais de 4,000 helicópteros de combate, várias centenas de aeronaves e uma frota de 187493 veículos. Exceptuando os 80 submarinos e porta-aviões nucleares, que libertam poluição radioactiva, todos os outros veículos consomem petróleo.’[3]

 

Os meios de comunicação corporativos, se alguém grita ‘Petróleo!’ quando se fala do Iraque, querem que acreditemos que essa pessoa é uma espécie de maluco, daqueles que são raptados por Ovnis, nada mais nada menos que uns adeptos da ‘teoria da conspiração’.

 

Em 2003, quando os EUA e o Reino Unido invadiram o Iraque, eu fiquei espantado com os argumentos desesperados da imprensa corporativa de que a invasão não tinha nada a ver com o petróleo, acusando os que afirmavam que o petróleo tinha tudo a ver com a invasão, de serem uns loucos adeptos da teoria da conspiração a obviamente a viverem na Área 51.

 

“Abundam as teorias da conspiração …. Outros defendem que foi por causa do petróleo…. Teoria que não faz sentido.” The Independent, 16 de Abril de 2003.

 

Mundo Viciado em Petróleo

O Mundo Viciado em Petróleo

(Manny Francisco, Manila,Filipinas)

 

Pelo contrário, as empresas do petróleo não se fizeram rogadas em vir falar sobre o papel fulcral do petróleo na invasão do Iraque, ecoando o que disseram os engravatados da Fundação Heritage:

 

“Eu diria que especialmente as empresas petrolíferas dos EUA… anseiam por um Iraque aberto ao negócio [depois do derrube de Saddam],” disse um executivo de uma das maiores empresas petrolíferas do mundo.”

“O que eles [os neo-conservadores do governo Bush] têm na ideia é a desnacionalização, e a divisão em parcelas do petróleo iraquiano para as empresas americanas. Nós conquistamos o Iraque, instalamos o nosso regime, produzimos petróleo ao máximo e dizemos à Arábia Saudita que vá para o inferno.” James E. Akins, antigo embaixador dos EUA na Arábia Saudita.

 

“Irá provavelmente ditar o fim da OPEP.” Shoshana Bryen, director de projectos especiais do JINSA (Instituto Judeu para Assuntos de Segurança Nacional), isto é, depois da queda do Iraque e da privatização do seu petróleo.

“As empresas americanas terão uma grande oportunidade com o petróleo do Iraque,” Ahmed Chalabi no jornal Washington Post.

 

Em “O Futuro do Iraque Pós-Saddam: Um Plano para o Envolvimento Americano”, uma série de documentos de Fundação Heritage, é desenvolvido um plano para a privatização do petróleo do Iraque e de facto para a privatização de toda economia iraquiana.[4]

 

Será uma conspiração? Bem, isso depende de como definem essa palavra. As definições do dicionário são estas:

  1. o acto de conspirar.
  2. um plano malévolo, ilícito, traiçoeiro, ou subreptício formulado em segredo por duas ou mais pessoas;
  3. uma combinação de pessoas com um propósito secreto, ilícito, ou malévolo.
  4. Jur. um acordo entre duas ou mais pessoas para cometerem crime, fraude, ou outro acto incorrecto.
  5. Qualquer concorrência de acções; conluio para obter um dado resultado.

Eu penso que todas colectivamente se encaixam na descrição da invasão do Iraque, afinal Bush e Blair conspiraram para burlar o mundo através da fabricação de provas sobre as armas de destruição em massa do Iraque de modo a invadirem ilegalmente o país. Eles conspiraram (com outros) para destruir um país e roubar os seus recursos, ergo: uma conspiração.

Dito isto, há aqueles que vão muito mais longe, afirmando que há uma conspiração global que já remonta desde há cem anos entre as classes políticas dos Estados Unidos e do Reino Unido que, em conjunto com poderosos banqueiros e conglomerados da energia, conseguiram controlar o planeta, os seus recursos, mercados e trabalhos. Mas será isso uma conspiração ou é meramente o imperialismo a fazer o que sabe melhor: roubar, matar e colonizar? Por outras palavras, precisamos de uma conspiração para explicar os acontecimentos? E se realmente existe uma conspiração há mais de cem anos? Isso não muda nada, continuamos a confrontar-nos com as mesmas forças.

