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Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Esqueçam os duches rápidos

Por que é que uma mudança pessoal não vale tanto como uma mudança política

 

Alguma pessoa lúcida diria que procurar coisas úteis no meio do lixo teria feito parar o Hitler, ou que fazer compostagem teria acabado com a escravatura ou conquistado a jornada de trabalho de oito horas , ou que cortar madeira e transportar água teria tirado as pessoas das prisões czaristas, ou que dançar nu à volta de uma fogueira teria ajudado a construir a Lei do Direito de Voto de 1957 ou a Lei dos Direitos Civis de 1964? Então porque é que agora, quando o mundo está em jogo, tantas pessoas se refugiam nessas “soluções” inteiramente pessoais?

Parte do problema é que nós fomos vítimas de uma campanha de engano sistemática. A cultura consumista e as ideias capitalistas ensinaram-nos a substituir por actos de consumo pessoal (ou de sofisticação) a resistência política organizada. O filme “Uma Verdade Inconveniente” ajudou a aumentar a consciência sobre o aquecimento global. Mas repararam que todas as soluções apresentadas tinham a ver com o consumo pessoal – mudar lâmpadas, encher pneus, conduzir menos – e nada a ver com retirar o poder às corporações, ou com parar o crescimento económico que está a destruir o planeta? Mesmo que todas as pessoas nos Estados Unidos fizessem o que o filme sugere, as emissões de carbono nos EUA cairiam apenas 22%. O consenso científico é de que as emissões têm de ser reduzidas pelo menos 75% a nível mundial.

Ou falemos então sobre a água. Ouvimos tantas vezes dizer que o mundo está a ficar sem água. Há pessoas a morrer por falta de água. Há rios a secar por falta de água. Por causa disso precisamos de tomar banhos de chuveiro mais rápidos. Vêem a não ligação? Porque eu tomo banho, eu sou responsável por esgotar os aquíferos? Não é bem assim. Mais de 90% da água usada pelos humanos é gasta na agricultura e na indústria. Os restantes 10% são dividido entre os municípios e os seres humanos que realmente vivem e respiram. Colectivamente, os campos de golfe municipais usam tanta água como os seres humanos desses municípios. A população (quer a humana quer a piscícola) não está a morrer porque o mundo esteja a ficar sem água. Eles estão a morrer porque a água está a ser roubada.

Ou falemos de energia. Kirkpatrick Sale resumiu bem: “Nos últimos 15 anos a história tem sido a mesma todos os anos: o consumo individual – residencial, de automóveis, e por aí fora – nunca é mais de um quarto de todo o consumo; a grande maioria é comercial, industrial, empresarial, da agricultura e governamental [ele esqueceu-se do ramo militar]. Portanto, mesmo se todos usássemos bicicleta e fogões a lenha isso teria um impacto negligenciável no uso da energia, no aquecimento global e na poluição atmosférica.”

Ou falemos do lixo. Em 2005, a produção de lixo municipal per capita (basicamente tudo que é posto no saco do lixo na beira do passeio) nos EUA era cerca de 753 Kg. Imaginemos que é um acérrimo activista com uma vida simples, e consegue reduzir isto a zero. Recicla tudo. Leva sacos de pano para as compras. Concerta a sua torradeira. Os dedos dos seus pés já se notam a sair dos seus velhos sapatos. Mas mesmo assim ainda não está satisfeito. Como o lixo municipal inclui para além do lixo doméstico, o lixo dos escritórios da administração pública e dos negócios, você vai até esses escritórios, com panfletos sobre a redução do lixo, e convence-os a reduzirem o lixo deles, equivalente à sua parte. Ups, tenho más notícias. O lixo municipal só representa 3% do lixo total produzido nos Estados Unidos.

Deixem-me ser claro. Não estou a dizer que não devemos ter uma vida simples. Eu vivo de forma razoavelmente simples, mas não penso que comprar pouca coisa (ou não conduzir muito, ou não ter filhos) seja um acto político forte, ou que seja profundamente revolucionário. Não é. A mudança pessoal não é o mesmo que a mudança social.

