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Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

E, de repente, a revolução

Em 1999 dois cães cruzam-se na fronteira. Um, argelino, fraco, desfalecido, coxo e roído pelas pulgas, tenta entrar na Tunísia; o outro, tunisino, lustroso, bem alimentado, limpo, saudável, tenta entrar na Argélia. O tunisino está perplexo: “por que queres entrar no meu país”, pergunta. O argelino responde: “porque quero comer”. E imediatamente acrescenta, ainda mais perplexo que o seu companheiro: “O que não entendo é por que razão queres tu entrar na Argélia”. O tunisino responde então: “porque quero... ladrar”.

Em 1999, quando se contava esta anedota nos meios intelectuais, a Tunísia estava amordaçada, mas por seu lado desfrutava – dizia-se repetidamente – de uma situação económica incomparavelmente melhor que o resto do mundo árabe. Com um crescimento médio de 5% durante a década passada, o FMI mostrava o país como um exemplo das vantagens de uma economia livre das barreiras proteccionistas e no ano 2007 o Fórum Económico Mundial para África declarava a Tunísia como o país “mais competitivo” do continente, acima da Arica do Sul. “Kulu shai behi”, tudo vai bem, repetia a propaganda do regime em cartazes publicitários, editoriais da imprensa e debates coreográficos na televisão. Enquanto o governo vendia 204 empresas do robusto sector público criado por Habib Bourguiba, o ditador ilustre e socialista, multiplicava-se o número de veículos 4x4 nas ruas, construíam-se na capital bairros inteiros para os negócios e le loisir e até 7 milhões de turistas acudiam todos os anos a desfrutar da cada vez mais sofisticada e sólida infraestrutura hoteleira do país. Em 2001, quando se abriu o primeiro Carrefour, símbolo e anúncio da entrada na civilização, alguns podiam ter a ilusão de que Tunes era já uma província de França. Era um país maravilhoso: a luz mais limpa e formosa do mundo, as melhores praias, o deserto mais hollywoodesco, as pessoas mais simpáticas. Não se podia falar nem escrever, é verdade, mas em troca as pessoas engordavam e o islamismo recuava. A UE e os Estados Unidos, mas também as agências de viagens e os meios de comunicação contribuíam para alimentar a imagem de um país mais europeu que árabe, mais ocidental que muçulmano, mais rico que pobre, em transição para a felicidade do mercado capitalista. Nem se podia falar nem escrever, é verdade, e também é verdade que ocupava o segundo lugar na classificação mundial da censura informática, mas o esforço do governo merecia uma recompensa: Tunes organizou uma Taça de África, um Mundial de Andebol e em 2005 uma insólita Cimeira da Informação, durante a qual se ocultou ao mundo uma greve de fome de juízes e advogados e se detiveram jornalistas e bloguistas.

 

Por pouco que alguém se tivesse molestado em riscar por baixo dessa superfície bem envernizada, teria descoberto uma realidade bem distinta. Ninguém ou quase ninguém o fez. De Janeiro a Junho desse ano 2005, por exemplo, o jornal espanhol El País publicou 618 notícias relacionadas com Cuba, onde não se passava nada, e 199 sobre Tunes, todas sobre o turismo ou sobre o mundial de andebol; o jornal El Mundo, nesse mesmo período, registou 5162 entradas sobre Cuba, país onde não se passava nada, e só 658 sobre Tunes, quase todas sobre o mundial de andebol; e o jornal ABC virou o olhar 400 vezes para Cuba, país onde não se passava nada, enquanto que só mencionou a Tunísia 99 vezes, 55 das quais relativamente ao mundial de andebol. A 10 de Março desse mesmo ano uma rápida busca no Google dava 750 ligações sobre a distribuição em Cuba das famosas panelas de pressão e apenas três (duas da Amnistia Internacional) sobre a greve de fome e a tortura de presos em Tunes.

 

Mas o certo é que o Carrefour e os humvee – e a vida nocturna em Gammarth – ocultavam não só a normal repressão exercida por Ben Ali desde 1987, ano do golpe palaciano ou da Grande Mudança, mas também o desaparecimento de uma classe média que se tinha começado a formar nos anos 60 e que tinha sobrevivido à crise do final dos anos 80. Uns poucos entravam no Carrefour e outros muitos saíam do país: cerca de um milhão de jovens tunisinos – numa população de 10 milhões – vivem fora, sobretudo em França, Itália e Alemanha. Ao mesmo tempo que uma minoria deixava o francês pelo inglês e desprezava, obviamente, o dialecto tunisino, a estrutura educativa herdada do regime anterior, relativamente solvente, degradava-se de tal modo que o último relatório PISA relegava Tunes a um dos últimos dez lugares da lista da OCDE. Ao mesmo tempo que vinte famílias desfrutavam do ócio nos Alpes ou em Paris, o desemprego aumentava até chegar a 18%, com 36% entre os mais jovens: entre os diplomados e licenciados passava de uns 0,7% em 1984 para uns 4% em 1997, disparando até 20% em 2010. No espelho do Carrefour, no meio da publicidade atmosférica que convidava ao consumo inacessível, os jovens dos banlieu da capital e das regiões do centro e sul do país pareciam conformar-se com a possibilidade de desfrutar desse reflexo.