 

O que é preciso perguntar é: Por que é que os meios de comunicação corporativos/estatais insistem em usar a palavra conspiração para ridicularizar quem questione a ortodoxia vigente? A resposta é imediatamente óbvia: a palavra conspiração foi distorcida de modo a não significar a sua definição do dicionário, mas sim tudo o que desafie as razões apresentadas pelos nossos mestres políticos sobre o funcionamento das coisas.

 

A História está repleta de todo o género de conspirações estatais e/ou corporativas, desde o Incêndio no Reichstag à provocação no Golfo de Tonkin, ou ao derrube feito pela CIA/ITT de Allende no Chile, às não existentes armas de destruição em massa do Iraque, daí a necessidade de não deixar que se estabeleça uma ligação entre o petróleo e o Iraque/Irão/Afeganistão, só para o caso das pessoas chegarem às conclusões certas sobre por que é que acontecem as coisas.

A linguagem é assim mutilada para servir os objectivos da classe corporativa, isto com a ajuda dos verdadeiros doidos das conspirações, que vêm tudo como uma conspiração, por vezes iniciadas há séculos atrás e que envolvem cabalas secretas de um ou de outro tipo. Ligar a esquerda a esta malta serve para degradar o nosso argumento e seguramente é esse o objectivo.

 

Não há dúvidas que a classe criminosa internacional traça ligações, projecta e planeia. É isso que o Council on Foreign Relations [Conselho de Relações Estrangeiras - EUA] (CFR) faz, tal como a Chatham House (Instituto Real de Assuntos Internacionais), o equivalente no Reino Unido, e ambas as organizações foram montadas no início do século XX com o fortalecimento da ‘Aliança Anglo-Saxónica’. A lista de membro do CFR ilustra o facto de os principais governos ocidentais serem efectivamente servos do Grande Capital.

 

Tal qual o grupo Bilderberg, composto por ‘capitães internacionais da indústria’ e políticos-chave das classes políticas dos principais estados capitalistas. Mas será isto uma conspiração? A um certo nível, não. No fundo é legítimo que as classes dominantes se organizem e planeiem. É por isso que Washington DC está a rebentar pelas costuras com tantas ‘Fundações’ e ‘Institutos’. Desde o final da Segunda Grande Guerra, milhares de milhões de dólares tanto públicos como privados, foram despejados nessas organizações. O seu objectivo? Espalhar o ‘mercado livre’ e combater quem se oponha, por meios correctos ou por meios pouco correctos.

 

‘“…os homens mais poderosos do mundo reuniram-se pela primeira vez” em Oosterbeek, Países Baixos [há mais de cinquenta anos], “debateram o futuro do mundo,” e decidiram reunir-se anualmente em segredo. Apelidaram-se de Grupo Bilderberg e os seus membros representam a nata das elites dominantes mundiais, principalmente da América, Canadá e Europa Ocidental, com nomes familiares como David Rockefeller, Henry Kissinger, Bill Clinton, Gordon Brown, Angela Merkel, Alan Greenspan, Ben Bernanke, Larry Summers, Tim Geithner, Lloyd Blankfein, George Soros, Donald Rumsfeld, Rupert Murdoch, outros chefes de estado, senadores influentes, congressistas e deputados, responsáveis do Pentágono e da NATO, membros da realeza europeia, figuras mediáticas seleccionadas, e outros convidados – alguns em segredo segundo algumas fontes, como Barack Obama e muitos dos seus oficiais de topo.” — ‘A Verdadeira História do Grupo Bilderberg’ Por Daniel Estulin.[5]

 

