
. Terramoto no Haiti: Fabri...
. O gasoduto da Chevron man...
À medida que foram chegando os macabros relatos do terramoto no Haiti, as notícias nos meios de comunicação controlados pelos EUA todas traziam uma frase descritiva: "O Haiti é o país mais pobre do hemisfério Ocidental..."
Chiça, pergunto-me como é que isso terá acontecido?
Seria de imaginar que o Haiti fosse podre de rico. Afinal, fez a fortuna de muita gente.
Como é que o Haiti ficou tão pobre? Apesar de um século de colonialismo americano, ocupação, e apoio de ditadores corruptos? Mesmo tendo a CIA encenado golpes de estado contra todos os presidentes democraticamente eleitos que já tiveram?
É uma questão importante. Um terramoto não é só um terramoto. O mesmo simso de 7.0 em São Francisco (EUA) não mataria tantas pessoas como em Port-au-Prince.
"Olhando para as imagens, parece essencialmente que os edifícios são feitos de tijolos ou de blocos de cimento, e o que é preciso em zonas de terramotos são vigas de metal que unam os blocos para que eles se mantenham juntos quando há o sismo," nota Sandy Steacey, directora do Instituto de Investigação de Ciências Ambientais da Universidade do Ulster na Irlanda do Norte. "Num país próspero com boa construção anti-sísmica, haveria alguns danos, mas não muitos."
Quando um monte de blocos de cimento cai em cima de uma pessoa, as hipóteses de sobrevivência não são muitas. Mesmo que miraculosamente sobreviva, um país pobre como o Haiti não tem o equipamento, as infra-estruturas de comunicação ou o pessoal de serviço de emergência para retirar as pessoas dos escombros a tempo. E se os vizinhos a ajudarem a sair, não há ambulâncias para a levar para o hospital, ou médicos para a tratar quando lá chegar.
(Fotografia:REUTERS/Carlos Barria)
Os terramotos são acontecimentos aleatórios. A quantidade de pessoas que morre é pré-determinada. No Haiti, esta semana, não deitem as culpas para cima das placas tectónicas. Noventa e nove por cento das mortes podem ser atribuídas à pobreza.
Cartoon de Simanca Osmani, Cagle Cartoons, Brasil
Por isso a questão é relevante. Como é que o Haiti se tornou pobre?
A história começa em 1910, quando o consórcio Departamento de Estado dos EUA - Banco Nacional da Cidade de Nova Iorque (agora chamado Citibank) comprou o Banco Nacional do Haiti – o único banco comercial do Haiti e o seu tesouro nacional - transferindo de facto as dívidas do Haiti para os americanos. Cinco anos depois, o Presidente Woodrow Wilson ordenou o envio de tropas para ocuparem o país de modo a deitarem um olho no “nosso” investimento.
De 1915 a 1934, os Marines dos EUA impuseram uma dura ocupação militar, assassinaram patriotas haitianos e desviaram 40 por cento do Produto Interno Bruto do Haiti para os banqueiros dos EUA. Os haitianos foram banidos de cargos governamentais. Haitianos ambiciosos foram colocados no exército fantoche, montando o cenário para uma ditadura de meio século apoiada pelos EUA.
Os EUA mantiveram o controlo das finanças do Haiti até 1947.
Sendo assim, de que se queixam os haitianos? Sim, nós roubámos 40 por cento da riqueza nacional do Haiti durante 32 anos. Mas deixámos 60 por cento para eles.
Choramingas.
Apesar de quase ter sido abafada pelos banqueiros e generais americanos, a desordem civil permaneceu até 1957, quando a CIA instalou o Presidente-Vitalício François "Papa Doc" Duvalier. Os brutais esquadrões paramilitares de Duvalier, os Tonton Macoutes, assassinaram pelo menos 30,000 haitianos e forçaram as pessoas com habilitações a fugirem para o exílio. Mas vejam isto como um copo meio cheio: menos pessoas na população significa menos competição pelos mesmos trabalhos!