Então como é que nós, e especialmente com o mundo inteiro em jogo, começámos a aceitar estas respostas altamente insuficientes? E penso que parte da resposta é que nós estamos entre a espada e a parede. É uma situação em que temos mais do que uma opção, mas qualquer que seja a opção escolhida ficamos a perder, e desistir não é uma opção. Neste ponto, deve ser bem fácil de reconhecer que todas as acções que envolvam a economia industrial são destrutivas (e não pensem que os painéis solares fotovoltáicos, por exemplo, nos excluem disso: eles também precisam das minas e das infra-estruturas de transporte em qualquer ponto do seu processo de produção; o mesmo pode ser dito de qualquer outra tecnologia dita verde). Por isso, se escolhermos a opção 1 – se participarmos avidamente na economia industrial – podemos, no curto prazo, pensar que ganhamos por acumularmos riqueza, o que traz o “sucesso” nesta cultura. Mas nós perdemos, porque ao fazer isso abdicamos da nossa empatia, da humanidade animal. E perdemos realmente porque a civilização industrial está a matar o planeta, o que significa que toda a gente perde. Se escolhermos a opção “alternativa” de viver de forma mais simples, causando assim menos danos, mas mesmo assim não impedindo que a economia industrial mate o planeta, podemos pensar, no curto prazo, que ganhamos porque nos sentimos puros, e não temos de abdicar de toda a nossa empatia (só o suficiente para impedir os horrores), mas mais uma vez perdemos realmente porque a civilização industrial está a matar o planeta, o que significa que toda a gente perde. A terceira opção, agir decisivamente para fazer parar a economia industrial, é bastante assustadora por várias razões, incluindo, mas não só, o facto de perdermos alguns dos luxos (como a electricidade) com os quais nos acostumámos a viver, e o facto de aqueles que estão no poder, poderem vir a tentar matar-nos se nós impedirmos seriamente a sua capacidade de explorar o mundo – apesar disso não alterar o facto de essa ser uma opção melhor do que um planeta morto. Qualquer opção é melhor do que um planeta morto.

Para além de não produzir o tipo de mudanças necessárias para impedir que esta cultura destrua o planeta, há pelos menos outros quatro problemas com a visão de uma vida simples como um acto político (em oposição a uma vida simples apenas porque é isso que lhe apetece fazer). O primeiro é que se baseia na noção errada de que os humanos danificam inevitavelmente o seu meio envolvente. Uma vida simples como acto político consiste apenas na redução dos danos, ignorando o facto de que os humanos tal como podem prejudicar a Terra podem também ajudá-la. Podemos reabilitar ribeiros, podemos retirar ervas daninhas, podemos remover barragens, podemos romper um sistema político inclinado para os ricos bem como para um sistema económico extractivo, podemos destruir a economia industrial que está a destruir o mundo físico, real.

O segundo problema – e este também é bem grande – é que atira incorrectamente as culpas para a pessoa individual (e mais especialmente para os indivíduos que são particularmente pouco poderosos) em vez de culpar os que realmente têm poder neste sistema ou então o próprio sistema. Kirkpatrick Sale novamente: “Essa coisa da culpa individualista de o-que-podes-fazer-para-salvar-o-planeta é um mito. Nós, como indivíduos, não estamos a criar as crises, e não podemos resolvê-las.”

O terceiro problema é que aceita a redefinição capitalista de nós, passando de nós cidadãos para nós consumidores. Aceitando esta redefinição, nós reduzimos as nossas potenciais formas de resistência a consumir ou não consumir. Os cidadãos têm um leque muito maior de tácticas de resistência disponíveis, incluindo votar, não votar, candidatar-se a um cargo, distribuir panfletos, boicotar, organizar, fazer lóbi, protestar, e, quando um governo se torna destruidor da vida, da liberdade e da procura da felicidade, nós temos o direito a alterá-lo ou aboli-lo.

O quarto problema é que, no limite, a lógica de viver uma vida simples como um acto político é suicidária. Se qualquer acto dentro da economia industrial é destruidor, e se nós queremos parar essa destruição, e se não queremos (ou somos incapazes) de questionar (muito menos destruir) as infra-estruturas intelectuais, morais, económicas, e físicas que fazem com que cada acto da economia industrial seja destrutivo, então podemos facilmente vir a acreditar que causaremos o mínimo de destruição se estivermos mortos.