É claro que o capitalismo moderno evoluiu ao longo de gerações e gerações com toda a aparência de uma conspiração em amplo sentido, e uma do mais sofisticado que há, empregando um vasto exército de operacionais que incluiu elementos fulcrais nos meios de comunicação, academias, homens de negócio e políticos, quer dentro ou fora da governação. Uma ‘conspiração’ para manter o capitalismo como a única forma permissível de sociedade, como poderia ser de outra forma? Simplesmente há muita coisa em jogo e para provar isso basta-nos ver como esta poderosa elite internacional de negócios/governos/meios de comunicação conspirou para matar a COP15 [Conferência da ONU sobre as mudanças climáticas, que decorreu em Copenhaga] independentemente das consequências.

 

Ligações familiares, de formação, e de negócios —com o estado como ‘mediador’— criaram aquilo que é agora uma rede internacional que liga as classes dominantes dos mais poderosos estados capitalistas. É por isso que eles têm um Grupo Bilderberg, é onde os líderes dos negócios, a classe política, académicos e membros seleccionados dos meios de comunicação se encontram e formulam estratégias e tácticas, necessárias num mundo onde as comunicações são agora virtualmente instantâneas. Não serve ter governos a fazerem declarações que estão fora da linha do ‘consenso’, como acontece de tempos a tempos, e a ilusão esfuma-se por breves momentos.

Num mundo onde as forças económicas dominantes são poucas centenas de grandes corporações, corporações que de facto asseguram que os seus respectivos governos promovem políticas favoráveis à sua sobrevivência e que aumentem a prosperidade dos seus principais accionistas, a coisa lógica a fazer é combinarem sobre os assuntos que os afectam a todos. Eu ficaria extremamente surpreendido se o Grupo Bilderberg ou outro parecido, não existisse.

E os assuntos são fáceis de adivinhar: controlo/propriedade e acesso aos recursos; acesso a mão-de-obra barata; livre movimento de capitais; e por último, mas não menos importante, neutralizar os que desafiam o domínio do capital onde quer que eles apareçam.

 

Alinhado contra nós, o povo, está um vasto aparelho de controlo e manipulação que envolve órgãos governamentais, ‘não’-governamentais, fundações privadas, meios de comunicação, estatais e corporativos, ‘entretenimento’ em todas as suas extraordinárias formas, think tanks, institutos, fundações, academias, órgãos formais e informais, quer nacionais quer internacionais, associações, ONGs e ‘ONGs’, instituições de solidariedade e ‘instituições de solidariedade’, todas elas fortemente subsidiadas pelo estado e/ou corporações. Quem precisa dos ‘Illuminati’ quando temos todos estes alinhados contra nós?

 

Notas

1. Ver ‘In Post-War Iraq, Use Military Forces to Secure Vital U.S. Interests, Not for Nation-Building’ por Baker Spring e Jack Spencer, Backgrounder #1589, 25 de Setembro de 2002.

“A Administração deveria tornar claro que a presença militar dos EUA no Iraque após a guerra pretende assegurar interesses vitais dos EUA, não serve para o exercício da chamada construção de uma nação — a política aberta da Administração Clinton da enviar tropas americanas para regiões problemáticas onde não estavam ameaçados interesses vitais dos EUA.”

2. Penso que a melhor (e mais sucinta) análise deste período é a que foi feita por F. William Engdahl no seu livro ‘A Century of War’ Anglo-American Oil Politics and the New World Order’. Podem ver a minha crítica ao livro aqui. Comprem o livro aqui na Pluto Books.

3. Ver ‘Pentagon’s Role in Global Catastrophe: Add Climate Havoc to War Crimes’ por Sara Flounders com dados sobre o gigantesco apetite por petróleo por parte do exército norte-americano.