Aquando da morte de Papa Doc em 1971, o testemunho foi passado ao seu filho de 19 anos ainda mais devasso, Jean-Claude "Baby Doc" Duvalier. O esfriamento de relações dos EUA com Papa Doc nos seus últimos anos, rapidamente aqueceu com o seu herdeiro playboy cleptomaníaco. Enquanto os EUA despejaram armas e treinaram o seu exército como um suposto baluarte anti-comunista contra a Cuba de Castro, estima-se que Baby Doc tenha roubado entre 300 a 800 milhões de dólares do tesouro nacional, de acordo com a Transparency International. O dinheiro foi posto em contas pessoais na Suíça e noutros locais.
Sob a influência dos EUA, Baby Doc praticamente eliminou as taxas de importação de produtos dos EUA. Em pouco tempo o Haiti viu-se afogado em importações agrícolas predatórias despejadas por empresas americanas. Os produtores locais de arroz foram à falência. Uma nação que era auto-suficiente em termos agrícolas colapsou. As plantações foram abandonadas. Centenas de milhares de agricultores migraram para as atulhadas favelas de Port-au-Prince.
A era de Duvalier, 29 anos no total, chegou ao fim em 1986 quando o Presidente Ronald Reagan deu ordem às forças dos EUA para levarem rapidamente Baby Doc para o exílio na França, salvando-o de uma revolta popular.
Mais uma vez, os haitianos deveriam estar agradecidos aos americanos. O Duvalierismo foi um "amor à bruta." Forçar os haitianos a fazerem a sua vida sem o seu tesouro nacional foi uma forma simpática de os encorajar a trabalhar mais, de os levantar pelas orelhas...
E tem sido um amor à bruta desde sempre. Os EUA destituíram duas vezes o populista e popular presidente Jean-Bertrand Aristide, democraticamente eleito. Na segunda vez, em 2004, ainda lhe oferecemos um voo gratuito para a República Centro Africana! (Ele diz que a CIA o raptou, mas isso não interessa.) É que ele precisava de descansar. E foi simpático da nossa parte apoiar um novo governo formado por antigos Tonton Macoutes.
No entanto, apesar de tudo o que fizemos pelo Haiti, eles ainda são um estado falhado do quarto mundo que fica perto de uma falha geológica.
E mesmo assim, nós não desistimos. Empresas americanas como a Disney pagam generosos salários de 28 cêntimos por hora.
O que mais querem estes ingratos?
Texto de Ted Rall publicado pela Common Dreams a 14 de Janeiro de 2010. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala.
A imagem era surpreendente: dezenas de milhares de monges budistas, com as suas vestes cor de açafrão, manifestando-se pelas ruas de Rangún [também conhecida por Yangón], protestando contra a ditadura militar da Birmânia. Os monges manifestaram-se em frente à casa da vencedora do Prémio Nobel, Aung San Suu Kyi, que foi possível ver a chorar e a rezar em silêncio, enquanto eles passavam. Não era vista há anos. Líder birmanesa democraticamente eleita, Suu Kyi tem estado em prisão domiciliária desde 2003. É considerada a Nelson Mandela da Birmânia, a nação do sudeste asiático rebaptizada como Myanmar pelo regime militar.
Depois de quase duas semanas de protesto, os monges desapareceram. Os mosteiros foram esvaziados. Um relato afirma que estão presos milhares de monges no norte do país.
Ninguém acredita que seja o fim dos protestos, a que já se deu o nome de “A Revolução Açafrão”. Também não acreditam na contagem oficial de 10 mortes. O fluxo de vídeos, fotografias, e relatos orais da violência, que se difundiram através dos telemóveis e da Internet, foi amplamente silenciado pela censura imposta pelo governo. Ainda assim, o público mundial teve acesso a imagens horríveis de monges e outros activistas assassinados, e a relatos de execuções. No momento em que escrevo esta coluna, há vários relatos, ainda por confirmar, em páginas da internet de solidariedade com a Birmânia, de prisioneiros queimados vivos.