 

Quem beneficiava deste crescimento elogiado pelo FMI e pelas instituições europeias? Basicamente uma só família, extensa e tentacular, a qual os despachos da embaixada estadounidense divulgados pelo wikileaks descrevem como um “clã mafioso”. Trata-se da família de Leyla Trabelsi, a segunda esposa do ditador, a tal ponto dona do país que muitos se referiam à Tunísia (la Tunisie) como La Trabelsie. Ben Alí e a sua família política tinham-se apoderado, mediante privatizações opacas, de toda a actividade económica da nação, convertendo o Estado num instrumento de um capitalismo mafioso e primitivo ou, melhor, de um feudalismo parasitário do capitalismo internacional. A lista de sectores saqueados pelo clã é incrível: a banca, a indústria, a distribuição de automóveis, os meios de comunicação, comunicações móveis, os transportes, as companhias aéreas, a construção, as cadeias de supermercados, o ensino privado, a pesca, as bebidas alcoólicas e até o mercado de roupa usada. Não pode causar estranheza que, durante as revoltas destes dias, se tenham assaltado tantos comércios, empresas e bancos; falou-se de “vandalismo”, mas tratava-se também de um vandalismo certeiro ou, em qualquer caso, de um vandalismo que, inclusivamente quando era feito ao acaso, inevitavelmente acertava: golpeasse onde golpeasse, golpeava sem dúvida uma propriedade dos Trabelsi.

 

Neste quadro de repressão e apropriação, era necessário ter ouvido o ruído da maré a subir. Poucos o fizeram, nem sequer quando em Janeiro de 2008, em Redeyef, perto de Gafsa, nas minas de fosfatos, outro incidente menor – um protesto por um acto de nepotismo – pôs em pé de guerra toda a população. Durante meses prolongaram-se as greves, houve quatro mortos, duzentos detidos, julgamentos sumaríssimos com penas arrepiantes. Enquanto Redeyef permaneceu sitiada pela polícia, só jornalistas e sindicalistas tunisinos romperam o bloqueio policial e informativo. Na Europa, a Trabelsia continuava a ser bela, tranquila, segura para os negócios e para a geopolítica. Apenas um jornalista italiano, Gabriele del Grande, se atreveu a entrar clandestinamente no coração dos protestos e obter informação antes de ser detido pela polícia e expulso do país. A sua reportagem começa assim: “Sindicalistas detidos e torturados. Manifestantes assassinados pela polícia. Jornalistas encarcerados e uma potente máquina de censura para evitar que o protesto se estenda. Não é uma aula de história sobre o fascismo, mas sim a crónica dos últimos dez meses em Tunes. Uma crónica que não deixa lugar a dúvidas sobre a natureza do regime de Zayn al Abidin Ben Ali, no governo desde 1987. Uma crónica que revela o lado obscuro de um país que recebe milhões de turistas todos os anos e do qual escapam milhares de emigrantes também todos os anos”. Num livro posterior, Il mare di mezzo, del Grande descreve em detalhe a maquinaria do terror tunisino, com as prisões secretas nas quais desapareciam não só os opositores nacionais mas também os emigrantes argelinos, sequestrados no mar pelas patrulhas locais – polícias da Europa – para serem depois atirados para o abismo. Ninguém disse nada. Era muito mais importante sustentar o ditador; Ben Ali e as potências ocidentais partilhavam não só interesses económicos e políticos como também o mesmo desprezo radical pelo povo tunisino e pelo seu sofrimento.