E aqui têm a fonte, ‘US military oil pains’ por Sohbet Karbuz, Energy Bulletin, 17 de Fevereiro de 2007. Note-se que os dados usados no artigo já têm mais de dois anos e estão longes de estarem completos, já que apenas incluem o petróleo comprado directamente pelo Departamento da Defesa dos EUA. Quaisquer que sejam os números eles estão a subir, provavelmente tão alto como 30 mil milhões de dólares anualmente, sem nenhum sinal de redução no horizonte, pelo menos de acordo com o Departamento da Defesa:

““No ano fiscal de 2005, o DESC [Departamento de Energia] irá comprar cerca de 128 milhões de barris de combustível com um custo de 8.5 mil milhões de dólares, e o combustível para aviação constitui perto de 70% das compras de produtos petrolíferos do Departamento da Defesa.”

“Para alguns, isto ainda não é suficiente. “Como o consumo de petróleo do Departamento da Defesa representa a maior prioridade de todos os usos, não haverá limites fundamentais ao fornecimento de combustível do Departamento da Defesa durante muitas e muitas décadas.”” — ‘United States Department of Defense … or Empire of Defense?’ Por Sohbet Karbuz, 6 de Fevereiro de 2006

4. http://www.heritage.org/Research/MiddleEast/bg1632.cfm,
http://www.heritage.org/Research/MiddleEast/bg1633.cfm

5. Ver ‘The True Story of the Bilderberg Group and What They May Be Planning Now.’ Uma crítica ao livro de Daniel Estulin feita por Stephen Lendman

 

 

Texto de William Bowles publicado a de 14 de Janeiro de 2010 em Creative-I. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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Sexta-feira, 2 de Março de 2007

A economia de 7/7 e outros mistérios do capitalismo, explicados.

 "Quando os políticos acenam com abstracções como se fossem bandeiras –
abstracções como a 'segurança' ou até a 'liberdade' – os cidadãos
devem suspeitar logo." [1]


Há uma coisa de que podemos estar certos: o estado capitalista está confuso e em crise. A cada dia que passa, a sua legitimidade esvai-se ainda mais. Muitos dos seus anteriores argumentos de qualquer tipo de legitimidade dependiam em grande parte da ‘defesa’ dos seus cidadãos contra um terrível inimigo que durante quase três quartos de século tinha sido o Comunismo. E tal como a 'Ameaça Vermelha' o actual inimigo, o ‘Fundamentalismo Islâmico’, também possui alegadamente poderes impiedosos e manhosos para subverter a democracia e penetrar bem no coração da nossa ‘democracia’. Mas ao contrário dos inimigos de antigamente, tão diabólica é a ‘conspiração islâmica internacional’ que os nossos direitos legais e civis têm de ser abolidos em mais uma ‘guerra’ para defender essas mesmas liberdades!

 

Uma terrível ironia, se consideramos que durante mais de cinquenta anos o ‘mundo livre’ entrou numa guerra que quase nos destruiu para, diziam-nos, nos defender. Mas agora, de forma a justificar este ataque frontal à ‘democracia’, teve de se criar um inimigo nunca antes visto.

 

“É possível que através de uma tirania de pequenas decisões, possamos construir uma sociedade de pesadelo”.[2]

 

Este novo ‘inimigo’, tal como o desaparecido, não foi criado do dia para a noite. Um completo edifício teve de ser construído, um pedaço de cada vez, com o ‘estrangeiro’ no seu coração. De aparência ‘não-britânica’, possuindo também ‘valores não-britânicos’, que é o mesmo que dizer não-cristãos, e por defeito não-brancos, os muçulmanos encaixam perfeitamente no papel. Para além disso, durante mais de um século, os árabes (ler muçulmanos), manhosos, marginais e absolutamente estranhos na cultura e nos valores, formaram a base para uma mitologia que pôde ser vista na ficção popular e mais tarde nos filmes. Assim, já estava à mão um ‘gancho’ onde pendurar o actual bode expiatório.