A boa notícia é que há outras opções. Nós podemos seguir os exemplos de bravos activistas que viveram os tempos difíceis que mencionei – a Alemanha Nazi, a Rússia Czarista, os Estados Unidos pré-guerra civil – que fizeram muito mais do que manifestarem uma forma de pureza moral; eles opuseram-se activamente às injustiças que os rodeavam. Podemos seguir os exemplos dos que lembraram que o papel de um activista não é conseguir passar por um sistema de poder opressivo com o máximo de integridade possível, mas antes confrontar e derrubar esses sistemas.

 

Texto de Derrick Jensen publicado na Revista Orion em Julho de 2009 e traduzido para a InfoAlternativa por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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Quinta-feira, 31 de Maio de 2007

Então o que é que mudou?

É hora de uma conversa séria sobre o assunto das alterações climáticas, do capitalismo, e da forma como os movimentos progressistas abordam o tema, pelo menos no chamado mundo desenvolvido. (Os progressistas do mundo desenvolvido têm agora necessidades mais prementes e é por isso que temos de nos juntar.)

Muito bem, um bando de cientistas 'eminentes' colaram oficialmente o selo de aprovação à mudança climática mas também é obvio que as maiores nações industriais não estão preparadas para arregaçar as mangas e fazer o que é necessário para parar a escorregadela quanto mais para revertê-la.

Em vez disso, a indústria publicitária já criou o seu conceito 'verde' e com o hábil apoio do governo, está a montar um enorme campanha de propaganda cujo único objectivo é transferir a responsabilidade das alterações climáticas para o consumidor.

A questão que os socialistas têm de fazer é simples: O que é que mudou? O capitalismo pré-alterações-climáticas é idêntico em todos os aspectos ao de hoje. Aquilo que se passou é que o nosso passado nos apanhou, o que não deveria ser uma surpresa para quem saiba um mínimo sobre a forma de funcionamento do capitalismo.

O caso é que pode ser já tarde demais para parar as mudanças que estão a acontecer no nosso clima, nada modificando a nossa abordagem excepto que aumentou a urgência da situação.

Historicamente, a esquerda olhou para os 'verdes' com desconfiança e nalguns casos, pelas razões certas. Não tendo uma perspectiva de classe, o movimento ambientalista (ou será melhor, os movimentos?) não conseguiu identificar as reais causas da crise que enfrentamos. Pior do que isso, tendo agora encontrado um 'aliado' no governo e como não tem uma perspectiva de classe, está agora a pedalar no trilho do governo, especialmente na passagem da batata quente para o 'consumidor'.

De facto, o movimento ambientalista corre o risco de se tornar totalmente cúmplice no processo da passagem da responsabilidade daqueles que governam para os trabalhadores. O que acontece é que como em todas as crises que enfrentamos, o tema da mudança climática está inextricavelmente ligado ao modo de funcionamento do capitalismo, não apenas porque ele é estruturalmente incapaz de fazer as mudanças necessárias mas também porque os interesses instalados do estado e dos negócios estão unidos, por isso, esperar que eles façam as mudanças necessárias voluntariamente é uma fantasia. Ter engaiolado o movimento ambientalista deu ao estado uma fina camada verde, mas raspem um bocadinho e o verdadeiro núcleo de ferro fica à mostra para todos verem.

E talvez ainda mais importante, pelo menos nas circunstâncias actuais, é a forma como a elite dominante está a explorar a devastação que o nosso sistema político-económico causou no planeta e nos seus habitantes. Importante porque o estado está a explorar os medos, quer reais quer imaginários, que muitas pessoas sentem em relação ao futuro (esqueçam o terrível presente), e é um medo que o estado foi lesto a explorar, por exemplo, usando o eufemismo da 'segurança energética'.

Torna-se claro que, apesar de tudo, a maioria das pessoas no mundo desenvolvido sabem muito bem que a sua riqueza relativa depende da (crescente) pobreza da grande maioria das pessoas do planeta. Daí um aspecto da campanha de propaganda ser o de ligar o medo de perder uma posição de (relativo) privilégio, por exemplo, ligando a 'guerra ao terrorismo' à 'segurança energética'.

Deveria ficar claro, deste modo, que seleccionar os 'muçulmanos fanáticos' como foco de atenção, não foi uma escolha à toa, dado o facto de o grosso das reservas conhecidas de petróleo estarem em países que são muçulmanos.