 

Ben Ali Tunísia

Autor: Frederick Deligne, Nice-Matin, Franc

 

 

Mas no dia 17 de Dezembro um clarão iluminou rapidamente o monstro e mostrou, como explica o sociólogo Sadri Khiari, que “não há servidão voluntária mas sim a espera paciente do momento da eclosão”. O gesto de desespero de Mohamed Bouazizi, jovem informático reduzido a vendedor ambulante, pôs em marcha um povo do qual ninguém esperava nada, que os outros árabes desprezavam e que a Europa considerava dócil, cobarde e adormecido pelo futebol e pelo Carrefour. Um ciclo lunar depois, a 14 de Janeiro passado, depois de cem mortos e dezenas de metástases rebeldes em todo o território, a onda rebentou no centro de Tunes e alcançou o seu objectivo. Já não se tratava nem de pão nem de trabalho nem de youtube: “Ben Ali assassino”, “Ben Alí fora”. A última carga policial, desmentindo as promessas que tinha feito no dia anterior o ditador, provocou ainda numerosos mortos e feridos. Mas era muito bonito, muito bonito ver esses jovens, dos quais um mês antes ninguém esperava nada, voltarem para a rua e chamarem as pessoas que fugiam para as animar a regressar à batalha com as estrofes vibrantes do hino nacional: “namutu namutu wa yahi el-watan” (morreremos morreremos para que viva a pátria). No final da tarde, apoiado até ao final pela França, o ditador fugia para a Arábia Saudita, deixando para trás milícias armadas com instruções para semearem o caos.

 

O perigo não passou, a luta continua. Mas agora há um povo trava as batalhas. “O 14 de Janeiro é o nosso 14 de Julho”, repetem os tunisinos. Talvez o de todo o mundo árabe. Jamais o povo tinha derrubado um ditador; e este povo inesperado, intruso na lógica das revoluções, esta Tunes de jasmins e luz de mel, agora de dignidade e combate, é o espelho no qual se olham os vizinhos, de Marrocos ao Iémen, da Argélia ao Egipto, irmãos de frustração, infelicidade e ira. Não é preciso encontrar as causas, elas são sempre dadas, mas sim o minuto. E esse minuto é agora.

 

 

Texto de Santiago Alba Rico publicado no jornal Gara a 17 de Janeiro de 2011. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala.

publicado por Alexandre Leite às 12:00
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Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008

Os filhos de Fouché

Não é difícil encontrar na história, personagens infames que mudam de ideias, de líderes, de bandeiras políticas e discursos, sem a menor vergonha e com muita insensibilidade, tal como se fosse uma mudança de camisa, ou uma alteração no menu alimentar, etc… Estes sem-vergonha caracterizaram-se sempre pela sua habilidade em disfarçar a astúcia com “eficiência” e as suas vergonhosas reverências em disciplina e respeito. Astutas e perigosas serpentes, hábeis escorpiões! Que ostentam importantes cargos de poder no aparelho de Estado, disfarçados de revolucionários, os quais, por nosso descuido, cravaram os seus espinhos nas costas do povo.

Quem souber de história, certamente conhecerá Joseph Fouché. Para quem não sabe, bastaria dizer sobre esse personagem, bem qualificado como “o rei dos trânsfugos”, o seguinte:

Ninguém foi mais astuto do que Fouché. A história irá sempre recordá-lo como o troca-tintas, o trânsfugo, o pior de entre todos os traidores. Fouché, que sendo um fiel religioso e devoto da Igreja e do Rei de França, se converteria em participante da revolução francesa (1789) conspirando contra a igreja e votando a favor da morte de Luís XVI; mais tarde visto como o mais intolerante – atira pedras – ministro dos Jacobinos, e homem de inteira confiança de Maximiliano Robespierre (líder da revolução francesa), no momento em que os seus interesses se viram ameaçados não duvidou em conspirar contra Robespierre, até levá-lo à guilhotina; depois foi ministro de Napoleão durante 10 anos e acabou por conspirar também contra o imperador, entregando o poder novamente à monarquia, desta vez nas mãos de Luís XVII (irmão de Luís XVI). Mas talvez o ponto central da sua história – e é o que mais nos interessa ressaltar – foi que terminou a sua vida coberto de muitas riquezas e reconhecido pelo rei e pela igreja, como seu “humilde” servidor. Só hoje os seus legítimos herdeiros poderiam conseguir semelhante legado!

 

Fouché
Joseph Fouché (1763 -1820)

A Revolução Bolivariana encontra-se flanqueada por todos os lados. Ataca-nos o imperialismo, utilizando os seus lacaios agrupados na erradamente chamada “oposição venezuelana”, e também os seus lacaios na Colômbia e no Mundo, e outros que até agora não conseguimos identificar. Os seus golpes, principalmente depois do 11 de Abril, têm sido mediáticos. Mas talvez o maior golpe que a revolução recebe – e não de forma mediática mas de forma objectiva – vem daqueles que se intitulam seus legítimos filhos.