 

Não há dúvida que os media corporativos e estatais desempenham um papel fulcral na criação deste ‘inimigo infiltrado’, mas sem uma expressão física tal como atentados à bomba e outros actos cada vez mais excêntricos, ou mais precisamente, ameaças de ataques, convencendo um público que sofreu durante três décadas REAIS atentados do IRA sem se sentirem tão ameaçados, era necessária uma nova estratégia baseada na existência de indivíduos aparentemente irracionais, o ‘bombista suicida’, contra o qual a única defesa é, dizem-nos, uma quase completa ‘prisão’ da população através do uso arbitrário de detenções e o uso de tácticas de medo incluindo alegados ataques com gás, alegadas bombas nucleares de fabrico caseiro, alegados agentes biológicos. Um completo arsenal dos mais excêntricos mecanismos contra os quais a única defesa é, dizem-nos, a criação de um estado de vigilância total.

 

O papel dos media numa conspiração inspirada pelo estado foi o de diabolizar uma conveniente secção da sociedade, isto é, facilmente reconhecível, os muçulmanos, o novo ‘estrangeiro infiltrado’. ‘Barbudo, então vai haver assalto’ e já guetizados por uma sociedade institucionalmente racista, eles tornaram-se o foco de uma campanha de ódio que sinistramente faz eco de um anterior período da história europeia. No último ano, perto de 23000 pessoas foram detidas e revistadas com base nas leis ‘anti-terrorismo’, especificamente na Secção 44 do infame “Terrorism Act” [Lei do Terrorismo] de 2000. Não é necessária uma razão, basta que um polícia se lembre. Como resultado, apenas 27 indivíduos foram acusados com base em leis anti-terrorismo, mas o impacto na comunidade asiática tem sido devastador, alienando ainda mais uma secção alienada da sociedade. E, como até a polícia admite, os resultados foram totalmente contra-produtivos.[3]

 

Mesmo assumindo que o país está pejado de terroristas dispostos a destruir a ‘civilização ocidental’ (embora nunca seja explicado como é que isso iria acontecer com bombas de fabrico caseiro), as contradições da histérica resposta deliberadamente engendrada a esta alegada ameaça à ‘civilização’ não fazem sentido, a não ser que haja uma agenda escondida sobre a qual não estamos informados.

 

Se um país como a antiga União Soviética, armado até aos dentes com os enormes recursos do estado, após setenta e cinco anos não conseguiu esse alegado objectivo de derrubar o capitalismo, é razoável fazer a pergunta: porque é que o estado britânico embarcou numa política de criação de um estado policial de facto, repleto de leis que têm mais do que meras semelhanças com as aprovadas quer por Hitler quer por Mussolini? Entrem na “segurança baseada no medo”.[4]

 

“A segurança não é uma coisa que possamos ter mais ou menos até porque não é nenhuma coisa… é o nome que nós usamos para o estado da situação estendido no tempo caracterizado pela calculabilidade e previsibilidade do futuro… A impossibilidade de garantir a segurança radica no facto que tal como a justiça, e como a democracia, a ‘segurança’ não é tanto um estado empírico da situação mas um ideal – um ideal em nome do qual um grande número de procedimentos, mecanismos, relações sociais, e instituições políticas são concebidas e desenvolvidas.”[5]

Para responder a esta questão temos de nos virar para outro sítio qualquer que não uma gruta no Afeganistão ou um apartamento camarário em Birmingham ou Bolton.

A história do capitalismo está cheia de exemplos de ‘conspirações’ alegadamente geradas por grupos fanáticos empenhados em derrubar o satus quo, desde os primeiros sindicalistas até aos ‘anarquistas’ do final do séc.XIX e primórdios do séc.XX e por aí fora, todos requerendo que a ira do estado fosse dirigida para os desafortunados indivíduos envolvidos. De forma relevante, estas ‘conspirações’ foram usadas como desculpa para aumentar o controlo do estado sobre os seus cidadãos através da aprovação de vários estatutos que limitaram os nossos ‘direitos’ democráticos de manifestação e protesto, e agora até é crime pensar em derrubar o estado.