Independentemente do que dizem os propagandistas, o petróleo é fulcral para as economias ocidentais e tem sido assim pelo menos desde há um século. Petróleo, não apenas para alimentar o seu insaciável apetite de fabricar produtos mas também, é claro, para alimentar o poderio militar para obter aquilo que não é seu. [1]

Entretanto, a BBC está a produzir abundantemente programas 'verdes' mostrando principalmente uma mão cheia de pessoas da classe média bem arrumadinhas em grandes casas com paisagens rurais. Os 'menos afortunados' de nós, ficam com o tratamento dos 'cálculos da poupança energética' ou com algumas inúteis turbinas eólicas aparafusadas aos telhados.

Tendo gasto décadas a inculcar a cultura de consumo, as desafortunadas pessoas estão agora a ser conduzidas à culpa por fazerem precisamente isso – consumir alegremente como se não houvesse amanhã.

E é claro que a culpa é expiada pelo consumo de produtos e serviços 'verdes'. “A poupar o ambiente” foi comercializado como tudo o resto.

A verdadeira natureza do capitalismo é a de um caos quase controlado, sempre balançando na margem da crise e muitas vezes caindo na calamidade, guiado pelos seus imperativos de expandir (isto é, de reproduzir o capital) sem olhar a consequências, como a ocupação do Iraque demonstra.

Para os socialistas, o tema da desestabilização do clima apenas reforça a visão de que o capitalismo é mau para nós, por isso, o objectivo tem de ser o de ligar a natureza arbitrária da produção capitalista à sua incapacidade de produzir uma solução que implique uma reorganização completa da economia de base, não apenas desta sociedade como também de todo o planeta.

O caso é simples: o capitalismo é capaz de o fazer? A julgar não apenas pela sua resposta à actual situação mas também pelo seu passado, a resposta é um estrondoso não.

Em última análise, o tema do aquecimento global é irrelevante para a crise que enfrentamos pois nada mudou. Para o capitalismo, continua o 'business as usual' [o negócio a rolar], a forma como nos são vendidos os produtos é que mudou. Assim, o desafio do aquecimento global é transformado numa maquina de marketing que serve para os automóveis 'verdes' como para qualquer outro produto que tenha o rótulo 'verde' colado nele.

Ao contrário dos filmes do Armaguedão que Hollywood produz a jorros, nos quais a humanidade se junta para derrotar uma ameaça extra-terrestre, quando confrontado com um cenário comparável no mundo real, fazer o que está certo pela humanidade escapa a estes campeões da 'democracia' e dos 'direitos humanos'.

Eu sei que isto soa naif e provavelmente é, mas fazer uma conferência global de nações na qual os países ricos concordem em colocar os seus vastos recursos à disposição das pessoas do planeta, parece-me ser, dada a gravidade da situação, o óbvio a fazer.

O facto de eles não fazerem isso, ou algo do género, é prova suficiente de que eles são incapazes de agir racionalmente, muito menos responsavelmente. Um facto que deve dar um arrepio na espinha a qualquer pessoa pensante é perceber que temos este tipo de pessoas no poder! Pior ainda, que permitimos que continuem a destruir o nosso outrora belo planeta.

Colectivamente, o planeta tem os recursos necessários para iniciar a mudança na forma como nós vivemos, e por 'nós' eu quero dizer aqueles de nós que fazem parte dos 10% ricos e privilegiados do mundo, e nesse processo ajudar os países desenvolvidos a implementar programas de desenvolvimento económico sustentável. Que Diabo! Não é assim tão complicado!

Não posso explanar muito este ponto, mas é imperativo que as pessoas reconheçam que as nossas elites políticas e económicas são patologicamente incapazes de iniciar este tipo de mudanças que precisam de ser feitas, ou agora ou numa outra altura do passado. Eles têm de ir embora, e só nós é que nos podemos livrar deles. E isto refere-se a todos os partidos políticos existentes, não apenas aos 'governos'.

Se não fizeram mais nada, as alterações climáticas fizeram-nos, pelo menos, perceber que vivemos num planeta indivisível e as mudanças que estão a acontecer são globais, por isso, só uma resposta colectiva global irá ser suficiente.



Nota
1. Ver a minha
análise [em inglês] ao excelente livro de William Engdahl, ‘A Century of War – Anglo-American Oil Politics and the New World Order’, Pluto Books, 2004.


 


Texto de William Bowles publicado a 30 de Maio de 2007 em http://williambowles.info/ini/2007/0507/ini-0485.html . Tradução de Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 23:23
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