Estes bastardos são os mesmos infiltrados e oportunistas de sempre, que abrigados nas nossas limpas bandeiras da Unidade atentam contra a revolução; são eles os indignos buscadores de fortuna, astutamente disfarçados de revolucionários junto dos seus testa-de-ferro; traidores que não duvidarão a passar para o bando da reacção no momento mais oportuno. São eles os filhos de Fouché.

Venezuela na encruzilhada?

Na Venezuela vivemos uma revolução muito particular (sui generis) sem exemplos parecidos na história. A Revolução Bolivariana não contou até agora com uma direcção revolucionária como a tiveram os jacobinos, os bolcheviques, os revolucionários cubanos, vietnamitas, chineses, etc. Até agora a Revolução Bolivariana não possui um partido ou partidos verdadeiramente revolucionários, com uma identificação ideológica proletária definida – muito menos consolidada. Sob as velhas estruturas do Estado e o arcaico ordenamento legal burguês a revolução pretende construir o Socialismo e desenvolver-se na mal entendida “Democracia” (interpretada pelos lacaios como libertinagem). Mas talvez a maior particularidade da nossa revolução, e que faltou noutras, é a enorme quantidade de recursos naturais e económicos que outorgam ao Estado venezuelano – à Revolução Bolivariana – um poder financeiro e geopolítico sem comparação. O paradoxal é que longe de isto ser um ponto de apoio para impulsionar a revolução, resultou, sem dúvida, num problema para ela.

O Estado burguês herdado pela revolução, essa velha estrutura cheia de privilégios e de travões burocráticos, começou a passar-nos a factura, corrompendo – por falta de uma firme consciência revolucionária – muitos dos nossos quadros médios e altos que manejam o seu aparelho. Não espanta encontrarmos personagens, as quais, ainda que conservem um discurso aceso e se vistam de vermelho, hoje têm práticas que correspondem às de um pequeno burguês em busca de mais glórias pessoais: promoções, mais privilégios e negócios.

A explicação de tudo isto pode resumir-se, em parte, às particularidades da nossa revolução que já descrevemos anteriormente e ao ecletismo ideológico do movimento revolucionário, que não permitiu a formação de uma consciência clara entre os revolucionários (com valores, moral e ética verdadeiramente revolucionária). Para muitos, por exemplo, não representa um problema possuir um luxuoso veículo todo-o-terreno, desfrutar de férias em Miami e Florida, ou pior, conciliar “alianças” com os lacaios dessa chamada “oposição”.

Mas outro factor, também não menos fundamental, foi a incompreensão das nossas próprias bandeiras políticas. Falamos da Unidade e em nome dela sacrificamos (ou adiamos) a luta contra a corrupção e a burocracia. Esquecemos que a revolução é um acto de consciência; e que as ideias só podem tocar o povo sempre e quando a moral e a ética revolucionárias de quem as proclama estiverem presentes.

A corrupção e a burocracia são também nossos inimigos políticos e, como tais, temos de os enfrentar. O 2D foi também a expressão da desmoralização do povo.

O Comandante Chávez continua a agir sozinho. É o Deputado, o Alcaide, o Governador, o encarregado de todas a Missões, o Ministro, tudo. A burocracia do Estado e a ineficiência de muitos quadros políticos estruturaram uma completa ameaça de desgastes, convertendo o Comandante numa espécie de Titã solitário preocupado em resolver todos os problemas que correspondem às instituições do Estado; num Titã que enfrenta as burguesias mediáticas; enfrentando e denunciando os açambarcadores e os especuladores. Seria importante perguntar: Onde estão os Ministros e o resto dos quadros políticos médios designados nos pontos-chave do Estado? Porque não percorrem as ruas e não abraçam o povo? Porque se deixa o Comandante Chávez sozinho na sua titânica tarefa? Porque é que as iniciativas têm sempre de partir do Comandante?

Sem dúvida, a Revolução Bolivariana encontra-se na encruzilhada. O inimigo que nos ataca de vários flancos não cessará o seu empenho até destruir a revolução.


Os Absurdos

No dia 31 de Janeiro do presente ano, aparece na imprensa a seguinte informação, que copiamos de seguida, no jornal diário Ultimas Noticias: “Félix Osorio, ministro da Alimentação, anunciou ontem que na reunião dos sectores privados e da Câmara Láctea se acordou uma nova modalidade para a entrega de divisas para o sector dos alimentos, especificamente para o leite em pó e o leite UHT”.

Pergunto aos ministros: Por acaso é um absurdo pensar que o Estado pode por ele próprio procurar os mantimentos importados (leite, carne, etc.) sem recorrer ao privado?