Também relevante, estas ‘conspirações’ foram usadas para justificar variadas guerras de agressão, quer contra o comunismo ou sob a capa da luta contra o comunismo, quer contra lutas de libertação nacional. A História está repleta de conspirações imperialistas inventadas para justificar estas guerras, incluindo o incidente do Golfo de Tonkin que conduziu à guerra do Vietname, ou os míticos MiG soviéticos alegadamente fornecidos aos sandinistas na Nicarágua, bem como as inexistentes armas de destruição em massa no Iraque de Saddam Hussein.

“Recuarmos para as margens do debate internacional, como alguns advogam, ou isolarmo-nos na cena internacional como forma de evitar os efeitos da mudança global, seria simplesmente enfraquecer o modo como enfrentamos e nos adaptamos a essa mudança e enfraquecer os interesses vitais britânicos. Recuo e isolamento não são o caminho para a libertação nacional, mas para a ruína nacional.” ‘Procurando uma política externa e activa e empenhada’. Discurso de Jack Straw na Casa dos Comuns, (27/11/2003)

Procurando por baixo da propaganda vamos encontrar a frase que diz muito sobre as verdadeiras razões para a invenção de uma ‘ameaça terrorista’, “os interesses vitais britânicos”. Mas o que se quer dizer com ‘interesses vitais britânicos’? E outra frase muitas vezes repetida, ‘segurança energética’, assim que começamos a observar, as declarações públicas mediáticas e estatais estão cheias destas frases, ‘os interesses de segurança nacional britânica’, recentemente usada para abafar a investigação policial a subornos feitos pela BAE Systems na Arábia Saudita.[6]

“Abundam as teorias da conspiração… Outros dizem que [a invasão do Iraque] foi inspirada pelo petróleo… [Esta] teoria é um grande disparate.” Jornal London Independent, 16 de Abril de 2003.[7]

Por trás das mentiras retóricas, está a verdadeira razão para a criação de uma ‘ameaça terrorista’, o mundano mundo da economia, pois em última análise vai tudo parar ao lucro sujo. Durante quinhentos anos o capitalismo ocidental foi roubando e escravizando continentes inteiros, exterminando culturas completas e populações, em busca do lucro. Fez isto, até ao séc.XX praticamente com impunidade, em virtude do esmagador poderio militar e controlo do comércio internacional, ele próprio protegido por uma força militar esmagadora.

Mas depois da queda da União Soviética em 1991, o capitalismo ocidental ficou sem justificação para continuar a pilhagem do planeta. Precisava de um inimigo novo atrás do qual pudesse continuar as suas operações e um efectivamente impossível de derrotar, pois ele não tem um centro, mas também porque o ‘terrorismo internacional’ simplesmente não existe, excepto como mensagem de propaganda.

Assim, sob a pretensão de fazer uma ‘guerra ao terrorismo’, iniciaram-se novas guerras de aquisição. No entanto, estas guerras tiveram de ser conduzidas nestas novas circunstâncias, em grande parte sem o apoio das populações domésticas.

Teve de ser engendrado um novo clima de medo para justificar as guerras imperialistas de conquista. Por isso, acima de tudo, o que foi necessário foi mesmo um cenário com mortos e com culpados, e nada melhor do que quatro ‘fundamentalistas islâmicos’ que convenientemente faleceram no massacre de 7 de Julho de 2005.

As contradições e perguntas por responder relativas aos acontecimentos de 7 de Julho de 2005 já foram discutidas noutra altura, mas basta dizer que há tantos buracos na história oficial que não espanta que o governo tenha resistido a todos os pedidos de um inquérito público. No entanto, se o Relatório Hutton serve de comparação para o que vale um inquérito sob o governo de Blair, viremos a descobrir pouco de relevante a partir de um inquérito. E pode ser argumentado que os ‘inquéritos públicos’ efectivamente anulam mais investigações ao criar a ilusão de uma ‘investigação independente’.

Mas se os quatro ‘bombistas suicidas’ foram ao engano ou não (é a minha aposta sobre os acontecimentos de 7 de Julho), eles serviram o que era pretendido, nomeadamente a justificação para a criação de um estado securitário com base no medo, no qual podem ser aprovadas leis ainda mais repressivas e por extensão a continuação de uma guerra externa de agressão.