O governo Bush faz notícia com o uso da sua linguagem forte contra o regime birmanês. O Presidente Bush declarou, no seu discurso na Assembleia Geral da ONU, que as sanções vão aumentar. A Primeira Dama, Laura Bush, tem feito talvez as declarações mais duras. Explicando que tem um primo que é activista pela Birmânia, Laura Bush declarou: “Os actos deploráveis de violência que estão a ser perpetrados contra os monges budistas e os manifestantes pacíficos birmaneses, são uma vergonha para o regime militar.”
A Secretária de Estado, Condoleezza Rice, disse na reunião da Associação dos Países do Sudeste Asiático: “Os Estados Unidos estão decididos a dirigir o foco internacional para a farsa que está a acontecer.” Dirigir a atenção internacional é essencial, mas isso não deve distrair a nossa atenção sobre um dos mais poderosos apoiantes da junta militar, um apoiante que está aqui muito mais perto. Rice conhece-o bem: a Chevron.
A alimentar a junta militar que governa há décadas, estão as reservas de gás natural da Birmânia, controladas pelo regime birmanês em parceria com a gigante multinacional petrolífera norte-americana Chevron, com a companhia francesa Total e com uma companhia petrolífera tailandesa. As instalações marítimas de gás natural entregam o gás extraído à Tailândia, através do gasoduto birmanês de Yadana. Este gasoduto foi construído com trabalho escravo, forçado à escravidão pelos militares birmaneses.
O parceiro inicial do gasoduto, a Unocal, foi processado pela associação EarthRights International pelo uso de trabalho escravo. Quando o caso se resolveu fora dos tribunais, a Chevron comprou a Unocal.
Fica claro o papel da Chevron no suporte do regime brutal da Birmânia. De acordo com Marco Simons, director legal da EarthRights International, “As sanções não funcionaram porque o gás é corda de salvação do regime. Antes do gasoduto de Yadana estar a funcionar, o regime birmanês enfrentava graves falhas de divisas. Foi realmente Yadana e os projectos ligados ao gás que mantiveram o regime militar acima da linha de água, possibilitando a compra de armas e munições e o pagamento dos seus soldados.”
O governo dos EUA já aplica sanções à Birmânia desde 1997. Existe, no entanto, uma falha legal que permite que algumas companhias escapem às sanções. E exclusão da Unocal das sanções foi passada ao seu novo dono, a Chevron.
Rice fez parte do conselho directivo da Chevron durante uma década. Ela até viu um barco petroleiro da Chevron ser baptizado com o seu nome. Enquanto Rice integrava a direcção, a Chevron foi processada por envolvimento na morte de manifestantes não violentos, na região do Delta do Níger, na Nigéria. Tal como os birmaneses, os nigerianos sofrem com repressão política e com poluição onde são extraídos o petróleo e o gás, e vivem numa pobreza extrema. Na realidade, as manifestações na Birmânia foram desencadeadas por um aumento do preço dos combustíveis, imposto pelo governo.
Imagem retirada da página da Chevron
Grupos de direitos humanos um pouco por todo mundo, apelaram a um dia de acção no sábado, dia 6 de Outubro, em solidariedade com o povo da Birmânia. Tal como os valentes activistas e ‘cidadãos-jornalistas’ que enviam notícias e fotografias para fora do país, os organizadores das manifestações de 6 de Outubro, estão a usar a internet para montar aquela que poderá vir a ser a maior manifestação de sempre em apoio do povo birmanês. Entre as exigências estão apelos para que as empresas deixem de negociar com o regime brutal da Birmânia.
Publicado por Amy Goodman (apresentadora de Democracy Now!, noticiário internacional diário emitido por mais de 500 estações de rádio e televisão nos Estados Unidos e no mundo) em TruthDig a 2 de Outubro de 2007. Traduzido por Alexandre Leite para a Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade linguística.
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