Félix Osorio, Ministro da Alimentação da Venezuela
Félix Osorio, Ministro da Alimentação da Venezuela

Tentaremos explicar esta situação sendo comedidos nos qualificativos. Diremos simplesmente que o CADIVI [Comissão de Administração de Divisas] e o Ministro da Alimentação se “equivocam”.


O verdadeiro absurdo reside nesta decepcionante notícia.  

Depois da nova sabotagem perpetrada pela burguesia, com claros objectivos políticos dirigidos a incidir – como aconteceu – no referendo de 2D e que se estende como parte de uma mesma estratégia bem desenhada para desestabilizar o governo revolucionário, neste novo ano também eleitoral (referimo-nos ao açambarcamento e à especulação dos produtos de consumo – de primeira necessidade), não podemos qualificar menos do que absurdo, que se pretenda, desde o Estado, continuar a apoiar e promover os verdugos da revolução para que continuem a controlar esta nevrálgica actividade.

“Quem não conhece a história está condenado a repeti-la”. E acontece que a mesma história da Greve Patronal de 2002 se repete agora, claro está, sob outras condições. É a mesma lição que não conseguimos superar.

A explicação para isto podemos encontrá-la nos seguintes pontos. Vejamos.

1- Carência de ideias.

2 - Resistências à mudança.

3 - Falsa concepção do Estado.,

Os dois primeiros pontos, apesar estarem entendidos, preferimos omitir a sua explicação para este artigo. Ambas (carência de ideias e resistência à mudança) se encontram entrelaçadas e respondem à influência da pequena burguesia dentro do processo revolucionário. Isso já o explicámos noutros artigos. Mas o ponto 3, consideramos fundamental a sua explicação para entender a lógica do procedimento dos nossos ministros.

A burguesia e a pequena burguesia deram-se ao trabalho, desde sempre, de desprestigiar o Estado, culpando-o da burocracia e corrupção como problemas intrínsecos e naturais que resultam da sua própria existência, como se o Estado fosse um robô com inteligência artificial, na qual o humano não participa na sua condução. O objectivo é óbvio: destruir o Estado, procurar a anarquia e evitar a revolução.

Para o êxito dessa acção, a classe política da burguesia, alavancada nesta “nossa triste oposição desnacionalizada e corrupta”, inclusive, até a pequena burguesia que acompanha a Revolução Bolivariana, tomaram como bases as experiências do passado, para tentar fazer-nos crer que “a natureza do Estado é a mesma em toda a história; a mesma para o capitalismo e para o socialismo. Que os Estados nacionais são um Ente estranho e separado da sociedade e do governo que dirige o país”. Nenhuma ideia poderia ser mais falsa que esta! Vejamos porquê.

A burguesia e os seus aliados internos desenham o Estado como uma Entidade omnipotente com poder alienante próprio; e que actua de forma autónoma por cima das classes sociais e as submete aos seus desígnios; que a sua existência se justifica pela sua natureza burocrática, corrupta e hermética. Com este último, os nossos lacaios tentam, qual Pilatos frente a Jesus, lavar as suas mãos culpando o Estado dos seus infames desvios e os pequenos erros cometidos quando eram governo.

Esquecem que o Estado é o instrumento político, jurídico, administrativo, orgânico e repressivo da classe política que ostenta o poder. Por outras palavras, para o nosso caso, o Estado é o instrumento da revolução. Gramsci dizia que: “o Estado é um conjunto de instituições no qual a sociedade se representa e se desenvolve”.

Eis aqui o âmago de todo este problema. Por um lado existe uma errada concepção do Estado por parte dos revolucionários, e por outro, os nossos ministérios – que são parte da estrutura do Estado – hoje, lamentavelmente, ainda respondem à velha estrutura e aos interesses das classes políticas que sempre o dominaram, a burguesia. Noutras palavras, não respondem às exigências da revolução.

O nosso Ministro da Alimentação não entende o grave dano que as suas acções causam à revolução, ao outorgar mais poder ao inimigo do povo. Abutres não guardam carne! Não existem burgueses bons nem empresários socialistas! Eis aqui as consequências das falsas teorias contra-revolucionárias de Haiman El Troudi.

Agora repetimos a pergunta ao povo. Por acaso é um absurdo pensar que o Estado pode por ele próprio procurar os mantimentos importados (leite, carne, etc.) sem recorrer ao privado?

Texto de Basem Tajeldine, publicado na Aporrea a 7 de Fevereiro de 2008. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala e Tirem as Mãos da Venezuela.
 
publicado por Alexandre Leite às 13:00
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