Devia ser óbvio, deste modo, que a ‘guerra de cá” e as guerra conduzidas no estrangeiro estão intimamente ligadas. De facto, elas são os componentes gémeos de um ciclo vicioso, e é por isso que o governo Blair foi tão inflexível na resistência à ligação entre a invasão do Iraque e o aumento do ‘radicalismo islâmico’, apesar de mesmo nesse assunto nunca ter sido clarificado se foi o Islão ou o nacionalismo que fez aumentar o activismo dentro da comunidade asiática do Reino Unido. E para além disso, a diabolização do Islão é em si mesma uma importante fonte de revolta e ressentimento, especialmente entre os jovens asiáticos que sofrem agora múltiplos actos de racismo, pobreza e uma xenofobia cuidadosamente engendrada.

Em última análise, o sistema capitalista floresce na criação de crises, ou naquilo que Naomi Klein erradamente chama ‘capitalismo desastroso’, uma nova descrição de uma velha doença, pois numa época de vigilância electrónica global, o negócio da criação de um estado securitário é em si mesmo um grande negócio, e como sempre, também a guerra. Este é o velhinho imperialismo como o do tempo em que o Brittania dominava os mares.

Mas mais importante do que aquilo que na realidade é uma privatização das actividades do estado, é o facto de a ‘guerra ao terrorismo’ representar uma tentativa desesperada para lidar com o vasto excesso de acumulação de capital que teve lugar desde a queda da União Soviética. Tão grande é o volume gerado desde a queda do ‘comunismo’ que nem mesmo a privatização total de grandes fatias dos ‘bens comuns’ não consegue absorver tudo.

Como sempre, a guerra é a ‘solução’, independentemente da forma que adquira, e de modo a justificar tão avultados gastos, como dizem Bush e Blair abertamente, é necessária uma guerra infinita. Parece que cinquenta anos são mandados às urtigas a não ser que não consigamos entender a mensagem.

É no interior desta crise que encontramos a fonte da ‘guerra ao terrorismo’ e daí a necessidade de 11 de Setembro e 7 de Julho, pois sem tais ‘inimigos’ invisíveis como é que poderíamos justificar a carnificina, muito menos os gastos e a criação de um grande estado global corporativo securitário?


Também pode ler este texto no excelente website The July Seventh Truth Campaign.

Notas

1. “Governing Security, Governing Through Security”, em: R.J.Daniels, P. Macklem e Kent Roach (2002), Security of Freedom: Essays on Canada’s Anti-terrorism Bill, U of T Press, pág. 85.

2. “Privacy in an Age of Terror”, por Mike France e Heather Green, Business Week, 5 de Novembro de 2001.

3. De acordo com um relatório da Polícia Metropolitana no ano anterior a Setembro de 2006, a Polícia Metropolitana efectuou 22672 detenções e buscas sob a secção 44. Isto levou a 27 detenções por terrorismo, o relatório da Polícia diz: “A sua eficácia … está sérias dúvidas.” The Ealing Times, 22 de Fevereiro de 2007.

4. ‘Fear-based Security: The Political Economy of ‘Threat’’ Por Margaret Beare, Nathanson Centre for the Study of Organized Crime and Corruption

5. “Governing Security, Governing Through Security”

6. ‘Al Yamamah: Another Government Capitulation To Big Business

7. ‘AHMED CHALABI – OIL MAN IN BAGHDAD’, William Bowles (18/04/2003)

 

 

 

Texto de William Bowles publicado em http://williambowles.info/ini/2007/0207/ini-0472.html a 26 de Fevereiro de 2007. Traduzido por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 23:01
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Todos os textos aqui publicados são traduções para português de originais noutras línguas. Deve ser consultado o texto original para confirmar a correcta tradução. Todos os artigos incluem a indicação da localização do texto original.

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